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A construção e afirmação dos direitos humanos, de modo geral, possuem uma ligação muito próxima com os grandes acontecimentos históricos, desde conflitos a revoluções, como também das grandes invenções científicas e tecnológicas. Desta forma, por seu caráter histórico, os direitos humanos estão sempre em constante processo de transformação, incorporando novas demandas, direitos, e ampliando-se, mas, ao mesmo tempo, também sofrendo retrocessos.

A afirmação histórica dos direitos humanos como universais e naturais foi construída por meio do reconhecimento da dignidade humana17. “Os Direitos Humanos são naturais e

universais porque vinculados à natureza humana, mas são históricos no sentido de que mudaram ao longo do tempo, de que mudaram num mesmo país e é diferente o seu reconhecimento em países diferentes, num mesmo tempo [...]” (BENEVIDES, 1998a, p. 43). Nesta concepção, os direitos são, também, indivisíveis e interdependentes, porque um não se sustenta sem o outro.

De acordo com Benevides (2002), do ponto de vista histórico, há uma distinção já bem aceita dos direitos humanos, classificado em três gerações. No entanto, conforme bem esclarece Silva, H. (1995, p. 31), esse conjunto de gerações não possui o significado de superação. Mas, sim, a complementação da geração seguinte em relação à anterior, porque,

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Nas palavras de Benevides (2005, p. 12), “dignidade humana é a qualidade própria da espécie humana que confere a todos e a cada um o direito à realização plena como ser em permanente inacabamento, ao respeito a certos bens e valores (anunciados na Declaração Universal de 1948), em qualquer circunstância, mesmo quando não reconhecidos em leis e tratados. Dignidade é aquele valor sem preço! — que está encarnado em todo ser humano. Direito que lhe confere o direito ao respeito e à segurança — contra a opressão, o medo e a necessidade — com todas as exigências que, na atual etapa da humanidade, são cruciais para sua constante humanização. Como ensina Kant: as coisas têm preço; as pessoas, dignidade”. Para uma discussão sobre a compreensão de dignidade humana por meio do entendimento da pessoa humana e a afirmação de direitos universais, porque a ela inerentes, é preciso observar as fases históricas de elaboração do conceito de pessoa. A esse respeito, consultar: COMPARATO, F. K. A afirmação histórica dos direitos humanos. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2005. p.11-36.

enquanto produto histórico, “[...] os direitos humanos supõem uma ampla e sempre inconclusa tomada de consciência ante situações de injustiça [...]”.

A primeira geração de direitos humanos (liberdades individuais ou civis) foi consagrada nas várias constituições ocidentais no século XIX, como consequência das Declarações do fim do século XVIII, como a Declaração da Virgínia (USA – 1776)18 e a

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (França – 1789). A partir dos séculos XVI e XVII, foi sendo formulada a doutrina sobre os direitos naturais, preparando o terreno ideológico e político para a transição do feudalismo para a sociedade burguesa.

[…] constituem direitos individuais contra opressão do Estado, contra o absolutismo, as perseguições religiosas e políticas, contra o medo avassalador em uma época em que predominavam o arbítrio e a distinção em castas, em estamentos, mais do que em classes sociais. Trata-se das liberdades de locomoção, propriedade, segurança, acesso à justiça, associação, opinião e expressão, crença religiosa, integridade física […] (BENEVIDES, 2002, p. 127).

Contudo, conforme se lê em Dornelles (2006), os direitos reclamados atendiam, na verdade, às necessidades da classe que emergia naquele momento — a burguesia — no processo de constituição do mercado livre e, consequentemente, criavam as condições favoráveis à consolidação do modo da produção capitalista, sendo, por isso, fundamental a consolidação do Estado liberal e a regulamentação constitucional dos direitos dos indivíduos.

Comparato (2005) pontua, também, a relação entre as mudanças nos princípios básicos da ciência e das técnicas com as grandes etapas de construção dos direitos humanos.

Os primeiros setenta anos do século XIX foram marcados pela consolidação do Estado liberal e pelo acelerado desenvolvimento da economia industrial. A burguesia, ao se instalar no poder, abandonou os ideais revolucionários e passou a se sentir ameaçada por dois motivos: a ação restauradora dos antigos membros da aristocracia europeia e da ação de uma massa popular empobrecida e usurpada das conquistas alcançadas na luta contra o antigo regime, conforme se lê em Dornelles (2006).

É no contexto de luta contra o Absolutismo que nasce a segunda geração de direitos humanos, em consequência de uma nova etapa no estado de consciência sobre as necessidades básicas do ser humano, dadas pela Revolução Industrial. Foi a partir das transformações sociais e econômicas que surgiu uma nova classe social: a classe proletária.

18Segundo Comparato (2005), a Declaração da Virgínia constituiu o registro de nascimento dos direitos humanos

Conforme se lê em Dornelles (2006) se, para o povo, o direito à liberdade era uma conquista em relação ao sistema feudal que o prendia à terra ou aos estatutos de fidelidade aos seus senhores, para a burguesia, era fundamental a liberdade desse povo para vender a sua força de trabalho no mercado. Para a burguesia, era fundamental levantar a bandeira da liberdade de ir e vir, da liberdade de mercado destituída de tributos feudais e das ameaças da nobreza e do clero.

Para Dornelles (2006, p. 26), “[...] o fosso existente entre as declarações de igualdade de direitos, de liberdades para todos os seres humanos, e a realidade da vida dos trabalhadores questionava frontalmente os princípios liberais dos direitos humanos.”

A concepção liberal dos direitos humanos foi impetuosamente criticada pelo pensamento marxista. As lutas operárias populares que se seguiram colocavam a questão dos direitos sociais, econômicos e culturais em evidência, visto que as desigualdades sociais e a concentração de capital nas mãos de poucos revelavam insuficientes as interpretações liberais acerca dos direitos humanos, ditos como inerentes à natureza do ser humano, independentemente da sua condição social e da sua classe de origem (DORNELLES, 2005). Como ressalta Silva, H. (1995), diferentemente dos direitos de liberdade, os direitos sociais reivindicavam os meios para se tornarem efetivos. Portanto, se na concepção liberal cabe ao Estado a abstenção, relegando às pessoas a melhor maneira de exercerem seus direitos individuais, as lutas sociais reivindica a presença efetiva do Estado19. Desde aquele momento

histórico, o movimento operário demonstrou que apenas o reconhecimento simples de um direito inerente ao ser humano não garante o seu exercício efetivo por aqueles e aquelas que, na estrutura produtiva da sociedade regulada pelo mercado, se encontram numa posição subalterna, conforme explicita Dornelles (2006).

A segunda geração de direitos é correspondente à luta por

[...] aqueles direitos ligados ao mundo do trabalho, como o direito ao salário, jornada fixa, seguridade social, férias, previdência, etc. São também aqueles direitos que não estão vinculados ao mundo do trabalho, como direito ao salário — mais importante ainda — , porque são direitos de todos e não apenas daqueles que estão empregados. Trata-se dos direitos de caráter social mais geral, como o direito à educação, saúde, habitação, lazer e, novamente segurança. São direitos marcados pelas lutas dos trabalhadores já no século XIX e acentuadas no século XX, as lutas dos socialistas e da social democracia, que desembocaram em revoluções e no Estado de Bem-Estar Social. (BENEVIDES, 2002, p. 127).

19As reflexões desenvolvidas estão em consonância com a posição segundo a qual a superação da sociedade de

classes conduz ao desaparecimento do Estado. Conforme esclarece Saviani (1986), não se trata de destruir o Estado, pois ele simplesmente desaparecerá por não ser mais necessário.

Nas primeiras décadas do século XX, os direitos humanos de segunda geração foram incorporados à ordem jurídica de alguns Estados, e nas constituições mexicana (1917), russa (1918) e da República de Weimar, na Alemanha (1919). Além dessas constituições, a criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), pelo tratado de Versalhes (1919), contribuiu para a ampliação da realidade sócio-política e abrangência dos direitos humanos, que deixaram de ser entendidos apenas como direitos individuais e passaram a agregar o entendimento dos direitos coletivos de natureza social.

Ainda no século XX, após os grandes conflitos sociais, novas reivindicações sociais passam a fazer parte do cenário internacional e das sociedades contemporâneas. As condições para a ampliação dos direitos humanos surgiam por meio de novas contradições e confrontos que reclamavam respostas no sentido da garantia e proteção dos direitos civis e sociais, da vida e promoção do bem comum.

Surge então, a terceira geração de direitos humanos com dimensão internacional: a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e a Declaração Universal dos Povos de 1976. Essa terceira geração refere-se “[...] à defesa ecológica, à paz, ao desenvolvimento, à autodeterminação dos povos, à partilha do patrimônio científico, cultural e tecnológico.” (BENEVIDES, 2002, p. 127-128).

Dornelles (2006) menciona vários documentos internacionais, pactos e encontros sobre direitos humanos que foram acontecendo com o intuito de complementar, aprofundar e buscar caminhos jurídicos orientados à efetivação de determinados aspectos da Declaração Universal dos Direitos Humanos20.

Candau (1995) aponta, ainda, uma quarta geração de direitos humanos referente ao direito à vida em sua dimensão planetária, que inclui o direito à vida saudável em harmonia com a natureza, aos princípios ambientais e ao desenvolvimento sustentável, conforme posto na Declaração do Rio em 1992.

Em relação à primeira geração de direitos humanos, Marx (2005) e outros autores realizaram severas críticas à Declaração do Homem e do Cidadão, de 1789, por ela não garantir, na realidade, direitos iguais a todas as pessoas, pois apenas o burguês detinha as condições de ser cidadão ativo. O marxismo se opõe radicalmente à concepção liberal de

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Dentre outros, destaca-se: Convenção internacional sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial (1965); Pacto internacional dos direitos civis e políticos (1966); O pacto internacional de direitos econômicos, sociais e culturais (1966); A convenção americana sobre os direitos humanos (1969); Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher (1979); Convenção contra a tortura e outros tratamentos e penas crus, desumanos ou degradantes (1984); A convenção sobre os direitos da criança (1989); A declaração sobre a proteção de todas as pessoas contra desaparecimentos forçados (1992); Conferência mundial de direitos humanos em Viena (1993) e Convenção interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher (1994). A esse respeito, consultar: ALVES, J. A. L. A Arquitetura internacional dos direitos humanos. São Paulo: FTD, 1997.

direitos humanos. Em A questão judaica, Marx (2005) analisa a concepção de direitos humanos como sendo de caráter individualista-burguês, impregnada pela ideologia dominante. Dessa forma, a pretensão à universalidade desses direitos não afastaria a sua verdadeira natureza liberal-burguesa.

Marx enxerga uma separação entre o cidadão e o homem e, dentro desta, entre o seu aspecto civil e o seu aspecto político. A Declaração de 1789 não considera como autêntico e verdadeiro o homem enquanto cidadão, senão enquanto burguês. ‘O homem real só é reconhecido sob a forma de indivíduo egoísta, e o homem verdadeiro, somente sob forma do citoyen abstrato’ e, por isso, ‘os direitos humanos, ao contrário dos direitos dos cidadãos, são só direitos do membro da sociedade burguesa do homem egoísta, do homem separado do homem e da comunidade’ (PROGREBINSCHI, 2003, p. 133).

Para a área de tradição marxista, segundo Dornelles (2005), o Welfare State representou o cume que o capitalismo poderia atingir na garantia de direitos sociais e de uma igualdade relativa, na amenização da miséria. Para o autor, ao mesmo tempo em que afirma a garantia de direitos, o capitalismo, na prática, expropria as classes subalternas das condições do exercício da cidadania, submetendo-as como clientela do Sistema de Bem Estar.

No entanto, conforme discursa Wolkmer (2004), é possível vislumbrar uma filosofia humanista a partir dos escritos teóricos da fase juvenil de Marx, desde que se leve em consideração que seu intento é romper com a liberdade do mundo individualista defendido pelo pensamento liberal. Embora Marx faça crítica à Declaração francesa, de acordo com o autor, ele busca definir caminhos que conduzam à emancipação humana – o que revela a dimensão de humanismo em sua obra.

Ainda que Marx não tenha desenvolvido e sistematizado uma teoria geral do Direito, pode-se encontrar ao longo de algumas de suas obras (A questão

judaica, Crítica ao programa de Gotha e Ideologia alemã) subsídios para a

compreensão de suas idéias acerca dos direitos do homem, o direito como superestrutura ideológica do que seja justiça na sociedade.

[...] na obra A questão judaica, para além de uma crítica aos direitos humanos de natureza formal e liberal-individualista, cumpre destacar o significado de suas assertivas [...] possibilidade prática de um Direito social que contribua para superar as limitações da emancipação política no sentido de alcançar a emancipação humana efetiva. (WOLKMER, 2004, p. 15, grifos da autora).

Nesta perspectiva, Davidson e Weekley (2003) elucidam pontos de convergência entre as discussões da teoria de direitos humanos e da teoria de Gramsci. Os autores reiteram que o problema de Marx não era negar a natureza popular da Revolução Francesa, mas sugerir que

os direitos proclamados nada significavam além de estabelecer o direito do Estado de proteger e fazer cumprir os direitos privados, em particular os de propriedade e religião. Isto significava, na realidade, proteger e manter as desigualdades e contradições que estão escamoteadas na defesa das questões privadas da sociedade capitalista.

Os autores argumentam que Gramsci intensifica a crítica marxista à proteção dos direitos do indivíduo burguês egoísta e esclarecem que, dado os momentos históricos em que viveram e escreveram Marx e Gramsci, o clímax dos direitos humanos só podia ser o que fora conseguido na Revolução Francesa, estando assim, a Declaração limitada à igualdade civil e política. “Em síntese, hoje, nem Marx nem Gramsci bombardeariam o alvo com o mesmo tipo de crítica que usaram em 1843 ou 1919. Os direitos humanos, apesar dos seus problemas, não estão limitados às abstrações civis e políticas, tal como em 1789 ou até em 1919.” (DAVIDSON; WEEKLEY, 2003, p. 88). Isso porque, defendem os autores, os próprios direitos humanos foram transformados e ampliados para cobrir áreas sociais e econômicas, uma vez que a burguesia se tornou consciente das contradições e dos perigos que poderiam sobrevir a si mesma, em decorrência do que os direitos formais ocultavam. Por isso, a burguesia viu-se obrigada a ampliar as conquistas civis de 1789, incorporando os direitos econômicos, culturais e sociais no período posterior à Revolução Industrial, como estratégia de legitimação de sua hegemonia.

As críticas do pensamento socialista e as lutas operárias e populares colocaram como necessários os direitos econômicos, sociais e culturais. As situações de exploração e de intensas desigualdades sociais, somadas à concentração exacerbada do capital, tornaram insuficiente a interpretação liberal dos direitos humanos.

Conforme explicita Dornelles (2005), no decorrer do século XIX, em consequência das contradições do sistema capitalista, crescem as reivindicações do movimento operário e dos demais movimentos populares contra o abuso e a exploração da classe dominante. Neste período, os movimentos sociais passam a lutar pela materialização da liberdade de associação sindical, de participação política, exigindo a ampliação do Estado e a participação na esfera política, por meio da adoção do sufrágio universal (o voto feminino viria a ser conquistado muitos anos depois). Lutam, também, pela materialização dos direitos elencados formalmente em políticas públicas do Estado e pela socialização dos meios de produção. Data deste momento histórico o surgimento dos primeiros partidos políticos.

Ainda, sobre a universalidade e os paradoxos dos direitos humanos, Hunt (2009), em sua obra intitulada A invenção dos direitos humanos: uma história, traça a gênese e a prática dos direitos humanos, em especial na Europa e na América, por meio de três textos históricos: a Declaração da Independência dos Estados Unidos (1776); a Declaração dos Direitos do

Homem e do Cidadão, surgida da Revolução Francesa (1789) e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pelas Nações Unidas (1948). A autora utiliza conhecimentos das várias áreas da ciência, como a filosofia, a política, a história do cotidiano para mostrar os lentos avanços e os drásticos retrocessos dos direitos. Aborda, por exemplo, o paradoxo da convivência das primeiras declarações de direitos com a persistência da escravidão e a discriminação da mulher, bem como a tensão entre a pretendida universalidade dos direitos humanos e as práticas nacionalistas dos governos.

Thomas Jefferson (apud HUNT, 2009, p. 13), em 1776, no documento histórico de defesa dos direitos humanos declarava: “Consideramos estas verdades autoevidentes: que todos os homens são criados iguais, dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, entre estes estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade”. Por meio desta declaração, Thomas Jefferson participou da elaboração da Declaração do Homem e do Cidadão, de 1789, com atuação direta do marquês de Lafayette, seu amigo. A autora questiona como esses homens, oriundos de países escravocratas, podiam crer que pessoas diferentes deles pudessem ser representadas como iguais. Thomas Jefferson era escravocrata, e seu amigo um aristocrata, mas ambos proclamavam os direitos como autoevidentes e inalienáveis de todas as pessoas.

Hunt (2009, p. 19, grifos nossos) considera que a compreensão desta autoevidência está no centro dos debates a respeito dos direitos humanos atualmente, visto que se tornou muito mais fácil assimilar o fato destes serem, neste momento histórico, tidos como naturais, iguais e universais. Entretanto, conforme argumenta a autora:

Os direitos humanos só se tornam significativos quando ganham conteúdo

político. Não são os direitos de humanos num estado de natureza: são os

direitos humanos em sociedade. Não são apenas direitos humanos em oposição aos direitos divinos, ou direitos humanos em oposição aos direitos animais: são os direitos de humanos vis-à-vis uns e outros. São, portanto, direitos garantidos no mundo político secular (mesmo que chamados ‘sagrados’), e são direitos que requerem uma participação ativa daqueles que os detêm.

Dal Ri e Vieitez (2006, p. 9) argumentam sobre a intencionalidade do capital em reorganizar-se para manter a sua hegemonia seguindo um caminho distinto do que foi praticado no período de 1950 a 1970. Enfatizam que, “no âmago deste novo padrão de controle sobressai o empenho em (des)politizar a política, o empenho em fazer com que os antagonismos estruturais de classe não adquiram formas políticas, especialmente em âmbito nacional/internacional”. Para os autores,

A preservação da tecnologia republicana ou democrática de governo,

generalizada, o que solaparia seus próprios fundamentos políticos. Assim, é necessário que a realidade se apresente ao público, em especial às massas populares, como o seu inverso, ou seja, como politização ativa democrática. Dessa forma, os elementos democráticos presentes na república, a denominada democracia, são ao mesmo tempo degradados realmente e glorificados abstratamente, num processo fetichista de estatura mundial que se emparelha aos processos não menos fetichistas de endeusamento do dinheiro e dos mercados. (DAL RI; VIEITEZ, 2006, p. 9).

Partindo dessa compreensão, o capital também se apropria do discurso dos direitos humanos, de construção histórico-social de luta das classes dominadas, anunciando uma ética universal do ser humano, porém ocultando sua ética fundamentada na lógica do mercado capitalista.

Países capitalistas ditos democráticos se impõem, sob a bandeira dos direitos humanos, cada vez mais sobre outros países, por meio de forças de intervenção, como na antiga Iugoslávia e em partes da África, por exemplo. Acrescentam-se, também, a este cenário, as guerras ditas preventivas, como a do Iraque exterminando com a vida de milhões de pessoas. Em nome dos direitos humanos levanta-se, também, uma guerra contra o

terrorismo, na qual se perseguem mulçumanos e árabes, fazendo milhares de prisioneiros,

sem qualquer respeito à dignidade humana. Hobsbawm (2007, p. 14) destaca o contraste dramático entre as duas guerras mundiais e destas aos dias atuais: “apenas 5% dos que morreram na Primeira Guerra Mundial eram civis, na Segunda Guerra Mundial esse número subiu para 66%. Supõe-se geralmente que de 80% a 90% das pessoas afetadas pelas guerras atuais sejam civis.” Não obstante, além de mortes, as guerras produzem milhares de refugiados em vários países e outros, dentro dos próprios países combatidos.

Desde a queda do muro de Berlim, voltamos a viver em uma era de genocídio e de transferências compulsórias e maciças de populações, como as que ocorreram em regiões da África, do Sudeste da Europa e da Ásia. Estima-se que ao final de 2003 havia cerca de 38 milhões de refugiados, dentro e fora de seus países, cifra que é comparável ao vasto número de pessoas deslocadas ao final da Segunda Guerra Mundial. [...] A Guerra do Iraque confirma [...] guerras menores, nos padrões do século XX, provocam vastas catástrofes. (HOBSBAWM, 2007, p. 45).

Assim, pouco mais de sessenta anos depois da promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, os horrores das guerras continuam. As constantes violações de direitos humanos colocam em xeque, dentre outras coisas, a crença de que surgia naquele

Benzer Belgeler