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Essa repercussão pautou o jornal, que fez um levantamento sobre o atendimento de saúde mental no país 8 anos após a Reforma Psiquiátrica. A notícia “Atendimento de saúde

mental é falho em 10 Estados e no DF” (ACAYABA; PICHONELLI; PINHO, 2009) e a sub: “Foco: Mãe afirma ficar perdida quando filha tem crise fora do ‘horário comercial’” (BEDINELLI, 2009) abordam a temática.

Segundo a matéria, a estrutura para substituir as internações é precária e 16 Estados ainda não possuíam o CAPs 3, que funciona 24h e serviria para o atendimento em caso de crises mais agudas e necessidade de internação. Os CAPs, aliás, só são considerados bons ou ótimos em 16 Estados e os leitos psiquiátricos foram reduzidos de 51 mil para 36 mil em sete anos. Eliza Zaneratto, do Conselho Federal de Psiquiatria, diz que o problema da reforma não está na lei, mas na implementação, que é muito ruim e faz as pessoas defenderem o antigo modelo, que se mostrou completamente ineficaz.

Na sub, o foco é no personagem e conta a história de Maria Regina Medeiros Logato e sua filha Natália, portadora de autismo. A mãe relata a última crise da filha, que ficou muito agressiva e, devido à falta de um CAPs 24h não tinha para onde levá-la. O surto foi controlado pela própria mãe depois que um remédio dado por ela fez efeito.

No dia seguinte, a história foi transformada em editorial pela Folha. No texto em que consta a opinião do diário, diz-se que foi o artigo de Ferreira Gullar que chamou atenção à questão da assistência à saúde mental. A notícia revela que a lei mudou os parâmetros para o atendimento aos portadores de transtornos mentais no país, mas

Embora a reforma seja meritória nos princípios, o problema de sua implantação foi ter feito diminuir os leitos em hospitais psiquiátricos sem que a rede de assistência ambulatorial - que cumpriria melhor a finalidade de reinserção social do paciente em seu meio- tivesse sido estabelecida em nível nacional. (ATENÇÃO..., 2009)

Na sequência repetem-se os dados do texto do dia anterior para corroborar essa opinião.

No dia 19, a questão da necessidade de internação é discutida por quem tem mais argumentos para opinar, o portador de transtorno mental. Em “Falta leito psiquiátrico na rede, diz escritor” (FALTA..., 2009), Jorge Cândido de Assis, vice-presidente da ABRE, é questionado sobre o atendimento psiquiátrico após a reforma. Assis afirma que ela trouxe experiências positivas como o CAPs, mas ainda há problemas e o principal deles é a falta de leitos para internação, que muitas vezes faz-se necessária.

Após a discussão, Gullar faz um novo artigo. “A sociedade sem traumas” (2009a) é uma repercussão de “Uma lei errada” e das discussões por ela gerada, sobre as quais o poeta afirma que as pessoas que com ele concordam, são em sua maioria, aqueles “que têm

experimentado na carne as consequências negativas de uma lei que, embora bem intencionada, em vez de ajudá-las, agrava-lhes o sofrimento.”

Gullar afirma que sua principal crítica à lei é em função dela condenar e inviabilizar a internação, que é sim necessária em casos de crises agudas, quando se torna praticamente impossível manter a pessoa em casa. Segundo ele, para qualquer doença a internação normal, exceto para a esquizofrenia, em que ela é vista como um atentado à liberdade da pessoa. Isso se dá uma vez que os antimanicomiais afirmam que a psicose não é uma doença, mas um transtorno psicológico, cujas causas estão fora do indivíduo, na família e na sociedade, que para ocultar sua culpa, os internam.

Enfim, a tese é essa: o que se chama de doença mental não passa de ‘transtornos’, que serão superados na medida em que ao paciente seja dado conviver com pessoas que o tratem como igual e respeitem sua individualidade. A lei não fala em doença mental. Superados os traumas do desajuste que lhe foi imposto pela família e pela sociedade, será reintegrado na vida normal. Mas em qual família e em qual sociedade? Aí está o problema, já que o tratamento teria que se estender à família e à sociedade. Como se vê, por teimarem em ignorar as verdadeiras causas da doença mental, os antimanicomiais defrontam-se com uma tarefa descomunal: criar a sociedade sem traumas! (GULLAR, 2009a)

Enquanto isso, se nega a condição do doente mental e suas chances de tratamento. Em “Os inumeráveis estados do ser” (2009c), o poeta volta a defender o internamento ao contar a história da psiquiatra Nise da Silveira e do portador de esquizofrenia Emygdio de Barros. Segundo Gullar, a doutora não aceitava o tratamento tradicional dispensado aos pacientes e, por isso, criou um ateliê de arte para permitir que eles se expressassem. Entre eles estava Barros que, após 23 anos de mudez, “encontrou na pintura o caminho para expressar suas potencialidades artísticas” (GULLAR, 2009c). Em função do preconceito, demorou para que a sociedade aceitasse aquilo como arte e não apenas uma expressão da loucura. Porém, o ateliê tornou-se um meio eficaz de auxiliar o tratamento e melhorar a qualidade de vida de pessoas como Barros, que ficou no hospital até os 80 anos, quando precisou ser transferido a um asilo de idosos.

Três meses após o primeiro artigo, Gullar retoma o tema em “Boas intenções não bastam” (2009b), no qual ressalta a importância de discutir o assunto, uma vez que todos se mostram preocupados em solucionar os problemas. Entretanto, ele rebate uma das sugestões recebidas para a questão da internação, que seria criar alas psiquiátricas em hospitais comuns, com objetivo de evitar o estigma contra o doente mental e sua família. Segundo ele, isso nada

mais seria do que fazer de conta que a doença mental não existe e o portador de esquizofrenia é apenas um dissidente, o que resultaria no mesmo preconceito. Ele defende que a doença mental é uma doença como outra qualquer e não pode ser motivo de vergonha ou preconceito.

Aliás, agora mesmo, a revista científica ‘Nature’ deu notícia do maior estudo já feito sobre a esquizofrenia, cuja conclusão é que a doença decorre de mutações genéticas, isto é, tem causas biológicas, como quaisquer outras. Logo, a tese embutida na nova lei brasileira, de que a causa da esquizofrenia está na sociedade, não tem fundamento algum. A doença torna-se um problema social e familiar, devido a sua especificidade, mas é efeito, consequência, não é causa. (GULLAR, 2009b)

Após reafirmar os transtornos mentais como uma doença de origem orgânica, ele retoma o exemplo de Emygdio de Barros e questiona o que seria dele se naquela época o período de internação fosse limitado em três meses:

Cabe, então, uma pergunta: o que teria acontecido com Emygdio se, naquela época, já vigorasse a lei de hoje, que inviabiliza as internações e, particularmente, as de longa duração? Filho de família paupérrima, do interior do Estado do Rio, teria certamente terminado na rua e morrido como mendigo. O que o salvou foi a internação no CPN do Engenho de Dentro. Dá para pensar, não?

O psicanalista italiano e colunista da Folha, Contardo Calligaris também entra na discussão por meio do artigo “Conversando com Ferreira Gullar” (2009a), no qual afirma que a lei é dificilmente discutível, uma vez que garante os direitos dos portadores de transtornos mentais, inclusive, ao melhor tratamento (sendo válido também a internação, quando os recursos extra-hospitalares tenham se mostrado insuficientes) e a reinserção social. Portanto, “o problema não é a lei, mas sua implementação em curso.”

O psicanalista concorda que o movimento antipsiquiátrico acarretou em uma negação da doença mental e afirma que:

Enfim, a implementação da reforma psiquiátrica mal começou. Concordo com Gullar: ela deve incluir a possibilidade de internação em hospital público - com uma transformação radical dos lugares de internação. Essa transformação é impossível sem fechar hospitais irrecuperáveis e, sobretudo, sem uma redefinição dos cuidados em saúde mental. (2009a)

O psicanalista, ainda que defenda a lei e a necessidade acabar com os velhos hospitais psiquiátricos, afirma que a implementação precisa ser melhorada, e a internação deve ser feita

no tempo necessário pelo paciente, porém, em hospitais com melhores condições de tratamento.

Portanto, como pode ser visto, após o texto-desabafo do poeta, a questão da saúde pública e o atendimento ao portador de saúde mental tornou-se o foco do jornal e de seus leitores, preocupados ora em defender ou atacar as opiniões de Gullar. De modo que esse processo tenha sido marcado pela dualidade, de um lado os personagens leigos, pessoas que cuidam e convivem com portadores de esquizofrenia, e de outro, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, defensores públicos, as populares autoridades, indivíduos que por seu conhecimento acadêmico sentem-se no direito de criticar o poeta por não ser ele também um especialista e por seu conhecimento prático estar longe daquilo que se discute no círculo científico e se acredita ser ideal de legitimidade.

Gullar não é um especialista em psiquiatria, mas é alguém cuja experiência deve ser considerada e valorada, uma vez que seu desabafo foi capaz de tocar o público e o jornal e causar discussão sobre a questão dos transtornos mentais. Algo que nenhuma notícia veiculada em Ciência e que retratava a fala e estudos de cientistas ou instituição consagradas foi capaz de fazer.

6.8 Sentidos, continuidades e contradições: o conteúdo e as imagens dos transtornos

Benzer Belgeler