A Emenda nº. 45 inseriu o preceito da razoável duração do processo no artigo 5º. da Constituição Federal brasileira, único dispositivo que integra o capítulo dos direitos e garantias individuais e coletivos, dentro do título II, referente aos direitos e garantias fundamentais. O direito ao prazo razoável na prestação da tutela jurisdicional ostenta, portanto, natureza jurídica de direito fundamental.
Aplicando a conhecida classificação de José Afonso da Silva acerca da eficácia das disposições constitucionais66, há autores que entendem o direito em questão, previsto no inciso LXXVIII do citado artigo, expresso em norma de eficácia plena67. Desse modo, não seria necessária providência legislativa qualquer no sentido de explicitar o conteúdo do referido dispositivo constitucional. Quer dizer, a norma já estaria apta a produzir todos os seus efeitos no momento em que entrou em vigor, independentemente de lei ou outro ato normativo infraconstitucional para sua integração68. Vale lembrar que, por força de previsão expressa no parágrafo 1º. do mesmo artigo 5º., as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicabilidade imediata.
Há entendimento diverso, porém, no sentido de tratar-se de norma simplesmente programática69, categoria que, para José Afonso da Silva, seria uma espécie de norma
constitucional de eficácia limitada, porque requer uma prestação positiva do Estado, no sentido da efetivação do direito70. Sabe-se que a norma de eficácia limitada, embora tenha aplicabilidade imediata em virtude do disposto no parágrafo 1º. do artigo 5º., tem a sua eficácia integral diferida: seu campo de eficácia é inicialmente restrito à não recepção de normas em sentido diverso e ao impedimento de legislação em sentido contrário. Este é seu campo de eficácia, enquanto não for complementada e não puder produzir efeitos plenos.
66
SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas constitucionais. 2. ed. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 1982. p. 91-147.
67
NICOLITT, op. cit., 31
68
LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. São Paulo: Método, 2004. p. 71.
69
RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 11. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006. p. 41, apud NICOLITT, op. cit., p. 38.
70 Cf. CHIMENTI, Ricard o Cunha et al. Curso de direito constitucional. 4. ed. São Paulo: Saraiva,
Parece que o melhor entendimento vai no sentido de que o direito a processo em tempo razoável tem natureza de norma de eficácia plena, produtora de todos os seus efeitos imediatamente, sem necessidade de lei infraconstitucional para definição do conteúdo do preceito ou, menos ainda, de prazos para cada tipo de processo ou procedimento. Cabe ao juiz fixar o conteúdo do direito em cada caso concreto, e não ao legislador.
Contribui para solidificar tal escolha o enquadramento do direito à razoável duração do processo dentre aqueles fundamentais de primeira geração, direitos básicos concernentes à liberdade. Pese embora corrente doutrinária que entende ser de segunda geração o direito em tela, isto é, um direito próprio ao campo das igualdades, dependente de uma prestação positiva do Estado, é de ver que a origem da exigência do processo sem delongas permanece ligada à garantia do devido processo legal e à defesa das liberdades do homem. Ademais, o direito em questão foi assegurado, no sistema global de defesa dos direitos humanos, por meio do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, de 1966, o qual prevê garantias à liberdade, em contraposição ao Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, do mesmo ano, voltado, consoante sua própria denominação indica, aos direitos de segunda geração.
Vale ressaltar, ainda, as considerações de José Ramón Cossio Diaz71, que coloca
o direito ao processo em tempo razoável como uma vertente da garantia ao devido processo legal, a qual abarcaria algumas espécies de direitos que exigem do Estado uma abstenção e, outras, uma prestação. O tempo razoável na prestação da tutela jurisdicional seria um direito de liberdade, com natureza prestacional, pois o Estado, por meio de todos os seus órgãos, notadamente o Poder Judiciário, deve providenciar os meios necessários para assegurar a efetivação desse direito.
Além de direito fundamental, o direito ao prazo razoável do processo pode ser considerado, sob a perspectiva do Direito Civil, como um direito subjetivo público, autônomo, de índole constitucional72. Trata-se de direito subjetivo na medida em que
constitui um poder conferido a alguém, ao qual corresponde um dever jurídico correlato,
71
apud NICOLITT, op. cit., p. 38.
caracterizado, no caso em análise, pelo dever imposto ao Judiciário, de prestar jurisdição em tempo razoável73.
Por outro lado, é direito público, pois é dirigido ao Estado, vinculando tanto os órgão judiciais, quanto os Poderes Executivo e Legislativo. De forma imediata, o dispositivo constitucional que cuida do direito em estudo vinculou o Poder Judiciário e o Poder Executivo, pois garante a razoável duração do processo, tanto no âmbito judicial, quanto no administrativo. Mediatamente, porém, ficam vinculados também o Poder Legislativo, que edita as normas processuais e procedimentais, e o Poder Executivo, como responsável civil no caso de violação do direito.
Cuida-se, ainda, de direito que conserva autonomia relativamente ao direito à tutela jurisdicional, do que se deduz a possibilidade de ocorrência de independente violação a um ou a outro. Com efeito, o fato de a jurisdição ser efetivamente prestada em determinado caso, mas de forma tardia, não afasta o reconhecimento de violação do direito à duração razoável do processo, ensejando reparação dos danos decorrentes da tardança.