Analisando a Resolução n° 9, de 29 de setembro de 200413, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Direito, estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação, mais precisamente o Art. 3° e o Art. 4° desse documento, encontramos uma correlação entre as habilidades a serem desenvolvidas pelo aluno e a perspectiva funcionalista de tratamento linguístico.
De fato, tal documento estima que os alunos, aspirantes ao exercício da advocacia e do judiciário, possam participar da sociedade, exercendo a cidadania, e desenvolver habilidades para serem usadas na continuidade de seus estudos e em sua vida cotidiana.
Também não é demais lembrar que as exigências referentes às capacidades linguísticas já se expressavam, de forma incisiva, nas regulamentações do antigo Exame Nacional de Cursos, apelidado de Provão. Assim, a Portaria MEC nº 163/1998 estabeleceu taxativamente que habilidades de linguagem seriam objeto de avaliação por aquele exame, na sua edição de 1998, determinando:
Art. 3º O exame Nacional de Cursos de Direito de 1998 avaliará, entre outras habilidades, as seguintes: a) leitura e compreensão de textos e documentos; b) correta utilização da linguagem – com clareza, precisão e propriedade – fluência verbal e riqueza de vocabulário.
Posteriormente, quando da edição das Diretrizes Curriculares Nacionais para Graduação em Direito (Resolução CNE/CES n° 009/2004), tais preceitos foram incorporados e agrupados em uma redação mais geral:
Art. 4º O curso de graduação em Direito deverá possibilitar a formação profissional que revele, pelo menos, as seguintes habilidades e competências: leitura, compreensão e elaboração de textos, atos e documentos jurídicos ou normativos, com a devida utilização das normas técnico-jurídicas.
Assim, destaquemos de Aguiar (2004): Habilidades de se Relacionar, Habilidades de Pensar, Habilidades de Fazer.
As Habilidades de se Relacionar abarcam, entre outras, a habilidade de
entender o outro, o mundo e a si mesmo e a capacidade de jogar e assumir riscos. Esta reza que o operador do Direito deve urdir o tecido de seus textos, ações e intervenções como um tecelão, que entrelaça a realidade social e os interesses em conflito com a doutrina, a jurisprudência e a lei. Aquela adverte que inexiste direito sem a capacidade de nos conhecer e aos outros em circunstâncias dadas, de modo que é preciso criar pontes entre linguagens e conhecimentos diferenciados.
Juristas há que se comunicam, em exagero, por meio da norma culta. Essa atitude de purismo linguístico impede, amiúde, que eles se façam entender, o que significa a perda da possibilidade da alteridade operante, fundamento de qualquer direito.
A nosso ver, vai na direção funcional-cognitivista a orientação dessas habilidades, uma vez que prioriza o enfoque dialético entre o fenômeno de ordem linguístico (gramatical) e as dimensões subjetivas e sociais.
Sobre as Habilidades de Pensar, destaque-se a habilidade de trabalhar linguagens:
No universo lingüístico encontramos linguagens faladas, escritas, transmitidas pela mídia, plásticas, pictóricas, arquitetônicas, sonoras, corporais e tantas outras que podem emergir no processo de transformação cultural da humanidade. Estar atento para esse sinal distintivo da humanidade, para a complexidade funcional, estética, normativa, explicativa e compreensiva das linguagens, nada mais é do que procurar as identidades dos seres humanos e a nossa, em particular [...] O direito é, essencialmente, um fenômeno de linguagem. Os operadores jurídicos estão condenados a profissionalmente interpretar e criar linguagens pelo resto de suas vidas. (AGUIAR, 2004, p 73)
Em razão disso, o autor tece críticas a cursos de Direito que nada fazem no sentido de formar intérpretes dos diversos sentidos das linguagens e da complexidade dos fatos, cuja compreensão deve ocorrer pela via das linguagens. E assevera que essas escolas, em sua esmagadora maioria, acabam por rejeitar o
estudo dos instrumentais básicos do Direito e daquilo que se pode chamar de presença do ser humano no mundo: as linguagens.
Finalmente, entre as Habilidades de Fazer, destaque-se uma que tem a ver com o texto escrito, objeto desta pesquisa: a habilidade de escrever.
Como já se afirmou neste espaço, a função primeira da linguagem é a comunicação. E comunicar, no âmbito da juridicidade, segundo Aguiar (2004, p. 99): “é demonstrar e convencer, é linguagem indicativa e diretiva, é discurso lógico e retórico.”
Posto isso, para haver comunicação, o texto jurídico deve ter clareza, ser lógica e dialeticamente bem construído; afinal, ele é texto dialogal, seja com o fato em litígio, seja com o lado oposto a quem deve convencer, seja para chamar a si o conteúdo da prestação jurisdicional.
A dificuldade em redigir (ou falar), para o autor, implica uma limitação na compreensão dos fenômenos, dos matizes das contendas, das marcas do mundo. Essa limitação é, ainda, um indicador de pobreza interpretativa, tanto dos fatos quanto das normas.
Indica também a incapacidade de perceber transformações sociais e ressemantizações das normas, além de limitar a habilidade de entender, interferir e solver conflitos, com fundamento.
Além do mais, vale destacar:
Um texto pode comunicar pelo que escreve, pelo que apresenta de lacunas, pelo que está submerso nas entrelinhas, pelo que é condicionado pelos padrões da época da leitura, pelos valores e até mesmo idiossincrasias do leitor. Mas, se tomarmos um texto técnico, ele deve procurar a clareza,
a denotação e a transparência de seus pressupostos, conceitos e conclusões. (AGUIAR, 2004, p. 102, grifo nosso).
Ao assumirmos o pressuposto de que os universitários do Direito (e não só) devem ser levados a desenvolver tais habilidades, estamos defendendo, por
conseguinte, um ensino de abordagem funcionalista que se rege pela pauta da língua como um elemento de inte(g)ração social.
Como essa é uma decisão de ensino em um curso que trabalha com os fundamentos da Justiça, cumpra-se!