1.2. Ghrelin
1.2.4. Ghrelin‟in Biyokimyasal ve Fizyolojik Etkileri
Data e horário da entrevista: 13 de setembro de 2012, às 14:20 horas Local da entrevista: escritório do entrevistado, em Fortaleza-CE Entrevistador: André Javier Ferreira Payar
Uma das investigações do DOPS/CE sobre o entrevistado constante do acervo do Arquivo Público do Estado do Ceará
Antônio de Pádua Barroso nasceu em 8 de abril de 1929 na Fa- zenda Curral Grande, localizada na cidade de São Gonçalo do Amarante, no estado do Ceará. Cursou o ensino básico no tradicional Colégio Liceu, fundado em meados do século XIX. Lá iniciou a militância política, fi- liando-se aos ideais comunistas. Aos 25 anos ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará em 1954. Logo no segundo ano do curso começou a estagiar no escritório do Doutor Evandro Carneiro Martins, que advogava nas principais áreas do direito. Durante os primei- ros dias do Golpe Militar, Pádua Barroso se inicia na advocacia de perse- guidos políticos aos 35 anos de idade. Um de seus primeiros casos foi a defesa do ferroviário João Farias de Souza, e de dois colegas advogados: Ailton Bonavides e Blanchard Girão. O ferroviário foi o primeiro perse- guido político a ser julgado pela Justiça Militar do Ceará, tendo sido de- nunciado por ter trazido um boné de Cuba para Fortaleza. Defendeu três acusados de participarem do caso “São Benedito”, no qual um comer- ciante foi morto por militantes da ALN cearense. Foi conselheiro da OAB do Ceará, cujo mandato exerceu por pouco tempo, deixando-o em 1977. Acredita que tenha tido mais de 100 clientes perseguidos políticos. Atual- mente é advogado no Ceará1.
Doutor Pádua, nós costumamos, no início das entrevistas, perguntar aos advogados algo a respeito da formação intelectual, formação política, formação jurídica, inclusive.
Pois não, eu estudei aqui mesmo no Ceará, no Liceu do Ceará. Fiz a faculdade de Direito aqui. Formei-me na Universidade Federal do Ceará em 1958, e, logo no segundo ano da faculdade passei a frequentar um escritório de advocacia que era do Doutor Evandro Carneiro Martins. Formei-me e continuei a trabalhar com ele. Trabalhamos juntos por 18 anos. A minha advocacia de princípio era geral. Fazia advocacia geral, porque pretendia ser advogado criminal, e logo entendi e fui orientado pelo Professor Eribaldo Dias da Costa. Ele disse que para ser advogado criminal, primeiro deve-se dar um passeio longo, fazer advocacia geral, em todos os ramos do Direito, porque o Direito Criminal é um ramo enci- clopédico, comunica-se em certas circunstâncias com tudo que se lhe apresenta.
1 Para mais informações a respeito da trajetória do epigrafado, v. DEMITRI, Túlio;
MADEIRA, Raimundo. Radicalmente humano. Jornal O Povo. Fortaleza, Ceará, p. 12-3, 3 abr 2006.
E fui por aí: fiz advocacia geral por 13 anos, e aí foi a fase em que penetrei na advocacia penal militar, logo nos primeiros dias do Gol- pe, que foi em abril de 1964, porque colegas de escritório – porque nós tínhamos outros colegas, como Aníbal Bonavides, Blanchard Girão – foram presos e comecei como advogado deles; e de um ferroviário velho, já aposentado, João Farias de Souza, conhecido como “caboclinho”. Foi o primeiro a ser julgado no Ceará, esse ferroviário. Foi condenado a dez anos de reclusão. Apelei e ele foi absolvido no Superior Tribunal Militar.
Aí comecei tendo, e até o fim, sustentando os meus recursos no Tribunal de Justiça, o Professor Heleno Cláudio Fragoso, que já era fa- moso, e ajudou-me muito nisso. Cobrava muito pouco e eu, por minha vez, não cobrava era nada. E ele fez a sustentação de muitos recursos, e fizemos uma boa amizade. Ele até me convidou para trabalhar com ele, mas eu preferi ficar aqui na aldeia.
Doutor Pádua, o senhor ingressa na faculdade em 1954, e se forma em 1958. Durante a sua vida universitária, o senhor participou da política acadêmica, da política estudantil?
Participei, não na faculdade, participei logo no Liceu. O Liceu era um colégio modelo aqui no Ceará, ele correspondia ao Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Foi criado no padrão do Colégio Pedro II. Era tido como o melhor colégio do Ceará, e por onde passaram muitos dos ho- mens mais brilhantes do Ceará, que foram estudantes do Liceu, do velho Liceu. Ele tem mais de 100 anos – não lembro quantos anos2. Lá nós
fazíamos política.
Nesse tempo, a política era diferente da de hoje do meio estu- dantil, porque era o PSD, era a UDN e o Partido Comunista. Quem não era comunista, e nem era da UDN e nem do PSD, era comunista, e era o meu caso. Então nós fazíamos greves, fazíamos agitação na rua, fazíamos protestos na Assembleia quando queriam aumentar, majorar os subsídios dos deputados, e por aí. Quebrava-se bonde como protesto... Tinha essa política.
E na faculdade não mudou muito. Na faculdade havia os comu- nistas, os chamados “católicões”. Alguns “católicões” ficavam do lado dos comunistas... Era interessante. Mas era uma turma muito boa, uma turma excelente, e pode se dizer que era muito unida. Havia essas diver- gências, mas não se descia para o bofete não.
O senhor é da cidade de Anacetaba?
Não, não é Anacetaba, foi esse nome, e durou pouco tempo. Era São Gonçalo. E não nasci propriamente na cidade, eu nasci na Fazenda Curral Grande, que sempre foi da família minha, a família Barroso, que veio de trás dos montes... E era Pedro Barroso Valente, que veio para Recife, e foi nomeado de Recife para cá escrivão da câmara de Aquiraz. Aquiraz3 era a capital do Ceará.
Então ele tinha uma fazenda lá, e chamava-se “Curral Grande”, porque era a fazenda matriz dele. O Ceará foi colonizado, como um so- ciólogo conterrâneo aqui disse, por pernambucanos “tangendo boi”. E então, os pernambucanos não chamavam “fazenda”, chamavam “curral”. E mandavam para cá vaqueiros brancos, pois os negros ficavam no eito da cana-de-açúcar.
Tanto que o Ceará tem poucos negros porque vieram os brancos de Pernambuco tangendo boi para cá. E eu nasci nessa fazenda Curral Grande, que ainda hoje uma parte – uma fazenda muito grande – é de um irmão meu. Esse Pedro Barroso Valente chegou aqui em 1714. Essa fa- zenda, uma parte, ainda é de um irmão meu.
O senhor então nasceu em 8 de abril de 1929?
Na Fazenda Curral Grande, que hoje fica no município de São Gonçalo do Amarante. Era São Gonçalo, mudaram para Anacetaba, por pouco tempo, e voltou a ser São Gonçalo, mas do Amarante.
Quando o senhor nasceu era Anacetaba? Não, era São Gonçalo.
Mas o senhor se formou na faculdade com quase 30 anos de idade...
Foi com 29 anos.
29 anos. E o Golpe estoura em 64, portanto, seis anos depois de o senhor se formar. O senhor começa a advogar então na Justiça Militar com 35 anos de idade?
Na Justiça Militar.
Enfim, imaginemos assim que destoa um pouco a sua histó- ria, que começou a advogar com uma idade mais avançada na Justiça Militar do que alguns colegas que acabam de se formar ou que se formam durante o Golpe. O que levou o senhor a atuar na Justiça Militar como advogado de presos políticos?
O que me levou a isso primeiro foi a minha formação. Eu sem- pre me esforcei, quando jovem, a buscar uma formação jurídica, ética e humana, porque quem faz uma universidade tem um compromisso com a humanidade. E então eu, com essa formação, não podia de nenhum modo ficar inerte. Um homem com 35 anos, formado em Direito, ficar calado com a ditadura, eu acho... Eu achava que... Isso não me conformava. En- tão daí eu ter enveredado por esse caminho. E, na prática, porque esses dois colegas foram presos: Aníbal Bonavides e Blanchard Girão...
Eram colegas de faculdade?
Não. O Blanchard Girão era colega de faculdade. E o Aníbal não, era mais velho do que eu. O Aníbal Bonavides. E, nós trabalháva- mos juntos no escritório do Evandro Martins. Então foi isso que me levou a... Eu fiquei perplexo quando no dia 1º de abril eu acordei sob um Golpe Militar. Eu não... Com companheiros amigos presos, eu tive que enfrentar.
Então, a defesa desses dois amigos foram suas primeiras atuações na Justiça Militar?
Esses dois que me atraíram, mas eles foram julgados muito de- pois, esses dois. Mas um estranho, João Farias de Souza, um ferroviário velho, esse foi o primeiro a ser julgado no Ceará. Foi o primeiro que de- fendi na Justiça Militar fazendo julgamento. Até o final.
Até o final do regime?
Foi o primeiro julgamento que houve aqui, e foi esse que eu fiz, de João Farias de Souza. Fui até o fim. O primeiro e o último julgamento quem fez fui eu. O último julgamento foi de um médico, que depois se formou em engenharia e é auditor fiscal da Receita Federal. E outra era estudante, e há muitos anos é juíza federal. E outro era bancário. Foi o último.
Nesse tempo todo como atuante da Justiça Militar, por cima, o senhor se lembra em quantos casos o senhor atuou, e de quantos clientes o senhor teve?
Não me lembro. Em matéria de fichário, de estatística, eu sou avesso a isso aí. Eu sou desorganizado. Mas a minha desorganização é a minha organização. Estão aí os meus livros como são. Você está vendo. Então, eu não tenho. Mas foram mais de 100, porque só um processo tinha 36 ou 38 que foram a julgamento.
Então eram mais de 100 clientes, e não mais de 100 processos. Mais de 100 clientes, que só um era PCBR parece, o nome. Então, eram 36, 38 acusados.
Como chegava o cliente para o senhor? Era a família que vinha procura-lo? Alguns amigos ou o próprio cliente quando não estava preso? Qual era o hábito? Qual era o costume?
Havia pessoas que temiam ser presas, e procuravam preventi- vamente, pedindo orientação de como fazer para... Mandei gente ir para o Rio de Janeiro, mandei gente ir para outro estado, para o Maranhão. Eram poucas pessoas que apareciam assim, que temiam ser presas, que sentiam que estavam perto da descoberta... Não tem a história do “está quente, está ficando perto”? Quando ele sentia a quentura, se assombrava e pro- curava para orientação.
Mas, quando eles eram presos, o parente era quem procurava. Os parentes procuravam. E, no caso desses que eles mataram, o Pedro Jerônimo de Sousa. Pedro Jerônimo, a família, a mulher, os filhos, não procuraram... Temendo, porque foram pressionados. Houve a morte, eles pressionaram para fazer o enterro rapidamente, o quanto antes. Não se teve notícia da morte. Depois de vários dias é que a cidade conheceu do fato.
Eu fui procurado com uns dez dias mais ou menos, para esse caso – estou dando esse caso como exemplo. E a família com medo de agir e tomar uma atitude. Eu fui procurado por um sobrinho, e o sobrinho, não confiando na segurança dele, não se atreveu a me dar uma procura- ção. Mas disse que tinha uma irmã em Petrópolis que dava a procuração. Eu pedi a procuração, e a procuração chegou aqui com uns quinze dias. Aí pedi logo a exumação, e foi feita a exumação. Indiquei perito, assis-
tente, mas não se pode constatar nada porque o cadáver já estava em es- tado gasoso. Esse aí é um exemplo.
Agora outros procuravam. Se estava preso, aí procurava, quan- do era procurado e estava preso... Desapareciam. E aí o que era que nós fazíamos? Peticionávamos ao comando da 10ª Região Militar, ao Auditor Militar, ao Secretário de Segurança Pública e ao Superintendente da Polí- cia Federal. Fazíamos petições narrando o desaparecimento, e indagando se estava preso e se perguntávamos por notícia. Fazíamos esses requeri- mentos. As respostas eram “nenhuma”.
Então nessas petições o senhor basicamente comunicava o desaparecimento.
É. Comunicávamos. E então era assim. Quando apareciam aí já tinham sido torturados, massacrados, assinado confissões. Interessante que fizemos esse tempo todo essa advocacia, – tanto eu quanto a Wanda Rita Sidou – e nós nunca tivemos a oportunidade de assistir à declaração de um acusado na polícia ou no Exército, ou qualquer órgão da repressão. Quando aparecia era o IPM já pronto, o inquérito da polícia militar pron- to, e as testemunhas eram sempre policiais, nunca ninguém foi permitido. Nunca assistimos. Claro que na ditadura eles não iam permitir, porque eles compunham o inquérito como queriam e encaminhavam para a Au- ditoria Militar e era oferecida a denúncia.
A denúncia era embasada nessa...
Embasada no processo, no inquérito policial militar ou no in- quérito da polícia federal.
Basicamente a primeira providência que o senhor tomava quando a família, ou o interessado propriamente ia procurar o se- nhor, era fazer essa pessoa assinar uma procuração?
Dava uma procuração para ter legitimidade para agir.
Quando, no caso de uma família que procurava o senhor e dava a notícia de que o parente sumiu, a primeira providência do senhor era, como o senhor disse, comunicar a essas autoridades. E quando o senhor sabia que ele estava, por exemplo, na delegacia clandestinamente?
Aí eu ia lá e insistia com o delegado, e dizia: “eu sei que ele está aqui, eu quero ver...”. “Não, não está!” Negavam. Era assim. Nega- vam. Então, mostravam quando queriam. Negavam.
Alguns advogados, durante as nossas entrevistas, relataram algumas situações comuns. Eles relataram algumas situações em que por vezes uma pessoa que os procurava, na verdade era um agente disfarçado. Então, alguns relataram, claro, alguns cuidados que eles tomavam. O senhor chegou a ser perseguido, chegou a ser preso? O senhor tomava esses cuidados?
Eu nunca observei, nem essa colega, Doutora Wanda Rita, que alguém nos procurasse se dizendo interessado em algum preso ou desapa- recido, sendo um agente policial. Nunca aconteceu. Conosco nunca aconteceu isso. Agora, você pergunta se éramos perseguidos. Nós éramos acompanhados. Nossos passos eram seguidos por eles, e então... E nós notávamos. Na Doutora Wanda eles faziam mais acintosamente. E a mim, eles procuravam fazer de uma maneira mais sutil um pouco, mas eu nota- va, eu sentia que era acompanhado. Sempre. Mas depois eles desistiram. Desistiram porque viram que eu não tinha nenhuma ligação política.
Como o senhor percebeu? O que eles faziam? Como eles faziam isso, assim?
É, como eles seguiam o senhor? Se por grampo telefônico... Não, grampo de telefone naquele tempo no Ceará era difícil, e nós não entendíamos. Como não entendia nada de telefone, nunca notei nada. E era caro grampear telefone nessa época. Era difícil, mas se sentia. Eu morava em casa, não era em apartamento. Minha casa era aberta. E eu sentado – tinha uma agência de automóveis perto –, eu via gente que estava... Que identificava logo como policial, como espião. Espião, es- piões. Mas nunca nos abordaram. A mim nunca abordaram.
Em relação à Doutora Wanda o senhor disse que era dife- rente.
Eram mais ostensivos. Não sei se porque era mulher, para fazer medo, não sei o porquê, mas eram mais ostensivos com a Wanda.
Chegaram a abordá-la?
Não abordavam. Não abordavam. E eles não ameaçavam. Eu nunca fui ameaçado, nem tratado com grosserias.
Nem nas delegacias?
Nem nada, nunca. Sempre me respeitaram. Apenas uma vez. Foi na Polícia Federal. Uns adolescentes haviam pichado a rua. 16 meni- nos foram presos de uma vez, todos adolescentes. E, dentre eles, havia um que era filho de um Coronel do Exército. Esse Coronel foi falar co- migo, e não queria aparecer. Aí eu fui à Polícia Federal, porque foi ele quem me comunicou, o pai desse menino. Eram 16, parece. Aí eu disse: “fica calado que eu vou à Polícia Federal; eles estavam só pichando a rua, era pichamento”. Aí eu fui, cheguei lá – era o Laudelino Coelho, um cata- rinense, que era o superintendente aqui. Fui falar com ele para soltar os meninos aqui.
Esse Laudelino era da Polícia Federal?
Era superintendente. Aí o plantonista: “ele está reunido com o Secretário de Segurança Pública e não pode atender agora não”. Aí eu disse que ele voltasse e dissesse que era eu, e que era para tratar de prisão de umas pessoas. Aí ele foi e mandou que eu entrasse, e eu entrei. Che- guei lá, ele estava com o Secretário de Segurança, e disse: “olha, você me perturba muito. Você acaba sendo preso...”.
Aí eu tive de bancar o fanfarrão, né. Aí eu disse: “olha, eu vou te dizer uma coisa para sempre: eu não tenho medo da sua Polícia Fede- ral, desse comandante – esse Secretário de Segurança era Tenente- -Coronel do Exército –, não tenho medo do Exército, nem da Aeronáuti- ca, nem da Marinha, porque vocês só podem fazer duas coisas: ou me matar – se morrer, morri, se morre até de susto; e se me prenderem, um dia serei solto e haverá muita confusão aí na OAB – e eu era conselheiro da OAB nesse tempo.
Aí o Coronel, Secretário de Segurança Pública, bateu o olho me olhando assim, balançando a cabeça. “Ah, então, tal, vou mandar soltar os meninos”. Mas não havia ameaça, coisas assim não.
O senhor mencionou a OAB, a seccional aqui. Como ela atuava, por exemplo, em relação... A, se porventura, as prerrogativas dos advogados fossem violadas.
A OAB, à época, funcionava como podia. O que ela podia fazer fazia. Aliás, eu fui conselheiro na época. Fui conselheiro, deixei em 1977, porque eu não tive condições de continuar.
O senhor começou a ser conselheiro quando?
Eu não me lembro, mas eu deixei em 1977. Eu não passei muito tempo não, porque era muito ocupado. Sempre tinha que ter certa fre- quência, e eu até pedi para sair. E houve desinteligência pessoal entre dois colegas, e eu não quis tomar partido, porque todos dois eram meus amigos, e eu não quis tomar partido. Mas é por aí...
Agora, eu quero adiantar que eu e a Doutora Wanda Rita Sidou nunca recebemos pagamento de ninguém. De ninguém. Às vezes tinha alguns que queriam vender a casa em que moravam para pagar honorá- rios. Nós nunca aceitamos. E, algumas vezes, eram pessoas pobres de classe média, como chamam hoje: classe média baixa, e então queriam vender casa, vender um bem, e nós não aceitávamos coisa nenhuma. E às vezes, como chegava, digamos, uma senhora: “Doutor, pegue aqui esse envelopezinho para o senhor”. “O que é? Carta para mim?” Disse: “Não é para o senhor pagar a gasolina do carro”. Porque eles foram presos, eram presos nos quartéis, mas depois foram todos recolhidos ao Instituto Paulo Sarasate, que é há alguns quilômetros aqui da cidade. “Para o senhor pagar gasolina para ir ao Instituto Penal”. Então, mas nós não recebía- mos, entendeu?
O dinheiro que recebi foi de um arcebispo do Maranhão. Ele me mandou quatro contos e quinhentos. Eu não sei se... Era cruzeiro. Quatro milhões, é? Não sei. Antes de cruzeiro eram quatro contos e quinhentos. Hoje seriam quatro mil e quinhentos reais vamos dizer. Foi o dinheiro que recebi porque ele me achou muito abatido, cansado. E nesse tempo a Auditoria fazia um recesso no fim do ano, em janeiro. Aí ele mandou... Aliás, Dom Miguel Câmara, esse bispo auxiliar daqui, chegou com um pacote e me deu esses contos de réis. Quatro mil e tantos, vamos dizer, cruzeiros. Disse que eu fosse dar um passeio no Sul. Aí eu fui a Monte- vidéu, com esse dinheiro. Depois voltei. O dinheiro que eu recebi foi do arcebispo do Maranhão.
Descansar...
Foi depois do caso dos...
Dos padres do Maranhão. Agora, o Laudelino Coelho, esse ex- -superintendente da Polícia Federal... Porque perguntavam-se aí, os re- pressores, não sabiam como era que eu e a Wanda mantínhamos o padrão de vida que tínhamos, porque eu tinha uma advocacia ativa, a Wanda também tinha.
De outras áreas?
De outras áreas sim. Aí nós ganhávamos dinheiro por aí. Aí o Laudelino espalhou por aí que a Doutora Wanda era mantida pelo “ouro de Moscou”. Era muito usado esse “ouro de Moscou”. E [mantidos tam- bém] pela Anistia Internacional. E eu era mantido pelo jornal americano
The Washington Post, e por sindicatos alemães. Dizia-se isso. Eu não sei
por quê!
Tivemos a curiosidade para pesquisar o arquivo DOPS daqui do Ceará, e a Paula encontrou dois pedidos de informação a respeito