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Como a maioria das cidades do interior do Nordeste, a cidade de Pau dos Ferros teve sua origem na circulação do capital mercantil, primeiro pela expansão da pecuária, através dos chamados caminhos do gado47; depois, com a expansão da produção algodoeira, que assume posição importante para a comercialização do algodão do Alto Oeste Potiguar, bem como de algumas cidades do interior da Paraíba, que atravessam a cidade em direção a Mossoró.

O povoamento do local que veio a ser a Sesmaria de Pau dos Ferros em 1733 teve inicio com uma trilha feita por vaqueiros e viajantes em busca de acesso à Província do Ceará, trilha essa que seguia um curso d’água sempre cheio no período do inverno (janeiro a junho) e que viria a ser denominado Rio Apodi. Segundo Barreto (1987), este território teria servido e se vinculado a essas trilhas que mais tardes seriam fundamentais para o transporte do algodão e de outras

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O gado foi “a matriz do sistema urbano potiguar e seus velhos caminhos as raízes das grandes regiões do Estado” (CLEMENTINO, 1995 p. 95).

mercadorias para o consumo, cujo destino eram os territórios de Mossoró, os sertões do Cariri, e Rio do Peixe, entre outros, o que possibilitou a formação embrionária de uma economia mercantilista que mantém certo crescimento mesmo depois do ciclo do algodão.

De acordo com Barreto (1987, p. 97),

À medida que o povoado se desenvolvia, o comércio passou a atrair pessoas de outras cidades do seu entorno, em especial das serras de Portalegre, Martins, Luís Gomes e São Miguel, que se deslocavam uma vez por semana para comercializar gêneros alimentícios e comprar itens que lhe faltavam, como fumo, tecidos, ferramentas, alimentos dentre outros.

Clementino (2010) destaca que foi exatamente depois da grande seca (1877- 1888) que o cultivo do algodão se expandiu pelo sertão, tornando-se no final do século XIX o primeiro produto de exportação do Rio Grande do Norte.

A região onde hoje se localiza Pau dos Ferrros fica entre duas grande serras e às margens do rio Apodi onde existiam grandes árvores que eram utilizadas pelos viajantes para alívio do calor e como ponto comercial, para marcar e vender gado. Inclusive foi a partir de uma frondosa árvore, uma oiticica, marcada pelos mesmos ferros que os vaqueiros ferravam o gado, que teve origem o nome do povoado, da vila e do município, permanecendo até hoje.

No site oficial da Prefeitura Municipal de Pau dos Ferros, encontramos a seguinte redação sobre a origem do nome do munícipio

Seu nome [Pau dos Ferros] que permaneceu como denominação do local desde quando era um pequeno povoado, vem de uma árvore, mais precisamente de marcas fixadas com ferro em brasa numa oiticica muito frondosa que, pela sua grande dimensão, oferecia uma farta sombra e consequentemente um excelente local para o repouso dos vaqueiros, quando chegavam cansados do difícil trabalho de campear reses tresmalhadas (PMPF, 2013).

Elevada à condição de Vila em 04 de setembro de 1856, Pau dos Ferros se desvincula de Portalegre e passa a ser conhecida como um importante entroncamento para a região, pelo rotativo movimento comercial. A despeito de sua importancia comercial para a região, apenas em 02 de dezembro de 1924, Pau dos Ferros foi elevada à categoria de cidade. Seu primeiro prefeito, “Francisco Dantas de

Araújo”, construiu o prédio da prefeitura municipal, que até hoje funciona como sede do poder executivo municipal. A seguir apresentamos uma figura representativa da cidade de Pau dos Ferros em 1930.

Figura 8 – Área urbana de Pau dos Ferros (1930)

Fonte: PMPF (2013)

As décadas de 1950 e 1960 foram marcadas pela chegada do primeiro banco (Banco do Nordeste); pela construção de duas unidades de saúde (o Hospital Centenário de Pau dos Ferros e a Maternidade Santa Luiza de Marilac); pela construção da barragem de Pau dos Ferros (até hoje o maior reservatório d’água da cidade com capacidade de 56 milhões de m3) e pela construção do Obelisco na Praça da Matriz e espaços de lazer (o Pavilhão e o Cine São João).

Nos anos 1970, chegam a Pau dos Ferros energia elétrica e telefone e outras ações públicas, como a construção de uma caixa d’água para abastecimento da cidade e uma estação de tratamento de esgotos. Também nos anos 1970, mais especificamente em 1976 foi criado o Campus Avançado da Universidade do

Estado do Rio Grande do Norte em Pau dos Ferros, a primeira instituição (única até o inicio dos anos 2000) a oferecer educação superior na região48.

Os anos 1970 foram marcados em todo o país pela expansão do processo de urbanização. Vimos nos capítulos anteriores que a rede urbana do Nordeste, além de fragmentada e dispersa, apresenta uma dinâmica dual. Com a concentração de pessoas, rendas e serviços nas capitais dos estados que, com exceção de Teresina (PI), estão todas localizadas no litoral; e outra rede urbana rarefeita no interior, comandada por poucas capitais regionais e um significativo número de centros subregionais que assumem o papel de intermediários, oferecendo uma gama de serviços e postos de trabalho para a população residente em pequenos municípios, categoria que predomina na ‘rede urbana nordestina interiorizada’.

Esse fenômeno assume, no Rio Grande do Norte, alguns contornos diferenciados, que acentuam essas disparidades. Segundo Clementino (2010), o algodão não foi capaz de impulsionar, no Rio Grande do Norte, a urbanização, assim como fez em outros estados do Nordeste. Para a autora, “o que o algodão produziu no RN foi uma rede urbana rarefeita e dispersa, concentrada em alguns poucos e pequenos pólos regionais” (CLEMENTINO, 2010, p. 78).

Pau dos Ferros foi e continua sendo na atualidade um destes polos regionais, cuja dinâmica espacial é condicionada pela prestação de serviços comerciais básicos até serviços mais especializados nas áreas da educação superior, de saúde e financeiros.

Na rede urbana atual, Pau dos Ferros se configura como principal cidade das microrregiões de Pau dos Ferros, Serra de São Miguel e Umarizal que, juntas, contabilizam 37 municípios e uma população de 242.021 habitantes, dos quais 162.219 (67,03) é população urbana (IBGE, 2010).

A população do munícipio de Pau dos Ferros era, em 2010, 27.733 habitantes, dos quais 25.535 residiam na sede do município. A taxa de urbanização do município é crescente e ocorre desde os anos 1960, acentuada pelo desmembramento de 03 municípios (Riacho de Santana, Rafael Fernandes e Encanto). Nas últimas décadas, o processo de urbanização acelerou ainda mais a

48 Maia (1990) aponta que a vinda do Campus de Pau dos Ferros nos anos 1970 esteve atrelado a

estudos da SUDENE, que mostraram Pau dos Ferros como polo de desenvolvimento econômico de uma “região programa”, cujo embasamento teórico era baseada na teoria dos polos de Perroux.

taxa de urbanização, que alcançou 85,38% em 1991 e 90,12% em 2000 (COSTA, 2010) e atingiu o percentual de 92,07 em 2010 (IBGE, 2010).

No gráfico 6 podemos ver a evolução da população de Pau dos Ferros de 1960 até 2010.

Gráfico 6 – Pau dos Ferros - Evolução da população (1960-2010)

Fonte: IBGE, (Censos Demográficos apud Dantas e Clementino, 2013b, p. 11).

Esse crescimento da população urbana pressionou a ampliação da área urbana. Segundo Costa, entre 1987 e 2008 a área urbana passa de 2,26 km2 para

4,85 km2. Com isso, “percebe-se uma duplicação da área urbana da cidade de Pau dos Ferros, com expansão em todas as direções, principalmente nas porções sul, norte e noroeste da cidade” (COSTA, 2010, p. 60).

A despeito da pequena dimensão populacional, sua posição geográfica, associada ao processo histórico de ocupação do solo urbano, onde foram instalados alguns dos principais serviços públicos estaduais e federais, bem como diversas atividades comerciais, fizeram da cidade de Pau dos Ferros o polo regional de atividades socioeconômicas no ‘Alto Oeste Potiguar’.

Como já apontamos anteriormente, a condição de “cidade polo” exercida por Pau dos Ferros não é recente, além de aparecer desde o primeiro estudo do IBGE sobre cidades na categoria de centro sub-regional, em estudo realizado pelo

Governo do Rio Grande do Norte nos anos 1960, intitulado “Regiões Polarizadas do Rio Grande do Norte”, Pau dos Ferros se configura como região-Polo do Estado Potiguar49 (GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE, 1968).

De acordo com o referido estudo, o Rio Grande do Norte sofre a influência das metrópoles regionais Recife e Fortaleza, e, em nível secundário, dos centros urbanos de Natal, Mossoró e Campina Grande (PB).

Em termos de rede urbana Potiguar, o estudo propõe a seguinte hierarquia: Natal e Mossoró (1º nível); Caicó e Currais Novos (2º nível); Nova Cruz, Santa Cruz, Assú, Pau dos Ferros e Patu (3º nível); Umarizal, Angicos, João Câmara e Alexandria (4º nível) (GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE, 1968).

Ao tratar da área de influencia de Pau dos Ferros, destaca:

Em torno da cidade de Pau dos Ferros, antigo centro de negócios pecuários, se organiza a região do Alto Oeste, sendo que sua posição primacial decorre de sua função comercial [...], que se desenvolveu pelo fato da cidade ser um entroncamento viário – RN13 (Moçoró-Luiz Gomes), RN16 (Pau dos Ferros-Alexandria), RN17 (Pau dos Ferros-São Miguel). Apoiada na sua função comercial surgiu a função bancária (Banco do Nordeste do Brasil S/A), a função educacional (2 escolas secundárias, com 319 alunos) e a função médico-hospitalar (5 médicos, dois hospitais, com 30 leitos) (GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE, 1968, p. 43).

Importante ressaltar que a especificidade da localização geográfica de Pau dos Ferros num entroncamento viário já era considerada à época fundamental para sua condição de polo regional, com destaque para as atividades comerciais existentes na cidade.

Podemos acrescentar que essa importância persiste e se acentua com o crescimento da cidade. A carta de expansão da área urbana de Pau dos Ferros mostra que a rede urbana se estende às margens da BR-405 (antiga RN-13), que corta a cidade de norte a sul, e da RN-117 (antiga RN-17), que perpassa Pau dos Ferros de leste a oeste. Esta última foi recentemente interligada à BR-226, que tem início em Macaíba (RN) e atravessa Pau dos Ferros com destino ao estado do Tocantins.

49 Este estudo teve por objetivo identificar os centros polarizadores de 2ª e 3ª categoria no Rio

As regiões Sul e Sudeste da cidade foram as que apresentaram maior crescimento. A existência de prédios públicos como o Campus da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e o Hospital Dr Cleodon Carlos de Andrade (HCCA), construídos na década de 1980, e a recente construção do Campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRN), contribuíram para a expansão do bairro Princesinha do Oeste e para o surgimento dos bairros Arizona, Nações Unidas e Chico Cajá. Segundo Costa (2010), além dos prédios públicos, a construção de estabelecimentos comerciais e de residências tornaram esses bairros os responsáveis pelo maior adensamento populacional entre 1987 e 2008. A seguir podemos ver essa expansão através da figura 9.

Figura 9 – Carta da expansão urbana de Pau dos Ferros-RN (1987-2008)

Fonte: Costa (2010, p. 61).

Importante ressaltar que os demais municípios que compõem a microrregião de Pau dos Ferros também apresentaram expansão das suas manchas urbanas e que esta expansão se deu no sentido que segue o prolongamento das rodovias e na

direção de Pau dos Ferros, principalmente se observarmos as cidades mais próximas (SOUZA; COSTA, 2012).

Benzer Belgeler