O pano de fundo metafísico de seu pensamento político ope- ra em dois sentidos contraditórios. Pode-se tanto focar a atenção sobre a descrição hostil e pejorativa dessa dimensão da atividade social, como sublinhar, ao contrário, o papel positivo do cristão em sua presença no mundo moderno. Essa visão caricaturada da política reduzida ao domínio da malícia e da futilidade é expressa notadamente no curso de dois colóquios e de sua meditação sobre o livro de Eclesiastes. “Em nosso mundo ocidental atual, a política é a incarnação mais profunda do mal.” Ela é “o lugar do demoníaco, o lugar da mentira, o lugar do poder” (1979). Essa proposição veio conirmar aquelas que a antecederam em um ano: “a essência polí-
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tica continua a mesma e eu digo que, neste mundo, neste tempo, ela é demoníaca.”9
O homem moderno encontra-se preso entre as duas extremi- dades da prensa. Refugiado no apolitismo, o Estado torna-se o seu destino; ao se desinteressar da política, joga o jogo “da adivinhação demoníaca do Estado”. Mergulhado no engajamento militante, ele banha-se no ambiente das ideologias rivais, aquele do “diabolos” do Novo Testamento, ou seja, do “divisor”, e ele acentua, então, o “político diabólico”. Do mesmo modo que pudemos reler a obra de Marx à luz do Gulag, Ellul tenta interpretar a natureza da política moderna à luz do terrorismo dos anos 1970 na Europa. Nem os ter- roristas nem seus métodos são diabólicos em si, mas a política que os engendra. O terrorismo revela o que se tornou a política, aqui e agora... O terrorismo exprime o ódio absoluto do poder absoluto. O poder tende ao absoluto, os meios para combatê-lo não podem, então, permanecer relativos. O inimigo político é considerado pe- los terroristas como a encarnação religiosa do Mal. A recusa de toda discriminação no seio das vítimas potenciais é a consequência da identidade entre corpo social e corpo político. Todos culpados! Res- ponsabilidade coletiva, de classe, de raça, ou da nação! “A acusação moral ou teórica contra todos indistintamente se traduz com o tem- po e necessariamente com a morte de quem quer que seja, na im- possibilidade de matá-los todos.” Todos os meios são bons se forem eicazes! O terrorismo só faz exprimir um pouco mais brutalmente do credo coletivo. “Se nós recuamos de horror perante o terrorismo, é necessário recuar de horror perante toda a nossa política.”
Com La raison d’être, saímos do quadro limitado dos colóquios para entrar no que parece, em muitos aspectos, a conclusão geral de toda uma obra (Ellul, 1987). Depois de ter passado cinquenta anos de sua vida auscultando um texto rico de sentido ser reduzido a uma fórmula simples, ele escolhe seu comentário como obra derradeira. Ora, o que diz Qohelet sobre o poder político? Que a potência é sem-
9 J-L. Seurin nota que na democracia, a política não se reduz apenas à vontade de poder, mas que ela é também é a busca da ordem equitativa. Ver Troude-Chastenet, 1994.
pre absoluta, o poder é sempre o poder, seja qual for sua forma cons- titucional, o poder não traz nada de novo, e que o adágio voxpopuli,
vox dei não passa de uma mentira. O poder é tão somente malda-
de, injustiça e opressão! Quanto mais subimos na escala de pode- res, mais os homens são malvados. O capítulo V preigura a longa cadeia da tirania descrita por La Boétie no Discours de laservitude
volontaire. Todo poder do homem sobre o homem o torna infeliz.
“A insensatez foi colocada nos mais altos cumes”. Futilidade, opres- são, insensatez! “Todo o poder é assim qualiicado – sem reservas e sem nuances!” (idem, ibidem, p.84, grifos do autor). Mas, se Ellul assimilou plenamente o pessimismo radical de Eclesiastes relativo ao poder humano, ele não tira a partir deste nenhuma conclusão que convide seus leitores a se afastarem da via política. Trata-se somente de considerá-la em sua relatividade absoluta e de ressaltar que a con- quista da liberdade não passa por ela! É, aliás, a tese que defende em
Politique de Dieu, politiques de l’homme (idem, 1966b). A Igreja não é
um negócio espiritual e a política não é desprovida de interesse para o cristão como para o homem moderno. A política é mesmo o lugar da maior airmação do desejo de autonomia do homem. O cristão não deve, portanto, nem se desinteressar dela, nem fazer desta sua preocupação principal.
A situação do cristão no mundo atual é necessariamente revolu- cionária. Segundo Ellul, a desesperança do homem moderno provém essencialmente do fato de que ele já não pode mais escutar a pro- messa da salvação e da recapitulação, e a vocação do cristão consiste precisamente em anunciar essa “boa-nova”... O cristão tem, então, neste mundo, um papel intransferível. De uma parte, é impossível a ele tornar o mundo menos pecador; de outra parte, não lhe é pos- sível aceitá-lo tal qual ele é. Ele deve viver permanentemente com essa tensão! Sal da terra, luz do mundo, cordeiro no meio de lobos, o cristão é o sinal vivo da “política” de Deus. Ele deve ser embaixador de Deus e profeta do retorno do Cristo (Troude-Chastenet, op. cit., p.160). O cristão é revolucionário para conservar o mundo cujo cur- so lógico conduz inexoravelmente ao suicídio. Ele pertence a duas Cidades que não poderão jamais coincidir. Ele está engajado neste
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mundo e, ao mesmo tempo, é cidadão de um outro reino... Todas as soluções humanas são temporárias e marcas do pecado; o cristão se encontra, assim, em situação revolucionária permanente, pois ele deve renovar sem cessar a exigência divina, isto é, deve tentar intro- duzir um pouco de liberdade na sociedade em que ele vive. Ele se comporta como uma levedura: uma substância que determina a fer- mentação de uma outra sem ser ela mesma modiicada. Os cristãos têm, portanto, no plano político, um papel catalítico a desempenhar. Eles fazem igualmente o papel de espiões e de sentinelas, como o mostra Ezequiel (Ellul, 1984b). Eles são encarregados de advertir o povo e serão condenados se não cumprirem sua missão. A sentinela é chamada a ver os sinais lá onde o homem natural percebe somente acontecimentos. A Igreja está aqui para iluminar o caminho e dar um sentido à aventura humana, não para reproduzir as clivagens po- líticas tradicionais, nem para se deixar absorver pelo corpo social. No lugar de se comportar como força reacionária frente a um gover- no progressista e como força revolucionária frente a um regime con- servador, a Igreja deve fazer escutar sua diferença, insistindo sobre o ponto decisivo mas não contestado: a adoração universal do poder.
A relação do cristão com a política deve caracterizar-se por uma contradição dialética entre a atitude de levar a sério a instância po- lítica e sua relativização absoluta de uma parte, entre o respeito às autoridades e o engajamento revolucionário de outra parte.
De um ponto de vista cristão, Ellul condena tanto o capitalismo liberal quanto o apolitismo, como ele o havia feito em seus escritos seculares. A verdadeira questão é o exercício da escolha, pois não existe doutrina política cristã fundada sobre a Revelação! O cristão não deve, portanto, procurar uma legitimação teológica de seu en- gajamento político. O importante é que ele testemunhe a palavra do Cristo por sua presença no meio dos homens, sem esquecer que não se pode servir a dois mestres. Nos períodos de politização intensa, ele deve participar na relativização da política, não para desvalorizá- -la mas para torná-la saudável. O cristão tem um papel de reconci- liação e de mediação ao recusar a paixão, o ódio e a exclusão... Ellul convida, assim, à desmistiicação e à desideologização da política, a
reencontrar o adversário atrás do inimigo e, atrás do adversário po- lítico, seu próximo. Se a democracia é esse reconhecimento da rela- tivização da política, da validade dos pontos de vista concorrentes, da limitação dos poderes, do respeito às minorias, então esse regime oferece ao cristão uma possibilidade maior de exprimir sua liberdade em Cristo... Porém, como já notamos em seus escritos sociológicos, é porque não considera as poliarquias como democracias autênti- cas que ele chama à revolução. Chamado que lembra um leitmotiv: “para a conservação do mundo, é atualmente necessário que uma revolução autêntica aconteça” (idem, 1948), “a atitude do cristão perante a História é necessariamente revolucionária” (idem, 1950), “o dever de todo cristão é ser revolucionário” (idem, 1969). Mas convém compreender o sentido que essa palavra tem sob a caneta de Ellul, que não remete nem à teologia da libertação, nem a uma revolução comunista ou conservadora qualquer.