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A pesquisa de Diniz identifica 23 Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico e três Alas de Tratamento Psiquiátrico no Brasil, os chamados Espaços de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (ECTP). Nesses estabelecimentos, estavam internados 3.989 indivíduos, dos quais 2.839 cumpriam medidas de segurança – 117 em medida de segurança por conversão de pena e outros 1.033 em situação de internação temporária5.

5 O número de pessoas alcançadas pelo Censo 2011 não representa o universo total de pessoas com

transtorno mental que receberam medida de segurança decretada pela Justiça. Isso porque há pessoas cumprindo essa determinação legal em penitenciárias, além das que adoeceram mentalmente enquanto cumpriam pena no sistema carcerário “comum” – as quais a pesquisa não conseguiu visualizar.

O estudo também identifica que ao menos seis estados não contam com esses Espaços de Custódia e Tratamento: Acre, Amapá, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Roraima e Tocantins. Já os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo são os únicos que possuem mais de um ECTP. (DINIZ, 2013)

Os dados coletados revelam uma grave e sistemática condição de violação dos direitos e da dignidade dessa população. Além de identificar que, mesmo após a reorientação na atenção à pessoa com transtorno mental, trazida em 2001 pela Lei 10.216, muitos estados brasileiros continuam a inaugurar manicômios judiciários. Além disso, a marca dessas instituições está no abandono e, muitas vezes, na condenação a uma pena de caráter perpétuo:

30 anos é o limite da pena a ser imposta pelo Estado aos indivíduos imputáveis, segundo decisão do Supremo Tribunal Federal. Entretanto, o censo encontrou dezoito indivíduos internados em hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico há mais de trinta anos. Jovens, eles atravessaram os muros de um dos regimes mais cruéis de apartação social. Idosos, eles agora esperam que o Estado os corporifique para além dos números aqui apresentados e reconheça-os como indivíduos singulares com necessidades existenciais ignoradas em vários domínios da vida. (DINIZ, 2013, p. 13)

Há, ainda, outro grupo que desafia essa tese: são os 606 indivíduos internados a mais tempo do que a pena máxima em abstrato para a infração cometida. Eles são 21% da população em medida de segurança no País. Segundo Diniz (2013), não há como prever quantas dessas pessoas, atualmente em pior situação do que a que estariam caso fossem apenadas, se converterão em indivíduos abandonados e velhos em um hospital psiquiátrico de custódia.

Quanto ao perfil dessa população, o censo revelou marcadores de grande vulnerabilidade social e o perfil da população internada em medida de segurança: ela é majoritariamente masculina, negra, de baixa escolaridade e com inserção periférica no mundo do trabalho. Em geral, são pessoas que cometeram alguma infração contra alguém da rede familiar ou doméstica.

Mais da metade são negros, pobres e com baixa escolaridade, homens e mulheres com epilepsia, esquizofrenia, retardo mental, transtornos afetivos, de personalidade, da preferência sexual ou devido ao uso de álcool e outras drogas, segundo a classificação psiquiátrica que fundamenta os atos infracionais. (UnB, 2012)

Para quase metade das pessoas vivendo em ECTP, a internação não se fundamenta por critérios legais e psiquiátricos

Um em cada quatro indivíduos não deveria estar internado; 47% estão encarcerados sem fundamentação legal e psiquiátrica; 21% cumprem pena além da estipulada em sentença; sem contar o contingente internado há mais de 30 anos, contrariando a pena máxima admitida pelo regime jurídico brasileiro – os pesquisadores encontraram 18 indivíduos nessa situação. (DINIZ, 2013, p. 1)

A população que não deveria estar internada soma pelo menos 741 indivíduos dos 3.989 identificados. São homens e mulheres que dispõem de laudo médico atestando que seu comportamento não representa mais perigo ou de sentença judicial determinando a saída da internação. Sem contar aqueles internados sem que haja processo judicial.

Não há avaliação da qualidade dos laudos médicos-periciais ou dos argumentos apresentados nas sentenças judiciais. E, se considerados os indivíduos internados com laudos psiquiátricos ou exames de cessação de periculosidade em atraso, são 1.194 pessoas que não se sabe se deveriam estar internadas.

Os dados são reveladores do que classifico como “estrutura inercial” do modelo psiquiátrico-penal no Brasil: 41% dos exames de cessação de periculosidade estão em atraso, o tempo médio de permanência à espera de um laudo psiquiátrico é de dez meses (o artigo 150, § 1o do Código de Processo Penal determina 45 dias) e o de espera para o exame de cessação de periculosidade é de 32 meses, 7% dos indivíduos possuem sentença de desinternação e se mantêm em regime de internação [...]. Estamos diante de um grupo de indivíduos cuja precariedade da vida é acentuada pela loucura e pela pobreza, mas também diante de vidas precarizadas pela desatenção das políticas públicas às necessidades individuais e aos direitos fundamentais. (DINIZ, 2013, p. 1)

Outra conclusão está associada a graves irregularidades no campo legal, já que a medida de segurança vem sendo aplicada por tempo indeterminado. Dos 3.989 internados identificados, 2.838 já haviam recebido sentença judicial acompanhada de laudo psiquiátrico atestando o transtorno mental, mas 1.033 aguardavam sentença, o correspondente a 26% da população mantida em hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico.

No texto, Diniz destaca a inexistência de evidências científicas na literatura internacional que sustentem a periculosidade de um indivíduo como uma condição vinculada à classificação psiquiátrica para o sofrimento mental. Nesse sentido, defende que o resultado mais importante da pesquisa foi dissociar periculosidade da doença mental: “O diagnóstico psiquiátrico não é determinante para a infração penal cometida pelo louco. O que existe são pessoas

em sofrimento mental que, em algum momento da vida, cometeram infrações penais", expõe. (UnB, 2012)

O levantamento constitui um valioso instrumento para contribuir na visibilidade de um enorme contingente de pessoas esquecidas e abandonadas pelo poder público e a sociedade. Considerados inimputáveis no momento em que cometeram um delito, permanecem condenados a um regime totalmente contrário ao que determina nossa legislação.

Esse grave cenário vivenciado pelas unidades de Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico e pelas Alas de Tratamento Psiquiátrico encontra como contraponto poucas – porém concretas – iniciativas regionais que possibilitam a reorientação da atenção à pessoa com transtorno mental em conflito com a lei. Duas iniciativas nesse sentido estão sendo desenvolvidas, conforme será apresentado adiante: o Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário (PAIPJ), em Minas Gerais, e o Programa de Atenção ao Louco Infrator (PAILI), em Goiás.

Antes, contudo, é importante conhecermos as diretrizes e políticas que pautam a atenção à pessoa com transtorno mental em conflito com a lei no Brasil e as principais normativas internacionais na área.

2.4.3 Políticas e diretrizes de atenção à pessoa com transtorno mental em

Benzer Belgeler