A Assistência Social no Brasil só foi reconhecida como direito social através da Constituição Federal de 1988. Todavia, no período que antecede a esse marco aconteciam intervenções assistencialistas do poder público e da sociedade civil, sempre permeadas por um pensamento que criteriosamente separava os direitos da caridade praticada. Até 1930, as questões relacionadas à pobreza, vulnerabilidades e desigualdade social eram trazidas para a sociedade e tratadas como casos de polícia, sendo “solucionadas” através de ações repressivas. Em 1938 houve o primeiro marco da regulamentação da Assistência Social no País com a criação do Conselho Nacional de Serviço Social, que estabelecia um vínculo entre entidades filantrópicas, figuras da elite e Estado (MESTRINER, 2001).
Durante muito tempo as ações voltadas às necessidades da maioria da população brasileira, ou seja, aos pobres, eram ofertadas por organizações filantrópicas que dificultavam a compreensão sobre quem seria o real responsável por efetuar ações de assistência social. De acordo com o Programa Nacional de Assistência Social (MDS, 2005), atualmente os critérios para traçar as políticas de Assistência Social devem sempre considerar as pessoas, as suas circunstâncias e seu primeiro núcleo de apoio, a família. A proteção social requer que as políticas públicas se aproximem o máximo possível do cotidiano da vida das pessoas, porque é dentro das experiências cotidianas que estão os riscos, as vulnerabilidades e as violências. A unidade sociofamiliar também contém dados da realidade e das necessidades e recursos de cada domicílio. Dessa forma, dentro da Assistência Social existe uma relação entre as pessoas e os territórios que ocupam, condição que atribui a esse serviço a característica de socioterritorial.
Em 1993 a política de Assistência Social foi unida ao campo da Seguridade Social, o que a inseriu na política de Proteção Social que é regulamentada através da Lei Orgânica de
Assistência Social (LOAS). Assim, passou a ser compreendida como responsabilidade do Estado e principalmente como um direito. Como política de Proteção Social, a Assistência Social deve garantir alguma segurança, como a de sobrevivência, de acolhida e de convívio ou vivência familiar (BRASIL, 1993).
Associados à segurança e com vistas à sobrevivência estão o rendimento e a autonomia. À segurança de rendimentos cabe garantir às pessoas renda suficiente para sua sobrevivência. Como segurança da acolhida está a provisão de necessidades como alimentação, vestuário e abrigo, de modo que o objetivo desse trabalho seja o de criar meios de propiciar autonomia às pessoas e famílias atendidas, para que atinjam uma situação em que possam proporcionar as condições primordiais a si mesmos. Em algumas situações em que não é possível estabelecer essa autonomia, a Assistência Social também prevê formas de agir. Exemplos são os casos em que uma criança necessita ser separada da família e acolhida pelo município por razões da violência doméstica, ou o de um idoso que não tem condições de trabalhar (MDS, 2005).
A segurança do convívio, ou segurança da vivência familiar remete à política de Assistência Social através do trabalho de recuperar ou estabelecer vínculos familiares que são considerados fundamentais à vida em sociedade. Essa segurança considera que através das relações humanas o indivíduo “cria sua identidade e reconhece sua subjetividade”, pois as construções culturais, civilizatórias, coletivas e cidadãs também se estabelecem através dessas relações societárias (MDS, 2005, p. 32).
Assim, faz parte dos objetivos da política nacional de Assistência Social prover serviços, programas, projetos e benefícios de proteção social básica e especial para famílias, indivíduos e grupos que deles necessitarem. E também contribuir com a inclusão e a equidade dos usuários e grupos específicos, ampliando o acesso aos bens e serviços socioassistenciais básicos e especiais em áreas urbana e rural, assegurando que as ações no âmbito da assistência social tenham centralidade na família, garantindo assim a convivência familiar e comunitária. É ainda dever da política de Assistência Social assegurar a proteção social básica e a proteção social especial (MDS, 2005).
O Programa de Proteção Social Básica trabalha de forma aprofundada a prevenção dos riscos através de estratégias que contribuam com o desenvolvimento de potencialidades e do fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Os serviços de Proteção Básica consideram a família como unidade de referência e promovem um conjunto de serviços locais que objetivam a convivência, a socialização e o acolhimento de famílias cujos vínculos
familiares e comunitários não foram rompidos. Os benefícios socioassistenciais também se enquadram na modalidade da Proteção Básica, como o Bolsa Família, Renda Cidadã e outros. Todos os serviços e benefícios da Proteção Social Básica devem ser articulados com as demais políticas públicas locais, sempre visando a superação das vulnerabilidades reconhecidas, o protagonismo das famílias e indivíduos atendidos e a prevenção de situações de risco. Ainda é importante mencionar a necessidade da articulação com os serviços de Proteção Especial, sempre que necessário.
Esses serviços de Proteção Básica são executados nos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) ou em outras unidades de Assistência Social. O CRAS é uma unidade pública estatal de base territorial, que fica localizado em áreas de vulnerabilidade social que abrangem um total de até mil famílias por ano. Faz parte das funções do CRAS a organização e coordenação da rede de serviços socioassistenciais locais. O CRAS atende a famílias e indivíduos no contexto comunitário. É importante ressaltar que o trabalho direcionado às famílias deve considerar a diversidade das configurações familiares e também as funções básicas da família, como: prover a proteção e a socialização de seus membros, construir vínculos afetivos e mediar as interações de seus membros com outros órgãos do Estado (MDS, 2005).
São considerados serviços de proteção básica de assistência social aqueles que potencializam a família como unidade de referência, fortalecendo seus vínculos internos e externos de solidariedade através do protagonismo de seus membros e da oferta de um conjunto de serviços locais que visam: a convivência, a socialização e o acolhimento para famílias cujos vínculos familiar e comunitário não foram rompidos, bem como a promoção da integração ao mercado de trabalho. Alguns serviços se destacam, como o Programa de Atenção Integral às Famílias, o Programa de Inclusão Produtiva e o Projeto de Enfrentamento da Pobreza. Há, ainda, os Centros de Convivência para Idosos e os Serviços para crianças de 0 a 6 anos, que visam o fortalecimento dos vínculos familiares, o direito de brincar, ações de socialização e de sensibilização para a defesa dos direitos das crianças. Existem também os serviços socioeducativos para crianças, adolescentes e jovens na faixa etária de 6 a 24 anos, visando sua proteção, socialização e o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. Por fim, temos os programas de incentivo ao protagonismo juvenil, e de fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, como os centros de informação e de educação para o trabalho, voltados para jovens e adultos (MDS, 2005, p. 36).
Além de ser responsável pelo desenvolvimento do Programa de Atenção Integral às Famílias – com referência territorializada, que valorize as
heterogeneidades, as particularidades de cada grupo familiar, a diversidade de culturas e que promova o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários –, a equipe do CRAS deve prestar informação e orientação para a população de sua área de abrangência, bem como se articular com a rede de proteção social local no que se refere aos direitos de cidadania, mantendo ativo um serviço de vigilância da exclusão social na produção, sistematização e divulgação de indicadores da área de abrangência do CRAS, em conexão com outros territórios. (MDS, 2005, p. 35)
A Proteção Social Especial é a modalidade de atendimento assistencial orientada a famílias e a indivíduos que se encontram em situação de risco porque tiveram seus direitos violados e, por isso, essa especificidade de serviço destina-se a atender àqueles que já foram ou estão sendo vítimas. Incluem-se aqui negligência familiar, violência doméstica, abandono, pobreza, trabalho infantil, abuso e exploração sexual, entre outros. O sistema de Proteção Especial subdivide-se em serviços de proteção de média e alta complexidade. Dentre os serviços de média complexidade está o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). O CREAS, assim como o CRAS, é uma unidade pública que visa atender através de serviços especializados famílias e indivíduos. Contudo, diferentemente do CRAS, o foco desse serviço de Proteção Especial é atender a casos de ameaça ou violação de direitos dentro de um espaço de acolhimento que possa fortalecer os vínculos familiares, sociais e comunitários, com objetivo de reconstruir as relações familiares, de modo que o grupo familiar possa superar as situações de vulnerabilidade e desempenhar seu papel como provedor e protetor dos direitos fundamentais de seus membros (Lei nº 12.435/2011).
A atenção desta pesquisa volta-se prioritariamente ao Sistema de Proteção Social Básica, pois é essa modalidade de serviço socioassistencial que atua especificamente no território onde está localizado o Residencial dos Oitis. Trata-se de um serviço que alcança diretamente as famílias de moradores desse conjunto habitacional, e que se pauta na perspectiva da prevenção para que situações de vulnerabilidade social não cheguem a evoluir para formas mais drásticas de violência (MDS, 2011).