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Comunicação

A comunicação humana é um processo artificial. Baseia-s e em artifícios, descobertas, ferramentas e instrumentos, a saber, em símbolos organizados em códigos. Os homens comunicam-s e uns com os outros de uma maneira “ não natural”: na fala não são produzidos sons naturais, como, por exemplo, no canto dos pássaros, e a escrita não é um gesto natural como a dança das abelhas. (FLUSSER, 2007, p.89)

A comunicação é atividade essencial para a convivência e a sobrevivência social. O caráter artificial da comunicação humana torna-se tão absorvido pelos costumes que passa a ser inconsciente. Comunicar-se é ser integrante de um mundo formado por códigos, constr uído a partir de símbo los ordenados, onde as informações são represadas e liberadas (FLUSSER, 2007). Comunicar-se é manipular informações por meio de dispositivos e ferramentas.

Desse modo, um dos objetivos dos códigos que nos circundam é nos fazer esquecer que são instrumentos artificiais que forjam representações. “Como os homens decidem produzir informações e como elas devem ser preservadas?” Flusser (2007, p. 96) responde a essa questão afirmando que há duas maneiras de trocar informações. Uma é a discursiva, que preserva as informações como uma maneira de resistir a mudanças. A outra é a dialógica, na qual são trocadas informações a fim de sintetizar novas. A diferença mais importante entre esses tipos de troca de informações é o grau de distanciamento com relação aos seus receptores. Os discursos são como monólogos, não permitindo o retorno de informação, ao co ntrário dos diálogos, nos quais o receptor é ativo. Tal diferenciação flusseriana é útil para compararmos um tipo de produção de

edificações heterônoma, discursiva, de um tipo de produção mais informal, dialógica, o nde as informaçõ es são de fato trocadas e não impostas por alguns agentes sobre outros.

A manipulação de informações entre os agentes da autoprodução é intensa, multidirecional, acontece em diferentes níveis e se utiliza de diferentes aparatos.

A fala é um tipo de comunicação que se utiliza do aparelho fo nador humano para manipular informações. É um capital cultur al e informacional que, assim como outros, garante posiçõ es sociais cultivadas pelos campos. Os modos de falar utilizados pelos diferentes tipos de profissionais presentes na prática arquitetônica e também no canteiro definem e mantém suas posições sociais, cultivando certas situações. O vocabulár io típico do campo arquitetônico remete a um discurso tido como correto, legítimo. Ao conversar com clientes, os arquitetos demonstram ter um conhecimento especializado, que reforça seu status profissional oficializado pelo diploma. Termos corriqueiramente usados por arquitetos como vão , volume, abertura, anteparo e escala poderiam facilmente ser substituídos por passagem, construção , j anela, parede e tamanho. Muitas vezes, os clientes se sentem constr angidos em perguntar o significado de algumas palavras e acabam por não entender o que o arquiteto quer dizer. Ao mesmo tempo, alguns temos utilizados no canteiro também são incompreensíveis para muitos clientes e também para boa parte dos arquitetos que, pouco habituados ao cotidiano do canteiro, desconhecem alguns termos utilizados. Acabamento e reboco são chamados no canteiro por acabação e massa a metro .

Ao mesmo tempo em que pode causar afastamentos por ser uma espécie de veredito social, a fala também pode ser uma ferramenta que aproxima arquitetos e clientes. Na produção informal é uma das principais ferramentas utilizadas. No âmbito da produção formalizada, onde os desenhos técnicos têm o papel de documentar o tr abalho no canteiro, a fala não vale muito. Somente desenhos são

considerados informações. Podemos afirmar, tendo como base os conceitos flusserianos, que em canteiros heterônomos a comunicação é discursiva, isto é, imposta por documentos, com os quais não há como argumentar. A produção popular, no entanto, é resistente a certas práticas, garantindo-se por meio de dispositivos mais imediatos, bar atos e abertos, como a fala. O cd com instruções gravadas e a Entr evista são exemplos do bom uso da fala pelo Metodo. A escolha de termos objetivos e claros substitui os abstratos e muito amplos, como “gosto de janelas grandes”, “não gosto de casa muito alta”, “quero uma casa com cara de casa”. Não há comunicação dialógica se j untamente com a fala não houver escuta.

A forma de transmissão de informaçõ es legitimada entre os agentes da construção é o desenho arquitetônico. Como já dito, é por meio dele que os serviços são formalizados e documentados, consolidando a heteronomia do trabalho no canteiro de obras típico da produção formal. Neste caso, o papel dos escritórios de arquitetura é fornecer o produto desenho e não o produto edifício . Os clientes pagam para adquirir abstrações e representações e não par a adquir ir objetos reais. Especialmente, os populares precisam de edificações, de ações, e não de representações.

Tendo sido pouco usado para demonstrar como as coisas são de fato construídas, ele é ferramenta essencial para contabilizar as tarefas do canteiro e dos escritórios à semelhança de ordens de serviço. O desenho técnico se resume a “acompanhamento diplomático” (FERRO, 2006, p. 109), tornando-se um artigo supérfluo e o neroso. Assim, é inadequado à produção informal, que precisa de informações consistentes e objetivas e não de formalidades. Os agentes da produção informal não estão preocupados em demarcar ordens de serviço pelo desenho. Nestes casos, os desenhos são elaborados sem formalidades, como croquis e rascunhos.

Os desenhos feitos à mão são cada vez mais raros e estão sendo substituídos por formas de simulação e representação digitais. Até mesmo a concepção e a representação estão se transformando em processos separados. As imagens produzidas se reduzem à imagem final das constr uções e denota aparências e não processos: podem ser consideradas “não-coisas” (Flusser, 2007, p. 54), informações imateriais que substituem as coisas verdadeiras. São inapreensíveis, porém altamente codificáveis. As informações imateriais estão por toda parte, adquirem formas e funções variadas e substituem o real. Os desenhos técnicos funcionam dessa maneira: são informações que necessitam de decodificação e, de preferência, por especialistas. Sendo repletos de códigos, usuár ios e trabalhadores quando os decifram, o fazem com dificuldade.

O consumo das imagens técnicas produzidas por aparelhos (FLUSSER, 1985), aumentou co nsideravelmente e tem na indústria cultural sua maior aliada. Consomem-se mais informações, abstrações, do que coisas. Tanto o desenho técnico quanto as perspectivas eletrônicas são representações de outra representação: referem-se a projetos que fazem refer ência a uma ideia. Dessa maneira, a obra construída permanece cada vez mais distante do arquiteto e de sua própria ideia.

A prática arquitetônica poderia substituir a geração de informação não-coisificada por produção de conhecimento espacial e construtivo. O Metodo de Livingston, ao propor a redução na formalização dos procedimentos e a participação ativa do usuário, permite que a informação seja de fato uma coisa real. Nos atendimentos, o desenho, a escuta e a fala permitem ao arquiteto e aos usuár ios compreenderem a dinâmica da moradia, dando forma a questões espaciais e construtivas.

Benzer Belgeler