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A abordagem tradicional é caracterizada por estudos que utilizam uma metodologia quantitativa, tanto fase da coleta, quanto na análise dos dados (BAPTISTA e CUNHA, 2007). Segundo estes autores, a pesquisa quantitativa foi predominante nos estudos de usuários entre as décadas de 1960 a 1980. O uso intensivo destas técnicas teve como objetivo garantir uma maior precisão na análise e interpretação dos resultados, ou seja, a busca por uma pretensa cientificidade, baseada nos modelos das ciências duras e no modelo positivista das ciências sociais.

Os estudos da abordagem tradicional são influenciados pela concepção fisicista da informação. Por considerar a informação como um dado quantificável e independente dos indivíduos, os pesquisadores se preocupam em medir comportamento e estabelecer padrões de busca e uso. Busca-se a aplicabilidade imediata dos resultados para melhorar sistemas e serviços, prever fluxos e antecipar as demandas do usuário.

Segundo Ferreira (1997), os estudos da abordagem tradicional são dirigidos ao conteúdo ou à tecnologia.

São voltados ao conteúdo, os estudos relacionados às linhas temáticas de interesse de grupos de usuários, sempre baseados nos modelos tradicionais de classificação do conhecimento, utilizando, por exemplo, as classificações decimais existentes [...] Já estudos enfocando o uso de livros, fontes, bases de dados, obras de referência, computador ou o próprio sistema são os voltados à “tecnologia” (FERREIRA, 1997).

Nos estudos voltados ao conteúdo, os modelos de classificação, ainda que desconhecidos pelos usuários, são utilizados como denominadores para determinar a estrutura da informação em um sistema. Os estudos voltados às tecnologias enfatizam a maneira como o uso das fontes afeta a organização e a disseminação da informação, e com base nos resultados são prescritos tamanhos, formatos e tipos de materiais a serem incorporados ao sistema (FERREIRA, 1997).

Segundo Martucci (1997),

os estudos de usuários desenvolvidos na abordagem tradicional se caracterizam por serem direcionados pela ótica do sistema de informação ou dos provedores de informação. Baseiam-se em dois princípios fundamentais:

1) o objetivo do sistema é localizar fontes de informação e a qualidade do sistema baseia-se no número de fontes recuperadas de acordo com a necessidade do usuário;

2) o usuário deve se adaptar ao sistema e, sendo um processador imperfeito de informação, precisa de treinamento e de interfaces cada vez mais amigáveis (MARTUCCI, 1997, [p.1]).

As questões mais recorrentes nos estudos tradicionais são referentes ao uso de sistemas e unidades de informação. De acordo com Martucci (1997), nesta abordagem

as questões de pesquisa preocupam-se com o “quem” e com o “que”, os usuários são meros informantes e não objetos de estudo, levantam características grupais e demográficas dos usuários e seus resultados devem melhorar o desempenho do sistema ampliando o estoque de informações, seu acesso e uso (MARTUCCI, 1997, [p.1]).

As necessidades de informação são analisadas frente aos sistemas e fontes de informação, com o objetivo de melhorar os sistemas e adequar as fontes a essas necessidades. Os estudos são realizados com o intuito de contribuir para a implementação e melhoria de serviços de informação. As necessidades de informação são estabelecidas a priori tendo em vista o contexto profissional e social dos usuários. Conforme nos diz Ferreira (1996),

a abordagem tradicional coloca a informação como externa, objetiva, alguma coisa que existe fora do indivíduo. E a mensagem transmitida pelo emissor (serviço de informação, biblioteca, catálogo) para o receptor (usuário) através de um canal, e a mensagem é informativa no sentido de que reduz ambigüidade, ao reduzir simultaneamente o número de mensagens alternativas que poderia ser enviado. Informação neste contexto tradicional, existe em um mundo ordenado e é capaz de ser descoberta, definida e medida (FERREIRA, 1996, p.219).

Na abordagem tradicional existe uma confusão entre o suporte e a informação, que em muitos casos são considerados como a mesma coisa. A informação é um dado concreto, um documento, uma coisa. De acordo com Ferreira (1995), nesta abordagem pontos importantes são desconsiderados: o conhecimento não é absoluto, a mensagem não é recebida da mesma forma que foi enviada, as pessoas são dinâmicas e autônomas.

Com isso estamos ignorando o fato de que o ser humano cria sua própria realidade e tem seus próprios estoques internos de informação, os quais são usados para compreender as informações externas e as diferentes situações em que os indivíduos se encontram em dado momento (FERREIRA, 1996, p.219).

Este é um ponto que mostra a diferença entre o paradigma físico da Ciência da Informação e os paradigmas cognitivo e social: a entrada em cena do usuário, um sujeito de vontades. Este fato impulsionou a busca por abordagens alternativas nos estudos de usuários. São abordagens que se aproximam mais do paradigma cognitivo, mas têm pontos em comum com o paradigma social. Vale lembrar que essa divisão da evolução da Ciência da Informação, baseada em três paradigmas fundamentais, é posterior ao surgimento das abordagens alternativas dos estudos de usuários.

Na abordagem tradicional, informação é o que está estocado nos suportes e os usuários buscam um pacote pronto que serve de igual maneira a todos. Segundo Ferreira (1997), “procura-se, nestes estudos, as diferenças entre os usuários como simples decorrência de influências sociológicas e demográficas, estilo de vida e especificidade do trabalho”.

Segundo Araújo (2007), os estudos de usuários na abordagem tradicional compartilham um mesmo modelo teórico e epistemológico, o modelo positivista. Duas correntes são especialmente influentes nos estudos: o Funcionalismo e o Behaviorismo. Uma característica dos estudos de usuários nesta abordagem é “uma preocupação em estabelecer leis do comportamento do usuário da informação”, com o objetivo de “estabelecer padrões de comportamentos invariáveis, isto é, válidos para diferentes contextos, em diferentes locais e épocas.” Outra característica é “a necessidade de “medir” o comportamento dos usuários” (ARAÚJO, 2007, p.85-86). Duas questões são levantadas pelo autor sobre a influência positivista nos estudos de usuários. A primeira tem a ver com o modo como Emile Durkheim, pensador francês e pai do Funcionalismo, corrente do pensamento positivista, busca atingir a cientificidade a partir da definição de fato social:

à maneira de Durkheim, os estudos de usuários excluíram, como objeto relevante de estudo, o próprio ser humano (suas subjetividades, seus interesses, suas contradições) em prol da priorização dos “fatos sociais” ou, no caso, das “leis de uso da informação” (ARAÚJO, 2007, p.86).

A busca pelo estabelecimento de leis fez surgir generalizações como o princípio do menor esforço, ou seja, o usuário lançará mão da informação mais fácil de ser

alcançada, ainda que esta não seja a melhor informação ou satisfaça plenamente suas necessidades. Dito de uma outra forma, esta "lei" determina que o usuário sempre buscará informação primeiro no seu local de atuação, e só depois acessará outros recursos e que a busca pode parar ainda em seu início, sem que o usuário tenha acessado toda a informação que pode ajudá-lo em seu problema.

A outra questão decorrente desta influência positivista é a preocupação com a aplicação prática e imediata destes estudos.

Os estudos de usuários que se desenvolveram na esteira da preocupação com o desenvolvimento de coleções, do conhecimento das fontes de informação ou do planejamento de serviços e sistemas de informação estiveram sempre colados a uma aplicação imediata, ao provimento de dados (como um diagnóstico) para intervenções que promovessem melhorias nos serviços oferecidos (ARAÚJO, 2007, p.86).

Os estudos na abordagem tradicional não permitem que o usuário seja compreendido como um indivíduo autônomo, senhor de suas vontades e desejos, capaz de decidir sobre suas necessidades e sobre a busca e uso de informação. Surgindo como uma crítica à abordagem tradicional, os estudos das abordagens alternativas colocam o usuário no centro do processo de busca e uso da informação, e consideram que a compreensão de suas necessidades é fundamental. As abordagens alternativas trouxeram novas questões a serem estudadas, mas os princípios da abordagem tradicional ainda são muito utilizados nas pesquisas atuais.

Benzer Belgeler