Dois temas trazidos por Trasímaco estão relacionados a questão da justiça e o mais forte: a conveniência-plausibilidade e a persuasão. Quem se empenhar em uma análise desses termos na sua forma grega, verá que o livro que mais apresenta a palavra conveniência (tòn symphéron) é o livro I, e que na maioria das vezes só aparece na relação de justiça com os mais fortes exposta por Trasímaco. Mas também Sócrates usa essa palavra segundo os critérios de sua melhor cidade. Há algo que muda nas duas exposições? Sim, há uma diferença no tratamento dado por eles. Trasímaco, como se mostra anteriormente, faz sempre alusão à ligação entre justiça e os soberanos independente de suas ações contra ou a favor da maioria dos habitantes. Mas Sócrates muda o sentido. Ele trata do termo conveniência não como interesse egoísta, mas sempre no sentido de proveito para a cidade ou para a alma. Essa referência encontra-se já no Livro I ao dizer que o verdadeiro governante (tó ónti alethinòs árchon) deve buscar a vantagem do governado (REP, 347d), porém é somente nos livros III e IV (412e; 442c) que a palavra surge na cidade de Sócrates. Se a conveniência somente convém ao mais forte como quer Trasímaco, ela não pode permanecer no contexto do melhor regime. É preciso que a conveniência se apresente sem ligação ao egoísmo. Assim, o discurso sobre justiça não deve se restringir a ser conveniente, mas ao mesmo tempo precisa ser proveitoso para o homem e para toda a cidade, logo, precisa ser também plausível.
Como, então, Sócrates pode se utilizar da arte de Trasímaco? Aparentemente não há semelhança entre eles. Para Trasímaco a justiça convém ao mais forte, para Sócrates a justiça convém ao mais fraco. Essa oposição é importante na elaboração da p li socrática porque tanto demonstra o poder da retórica no ato de persuasão, quanto reorienta a discussão sobre justiça para a discussão de algo que não sofre corrupção. Outro fator importante da discussão Sócrates/Trasímaco é a própria situação de conveniência: afinal, a justiça é conveniente ao mais forte ou ao mais fraco? Se o filósofo é quem deve governar,
não é ele o mais forte? Se os não filósofos não devem governar, eles não são os mais fracos, mesmo quando governam? Se o filósofo é o mais forte e a justiça não lhe convém, seu governo é injusto? Trasímaco assume o duelo até perceber que é preciso silenciar.
Se a justiça é concebida de alguma maneira, pode-se ter um discurso sobre ela que está ilustrado no diálogo. Ao mesmo tempo, cria-se um discurso que viola os princípios tradicionais de religiosidade grega porque produz um discurso ímpio na medida em que se unem as duas funções: os governantes que vivem e são mediadores entre os homens; os governantes que são mediadores com os deuses. O resultado dessa união é transformar os reis filósofos em semideuses ou até mesmo em deuses. É uma teoria que nega a força dos deuses da tradição substituindo-os por outros. O deus d’A República é a harmonia, oposto do deus da Ilíada de Homero. Na Ilíada, Páris rapta Helena que é casada com Menelau, irmão do rei espartano Agamenon. Assim, começa a vingança dos gregos contra os troianos e o deus motor da história é Discórdia. Diferente de Homero, Platão enquanto poeta estabelece outro deus como motor da história, o deus Concórdia, ou seja, Harmonia, negação interna de Discórdia. Se o deus d’A República é harmonia, a postura de Trasímaco não pode ser de investida contra Sócrates, não deve mandar uma expedição destruir a todos, antes, deve se tornar concordante, ao menos em silencio, como se enfatiza no capítulo anterior. Toda a República torna-se um poema épico em que Sócrates ironicamente toma pra si a definição de Trasímaco.
Trasímaco diz que a justiça é o interesse dos mais fortes e Sócrates não consegue dizer factualmente que tal argumento está errado. Sócrates só diz que Trasímaco é injusto porque não é conveniente articular tal noção de justiça em público. O acordo social que os poderes exigem não pode declarar que os governantes decidem tudo de acordo com seus interesses. Para o público deve ser declarado algo que o motive a se manter manipulado pela classe dominante. Nesse contexto, retoricamente as palavras de Trasímaco são inconvenientes aos mais poderosos, logo, também injustas pela própria definição de justiça dada por Trasímaco. Sócrates não dá uma definição de justiça verdadeira em oposição à de Trasímaco que seria a falsa, ele dá uma definição de justiça como justa. Há uma derivação do argumento de Sócrates do argumento de Trasímaco. Sandra S. F. Erickson e Glenn W. Erickson dizem que “Platão precisa de Trasímaco e Sócrates
para expressar essa conclusão argumentativa porque se o argumento estivesse colocado na boca de um único indivíduo haveria uma contradição existencial” (ERICKSON, S. S. F, ERICKSON, G. W., 2009, p. 65). Portanto, Sócrates não recomenda um regime político verdadeiro no sentido de que seja realizado historicamente.
Pela definição de Trasímaco, lembram S. Erickson e G. Erickson, ele mesmo é um injusto, Sócrates é um justo e a justiça só pode ser pensada no âmbito de um poder que não mude porque os mais poderosos, por definição, são os que possuem o poder em sua totalidade, ou seja, um poder perpétuo. Assim, o discurso de Sócrates sobre a fundação da cidade torna-se justo porque é justo se projetar um regime político como o d’A República. Há uma necessidade lógica na afirmação de Trasímaco que faz fluir toda A República. A justiça como harmonia é algo justo, mas não verdadeiro, dado a teoria de Trasímaco. Lembre-se que se a cidade é algo da esfera visível, ela só pode ser conveniente e plausível, não verdadeiro.
Ao se pensar que, n’A República, os mais poderosos é a classe dominante, a conveniência consiste em satisfazer o que lhes é essencial, a saber, o poder. Eles apenas não têm poder se lhes é tirado. Quem ou o que pode lhes tirar o poder? Somente a desarmonia, o deus Discórdia, na cidade.
Justiça é o elemento mantenedor do que é conveniente, o poder. Ao se pensar que o legislador é o mais poderoso, apesar de que não age executando as leis concretamente, o que lhe é conveniente também é o poder. Qual tipo de poder? Retoricamente ele é o mais forte. Sócrates é o retórico. Alguns comentadores distinguem retórica e dialética, esta última praticada por Sócrates. A dialética surge no panorama filosófico a partir de sua oposição à retórica. Acontece que essa oposição é em si mesmo uma apropriação retórica. Por que a dialética é uma apropriação retórica? O que é retórica? Não é o que possibilita a concordância? Retorica é o que faz algo convincente. Nesse sentido, a dialética se apropria de algo que é próprio à retórica, ou seja, de seu poder de persuasão. Porém, tal persuasão não pretende convencer porque expõe alguma verdade, mas porque o discurso usado para criticar o discurso anterior também é criticado.
Para Bloom (1991, p. 326) aquele primeiro envolvimento de Sócrates e Polemarco em um diálogo é o motivo pelo qual Trasímaco se irrita. Se o diálogo busca um acordo comum em vez de tentar conquistar a vitória, ele não se caracteriza como um discurso forte na visão do retórico, mas como um discurso
fraco. Os participantes do diálogo orquestrado por Sócrates devem obedecer a certas regras que, como as leis, governam aquela associação entre homens, estes, buscam um acordo comum em vez de tentar conquistar uma vitória. Seguindo essa postura de Bloom é possível ainda dizer que esse acordo comum não consiste primeiro na busca por uma definição. No diálogo o que se põe em jogo é a busca por uma desconstrução daquelas afirmações. Se Sócrates deixa seus interlocutores confusos não é porque pretende definir o ser justo, mas porque primeiro precisa por à prova todas as afirmações possíveis em torno do assunto em questão. Esse trabalho de por à prova, só pode ser desenvolvido a partir da associação entre os interlocutores. Associação que tem como fim caminharem juntos na elaboração de argumentos em confronto a contra argumentos seja para se chegar a um discurso que sobreviva a qualquer contra argumento, seja para se chegar à descrença em qualquer afirmação. Essa abordagem através do diálogo é o que Bloom entende como a arte da dialética em Sócrates a qual parece impor uma espécie de justiça sobre aqueles que a praticam, enquanto a retórica, a arte de fazer longos discursos sem ser questionado, a arte de Trasímaco, volta-se ao auto engrandecimento.
Trasímaco vê a dialética como um adversário da retórica e quer mostrar à sua audiência a superioridade de sua arte. Porém, constata Bloom, uma das consequências da dialética é se impor sobre a retórica como uma forma de desenvolver discursos mais poderosos. A dialética supera a própria retórica ao silenciar de Trasímaco. Assim, se a principal característica da retórica é o convencimento, a dialética absorve esse ponto para si na medida em que silencia o convencimento da retórica. A dialética mostra-se como sendo a arte retórica no sentido de convencimento mais retórica do que a arte de Trasímaco, não porque supera a retórica, mas porque precisa incorporá-la em suas técnicas.
Sem Trasímaco não há filósofo, porque não há Sócrates fundador da cidade. A questão de que Sócrates silencia Trasímaco e o torna amigo, não pode ser uma ironia insignificante. Mas é possível que Platão exponha duas teorias aparentemente opostas que não tem nenhuma contradição. A arte de Trasímaco é a mesma de Sócrates, apenas é preciso considerar quem é o verdadeiro governante, a saber, aquele que comtempla o bem e o invisível.
A arte de Trasímaco deve estar disposta unicamente aos interesses do filósofo. Strauss também pergunta: porque persuadir? Não se poderia criar uma cidade reunindo homens e mulheres excluídos, escravos, bárbaros, mendigos e
esfomeados, forçando-os a viver segundo o regime do filósofo? Quem responde é o próprio Strauss: não se precisaria de grande habilidade de persuasão para convencer esses homens, porém seriam como selvagens, devorando uns aos outros sem capacidade de civilidade. É preciso que os potenciais habitantes da cidade socrática participem da vida civilizada. Mas só participar ainda não é suficiente, porque os habitantes que são persuadidos a aceitar a cidade perfeita participam de cidades injustas e vivenciam injustiças. Nada impede que eles resolvam agir segundos os costumes de antes. A saída que Sócrates encontra é o uso da persuasão para convencer os cidadãos de que o regime do filósofo é o único regime em que seus filhos tenham uma vida verdadeira e melhor do que teriam em outros regimes. Os cidadãos acima de dez anos de idade devem ser enviados ao campo e os seus filhos devem permanecer sobre a tutela dos filósofos. Sócrates considera que para a cidade criada sob o bem se realizar não basta que os filósofos se tornem reis ou os reis se tornem filósofos, mas também é imprescindível que os pais sejam convencidos a deixar seus filhos menores de dez anos sob a tutela do filósofo.