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Geralmente, quando um enunciador usa a fala pelo discurso direto (DD), deseja criar um efeito de atualidade sobre o que está dizendo ao dar voz ao falante. Garcia (1985, p. 129) afirma sobre o DD:

Ao transmitir pensamento expresso por personagens real ou imaginária, o narrador poder servir-se do ‘discurso direto’ ou do ‘indireto’ e, às vezes, de uma contaminação de ambos – o chamado discurso indireto livre, ou misto, ou semi-indireto. No discurso direto – o oratio rexta do latim -, o narrador reproduz (ou imagina reproduzir) textualmente as palavras – i.e., a fala – das personagens ou interlocutores.

Maingueneau (2001, p. 141) também faz observações para o emprego discursivo do DD. Segundo ele, o uso do DD é “uma encenação visando criar um feito de autenticidade” (Itálico do autor), como que a dizer: “eis as palavras exatas que foram ditas”. Para Maingueneau, não

sendo possível a comparação entre uma “ocorrência de fala efetiva” e um “enunciado citado entre aspas em contexto totalmente diverso” (MAINGUENEAU: 2001, p. 141), o sujeito que relata acaba por reconstruir a “situação de enunciação” (idem):

o DD não pode, então, ser objetivo: por mais que seja fiel, o discurso direto é sempre apenas um fragmento de texto submetido ao enunciador do discurso citante, que dispõe de múltiplos meios para lhe dar um enfoque pessoal.

Se observarmos o recorte que o relator faz da fala do Luiz A. Faccio, ele reproduzirá a posição do agricultor como contrário às ONGs. Ao longo do Relatório, o relator se posiciona também contrário em seu discurso à “influência externa”, muitas vezes silenciando o fato de que muitas organizações não-governamentais são nacionais, como algumas organizações indígenas. Logo no início do texto, vemos a seguinte exposição (Rel. p.16-17):

As faixas encontradas pela Comissão ao chegar na sede do município de Uiramutã dão um idéia do grau de exaltação dos ânimos:

“Não às ONGs!”

CIR e Diocese prega confronto entre índios” (Conforme original)

Para o relator, as faixas encontradas pela Comissão se limitam a duas - intensificadas pelo determinante “as” -, e estas materializam um discurso contrário à demarcação da Raposa/Serra do Sol em faixas contínuas. Se considerarmos, conforme Maingueneau, que “a situação de enunciação é reconstruída pelo sujeito que relata”, conforme já mencionamos, como compreender o Relatório, senão pela parcialidade de

quem enuncia, ao reconstruir duas situações em que as ONGs são reconstruídas, tomadas negativamente? Se aceitarmos que o discurso do relator é parcial, então é possível por em dúvida esta sua afirmação?:

A tentativa de encontrar saídas para esse impasse foi o que inspirou esta Comissão Externa. Com o propósito de enfrentar o assunto de maneira desapaixonada, nenhum de seus integrantes foi eleito por Roraima, providência apoiada pela Bancada Federal do Estado, que jamais deixou de subsidiar a Comissão no fornecimento de informações e documentos. (Rel., p. 9. Grifos nossos),

Em nossa leitura, o enunciado evidencia que a questão não é Roraima, mas a LOC. Mais forte do que Roraima e toda questão fundiária no Brasil, para além da questão indígena, está uma lógica secular que obriga os discursos sobre a terra (a propriedade, posse, direitos sobre… a terra) de serem o que eram desde Locke83.

Há uma tentativa do relator de dar um “efeito de imparcialidade” ao seu texto, agregando elementos que deixam transparecer isso; ao afirmar que nenhum integrante da comissão pertencia ao Estado envolvido (Roraima), ele tenta dizer ao seu leitor que está sendo imparcial. Esse efeito de imparcialidade é importante porque, transformada em objetividade do discurso do poder, permite que a linguagem encubra as necessidades históricas, uma vez que nenhum leitor permitiria que um deputado, representante do povo, explicitamente manifestasse opinião contrária àquilo que rege as normas de um regime democrático. Voltaremos a conceito de democracia mais adiante.

Por ora, cabe-nos afirmar que, talvez por isso, ou seja, pelo recorte subjetivo do enunciador, ao dar voz ao agricultor, apareçam elementos como “democracia” e “família”, além da questão implícita da

83 Uma tentativa de dar luz a essa afirmação foi feita no próximo capítulo “Os

“propriedade”. Esses dizeres, a partir do postulado de que todo discurso insere-se numa rede interdiscursiva, retoma outro, muito semelhante nos dizeres de Plínio Corrêa de Oliveira (1969), a respeito da família e da tradição84:

Uma riquíssima fonte de continuidade entre as gerações. Em meu último artigo, falei do que é a tradição. Afirmei, sobretudo, que são demolidores da Pátria todos os que se esforçam por promover um progresso alheio e até hostil à tradição. Hoje, quero mostrar que a tradição é fruto necessário da família, de sorte que, por toda a parte em que floresça a família, ficarão impregnados de tradições os costumes públicos e privados, a cultura e a civilização85. (Destaques nossos)

Família seria, portanto, aquilo que se constrói a partir dos moldes ocidentais de cultura e civilização. Assim, o conceito de família exclui qualquer outra possibilidade de cultura e civilização outras. A terra, portanto, deve pertencer à família, e esta tem como constitutivo na tradição/herança, seu princípio maior. Afinal, conforme salienta Oliveira (1969): “A família gera a tradição e a hierarquia social”. Sem família, não há tradição (“Nossos filhos e os filhos de nossos filhos estarão aqui”, diz Faccio), e não haveria família e tradição sem propriedade. O “nós” assim expresso, no enunciado subjetivo do Relatório ao resgatar a fala do agricultor Faccio, retoma os princípios da família, tradição e propriedade. Afinal, Oliveira (1969) pondera da seguinte forma o conjunto da família, da propriedade e da tradição, em forma de pergunta-resposta:

84

Zanotto (2003) estuda, por um viés histórico, as idéias anti-reformistas de Plínio Correa de Oliveira; Medeiros (2004) faz um estudo sobre o Fórum Social Mundial e a TFP (Tradição, Família, Propriedade), por meio de duas revistas de divulgação: Caros Amigos e Catolicismo. Este trabalho é importante porque estuda conceitos operados pela TFP.

1 – Não é injusto que uns se tornem proprietários, enquanto outros, por doença, infortúnio ou preguiça, não conseguem para si tal resultado?

Seria o mesmo que perguntar se não é injusto haver gente que goze saúde, passeie ou viaje, enquanto outros, por doença, infortúnio ou preguiça, não podem fazer o mesmo. Aos que estão em situação de inferioridade, ajuda-se. Porém não se corta o curso normal das coisas por causa de situações anormais, culposas ou não.

Esses princípios, ou seja, a família, a propriedade e a tradição, então, são aceitos como naturais (“não se corta o curso normal das coisas por causa de situações anormais, culposas ou não”, afirma Oliveira), e não como relações de forças históricas e políticas.

No Brasil, não existiam família, tradição e propriedade até 1500, pelo menos é o que evidencia a seguinte fala da Frente Universitária Lepanto86:

O Brasil é um tesouro que recebemos de Deus, um precioso legado de nossos antepassados, que gloriosamente forjaram a estrutura religiosa-social-política-econômica de nossa Pátria, a qual se estende por quase 50% da América do Sul. Tesouro indissociável da civilização cristã e da Religião Católica, que professavam os bravos navegadores que aqui aportaram há 500 anos.

Seguiram-nos as figuras incomparáveis do Beato José de Anchieta, do Pe. Manoel da Nóbrega e de tantos outros luminares da fé e gigantes da dedicação, que outro intuito não possuíam senão o de, catequizando os pobres indígenas, livrá-los do extremo primitivismo e da inqualificável barbárie e decadência em que então jaziam.

86 Em Defesa da unidade nacional ameaçada pelo MST. Disponível em

O deputado citado por Carneiro da Cunha exige que se mostre o testamento de Adão, no trecho acima diz que Deus deu um presente aos antepassados do “nós”. Constatamos, pela referência que fizemos ao trabalho de Orlandi (1990), que o antepassado de “nós” é o europeu, não sendo o Brasil uma construção de uma história miscigenada. Os indígenas, para um tipo de discurso colonialista, são vistos como errantes: “que erra; erradio, vagabundo, errabundo, multívago” (Houaiss: 2005) que precisam encontrar o caminho da salvação, deixando o primitivismo, o barbarismo e a decadência.

7.2 DOMINAÇÃO E LIBERTAÇÃO: O DISCURSO COLONIZADOR

Benzer Belgeler