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GEREKTİRDİĞİNİ BİLİYOR MUSUNUZ?
A palavra comunidade pode remeter cada leitor a um sentido diferente. Isto porque comunidade é um termo polissêmico, que possui diferentes significados. Podemos pensar por exemplo em um conjunto de países como a Comunidade Europeia. Podemos pensar também em comunidade indígena ou em uma população de determinada região ou bairro (comunidade do entorno, como nos referimos no título desta pesquisa). Comunidade pode nos remeter ainda a um conceito atual dentro da educação que é o de comunidade de aprendizagem, que grosso modo definimos como um conjunto de instituições que possuem um papel educativo e que atuam de forma articulada. Podemos pensar também na família como uma comunidade, em comunidades religiosas e, em última instância, na grande comunidade que é a humana. Estes exemplos não esgotam o sentido de comunidade, mas servem para ilustrar o fato de que este é um conceito polissêmico e que antes de abordá-lo faz-se necessário deixar claro qual o sentido utilizado por nossa autora de referência.
Para Edith Stein, os exemplos acima citados podem ou não ser comunidades. Podemos ter famílias que se tornam comunidades e outras que são simplesmente um grupo de pessoas unidas por laços sanguíneos. Isto porque Stein compreende a comunidade não pela sua forma externa física ou jurídica, mas a partir das relações entre as pessoas. Um agrupamento de pessoas é chamado de comunidade, se as relações entre seus membros possuem determinadas qualidades que expressam um ideal de convivência humana. A visão da autora é fruto de uma investigação fenomenológica cujo objeto (Sachen) é a
estrutura da vida associativa. A compreensão da comunidade depende, portanto, da compreensão de seus membros, das pessoas que dela participam.
O fato associativo humano, na verdade, está substancialmente ligado a uma visão personalista que, uma vez descoberta a nível individual, é em seguida redescoberta nos laços intersubjetivos ou interpessoais. (ALES BELLO, 2000, p. 164)
No item anterior, ao abordarmos a visão de pessoa, vimos que Stein reconhece diferentes tipos de vivências. É a partir da análise das vivências25 dos membros de um grupo que Stein compreende os agrupamentos humanos. Toda vivência tem um conteúdo, um objeto, ou seja, ela é uma vivência de “algo”, que pode ser uma percepção interior – como no exemplo dos pés citado no item anterior – ou algo externo como um acontecimento, uma coisa, uma pessoa.
Para compreender os agrupamentos humanos, Stein se volta para as vivências cujo conteúdo são as pessoas, ou seja, para as vivências de um indivíduo em relação aos outros. Ela se pergunta a respeito do que acontece quando os seres humanos se encontram, e reconhece neste contexto uma vivência psíquica particular chamada
empatia.26 Para uma melhor compreensão desta vivência, Edith Stein nos apresenta o seguinte exemplo: “Um amigo me procura e me diz que perdeu um irmão. Eu me dou conta da sua dor. O que é este dar-se conta?” (STEIN 1998, p.71). A autora investiga o que é este “dar-se conta”, sem se preocupar com as vias que a tornam possível. Ela busca a essência da vivência empática, compreendida como uma vivência que nos permite ter acesso à subjetividade alheia.
A empatia nos permite reconhecer quando estamos diante de um ser humano como nós. Quando nos deparamos com algo fora de nós, pela empatia podemos diferenciar se se
25 Husserl busca a compreensão do sujeito através da análise dos atos da consciência. Os atos, chamados
de Erlebnisse na língua alemã, podem ser traduzidos como “o que é vivido por mim” ou “vivência”. Os atos são vivências que o ser humano realiza (tanto do mundo externo como interno) que são registrados pela consciência. Dentre essas vivências, podemos citar a percepção, a memória, a lembrança, a imaginação, a reflexão etc. Essas vivências são comuns a todos os seres humanos, são potencialidades humanas que o autor chama de “estrutura transcendental”, no sentido de que a pessoa já possui essas estruturas e, portanto, elas transcendem o objeto (ALES BELLO, 2004). Todas as vezes que utilizarmos a palavra vivência estaremos nos referindo ao sentido aqui apresentado.
26 A palavra empatia é uma tradução do vocábulo alemão Einfühlung, o qual contém em si a raiz do verbo Fülhen, que significa “sentir”, captar de modo imediato, antes de qualquer elaboração racional (ALES BELLO, 2007).
trata de uma “coisa”, ou de um ser humano. Segundo Ales Bello, a empatia pode ser reconhecida nas crianças ao observarmos a sua mudança de comportamento diante de um gato, por exemplo. As reações de medo ou fascínio que percebemos nas crianças pequenas diante dos animais nos falam da sua possibilidade de reconhecer que aquilo que está diante delas não é um semelhante, mas um ser de outra espécie.27
A vivência empática é uma experiência imediata que acompanha a vivência da percepção e que nos permite não apenas reconhecer um ser humano, mas saber o que ele está vivendo. Ela é intuitiva, é um “sentir o outro”, possível graças a uma constituição comum a todos os seres humanos. Todos percebem, recordam, sentem, refletem. São vivências comuns porque fazem parte da constituição do ser humano e, portanto, podem ser reconhecidas no outro. Reconhecê-las no outro, entretanto, não significa vivenciá-las da mesma forma, pois a forma como se vivencia é única, pessoal. A vivência é comum, mas adquire uma coloração singular em cada pessoa.
Quando encontramos alguém que está alegre, por exemplo, compreendemos pelos seus gestos, pela sua expressão, que está experimentando o sentimento de alegria. Pela empatia, reconhecemos a alegria no outro. Não se trata de alegrar-se com ele (o que pode ocorrer também), nem de alegrar-se como ele, mas de reconhecer nele um sentimento específico, uma experiência humana comum que é a experiência da alegria (ALES BELLO, 2000).28
A empatia é, portanto, uma primeira vivência que nos aproxima do outro, que nos permite reconhecê-lo como um semelhante, não apenas pelas características físicas, mas pela possibilidade de tomar conhecimento da sua experiência vivencial. É uma vivência espontânea, que ocorre independente da nossa vontade; e neutra, no sentido de que simplesmente reconhecemos um outro sem nenhum juízo de valor. Após reconhecer
27 Este exemplo foi apresentado pela professora Ales Bello durante o curso A estrutura da pessoa humana, promovido pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – USP, 30 horas, 2009.
28 Ales Bello (2000, p. 160) explica a distinção entre viver a alegria do outro (ou como o outro), e a
vivência empática. No primeiro caso, a vivência (erlebnis) da alegria é uma vivência originária, vivida em primeira pessoa. Já no segundo caso, o conteúdo da vivência é a alegria experimentada pelo outro e não uma alegria própria. A conotação afetiva até pode acompanhar a vivência da empatia, fazendo com que a pessoa também sinta alegria com o outro, mas não é esta a essência da empatia. Esta distinção é importante porque mostra que na vivência da empatia não há fusão entre as pessoas, ou seja, permanece a distinção entre os sujeitos. Através dela as pessoas podem se reconhecer e comunicar mutuamente, mantendo sua própria individualidade.
este outro, poderemos nos sentir atraídos ou não em uma reação de simpatia ou antipatia e, então, nos posicionar assumindo uma atitude de fechamento ou abertura em relação a ele.
O grau de abertura dos indivíduos em relação aos outros define as formas como suas vivências são partilhadas, acolhidas, manipuladas, o que, por sua vez, definirá um tipo específico de agrupamento social. Vimos que o ser humano tem uma constituição complexa, composta pela corporeidade, pela psique e pela dimensão espiritual. Na constituição de uma associação humana, todas estas três dimensões estão envolvidas; ou seja, para conhecer o outro, preciso vê-lo, tocá-lo, ouvi-lo (corporeidade); este conhecimento é seguido de uma reação psíquica de atração ou repulsa (psique) e de uma atividade intelectual voluntária (espírito) da qual dependerá o meu grau de abertura29 em relação a esta pessoa.
Edith Stein identifica três tipos de agrupamentos sociais: a comunidade, a sociedade e a massa. Cada um deles é compreendido de acordo com a qualidade das relações estabelecidas e a ênfase maior que se dá às dimensões corpórea, psíquica e/ou espiritual da pessoa. Apesar desta distinção, Stein aponta para uma inter-relação entre os diferentes tipos de agrupamento e afirma que não existe uma forma de associação pura.
A massa é um conjunto de indivíduos isolados que se comportam da mesma maneira, como uma forma de reação coletiva fundada na excitabilidade da psique individual. É um tipo de associação que se detém no nível corpóreo-psíquico, ou seja, no nível das reações. Na massa não há motivação30 nem uma tomada de posição consciente. Ao abordar o tema da massa, Stein cita Simmel, que afirma:
29 Stein compara a vida psíquica com a vida espiritual e afirma que a realidade psíquica acontece de
forma isolada, é individual, e que as relações intersubjetivas só são possíveis graças à força vinculante do espírito. “As formações sociais, cujos elementos são indivíduos psicoespirituais, são determinadas na sua constituição tanto pelo caráter psíquico dos seus componentes quanto pelos espirituais, mas deve a sua possibilidade de existência somente à força vinculante do espírito. Se a vida espiritual fosse cancelada do mundo, a realidade psíquica se dissolveria em uma série de mônadas psíquicas” (STEIN, 1999b, p. 312). Ainda segundo a autora, o espírito é abertura em direção ao mundo e à subjetividade alheia. Uma abertura que pertence à condição de vida originária do indivíduo espiritual e que nos permite afirmar que a essência social é tão original quanto aquela individual.
30 Stein faz uma diferenciação entre causalidade e motivação. A causalidade é fruto de uma reação
No interior de uma multidão de homens que estão em contato sensível entre eles (...) passam e se consomem inúmeras sugestões e influxos de excitação que tolhem da pessoa o silêncio, a autonomia de reflexão e de ação, de forma que, dentro de uma multidão, os impulsos mais fugazes crescem até se tornarem uma avalanche a favor das impulsividades mais exageradas, enquanto as funções superiores, refinadas e críticas são como que suspensas. (SIMMEL apud STEIN,1999b, p. 268)
Por isso, normalmente a massa necessita de um guia que lhe aponte o que fazer. Ela não tem um projeto próprio, mas serve a um projeto alheio, que pode ser tanto positivo como negativo, dependendo das intenções de seu líder. Do ponto de vista político, isto pode ser perigoso já que as pessoas na massa ficam à mercê de um grupo dominante. No caso do nazismo, por exemplo, temos um modelo negativo de manipulação, uma forma de totalitarismo através do qual quem comanda é hábil para conduzir a massa através da gratificação psíquica. Mas podemos pensar em outras situações nas quais a atuação do líder sobre a massa seria positiva. Utilizando um exemplo trazido pela professora Ales Bello,31 podemos imaginar uma sala de aula cheia onde, de repente, se escuta o alarme de incêndio. As pessoas entram em pânico e começam a gritar e a se empurrar para tentar sair da sala. Este clima geral de medo vai contagiando todos até que uma pessoa, utilizando sua capacidade intelectual voluntária, começa a acalmar as outras e a organizar a saída em fila, sem correria etc. Nesse caso, essa pessoa atuou com uma liderança positiva.
A massa significa, portanto, pessoas juntas, sem uma forma especificamente própria. Todos se comportam do mesmo modo, sem uma vida comum. Sua forma é dada por quem consegue se ocupar dela e utilizá-la segundo um projeto próprio (Edith Stein referida em ALES BELLO, 2006, p. 72).
A segunda forma de agrupamento é a sociedade. Segundo Stein, a sociedade possui uma vida, ou seja, possui um princípio e um fim, que dependem de um ato voluntário de seus membros. Ela começa com um ato de fundação e termina ou quando o seu fim é alcançado ou quando há uma decisão voluntária de dissolvê-la.
31 De acordo com as anotações pessoais da autora durante o curso ministrado por Ales Bello, A estrutura da pessoa humana, 2009.
A sociedade não cresce como um organismo, ela lembra mais uma máquina projetada e construída para um determinado fim ao qual ela se adéqua com progressivas melhoras, que se obtêm modificando algumas partes ou introduzindo novas (STEIN, 1999b, p.271).
Neste sentido, um membro da sociedade pode ser substituído por outro. A vida da sociedade independe de seus membros, pois ela pode continuar a existir (do ponto de vista jurídico), mesmo que as pessoas não participem mais dela.
Na sociedade a dimensão espiritual está presente, já que as pessoas escolhem estar juntas. É uma união pessoal e espiritual específica porque as pessoas se relacionam em função de objetivos previamente definidos. Seus membros desempenham um “papel” dentro do grupo, se colocam um em face ao outro de modo objetivo e, portanto, se consideram mutuamente enquanto objetos, ao passo que na vida comunitária cada membro é e permanece um sujeito (ALES BELLO, 2000).
Como afirmamos anteriormente, apesar das especificidades de cada agrupamento, há uma inter-relação entre eles e, em todos, a pessoa possui um papel central. Stein compreende, por exemplo, que a comunidade é a base da sociedade, ou seja, que não é possível a existência de uma sociedade sem que ela seja, até certo ponto, uma comunidade. A autora exemplifica esta afirmação através da figura do demagogo. Um demagogo que queira sujeitar uma multidão aos seus objetivos pessoais precisa conhecer a subjetividade das pessoas pertencentes àquela multidão. Para poder se aproximar da interioridade alheia ele precisa abrir-se a ela, ao menos na medida necessária para alcançar seus objetivos.
Não se pode fazer do sujeito como um objeto sem antes tê-lo aceitado pelo menos uma vez como sujeito. Não é possível conhecer os meios com os quais se pode tocar uma multidão sem ter familiaridade com a sua vida interior e isto se consegue apenas abrindo-se com ingenuidade. (STEIN, 1999b, p.160)
Vemos, portanto, que a pessoa e a comunidade são a base da sociedade. Ao mesmo tempo, as comunidades precisam de uma sociedade para subsistir32. Stein exemplifica esta relação entre comunidade e sociedade a partir da análise fenomenológica do
32 Esta ideia permite afirmar que a sociedade não é uma degeneração da comunidade (ALES BELLO,
Estado. Para a autora, o Estado, enquanto estrutura social, deveria ter como fundamento uma comunidade de povo. O Estado está a serviço de uma vida comunitária. Ele não se origina e nem se sustenta por uma estrutura legal, mas é fundado comunitariamente, e as disposições legais têm apenas a função de sancionar as relações que são geradas autonomamente na vida comunitária do povo. Esta função, por sua vez, é importante para a vida comunitária, que necessita da sociedade. A estrutura estatal é importante, em primeiro lugar (e isto serve de exemplo para a contribuição da sociedade para a comunidade de um modo geral), porque ela protege contra tendências individuais de seus membros que se colocam como obstáculos à vida comunitária; e, em segundo lugar, porque ela fornece à comunidade povo, uma ordem estável. Neste sentido, Stein afirma que o Estado não possui um valor em si mesmo, mas é importante por contribuir para realização de um valor que é a pessoa e, consequentemente, a vida comunitária à qual ela pertence (ALES BELLO, 2000).
Segundo Ales Bello (curso A estrutura da pessoa humana, USP, Ribeirão Preto), Stein diferencia a noção de povo daquela de raça, onde se evidenciam os vínculos de sangue. Uma raça pode se tornar comunidade pelo tipo de relação que as pessoas estabelecem. Sendo assim, o vínculo de sangue é inserido como a possibilidade da gênese de uma comunidade, mas não basta por si só. A noção de povo é mais ampla que a de raça porque um povo pode ser formado por pessoas de diferentes raças. Além do vínculo de sangue, o que constitui um povo é a questão cultural. Ao discutir a relação entre povo e Estado na visão de Stein, Ales Bello (no mesmo curso A estrutura da pessoa humana) dá o exemplo do povo de Israel como um povo de nascimento próprio, independente da mistura de outros povos (como aconteceu na América Latina por exemplo). Segundo a autora, o povo de Israel não nasceu por costumes ou tradições e sim pela união de sangue e de fé; ambos os laços são tão fortes que permitiram que este povo sobrevivesse sobre o Estado e superasse todas as tentativas de anulação por parte de outros povos. Da mesma forma que a raça, um povo também só se torna comunidade quando o sujeito singular não é excluído. Estas ideias foram muito importantes para confrontar a visão nazista, baseada na noção de raça.
Ao abordar a especificidade da comunidade, Stein afirma que sua origem está na relação recíproca entre os sujeitos. Para ela, a comunidade possui uma centralidade por ser o tipo de organização que respeita a pessoa, olhada em sua totalidade. Os vínculos
na comunidade são corporais, psíquicos e espirituais. Isto quer dizer que as relações abrangem toda a vida das pessoas. Cada membro considera sua liberdade e quer a liberdade do outro e, nesse contexto, criam um projeto comum. Diferentemente da sociedade, comparada a uma máquina pela autora, a comunidade equipara-se a um organismo vivo em que o trabalho de cada membro não depende de uma função ou um papel pré-determinado, mas está fundado sobre as características particulares de cada um. Cada um realiza uma parte do trabalho tornando-se um órgão único do todo. A comunidade é comparada por Stein a uma personalidade individual, com suas características próprias, constituídas a partir da vivência pessoal de cada membro. Nesse sentido, a entrada ou saída de um membro modifica o todo e, sem a participação dos membros, a comunidade deixa de existir (STEIN, 1999b, p. 298).
A vida comunitária surge da abertura dos sujeitos em relação aos outros, numa relação de solidariedade. Os sentimentos, pensamentos e ações de um influenciam os sentimentos, pensamentos e ações dos outros.
É justamente nesta atitude de disponibilidade assumida pelo ser humano a respeito dos outros que se funda a solidariedade. Tal atitude é altamente construtiva em sentido comunitário e se efetua ... onde os indivíduos estão abertos uns a respeito dos outros, onde as tomadas de posição de um não ficam sem efeito sobre o outro, mas o estimulam e desenvolvem a própria eficácia: nisto consiste a vida comunitária; assim sendo, ambos os membros são uma totalidade e sem este relacionamento recíproco a comunidade não é possível. (ALES BELLO, 2000, p.167)
A vida comunitária é comunicação, não por uma linguagem padronizada, não pela forma externa, mas pela apreensão surpreendente da alma do outro no concreto da vida cotidiana (MAHFOUD, 2007). Ela é possível quando nos ocupamos do outro e adentramos na experiência que lhe é própria.
Esse se voltar para o outro na experiência que lhe é própria, e com a qual posso viver algo em comum, é justamente o que faz uma relação se tornar comunidade, e o que faz uma relação interpessoal ter a força de constituição da pessoa. (MAHFOUD 2007, p. 120)
Na relação comunitária as vivências são comuns ou se tornam comuns ao serem partilhadas. Quando uma pessoa me comunica o seu pensamento, por exemplo, me abre passo a passo à compreensão do sentido que se constituiu originalmente no seu
pensamento. Vivendo-o, ele me impulsiona a continuar a pensar, o que não é mais uma reprodução sucessiva e sim uma produção originária na qual se abre para mim um novo complexo parcial da conexão de sentido global.33 Passamos a pensar movidos pela mesma motivação. Desenvolve-se assim, na troca de pensamento, um pensar junto que não é mais uma vivência individual, mas um pensar em comum. Segundo a autora, tudo o que diz respeito à ciência se desenvolve desta maneira, ou seja, aquilo que eu dou como contribuição própria cresce sobre o fundamento de um patrimônio já acumulado e aceito por mim, e que se transforma por sua vez no fundamento sobre o qual outros construirão depois de mim (STEIN, 1999b, p.195).
Outro exemplo de vivência que pode se tornar comum é o caso de uma vivência individual de fantasia. À medida que as pessoas têm acesso a esta vivência pela descrição (oral ou escrita) de quem a vivencia, seu conteúdo é compartilhado e pode se tornar uma bagagem cultural comum, dando origem a uma vivência comunitária. Este é o caso das fábulas, mitos e lendas folclóricas (COELHO JUNIOR, 2006, p. 72). Podemos pensar também em uma outra situação em que uma pessoa fica sabendo que alguém precisa de um livro para estudar e compra o livro para ele. Neste caso, a pessoa não apenas compreende o desejo do outro, mas o acolhe interiormente, ou seja, capta o