Os obstáculos mais latentes ao acesso à Justiça remontam à ordem econômico- financeira. A ordem econômica brasileira denota uma grande diferença na distribuição das riquezas onde poucos são os detentores da maior parte dos recursos, e muitos são os que vivem abaixo da linha da pobreza.
Nesta senda, bem destaca Boaventura de Sousa Santos207 que a problemática sobre o acesso à Justiça perpassa não apenas às dificuldades econômicas, mas sim, permeiam ainda limitações de ordem social e cultural, denotando não só os poucos recursos financeiros que dispõem os mais pobres, mas também, o desconhecimento de seus direitos, a falta de acesso a advogados, a distância aos fóruns, dentre outros fatores.
Ivan Lira de Carvalho208 bem destaca os obstáculos econômicos, enfatizando:
Com efeito, a movimentação da máquina judiciária é inexplicavelmente cara. A expressão inexplicavelmente é... explicável! Em um sistema processual deveras burocratizado, com a supremacia dos atos assentados em papel, o Judiciário brasileiro em nada difere, por exemplo, do seu congênere Executivo: monopólio estatal para a atividade de ambos; servidores com remuneração incompatível com as suas responsabilidades e permanentemente atravessando deficiência de treinamento, só para exemplificar as mazelas que atingem aos dois. Só que a prestação das atividades que estão a cargo do Executivo (educação e transporte, v.g.) sai infinitamente mais barata para o particular do que o ingresso em juízo para a realização de uma simples cobrança ou para a expedição de um mero alvará. Os fatos – como las cartas - não mentem jamais! Custas, honorários advocatícios e outras despesas fazem a diferença.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE209, no seu último censo
demográfico, em 2010, tendo estabelecido como mediana quanto aos rendimentos das famílias brasileiras a importância de R$ 465,00 (Quatrocentos e sessenta e cinco reais), e 28,2% dos arranjos familiares estavam abaixo deste limite. Os valores dos rendimentos medianos nas Regiões Nordeste e Sudeste são bastante desiguais: R$ 277,00 (duzentos e setenta e sete reais) contra R$ 533,00 (quinhentos e trinta e três reais)210.
Ainda tomando-se como diapasão o censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, do conjunto de famílias brasileiras, mais de 75%, alegou ter algum
207 SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice – O social e o Político na pós-modernidade. 6ª Ed. São Paulo: Editora Cortez, 1999, p. 170.
208 CARVALHO, Ivan Lira de. A internet e o acesso à justiça. 2008. Artigo consultado no site www.gontijo- familia.adv.br, em 07 de setembro de 2011.
209 Consulta no site www.ibge.gov.br/censo2010, em 26 de maio de 2011.
210 Dados obtidos mediante análise da síntese dos indicadores sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, ano 2010, disponível no site www.ibge.gov.br/censo2010, acessado em 26 de maio de 2011.
nível de dificuldade, conquanto próximo de 25% informaram ter facilidade em sobreviver com a renda que percebiam, dos quais, no conjunto de famílias que alegaram ter muita dificuldade, 64,2% viviam com até três salários mínimos de renda mensal familiar, o que demonstra, de fato, que aquelas com menores níveis de renda são as que mais alegaram ou que tiveram maior percepção das dificuldades em chegar ao fim do mês com tal patamar de renda.
As desigualdades na distribuição da renda, apesar de ainda muito presentes no Brasil, têm mostrado uma tendência de redução que vem se consolidando, sendo dados do censo 2010. Ao calcular a razão entre a renda familiar per capita dos 20% mais ricos em relação aos 20% mais pobres para o período de 2001 a 2009, a razão passa de 24,3% para 17,8%, representando um ganho de mais de 6 pontos percentuais na redução da desigualdade na distribuição das riquezas.
A expansão recente de programas de transferência de renda focalizados na população mais pobre, como o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social – Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS), entre outros programas assistenciais de âmbitos estadual e municipal, vem contribuindo para uma redistribuição interna entre as diversas partes componentes do rendimento familiar total. Passou-se a observar, um aumento significativo das chamadas ―outras fontes‖ em detrimento dos rendimentos de trabalho e de aposentadoria e pensões. Para o total das famílias, os rendimentos de ―outras fontes‖ representavam 5,0% do total de rendimento familiar; os rendimentos do trabalho correspondiam a 76,2%; e os rendimentos de aposentadoria e pensão, a 18,8%. Para as famílias com rendimento familiar per capita de até ¼ de salário mínimo, os rendimentos de ―outras fontes‖ representavam 28,0%, em 2009, do total da renda familiar, ao passo que, em 1999, essa participação era de apenas 4,4%.
Mesmo diante de um ―progresso‖ na distribuição das riquezas, o nível salarial da região Nordeste ainda é de menos da metade do salário mínimo, tornando claro o obstáculo econômico ao acesso à Justiça.
O primeiro obstáculo de ordem econômica remonta-se às custas processuais e como bem orientam Mauro Cappelletti e Bryant Garth211:
A resolução formal de litígios, particularmente nos tribunais, é muito dispendiosa na maior parte das sociedades modernas. Se é certo que o Estado paga os salários dos juízes e do pessoal auxiliar e proporciona prédios e outros recursos necessários aos
211 CAPPELLETTI, Mauro e GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Trad. Ellen Gracie Northfleet. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1988, p. 15.
julgamentos, os litigantes precisam suportar a grande proporção dos demais custos necessários à solução de uma lide, incluindo os honorários advocatícios e algumas custas judiciais.
As custas envolvem não só as despesas processuais, mas também honorários advocatícios e periciais, bem como produção de outras eventuais provas212.
Mas os altos custos também agem como uma barreira poderosa sob o sistema, mais amplamente difundido, que impõem ao vencido os ônus da sucumbência. Nesse caso, a menos que o litigante em potencial esteja certo de vencer – o que é de fato extremamente raro, dadas as normais incertezas do processo – ele deve enfrentar um risco ainda maior do que o verificado. A penalidade para o vencido em países que adotam a sucumbência é aproximadamente duas vezes maior – ele pagará os custos de ambas as partes213.
O alto custo do processo como óbice ao acesso à Justiça atinge sobretudo as classes economicamente menos favorecidas, sendo que a primeira onda renovatória de Mauro Cappelletti e Bryant Garth, tentou identificar esta problemática, ofertando soluções pontuais à sua resolução.
A Constituição Federal de 1988, com o fim de facilitar o acesso à Justiça, determinou em seu artigo 5º, inciso LXXIV esculpido como direito fundamental que “o Estado prestará
assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos”.
212 A título ilustrativo, cumpre informar que no Estado do Rio Grande do Norte, para se ingressar com uma demanda simples, as custas iniciais nas causas até R$ 3.000,00 (Três mil reais) giram em torno de R$ 68,20 (Sessenta e oito reais e vinte centavos), no vizinho Estado do Ceará nas causas que variam entre R$ 50,00 (Cinquenta reais) e R$ 4.200,00 (Quatro mil e duzentos reais) as custas iniciais variam entre R$ 24,84 (Vinte e quatro reais e oitenta e quatro centavos) e R$ 610,99 (Seiscentos e dez reais e noventa e nove centavos), informações obtidas nos sites www.tjrn.jus.br e www.tjce.jus.br, acessados em 26 de maio de 2011.
213 A sucumbência encontra previsão no artigo 20 do Código de Processo Civil, cujo dispositivo delimita critérios para fixação dos honorários advocatícios, bem como, as despesas que devem ser custeadas pelas partes, mormente a vencida.
Art. 20. A sentença condenará o vencido a pagar ao vencedor as despesas que antecipou e os honorários advocatícios. Esta verba honorária será devida, também, nos casos em que o advogado funcionar em causa própria. (Redação dada pela Lei nº 6.355, de 1076)
§ 1º O juiz, ao decidir qualquer incidente ou recurso, condenará nas despesas o vencido. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1.10.1973)
§ 2º As despesas abrangem não só as custas dos atos do processo, como também a indenização de viagem, diária de testemunha e remuneração do assistente técnico. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1.10.1973)
§ 3º Os honorários serão fixados entre o mínimo de dez por cento (10%) e o máximo de vinte por cento (20%) sobre o valor da condenação, atendidos: (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1.10.1973)
a) o grau de zelo do profissional; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1.10.1973) b) o lugar de prestação do serviço; (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1.10.1973)
c) a natureza e importância da causa, o trabalho realizado pelo advogado e o tempo exigido para o seu serviço. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1.10.1973). Consulta realizada no site www.planalto.gov.br, em 26 de maio de 2011.
José Carlos Barbosa Moreira214, grande mestre processualista, ao discorrer sobre o acesso à Justiça de forma integral, afirma:
A grande novidade trazida pela Carta de 1988 consiste em que, para ambas as ordens de providências, o campo de atuação já não se delimita em função do atributo ―judiciário‖, mas passa a compreender tudo que seja ―jurídico‖. A mudança do adjetivo qualificador da ―assistência‖, reforçada pelo acréscimo ―integral‖, importa notável ampliação do universo que se quer cobrir. Os necessitados fazem jus agora à dispensa de pagamentos e à prestação de serviços não apenas na esfera judicial, mas em todo o campo dos atos jurídicos. Incluem-se também na franquia: a instauração e movimentação de processos administrativos, perante quaisquer órgãos públicos, em todos os níveis; os atos notariais e quaisquer outros de natureza jurídica, praticados extrajudicialmente; a prestação de serviços de consultoria, ou seja, de informação e aconselhamento em assuntos jurídicos.
Prudente ainda, destacar a diferença havida entre assistência jurídica, assistência judiciária e justiça gratuita.
A assistência judiciária consiste em um benefício estatal, na qual será exercida defesa técnica gratuita dos interesses da pessoa assistida perante o Poder Judiciário. Apesar de oferecido pelo Estado, tal serviço pode ser exercido por particulares, desde que em convênio com o Poder Público ou por determinação judicial. Já a assistência jurídica integral abrange não só o patrocínio judicial como também o extrajudicial. Isto é, através deste benefício, o Estado é incumbido não apenas de propiciar a defesa gratuita em juízo, como também prestar- lhe orientação jurídica gratuita e assistência extrajudicial.
O benefício da assistência jurídica, portanto, é mais amplo que o da assistência judiciária, sendo, destarte, o gênero. De seu turno, a justiça gratuita implica a gratuidade de custas e despesas, tanto judiciais, como extrajudiciais, atinentes a um processo judicial215.
Neste sentido, destaque-se ainda a Lei nº 1.060/50216, que dispõe sobre a gratuidade
judiciária, sendo esta conferida a todas as pessoas que são ditas pobres na acepção legal, que
214 MOREIRA, José Carlos Barbosa. O direito a assistência jurídica: Evolução no ordenamento de nosso tempo. Revista AJURIS n° 55, Porto Alegre: AJURIS, 1998, p. 72.
215 DIDIER JÚNIOR, Fredie e OLIVEIRA, Rafael. Benefício da justiça gratuita. 4a Ed. Salvador: Juspodivm, 2010, P. 15.
216Art. 2º. Gozarão dos benefícios desta Lei os nacionais ou estrangeiros residentes no país, que necessitarem recorrer à Justiça penal, civil, militar ou do trabalho.
Parágrafo único. - Considera-se necessitado, para os fins legais, todo aquele cuja situação econômica não lhe permita pagar as custas do processo e os honorários de advogado, sem prejuízo do sustento próprio ou da família.
Art. 3º. A assistência judiciária compreende as seguintes isenções: I - das taxas judiciárias e dos selos;
II - dos emolumentos e custas devidos aos Juízes, órgãos do Ministério Público e serventuários da justiça; III - das despesas com as publicações indispensáveis no jornal encarregado da divulgação dos atos oficiais; IV - das indenizações devidas às testemunhas que, quando empregados, receberão do empregador salário integral, como se em serviço estivessem, ressalvado o direito regressivo contra o poder público federal, no Distrito Federal e nos Territórios; ou contra o poder público estadual, nos Estados;
não tenham condições de custear despesas processuais em detrimento de sua subsistência ou de sua família.
Para Francisco Glauber Pessoa Alves217 “se existe um diploma normativo infraconstitucional no nosso direito que por excelência materializa a busca da igualdade entre os litigantes judiciais, sem dúvida é a Lei nº 1.060/50”.
Cumpre lembrar também, que as causas que envolvem pequenas quantias, além de poderem ser contempladas pela Lei nº 1.060/50, as ações poderão ser propostas nos Juizados Especiais Cíveis (Leis nº 9.099/95218 e 10.259/2001), cujas estas não preveem a cobrança de custas e emolumentos, exceto em fase recursal.
Deve-se ainda destacar o relevante papel da Defensoria Pública, como instituição imbuída de proporcionar aos hipossuficientes, ou seja, àqueles que não tem condições de contratar advogado, de ingressar com demanda em juízo, ou, comumente, tentar promover a solução do conflitos de forma extraprocessual.
Tenta-se, aos poucos, propiciar meios de redução ou isenção total destas custas, conferindo benefício direto aos mais humildes, sendo necessárias medidas que propiciem a isonomia material e não apenas formal de todas as pessoas, independentemente, de sua condição social e de sua capacidade econômica.
Cumpre ainda trazer a lume, como obstáculo de ordem econômica, a relativa autonomia financeira do Poder Judiciário, que consoante o artigo 99, § 1º da Constituição Federal219, o Judiciário no momento de optar e decidir suas prioridades de investimentos e gastos fica dependendo da aceitação do Executivo e do Legislativo220.
V - dos honorários de advogado e peritos.
VI – das despesas com a realização do exame de código genético – DNA que for requisitado pela autoridade judiciária nas ações de investigação de paternidade ou maternidade.(Incluído pela Lei nº 10.317, de 2001) Parágrafo único. A publicação de edital em jornal encarregado da divulgação de atos oficiais, na forma do inciso III, dispensa a publicação em outro jornal. (Incluído pela Lei nº 7.288, de 1984)
Art. 4º. A parte gozará dos benefícios da assistência judiciária, mediante simples afirmação, na própria petição inicial, de que não está em condições de pagar as custas do processo e os honorários de advogado, sem prejuízo próprio ou de sua família. (Redação dada pela Lei nº 7.510, de 1986). Consulta realizada no site www.planalto.gov.br, em 27 de maio de 2011.
217 ALVES, Francisco Glauber Pessoa. O princípio jurídico da igualdade e o direito processual civil. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2001, p. 47.
218 Art. 54. O acesso ao Juizado Especial independerá, em primeiro grau de jurisdição, do pagamento de custas, taxas ou despesas.
Parágrafo único. O preparo do recurso, na forma do § 1º do art. 42 desta Lei, compreenderá todas as despesas processuais, inclusive aquelas dispensadas em primeiro grau de jurisdição, ressalvada a hipótese de assistência judiciária gratuita.
Art. 1º São instituídos os Juizados Especiais Cíveis e Criminais da Justiça Federal, aos quais se aplica, no que não conflitar com esta Lei, o disposto na Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995. Consulta realizada no site www.planalto.gov.br, em 27 de maio de 2011.
Desta feita, o referido dispositivo não concede plena autonomia financeira ao Poder Judiciário, e conforme entendimento de José Cichocki Neto221, o Executivo e o Legislativo nem sempre são dotados de sensibilidade para as necessidades da Administração da Justiça, notadamente, em razão do fato de que a atividade judicante não ofereça retorno aos cofres públicos e nem dividendos políticos aos dirigentes do Poder.
Noutro pórtico, cumpre destacar que é possível verificar em certos Tribunais, a má administração das verbas destinadas, mediante a construção de fóruns ou tribunais suntuosos, destacando-se ainda a burocracia no trâmite processual.
Como forma de solucionar a extrema burocracia processual, a quantidade exorbitante de papéis, petições e documentos que instruem os fólios processuais, verifica-se um crescente movimento de virtualização da justiça, na qual, beneficia a agilização dos serviços.
Prudente ainda destacar medidas outras, com o propósito de conferir maior efetividade à atuação do Poder Judiciário, tais como: provimento dos cargos de servidores mediante concurso público, maior rigor na fiscalização dos serviços jurisdicionais, a conciliação como forma de solução dos conflitos, relatórios estatísticos demonstrando o crescente progresso nos números dos Tribunais.
Outrossim, as condições de trabalhos de alguns juízes e serventuários em certas comarcas são incompatíveis com a relevância social de suas funções, faltando-lhes equipamentos e materiais básicos para desempenharem seus serviços, utilizando-se de instalações inadequadas e precárias.
É possível encontrar, dentro de um mesmo Tribunal, prédios de fóruns suntuosos, repletos de adornos, e com o seu quadro funcional completo, e ao revés, prédios bastante depreciados, com pequeno número de serventuários, e dispondo de pouco material de expediente. Esta descrição reflete um pouco da realidade de pequenas comarcas, onde a estrutura é precária, formada por servidores comumente cedidos pela Prefeitura, pessoas com baixo preparo, e onde o material de expediente é escasso, sendo por muitas vezes adquiridos pelos próprios Juízes ou servidores.
§ 1º - Os tribunais elaborarão suas propostas orçamentárias dentro dos limites estipulados conjuntamente com os demais Poderes na lei de diretrizes orçamentárias. Consulta realizada no site www.planalto.gov.br, em 27 de maio de 2011.
220 Importante destacar o pontual entendimento de DUARTE NETO, Bento Herculano. Princípios do processo civil. Disponível no site www.videolivraria.com.br, acessado em 12 de junho de 2011 bem destaca, “Um Poder Judiciário que se ajoelhe perante o Poder Executivo, sendo este um poder político, não poderá ser o guardião dos direitos fundamentais dos cidadãos, ficando ele sujeito ao arbítrio e a injustiça”.
3.6.2 Obstáculos Sociais
A barreira social de acesso à Justiça é percebida, sobretudo, nas camadas mais pobres da sociedade, que em nosso país é a grande maioria da população, pois normalmente o grau de pobreza está atrelado ao grau de pouca educação e informação das pessoas.
Boaventura de Sousa Santos222 realiza uma análise do que ele denomina a Sociologia dos Tribunais e a Democratização da Justiça, enfatizando a difícil tarefa de se efetivar o acesso a uma ordem jurídica justa aos pobres, destacando:
Dois factores parecem explicar esta desconfiança ou esta resignação: por um lado, experiências anteriores com a justiça de que resultou uma alienação em relação ao mundo jurídico (uma reacção compreensível à luz dos estudos que revelam ser grande a diferença de qualidade entre os serviços advocatícios prestados às classes de maiores recursos e os prestados às classes de menores recursos); por outro lado, uma situação geral de dependência e de insegurança que produz o temor de represálias se se recorrer aos tribunais. Em terceiro e último lugar, verifica-se que o reconhecimento do problema como problema jurídico e o desejo de recorrer aos tribunais para resolver não são suficientes para que a iniciativa seja de facto tomada. Quanto mais baixo é o estrato sócio-económico do cidadão menos provável é que conheça advogado ou que tenha amigos que conheçam advogados, menos provável é que saiba onde, como e quando pode contactar o advogado e maior é a distância geográfica entre o lugar onde vive ou trabalha e a zona da cidade onde se encontram os escritórios de advocacia e os tribunais.
As pessoas economicamente desfavorecidas têm dificuldade em reconhecer os direitos tradicionais e os novos, e, quando os reconhecem, muitas vezes estão sem informação dos instrumentos para reivindicação, ou desacreditam no Judiciário como espaço para efetivação dos seus direitos – descrédito que se acentua principalmente quando a outra parte que as lesa são grandes conglomerados econômicos ou o próprio Estado na sua função administrativa ou legislativa.
Verificam-se litigantes habituais, mormente em demandas que envolvem direito do consumidor ou direito do trabalho, na qual, instituições financeiras, grandes empresas de departamento, planos de saúde, empresas de telefonia, dentre outras, simplesmente limitam os direitos dos cidadãos que, por vezes, preferem permanecer inertes, ao invés de litigar contra entes que possuem forte e preparada assessoria jurídica, com o escopo de enfrentá-los em verdadeira guerra judicial.
Aduz Mauro Vasni Paroski223:
221 CICHOCKI NETO, José. Limitações ao acesso à justiça. Ed. Curitiba: Juruá, 2008, p. 113.
222 SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice – O social e o Político na pós-modernidade. 6ª Ed. São Paulo: Editora Cortez, 1999, 170.
Reitere-se que a população pobre é a que mais sofre quando se torna necessária uma demanda como única opção que lhe resta para fazer valer seus direitos lesados ou ameaçados de lesão, o que mais se grava quando se trata de litigar contra grandes empresas e conglomerados financeiros, hipótese muito frequente no âmbito de direito do consumidor e direito do trabalho.
Esta omissão estatal não se coaduna com o Estado de Direito, que pressupõe o reconhecimento e a concretização do princípio da isonomia, expressamente declarado pela Constituição da República Brasileira, de modo que os pobres devem ter as mesmas oportunidades que os ricos para ingressarem em juízo postulando tutela jurisdicional aos seus direitos, o que importa em reconhecer a necessidade de adoção de medidas que garantam a