Outro método utilizado na pesquisa para dar conta de analisar as mensagens das rádios zapatistas foram os modos de endereçamento, definidos como as interpelações e convites dos meios aos receptores, no conteúdo de sua programação, para gerar uma identificação entre o produto e a audiência. Os modos de endereçamento, conceito originário da teoria cinematográfica, foram utilizados pioneiramente como operador de uma pesquisa sobre televisão na investigação do britânico David Morley (1999), do Center of Contemporany Cultural Studies (CCCS) de Birmingham, sobre o programa Nationwide. De acordo com ele, os estudos de recepção precisam analisar como as leituras individuais se articulam em estruturas e conglomerados culturais. Para verificar a variação da recepção segundo fatores sociodemográficos (sexo, idade, etnia e classe), marcos e identificações culturais e tema das mensagens, Morley realiza o estudo da
assistência dos programas em grupos focais de telespectadores com estas diferentes características. A partir das respostas, ele percebe como alguns receptores aceitam a forma, mas não a ideologia41. “O conceito de ‘modos de endereçamento’ designa as
específicas formas e práticas comunicativas de um programa que constituem o que se referiria na crítica literária como ‘tom’ ou ‘estilo’” (MORLEY, 1999, p. 262).
Esta relação entre formas e ideologia num discurso parte dos estudos de Raymond Williams (2009) nos quais a forma consiste na organização dos conteúdos culturais que refletem a sociedade que as molda, e uma prática comunicativa relaciona-se ao aspecto cultural da política, isto é, os símbolos, valores, comportamentos sociais do posicionamento hegemônico e das relações de poder de um determinado grupo. Os endereçamentos estão assim, para Morley, nas formas que interpelam determinado público a partir de elementos de seu universo cultural, buscando uma identificação entre um produto massivo e o receptor. Os endereçamentos propõem certas leituras a partir da criação de laços de identificação com o público. “O modo de endereçamento estabelece a forma da relação que o programa propõe para-com sua audiência” (MORLEY, 1999, p. 262).
Já para a pesquisadora estadunidense Elizabeth Ellsworth (2001, p. 19), deve-se falar em modos de endereçamentos no plural. Primeiro, porque os produtos dos meios não propõem somente uma forma de recepcioná-los. “As posições de ver filmes não são aleatórias, mas relacionais (...) essas posições sociais não constituem, nunca, uma posição única ou unificada”. Citando Masterman, a autora lembra que, “nos meios visuais, nós, como membros do público, somos compelidos a ocupar uma posição física particular, em virtude do posicionamento da câmera (...) somos também convocados a ocupar um espaço social” (ELLSWORTH, 2001, p. 18). Os espaços sociais propostos nos produtos dos meios possibilitam naturalizar a experiência de recepção a partir dos diversos contextos sociais da audiência. O segundo motivo de falar em modos de endereçamentos no plural deve-se à apropriação que o receptor faz dos endereçamentos dos meios, podendo compreendê-lo de forma diferente da proposta original. Há, nesta situação, uma negociação dos significados dos meios entre meios e audiências.
41 Um exemplo da diferença entre forma e ideologia, constatada na pesquisa de David Morley sobre o
Nationwide, foi a recepção de um quadro do programa, quando gerentes de banco aceitaram as ideias favoráveis a estas instituições financeiras, mas rechaçaram o formato demasiadamente “popular”. Já os sindicalistas aprovaram a forma, mas se contrapuseram à ideologia.
Os públicos não são simplesmente posicionados por um determinado modo de endereçamento. Entretanto, para dar qualquer sentido a um filme ou para desfrutá-lo até mesmo minimamente, eles têm que se envolver com seu modo de endereçamento. Ainda que de forma mínima ou oblíqua (...) inclusive em sua decisão de simplesmente recursar-se a ver o filme. (ELLSWORTH, 2001, p. 24)
A autora propõe uma distinção entre "espectadores dominantes”, aqueles que correspondem modelo de público idealizado pelos meios, e “espectadores marginais”, que resistem aos endereçamentos preferenciais.
Para compreender os endereçamentos, o pesquisador australiano John Hartley (2000) observa três formas de aproximação: o mediador, que possui uma empatia com o público; a voz do povo, que procura uma autencidade ao meio a partir da opinião das pessoas comuns, e a sondagem firme, que pergunta a um especialista o que a audiência gostaria de saber. Na análise de telejornais, Itânia Gomes (2005) amplia estes operadores para mediador, temática, pacto sobre o papel do jornalismo, contexto comunicativo, recursos técnicos, recursos da linguagem televisiva, formatos de apresentação, relação com as fontes de informação e texto verbal.
Na análise dos endereçamentos das emissoras zapatistas, levando-se em conta as características do meio radiofônico, são consideradas as proximidades da mensagem com os receptores a partir de seis elementos. Primeiro, estão os mediadores, compostos locutores, repórteres, comentaristas que participam dos programas e fazem a intermediação e buscam criar familiaridade, proximidade e credibilidade com os receptores. A temática são assuntos abordados, estilos e letras das músicas tocadas na programação que indicam tipos de receptores idealizados e universos culturais próximos. Já o papel social consiste na expectativa criada junto à audiência, que a emissora se propõe atender, como a informação, o entretenimento, a memória e o conhecimento proposto. Por sua vez, os recursos técnicos são compostos pela plástica radiofônica presente na organização dos efeitos sonoros, trilhas, intervalos e blocos e vinhetas. A linguagem radiofônica está presente na proposta de criar imagens acústicas, conversas mentais e a oralidade mediatizada42. Por fim, o texto verbal entendido como a
forma de interpelar diretamente a audiência, através do conteúdo transmitido, e construir credibilidade. Através da análise destes elementos, é possível observar vários
42
Segundo Júlia Oliveira (1999), a oralidade mediatizada se refere à reconstituição da oralidade pelos meios de comunicação, como o rádio.
detalhes da programação que apontam não só para os conteúdos, formatos e plástica, mas para a relação proposta com a audiência e para as expectativas dos emissores sobre a recepção.
Para utilizar o método dos endereçamentos, servi-me principalmente de duas técnicas. Primeiro, realizei gravações da programação da Radio Rebelde e Frecuencia Libre de três semanas consecutivas das emissoras, sendo a primeira de 9 a 30 de julho de 2013 e a segunda de 20 de julho a 10 de agosto de 2015. A distância temporal ocorreu porque não consegui sintonizar posteriormente a Radio Rebelde, como explicado anteriormente, em julho de 2015 e porque a decisão de investigar a Frecuencia Libre só foi consolidada depois das entrevistas com os ouvintes de San Cristóbal de Las Casas, em julho de 2014, que apontaram a escuta desta emissora. Durante as gravações realizei anotações sobre a programação, como o horário de início e término, temas e elementos de cada bloco, aspectos técnicos - como utilização de vinhetas, efeitos sonoros, falhas etc – em meu diário de campo. Depois escolhi uma edição de cada programa da Frecuencia Libre e um de cada dia da semana, não necessariamente consecutivos, da Radio Rebelde que tivesse o conteúdo mais diverso para transcrever (disponíveis nos Apêndices IV e III) e analisar com mais profundidade os endereçamentos através dos mediadores, texto verbal, temáticas, papel social, recursos técnicos e linguagem radiofônica. Apesar da similaridade com a análise de conteúdo, o método dos endereçamentos levou-me a buscar imprescindivelmente os dados do texto em relação ao contexto, aos receptores, às estruturas sociais e às relações de poder, dado que parto do pressuposto de “(...) compreender a relação de interdependência entre emissores e receptores na construção do sentido do texto (...)” (GOMES, 2007, p. 21). Foi possível assim superar análises baseadas tão somente em frequências, regularidades, palavras-chaves, quantidades e encontrar nos conteúdos os deslocamentos das mediações comunicativas até as práticas culturais da recepção, tempos, lugares e contextos sociais que propõe Martín-Barbero. Neste capítulo, apresentei a proposta teórico-metodológica dos usos sociais dos meios de Martín-Barbero, contextualizando este tipo de pesquisa no Brasil e definindo as mediações. Em seguida, mostrei os recortes do objeto e as condições de campo, esclarecendo minhas imersões no México, os lugares transitados e os critérios da escolha das emissoras. Por fim, discuti a trajetória metodológica, caracterizando-a como
uma exploração de inspiração etnográfica, por meio da interseção entre observação, confecção de diário de campo e realização de entrevistas, e definindo a análise dos endereçamentos. O modo como esta metodologia foi sendo construída ao longo dos contatos com as comunidades visitadas entrelaça-se com e torna possíveis as análises das institucionalidades das emissoras que seguem no próximo capítulo.
2 MEIOS LIVRES, RÁDIOS COMUNITÁRIAS E LÓGICAS DE
RESISTÊNCIA
A primeira questão que me surgiu ao investigar as rádios Rebelde e Frecuencia Libre foi sua organização institucional. Diferente da clara definição – que, por vezes, obscurece a compreensão do fenômeno - de rádios comunitárias no Brasil43, encontrei o constante
trânsito, no México, deste termo com o de meios livres para classificar estas emissoras. Para compreendê-las, percorri então, primeiramente, a análise das institucionalidades que, para Martín-Barbero (1998), se distinguem pela relação entre as matrizes culturais e as lógicas de mercado. Assim, inicialmente apresento neste capítulo as lógicas de produção que permeiam o contexto mexicano e as especificidades locais para entender quais interesses acolhem os discursos das rádios zapatistas e procurando inclusive encontrar aquelas lógicas que não estejam submetidas aos interesses privados para, nos capítulos seguintes, discutir as matrizes culturais a partir dos endereçamentos das estações.
Dois estudos das institucionalidades nos usos sociais inspiram esta pesquisa. Primeiro, o pesquisador mexicano Enrique Sanchez Ruiz (2000, p. 56) propõe, para analisar as institucionalidades, um enfoque histórico-estrutural que “tenta descrever, explicar e compreender o fluxo de acontecimentos sócio-históricos a partir da articulação complexa e cambiante entre a biografia, as instituições e as estruturas sociais (...)”. Esta abordagem multidimensional encontra-se na encruzilhada de diversas disciplinas acadêmicas como história, política, economia, sociologia e antropologia. O segundo foi a tese de doutorado de Angela Felippi (2008), que investiga as institucionalidades do Jornal Zero Hora do Rio Grande do Sul a partir da relação entre a matriz cultural do tradicionalismo gaúcho, suas histórias e atuais configurações, e da estrutura do veículo,
43 No Brasil, a lei 6.612 de 1998 regulamenta o serviço de radiodifusão comunitária como emissoras que
transmitem por Frequência Modulada (FM) de propriedade de associações comunitárias e fundações sem fins econômicos, de caráter público e não pró-seletista. Estas emissoras recebem uma autorização que lhes trazem uma série de restrições, como potência de no máximo 25 watts, atuar somente num bairro ou vila, não entrar em rede, canal único para cada município e receber apenas doações e apoios culturais, restritos a veiculação do nome e endereço do apoiador, sendo vetado qualquer tipo de propaganda que mencione produtos, serviços, preços, promoções e prazos de qualquer empresa. Esta situação dificulta a viabilidade de emissoras mantidas por comunidades empobrecidas, muitas tendo que ceder sua programação à Igrejas Protestantes ou à grupos políticos que as mantenha. A distribuição dos canais para associações ligadas a parlamentares federais agrava as condições das rádios comunitárias brasileiros que, segundo o pesquisador Venício Lima (2007), cria um “coronelismo eletrônico de outro tipo”.
que também inclui o regaste histórico, as relações de mercado e os aspectos organizacionais do Zero Hora.
Estes aspectos organizacionais, mercadológicos e legais dos meios, de acordo com Nilda Jacks (2008, p. 35), compõem as lógicas de mercado que podem ser pensadas em “(...) duas ordens contrapostas: o regime estatal, que concebe os meios como serviço público, e o regime de mercado, que converte a liberdade de expressão em comércio”. Conforme Veneza Ronsini (2012), neste aspecto deve-se considerar também as questões da mundialização da cultura e da crise das instituições. Assim, se faz necessário colocar nesta relação entre privado e público a internacionalização da economia que enfraquece não só as fronteiras e os mercados locais, mas também o poder estatal por sua carência de legitimidade, seja o enfraquecimento de sua atuação social seja por sua submissão a interesses econômicos empresariais. Para olhar a realidade das emissoras zapatistas, amplio o conceito de “lógicas de mercado” para “lógicas de produção”, a fim de dar conta também das contradições sociais, marginalizações e subversões a este mercado, gestados não só pela exclusão social dos povos originários e pobres da região, mas também pelas organizações e lutas por transformações sociais.
No caso específico das rádios zapatistas, como emissoras não autorizadas pelo poder estatal, analiso ainda as tensões entre a resistência e a perseguição, o mercado e a sustentabilidade, a autonomia e a política governamental e os conceitos e as práticas dos meios livres e comunitários. Assim, esta investigação começa resgatando a história das rádios livres desde as primeiras contestações dos radioamadores, passando pelas rádios mineradoras bolivianas, as rádios piratas europeias e escolas radiofônicas mexicanas, buscando não somente chegar às definições de meios livres e rádios comunitárias, mas localizar o residual destas experiências nas rádios zapatistas a fim de analisar a história e a organização da Frecuencia Libre e da Radio Rebelde.