De forma conclusiva, a etapa a seguir constou de visitas a pontos, identifi- cados preliminarmente na etapa anterior, onde também foi elencado especialistas que seriam convidados a participar do processo de avaliação do Painel Delphi. Na sequência são citados os pontos visitados, as entrevistas realizadas e a forma como se deu a avalia- ção dos critérios de análise e a construção do Painel de Especialistas.
A segunda etapa da pesquisa foi iniciada comas visitas a pontos estratégicos da bacia estudada. Sua realização teve por objetivo visualizar in locu, as técnicas de aproveitamento das águas, a destinação de efluentes e possíveis impactos advindos des- tas práticas, parcialmente já identificadas na pesquisa preliminar. A realização das en- trevistas com parte dos gestores visou enriquecer as informações já obtidas até então, além de melhor conhecer os processos gestores na área de estudo. A Tabela 32 lista as entrevistas realizadas e os pontos visitados na bacia.
Tabela 32 – Entrevistas e visitas técnicas no rio Preto ENTREVISTAS
Nome Representação
Túlio Bahia IGAM – Gerente de Cobrança pelo Uso das Águas
Célia Fröes IGAM – Gerente de Planejamento de Recur- sos Hídricos
Solange Monteiro SAAE – Bióloga responsável pela ETA/ETE em Unaí-MG
Murilo Vilela UHE/Queimado – Engenheiro Ambiental
Roberto Augusto Duarte IBGE – Engenheiro Agrônomo
Irmo Casavechia Sindicato dos Produtores Rurais de Unaí VISITAS TÉCNICAS
Pontos Localização
Estações de Tratamento de Água e de
Esgoto Unaí-MG – Médio rio Preto
Nascentes do rio Preto e lagoa Feia Formosa-GO – Alto rio Preto
PAD/DF BR-251 – Médio/Alto Curso
Lixão de Unaí Zona rural de Unaí-MG– Médio Curso
SILVA, L. M. (org.).
Na escolha dos entrevistados buscou-se nomes de especialistas que, institu- cionalmente, estivessem ligados à área de estudo, seja pela aplicação de instrumentos gestores, seja pelo domínio das questões teóricas abordadas pela pesquisa. A entrevista
com o membro do sindicato rural de Unaí, maior município dentro da bacia, visou re- presentar os usuários agrícolas organizados em sindicatos.
Para a concepção da proposta de indicadores, como suporte à gestão de ba- cias, um Painel de Especialistas foi consultado por meio da Técnica Delphi. A técnica permitiu a apresentação e avaliação do Quadro Multicritérios por parte dos especialistas, a fim de fundamentar a análise socioambiental e a construção de um painel de indicado- res ambientais para bacias hidrográficas agrícolas.
A técnica emprega o sistema Ad hoc27 de questionamento sequencial, pro- vavelmente, um dos mais antigos sistemas de consulta e análise conjunta de um grupo de participantes. São painéis e reuniões de especialistas, desenvolvidas para serem em- pregadas quando o tempo é escasso e há carência de dados. Baseia-se na opinião de que é melhor tomar uma decisão à luz das previsões de um grupo de especialistas qualifica- dos do que o fazer levando em conta apenas razões ou motivos parciais (TOMMASI, 1994).
Inicialmente utilizada pela instituição norte-americana Rand Coorporation nos anos 50, em caráter estratégico, a técnica Delphi se tornou anos mais tarde uma das mais usuais formas de previsões tecnológicas e de planejamento corporativo. Atual- mente é definida como uma técnica para estruturar o processo de comunicação em gru- po de forma que esse processo seja efetivo e permita que os integrantes, como um todo, lidem com um problema complexo.
O Delphi é uma das poucas técnicas científicas que permite analisar dados qualitativos. Trata-se de uma forma de tratamento de informações que permite descobrir as opiniões de especialistas e agrupá-las em um objetivo comum – denominado de Pai- nel Delphi (GAVEA, 2010). Segundo PIVELLO (1998), as vantagens da técnica são o baixo custo, o anonimato que pode ser mantido entre as pessoas consultadas, a reunião de opiniões divergentes e a possibilidade de realizar análises. A maior crítica é devido à sua subjetividade, conferida pela dependência da qualidade da coordenação, do critério de escolha das pessoas consultadas e de suas características pessoais.
SANTOS (1995) propõe os seguintes cuidados na aplicação da técnica: as questões devem ser objetivas; o consultado deve ser bem informado sobre perguntas e objetivos a serem discutidos; devem-se garantir respostas curtas, se possível na forma
27Termo de origem latina que, em sua tradução literal significa “para fim específico”. Aplicado à pes- quisa, é um sistema de organização em rede que possibilita que um ponto, comum a seus membros, co- munique e organize informações.
de árvore dicotômica; as questões devem ser organizadas de forma a facilitar a organi- zação de um banco de respostas; a linguagem deve ser acessível; devem-se criar meios para garantir a devolução dos questionários; deve-se garantir um percentual representa- tivo de cada grupo envolvido (para representar as diversas opiniões ou interesses); deve- se garantir o anonimato dos consultados; e deve-se decidir previamente a proporção de consenso desejado.
O método se distingue, essencialmente, por três características básicas, o anonimato, a interação com “feedback” controlado e as respostas estatísticas do grupo. A fim de obter um bom resultado final na pesquisa, adota as seguintes características principais: utilização de um painel de peritos para obter o conhecimento; os participan- tes não terem confrontação frente a frente; a garantia de anonimato e; o uso de ferra- mentas de estatísticas simples para identificar padrões de acordo (ROWE & WRIGHT, 1999).
Para o objetivo dessa pesquisa, foi apresentada aos participantes28 uma série de critérios específicos de gestão das águas em bacias agrícolas fundamentados no mar- co teórico previamente traçado29. Cada especialista foi convidado, individualmente, para ordenar os diferentes níveis de critérios, quanto à sua importância na análise de bacias agrícolas, atinando para futuras contribuições das informações, resultantes do quadro, para a operacionalização, legal e institucional, de instrumentos gestores das águas pre- sentes na Política Nacional de Recursos Hídricos.
A definição dos participantes da Técnica Delphi foi dada pela formação acadêmica e experiência profissional em temas afins à gestão de recursos hídricos. Den- tre os 88 nomes inicialmente elencados e convidados a participar da avaliação, 39 efeti- vamente participaram, representando seis Unidades da Federação (Tabela 33).
28 Inicialmente foram convidados a participar da construção do Painel de Especialista todos os especialis- tas de instituições federais e estaduais que, supostamente, atuem na área de estudo, ou mesmo tivessem experiência no trato com os processos gestores das águas.
Tabela 33 – Distribuição dos participantes da Técnica Delphi
Unidades da Federação Nº Absoluto Percentual (%)
RJ 2 5,1 MG 19 48,6 DF 11 28,2 GO 2 5,3 SP 2 5,3 RS 3 7,5 Total 39 100 SILVA, L. M. (org.).
Pela especificidade dos critérios analisados, quase sempre exigindo do espe- cialista uma visão integral da bacia hidrográfica, entendeu-se que seria importante con- tar com um número considerável de participantes que, de fato, tivessem algum conhe- cimento ou ligação aos processos de gestão das águas na bacia do rio Preto. Dentre os participantes, 17% não tinham conhecimentos, estudos ou ligações institucionais com a bacia. Estes contaram somente com informações fornecidas ao longo do processo. Os participantes foram importantes na avaliação dos critérios sugeridos, pois trouxeram su- gestões e modificações ao quadro de multicriterial inicialmente apresentado, fruto das experiências desses especialistas nos processos de gestão das águas.
Em termos de formação acadêmica e qualificação, o perfil dos participantes, como se preconizava, foi bem diversificado (Tabela 34). Contou-se com a participação de membros de órgãos colegiados, comitês, pesquisadores e gestores institucionaliza- dos, dentre outros. As discussões e sugestões contaram com profissionais de diferentes formações, destacando-se os engenheiros, geógrafos e agrônomos. Em termos de quali- ficação, cerca de 66% dos participantes possuem nível de mestrado, doutorado ou pós- doutorado.
Tabela 34 – Formação e qualificação dos profissionais participantes
Formação Qualificação
Área Nº Percentual Nível Nº Percentual Engenharia 13 33,3 Pós-Doutorado 3 7,8 Geografia 9 23,3 Doutorado 19 48,7 Agronomia 8 20,5 Mestrado 4 10,2 Biologia 3 7,6 Especialização 8 20,5 Outras 6 15,3 Graduação 5 12,8 Total 33 100 Total 39 100 SILVA, L. M. (org.).
Os especialistas participantes representaram diferentes organizações. Os professores universitários representaram 48%, os membros de instituições federais e estaduais 39%, representantes de comitês de bacia hidrográfica 13% do montante total.
O quadro multicriterial foi encaminhado via e-mail e/ou correio aos partici- pantes tidos como atuantes no processo de gestão que envolve a área de estudo. Toda a técnica, conceitos empregados e material utilizado foram anteriormente explicados. Os participantes foram acompanhados permanentemente durante todo o processo de avalia- ção, a fim de integrar informações e esclarecer dúvidas surgidas ao longo do processo.
O estudo a partir da Técnica Delphi foi encaminhado em etapas. Em cada uma das etapas os especialistas responderam e estabeleceram certa ordem em suas pro- posições, acrescentando novas proposições, sempre comunicadas ao grupo.
Tão logo foram agregados, os resultados obtidos foram entregues nova- mente aos especialistas para que reformulassem e/ou reconsiderassem suas proposições. De acordo com o grau de consenso do grupo foram validados os critérios. Em outras palavras, se houver grande discrepância entre a opinião individual e a do grupo, o nível de consenso será baixo e refletirá na aprovação ou não do referido critério.
Ao término da rodada, foi encaminhado o resultado final ao grupo para a va- lidação e possíveis contribuições para a seleção dos critérios de maior relevância. Como resultado, foram identificados os indicadores que, com suas respectivas unidades de mensuração, compuseram o Painel de Especialistas. De forma simplificada, a Figura 19, ilustra como se processou a construção do Painel por intermédio do Delphi.
Foi solicitado aos participantes que avaliassem uma lista de critérios de aná- lise, por meio de quatro opções de julgamento, segundo os graus de importância por eles atribuídos. Nesse intuito, no final do processo os especialistas tiveram que selecionar, dentre os critérios consolidados pelo grupo, os que teriam importância na gestão de ba- cias, cuja configuração espacial, abrangesse diferentes níveis de governabilidade.
Os critérios de análise foram avaliados segundo sua importância e respec- tivo peso na composição final do Painel de Especialistas. A Tabela 35 ilustra a equi- valência entre importância do critério para o especialista e seu peso no processo de ava- liação e composição do painel.
Figura 19 – Validação de Indicadores pela Técnica Delphi Fonte: Adaptado de GAVEA (2010) e ROWE & WRIGHT (1999).
Tabela 35 – Equivalência entre importância e peso na seleção de critérios análise
P es o Importância P es o Objetividade da Avaliação 0 O critério não é importante e
não deve ser considerado.
0 A avaliação é completamente subjetiva, impedindo que o critério seja considera- do.
1 O critério é pouco importante. 1 A avaliação é pouco objetiva. 2 O critério é razoavelmente im-
portante.
2 A avaliação é razoavelmente objetiva.
3 O critério é muito importante. 3 A avaliação é bastante objetiva. SILVA, L. M. (org.).
Construção e/ou Seleção do Indicador
Análise das respostas
Atingiu-se Consenso?
Sim Não
Tratamento das Respostas e Troca de Informações com o Grupo
Recompilação e Publicização dos Resultados Finais
Reestruturação – Agregação e Des- carte dos Indicadores de Menor Im-
Tendo em vista a aplicação do critério, a disponibilidade de dados, o mo- nitoramento, a viabilidade financeira e institucional, demais meios logísticos necessá- rios e a realidade a que se aplica, os especialistas deveriam ordenar os critérios como prioritários. Para a seleção dos critérios/indicadores foi estabelecida uma forma de tra- tamento dos resultados que, basicamente, se fundamentou no cruzamento da importân- cia do critério/indicador, dada pelo especialista, e o nível de objetividade de sua atribui- ção. A Tabela 36 apresenta a forma de ponderação utilizada no processo de seleção dos indicadores.
Tabela 36 – Pesos no tratamento dos resultados e na seleção de critérios
Importância do Indicador 0 1 2 3 Objetividade da Avaliação 0 0 0 0 0 1 0 1 2 3 2 0 2 3 4 3 0 3 4 5 SILVA, L. M. (org.).
A forma de cruzamento de informações permitiu, seguindo as considerações dos especialistas, selecionar apenas os critérios/indicadores com maior peso, tanto no que se refere à sua importância ou prioridade, como no que se refere ao seu nível de objetividade.
Por meio de tratamento estatístico básico os resultados foram obtidos e dis- cutidos. Os resultados finais foram comparados com os anseios e necessidades dos usu- ários, gestores através das entrevistas e análise das atas dos comitês atuantes na bacia, CBH-Paracatu e CBH-rio Preto.
Os critérios, de maior importância (peso) e objetividade, embasaram a es- truturação do Painel de Indicadores que, sob a perspectiva da análise multicriterial e de agregação de informações, sintetizou critérios e objetivos na gestão das águas. Critérios que obtiveram maior nível de aceitabilidade, com valorização acima de 70%, ou seja, avaliados em importantes e razoavelmente importantes, foram selecionados para com- por a descrição do Painel de Indicadores, já os avaliados como de pouca ou nenhuma importância, com aceitabilidade inferior a 70%, foram descartados. O painel de indica-
dores resultante norteou as discussões sobre o caso da bacia do rio Preto, assim como a apresentação final dos resultados propostos pela pesquisa.
Essa etapa complementou as informações adquiridas e, de forma preliminar, serviram de suporte à análise ambiental e à construção do diagnóstico da bacia. Nesse sentido, foram elencados como materiais de pesquisa: dados institucionais e estudos acadêmicos quanto à aplicação dos instrumentos e gestão das águas; registros do- cumentais – as legislações federal, estaduais e municipais (co)relacionadas à gestão e às questões ambientais que envolvem o uso agrícola das águas; estudos técnicos presentes nos domínios espaciais da bacia do rio Preto; material cartográfico – mapa hidrográfico, geológico, geomorfológico e pedológico; entrevistas e relatos de atores, gestores e usuá- rios; dados estatísticos e fotográfico, obtidos pelo Quadro de Multicritérios e pelas visi- tas técnicas; gráficos resultantes das informações obtidas através da aplicação do Painel de Indicadores para Bacias Hidrográficas Agrícolas.
Os materiais de pesquisa citados totalizaram e deram sustentação teórico- empírica para o desenvolvimento dos processos metodológicos, descritos anteriormente, bem como possibilitaram a discussão da problemática previamente levantada. A experi- ência dos especialistas no Painel Delphi tornou possível a avaliação dos critérios de análises sugeridos, e fundamentou a construção do Painel de Indicadores ambientais, assim como a proposta de aplicação de indicadores como suporte à gestão das águas.