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Uma das formas24 pela qual os institutos isolados se desenvolveram no interior do Estado foram as FFCLs tendo como referência a primeira FFCL criada na USP. Nessa universidade tal faculdade surge com a proposta de tornar-se um núcleo integrador das demais faculdades e institutos, no entanto, no interior do Estado essa faculdade aparece como uma instituição isolada, fragmentada. Dias (2004, p115-116) aponta o processo de diferenciação que veio ocorrer entre a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP e as Faculdades de Filosofia instaladas no interior.

O pioneirismo da FFCL da USP e o requinte que se tentou imprimir na sua fundação de modo a garantir a interação das partes num sistema organizado e mutuamente interrelacionado, tendo como base essa instituição, pode ter inspirado àquelas que surgiram no interior, mas na origem, só por estarem isoladas já tomavam elas, outra dimensão institucional. Um segundo fator de diferenciação diz respeito ao tipo de formação oferecida que, a partir de

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Um outro passo decisivo no processo de interiorização do ensino superior público, foi dado fora do sistema isolado, com a criação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, em 1962, que inicia suas atividades em 1966. Seu núcleo de origem foi a Faculdade de Medicina de Campinas, surgida em 1963, após longa campanha deflagrada por setores da sociedade local. 24

Também tiveram destaque no processo de interiorização do ensino superior as Faculdades de Farmácia e Odontologia como foram os casos das Faculdades de Araraquara, São José dos Campos e Piracicaba e a Faculdade de Odontologia de Bauru; as Faculdades de engenharia de Guaratinguetá, São Carlos; as Faculdades de Medicina e Ciências Médicas de Ribeirão Preto e Botucatu respectivamente e outras que foram criadas nas décadas de 1940 e 1950.

decisões institucionais tomadas, podia variar de especialistas e pesquisadores em ciências básicas, a profissionais liberais e professores.

O caráter individualizado desses institutos permitiu que cada uma dessas faculdades quando instaladas no interior tivesse suas próprias características, tanto na oferta de cursos, na organização acadêmica quanto em relação aos procedimentos administrativos.

Sobre as origens do modelo universitário adotado pela Universidade de São Paulo e depois difundido por todo o interior a pesquisadora Márcia Regina Dias Tosta em sua tese de doutoramento (2004) ao tratar do processo de criação da Universidade Estadual Paulista (UNESP) tomando como referencial para sua análise a gestão administrativa universitária e as transformações sofridas no ensino superior paulista faz a distinção entre os modelos institucionais de ensino superior existente.

Dias (2004), irá demonstrar quais modelos influenciaram o ensino superior em

nosso país modelos “clássicos” surgidos na Europa: o modelo institucional alemão e o

modelo institucional francês e, posteriormente o modelo reformado americano vieram a vigorar em nosso país: a escola isolada, as faculdades de filosofia ciências e letras e a universidade segundo Dias (2004), a cada um desses modelos correspondeu etapas e formas específicas de constituição de políticas públicas para do ensino superior em nosso país a partir de um conjunto de interesses e expectativas.

As duas tradições universitárias em questão difundiram-se entre nós a partir de dois formatos institucionais específicos: o formato isolado é associado à influência francesa, própria ao período bonapartista, e aquele referente à universidade como produto da reunião orgânica de diferentes faculdades e institutos, no qual a faculdade de filosofia, ciências e letras atua como núcleo congregador, articulador das atividades de ensino e de pesquisa, associa-se à influência alemã. (DIAS, 2004, p.20-25).

O primeiro modelo de ensino superior que veio a vigorar no Brasil e que se tornara marca importante do ensino superior foi o modelo francês25. Característica dessa política educacional para o ensino superior na França foi o fato de este assumir um caráter minimalista (desmonte das universidades e organização dos cursos superiores

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Dias (2004), irá ressaltar a condição um tanto quanto paradoxal, no fato de a corte portuguesa instalada no Brasil reproduzir não só um estilo de vida francês, mas principalmente as propostas educacionais de Napoleão Bonaparte elaboradas para o ensino superior. Simon Schawartzman (2001) ao investigar a formação da comunidade científica no Brasil nos dá uma pista sobre a grande influência que a cultura francesa teve em outros países. Segundo Schawartzman (2001, cap. 2, p.4) a França havia se tornado no início do século XVIII o grande centro irradiador da ciência internacional devido ao fato de ter havido ali um movimento cultural e intelectual em torno da ciência conhecido como Iluminismo as ideias fomentadas durante esse período de transformações sociais na França irão alcançar um grande número de países. Segundo Schawartzman o progresso alcançado pela ciência empírica viria provocar em toda a Europa.

em Academias) utilitário com a função de “[...] subsidiar o Estado e a sociedade pós-

revolucionária com quadros profissionais capacitados a restabelecer a ordem ao país; controlar politicamente a sua formação de acordo com a nova situação social; e impedir o surgimento de outras corporações profissionais”.

Sobre o modelo institucional alemão faz Faculdade de Filosofia (ou Educação) Ciências e Letras que passou a vigorar no país a partir da criação da Universidade do Distrito Federal e a Universidade de São Paulo a sua instituição está relacionada ao projeto de transformação do ensino superior, pois como já ressaltamos a universidade era nesse momento a representação das ideias de liberdade e cientificidade inovação desejada para o

país. Sua criação foi referendada pelo Estatuto das Universidades.

Dentre os vários aspectos contemplados nesse Estatuto – modelo único; a autonomia didática; atribuições e responsabilidades do reitor; a organização da

“comunidade acadêmica” e a criação da cátedra etc. - fato de grande importância foi a

possibilidade de inclusão de uma Faculdade de Educação Ciências e Letras na composição da unidade universitária:

Art. 5º A constituição de uma universidade brasileira deverá atender ás seguintes exigências: I - congregar em unidade universitária pelo menos três dos seguintes institutos do ensino superior: Faculdade de Direito, Faculdade de Medicina, Escola de Engenharia e Faculdade de Educação Ciências e Letras. [...]. (Decreto nº 19.851 de 11 de Abril de 1931)

A instalação de uma Faculdade de Filosofia tinha o propósito de constituir um centro de ligação entre os outros institutos escolas e faculdades além de funcionar como um órgão de alta cultura e ainda poderia se transformar em um instituto de Educação para a formação de professores para o ensino normal e secundário.

Segundo Dias (2004), esse novo modelo de universidade irá surgir a partir de 1808 na Universidade de Berlim, quando se deu a transferência da Universidade Real de Halle no ducado de Magdeboung, para Berlim. O território onde estava localizada a Universidade Real deveria ser entregue à França como exigência do tratado de Paz de Tilsitt26. O novo modelo de universidade deveria contemplar a formação científica objetiva e subjetiva tornando-se um espaço de produção do conhecimento científico de fato e, ainda contemplar o exercício da filosofia.

26 Tratado que estabelecia acordo de paz e coalização entre França Prússia e Rússia em 1807, após derrota do exército prussiano

liderado por Guilherme 3º rei da Prússia. Tilsit cidade localizada na Prússia (atualmente território pertencente à Rússia) e que, segundo esse tratado passaram a integrar o reino da Vestfália, governado pelo irmão de Napoleão Bonaparte.

O antigo modelo que estava em vigor com as faculdades de Teologia, Direito, Medicina e Filosofia deveria dar lugar a um novo modelo, pois se acreditava que por terem sido criadas pelo estado as faculdades de Teologia, Direito e Medicina permitiriam a presença e influencia do Estado. O novo modelo teria como núcleo agregador a faculdade de filosofia:

Seria não somente a primeira como também a soberana, na medida em que todos os membros da universidade teriam as suas raízes nela. O aluno ingressante não poderia dirigir-se desde logo às faculdades de áreas especializadas. Todos deveriam primeiramente frequentar a faculdade de filosofia, sobretudo no primeiro ano da vida universitária. Os professores, além dos vínculos que tivessem com suas áreas de especialidades, deveriam desenvolver projetos específicos na faculdade de filosofia. (DIAS, 2003, p.11).

Também Fernando de Azevedo um dos colaboradores do projeto de criação da USP irá se referir ao modelo universitário alemão, pois para Azevedo o ensino superior deveria se materializar nas universidades que seriam o centro agregador e produtor de conhecimentos. O empenho de Fernando de Azevedo na criação da faculdade de filosofia ciências e letras na USP irá lhe garantir a cadeira de Sociologia dessa instituição.

As FFCLs representaram um importante papel na formação principalmente dos quadros docentes para atuarem nas escolas de ensino secundário em todo o estado de São Paulo embora, tenha sido criada com a intenção de se transformar em um centro congregador das demais escolas e institutos propiciando uma formação mais humanística ao serem transportadas para o interior assumem um caráter distinto. Ainda sobre a instalação dessas faculdades no interior do estado Dias (2004), classifica-as como um modelo misto entre os institutos isolados herdado do modelo francês e o modelo alemão das faculdades de filosofia.

CAPÍTULO II - A FACULDADE DE FILOSOFIA CIÊNCIAS E LETRAS DE

Benzer Belgeler