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O Currículo Oficial do Estado de São Paulo resulta da implantação de um currículo padronizado para a rede estadual. Este processo teve início no ano letivo de 2008, quando a Secretaria da Educação formulou a Proposta Curricular do Estado de São Paulo baseada, principalmente, nos materiais didáticos de referência para o trabalho docente encaminhados às escolas na forma de jornais. No ano seguinte, a Proposta passou a ser chamada Currículo e foi implantada na forma de apostilas: os Cadernos do Aluno e do Professor. Segundo a Coordenadora Geral do Projeto São Paulo Faz Escola, Maria Inês Fini, a justificativa desta política está no cumprimento do inciso IX do artigo 3º da Lei nº 9394/96, que determina a “garantia do padrão de qualidade”24 como princípio do ensino no Brasil. Segundo ela, o estabelecimento de referenciais comuns seria a maneira de atender este princípio legal (SÃO PAULO, 2009, p. 5). De acordo com a então Secretária da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, “a consolidação da Proposta Curricular é um passo fundamental para que nossas metas de melhoria da qualidade da educação

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sejam alcançadas. Cabe aos gestores a liderança e o monitoramento da nova etapa de trabalho neste ano de 2009” (SÃO PAULO, 2009, p. 3).

Durante a pesquisa, em diversos momentos, os professores afirmaram não ter tomado parte na construção deste Currículo, fato criticado também pelo sindicato da categoria – APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo). A entidade considerava que as políticas adotadas pela secretária da educação engessavam o processo pedagógico, “através das apostilas decididas e formuladas de cima para baixo e impostas a todos os professores, professoras e alunos" (NORONHA; FELÍCIO, 2009, não paginado).

Os Cadernos do Currículo Oficial (apostilas), com versões para o professor e para o aluno, foram produzidos pela Fundação Vanzolini e passara a ser criticados também pelos diversos erros que continham. No início de 2009, o Caderno de Geografia da 6ª série trazia impresso um mapa da América do Sul com dois Paraguais, um deles no lugar do Uruguai. Na época, a Secretaria da Educação atribuiu os erros à “empresa que produziu o material”. A Fundação Vanzolini, por sua vez, declarou “que o material foi produzido por professores indicados pela secretaria” (COISSI, 2009, não paginado).

No dia 03 de março do mesmo ano, quando os professores estavam começando a usar os Cadernos, o professor Jarbas fez algumas considerações:

Com esse caderno não posso dar a aula que eu gostaria. Eu gosto de preparar a minha aula, de trazer o meu material para dar aula. Eu entendo que para quem emenda períodos esse material é bom. Mas eu tenho vinte aulas, eu posso preparar as minhas aulas do meu jeito. Eu não preciso desse caderno. Para quem não tem tempo de preparar aulas, esse material é bom. Mas não é o meu caso.

Na mesma ocasião, a professora Áurea afirma não ter gostado do Caderno da sua disciplina. A professora Anatália diz que não pretende seguir o Caderno, pois no ano anterior o SARESP solicitara um conteúdo que não estava na Proposta (jornal). “O governo é incoerente com a sua própria proposta”, concluiu ela.

No dia seguinte, o professor Jarbas contou sobre a conversa que tivera com os alunos. Explicou que vai fazer experimentos e que vai trabalhar os conteúdos do Caderno, mas vai usar também outras estratégias que não estão no Caderno. O professor relata que o autor desse material não obtivera muito sucesso com seus livros didáticos no passado, por isso achou estranho ele ser o autor do Caderno. Crítica semelhante foi feita pelo professor David no dia 13 de março. Segundo ele,

há um professor na Unicamp especialista no ensino da disciplina que ministra para alunos do Ensino Médio, “mas chamaram outro para ser autor do Caderno”. E questiona:

Por que fizeram isso? Por que o [cita o nome do professor da Unicamp] não fala o que o governo quer. E por que você acha que chamaram esse outro, sendo que o [cita novamente o professor da Unicamp] pesquisa sobre [cita a disciplina] no Ensino Médio? Porque o [cita o autor do Caderno] está de acordo com a proposta do governo!

No dia 24 de março, a diretora faz algumas considerações sobre os erros contidos nos Cadernos25. Ela defende o uso do material: “Tem professor que não sabe nada, que vai para a sala de aula sem saber o que vai ensinar. Isso [o uso dos Cadernos] garante que a educação possa melhorar”. Para Gerosina, erros são normais, acontecem. A crítica deveria ser outra, segundo ela, pois “o material não é 100% o que deveria ser”. Ainda assim, considera que nossa sociedade não forma pessoas autônomas, como no Japão, onde as punições são pesadas e há até multa por jogar lixo no chão. Na sua visão, seria preciso punir os maus professores.

Na véspera da posse do novo Secretário da Educação, Paulo Renato Souza, a Diretora diz que seria bom manter os Cadernos. Não gostaria que ele acabassem com os mesmos, tendo em vista o progresso alcançado. De acordo com ela, “num mesmo sistema havia escolas que trabalhavam conteúdos diferentes na mesma área. Os Cadernos padronizaram. Todas as escolas agora trabalham os mesmos conteúdos”.

Um dos principais objetivos dos Cadernos, que aparece no trabalho da Professora Coordenadora, é a preparação para o SARESP. Segundo Dinaelza, o trabalho com os Cadernos podem elevar a qualidade do ensino na escola e, consequentemente, seu IDESP. Entretanto, ambos os instrumentos são medidas do governo estadual que excluíram completamente os docentes das discussões sobre qualidade na educação. É um reflexo da orientação mercadológica das políticas públicas, que não contempla a participação efetiva da comunidade, pois as decisões deixam de ser políticas e passam a ser técnicas, ou melhor gerenciais.

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Benzer Belgeler