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Apesar  de  não  ter  sido  possível  atingir  a  mesma  quantidade  de  dados  do  EC‐1,  o  EC‐2  foi  importante para conhecer outra abordagem de envolvimento dos usuários, praticada no Brasil.  O fato de a empresa ser subsidiária de uma grande empresa norte‐americana explica  as  tendências  de  utilização  da  abordagem  de  projeto  centrado  no  paciente  –  user‐centred 

design – que foi difundida nos Estados Unidos. Esta influência é notada pelas diversas reuniões 

com  usuários  para  levantamento  de  suas  demandas,  intituladas  User  Groups  pela  empresa,  que ocorrem tanto no início como ao longo do desenvolvimento do projeto. É notada também  no fato da empresa começar a envolver pacientes no processo de projeto, e não somente a  equipe  interna  dos  edifícios  de  assistência  à  saúde,  com  destaque  para  a  certificação  Planetree. 

A maior contribuição do EC‐2 foi a descrição do método Design Games, que já havia  sido  estudado  na  revisão  bibliográfica,  e  foi  complementado  com  imagens  de  uma  situação  real  ocorrida  no  país.  Apesar  de,  a  princípio,  o  Design  Game  aparentar  limitar  a  criação  arquitetônica, na verdade ele contribui por abrir novas oportunidades de projeto, na medida  em que possibilita ao arquiteto entender a fundo a organização espacial que o usuário está  propondo. Assim, com maior conhecimento, o arquiteto pode propor configurações novas ou  mobiliário novo, como é o caso da cama‐maca, mostrada na Figura 1, projetada por Lelé. Sem  este  conhecimento  aprofundado,  o  arquiteto  pode  ficar  limitado  às  descrições  contidas  nas  normas específicas, que determinam as configurações básicas.  Infelizmente, como limitação da pesquisa, não foi possível coletar mais informações  sobre o número de participantes e sobre a avaliação dos usuários em relação ao método e ao  resultado do projeto, que certamente enriqueceriam a discussão. 

6.3

DISCUSSÃO 

Esta pesquisa contou com a realização de dois estudos de caso. O primeiro e principal, EC‐1,  contou com múltiplas fontes de evidência, como entrevistas com pessoas‐chave, visitas para  observação direta, análise de documentos e análise de registros em arquivo. Este estudo teve  como objeto o processo de projeto de intervenção e ampliação do HCPA, e foram analisados:   O projeto desenvolvido; 

 O processo de projeto com diferentes níveis de envolvimento dos usuários ao longo  de suas fases; 

 A atuação da empresa de arquitetura responsável pelo projeto; 

 As  dificuldades  de  envolver  os  usuários  e  as  saídas  utilizadas  para  contorna‐las  –  seleção de usuários a participar e métodos de envolvimento; 

 A avaliação do processo pelo ponto de vista do coordenador dos usuários. 

O  segundo  estudo  de  caso,  EC‐2,  contou  com  três  fontes  de  evidência:  entrevistas  com  o  diretor  executivo  da  empresa,  análise  de  documentos  e  análise  de  registros  em  arquivo.  O  objeto  deste  estudo  foram  os  métodos  e  instrumentos  de  envolvimento  dos  usuários  utilizados pela empresa, citados a seguir:   User groups;   Futurescan;   Gaming (Design Games).  O EC‐1 permitiu mapear o processo de projeto com envolvimento dos usuários e observar os  diferentes níveis de envolvimento ao longo das fases do projeto. Já o EC‐2 permitiu apenas a  visão geral dos métodos e instrumentos de envolvimento utilizados pela empresa, mas não foi  possível mapear o processo de projeto. As empresas de arquitetura possuem perfis parecidos,  conforme mostra o quadro 33.  Segundo os resultados dos estudos de caso, a Bross defende o envolvimento apenas  dos  usuários  pertencentes  à  equipe  interna  dos  edifícios  de  assistência  à  saúde,  pois  estes  usuários permanecem mais tempo na edificação e seu envolvimento tem maiores chances de  trazer dados relevantes para o projeto, principalmente em relação à eficiência operacional da  edificação. Para esta empresa, o envolvimento de pacientes é mais complicado e tem menores  chances de contribuição com o projeto. Já a Kahn do Brasil, com forte influência do projeto  centrado no usuário norte‐americano, já envolveu pacientes e visitantes em projeto, além da  equipe interna.   

Quadro 33. Comparação do perfil das empresas participantes dos ECs. Fonte:  Elaborado pela autora a partir de dados coletados nos ECs. 

  EC‐1  EC‐2 

Localização da  Empresa 

São Paulo ‐ SP  São Paulo ‐ SP 

Áreas de Atuação  Planos Diretores, Projetos de Arquitetura  e Complementares,  Coordenação de Projetos,  Acompanhamento e Direção de Obra e  Consultorias.  Planos Diretores, Projetos de Arquitetura  e Complementares,  Coordenação de Projetos,  Acompanhamento, Direção e  Administração de Obra.  Número de  Projetistas  Mais de 20  20 

Tempo de atuação   56 anos  16 anos 

Raio de Atuação  Internacional  Nacional 

Tipos de Projeto  Edifícios de assistência à saúde e de 

Ensino  Projetos Comerciais, Serviços, Industriais, Edifícios de assistência à saúde 

Principais clientes  Públicos e Privados  Privados 

Principal Nível de  Atend. dos Ed.   Saúde Projetados51 

Primário, Secundário e Terciário  Primário, Secundário e Terciário 

As  duas  empresas  incluem  no  projeto  uma  fase  de  análise  de  tendências  da  prestação  de  serviços,  realizada  em  conjunto  com  os  usuários,  que  na  Kahn  do  Brasil  é  denominada 

Futurescan. Em termos de métodos e instrumentos, as duas empresas realizam reuniões com 

os usuários, onde acontece o envolvimento. O principal instrumento de co‐design descrito pela  Bross  foi  o  diagrama  de  bolhas,  enquanto  no  caso  da  Kahn  foi  o  gaming.  Nos  dois  casos,  destaca‐se que o objetivo do emprego de métodos e instrumentos para viabilizar o co‐design é  a simplificação da linguagem, para permitir que usuários e arquitetos co‐projetem e possam  ter suas ideias e propostas compreendidas por toda a equipe. 

De  um  modo  geral,  destaca‐se  como  limitação  de  pesquisa  a  dificuldade  de  se  conseguir realizar estudos de caso como estes nas empresas e nos edifícios de assistência à  saúde no Brasil. Outros dois estudos de caso foram iniciados e não foi possível levantar dados  relevantes  para  esta  pesquisa.  Mesmo  nos  casos  aqui  apresentados,  apesar  da  gentileza  e  disposição  das  empresas  que  participaram,  houve  dificuldade  de  acompanhar  os  processos         51 O campo relativo ao nível de atendimento das unidades de saúde se refere a:  Nível Primário: Postos e Centros de Saúde;  Nível Secundário: Unidades Mistas, Ambulatórios Gerais, Hospitais Locais e Regionais com as 4 clínicas básicas;  Nível Terciário: Hospitais Regionais e Especializados.   

pelo  tempo  que  levam  para  sua  conclusão.  No  entanto,  a  escolha  do  método  de  Estudo  de  Caso para aprofundamento da investigação do co‐design na prática do país foi avaliada como  apropriada e positiva, por permitir compreender como esta abordagem tem sido empregada e  registrar  detalhes  da  mesma  em  âmbito  nacional,  que  ainda  não  estão  disponíveis  na  literatura.  A  escolha  de  dois  casos,  apesar  de  possuírem  características  distintas,  foi  importante para ampliar os dados levantados e complementar as informações. Como previsto  na  abordagem  DSR,  a  cooperação  entre  arquitetos  atuantes  na  prática  e  o  pesquisador  foi  fundamental para a realização desta pesquisa. 

Tendo em vista o foco do presente trabalho no aspecto organizacional do processo de projeto,  para  projetar  edifícios  de  assistência  à  saúde  cujo  espaço  físico  esteja  alinhado  aos  serviços  realizados para aumentar a eficiência operacional dos serviços de saúde, o presente capítulo  apresenta  uma  proposição  inovadora,  em  forma  de  modelo  do  processo  de  projeto,  para  viabilizar  o  co‐design  com  usuários.  Considera‐se,  como  já  estudado,  a  potencialidade  que  envolvimento dos usuários no processo tem em contribuir para o alinhamento almejado entre  edificação e serviços. 

Um  modelo  “é  um  conjunto  de  proposições  ou  declarações  que  expressam  as  relações entre os constructos” (MARCH; SMITH, 1995, p.256). Com um modelo do processo, as  fases que o projeto deve seguir podem ser especificadas, bem como seus pontos de revisão  (COOPER, 2001; TZORTZOPOULOS; SEXTON, 2007). 

A escolha de um modelo como proposição inovadora tem como base a necessidade  de  clareza  da  metodologia  de  projeto  arquitetônico  quando  o  edifício  a  ser  projetado  tem  funções  complexas,  como  os  edifícios  de  assistência  à  saúde,  requerendo  métodos  que  equacionem as diversas variáveis que estão envolvidas (CARVALHO, 2012). Segundo Vink et al.  (2006), um dos fatores responsáveis para o sucesso de um processo é uma abordagem passo a  passo.  Na  mesma  linha,  van  Aken  (2005),  afirma  que  é  necessário  organizar  e  planejar  explicitamente as operações de projeto quando os processos de projeto são complexos ou em  larga‐escala.  Segundo  este  autor,  apesar  de  a  abordagem  profissional  poder  beneficiar  processos individuais ou com equipes pequenas, ela é importante principalmente em projetos  complexos e de grande escala, em que possíveis falhas dificilmente poderão ser corrigidas por  contatos  informais  entre  os  membros  da  equipe.  Outros  autores  defendem  também  a  necessidade  de  uma  estrutura  que  oriente  e  organize  o  envolvimento,  como  é  o  caso  de  (BRANDT, 2006), para que as diversas competências envolvidas – da equipe multidisciplinar e  dos usuários – possam ser, de fato, utilizadas. 

O  presente  capítulo  apresenta  os  resultados  que  atendem  aos  seguintes  objetivos  específicos: 

 Parte  do  objetivo  específico  1,  referente  à  determinação  das  fases  do  processo  de  projeto em que o co‐design é adequado – ver seção 7.2. (As partes de entendimento 

das  questões  referentes  ao  envolvimento  dos  usuários  e  ao  processo  de  projeto  já  foram atendidas nos capítulos anteriores); 

  Objetivo específico 3, referente às delimitações dos focos para os quais o modelo se  destinará – ver seção 7.1; 

 Objetivo  específico  5,  que  prevê  a  proposição  de  um  modelo  de  envolvimento  dos  usuários no processo de projeto de edifícios de assistência à saúde – apresentado na  seção 7.3;   Objetivo específico 6, que se refere à avaliação do modelo proposto, com o auxílio de  pesquisadores e projetistas com experiência em projetos de edifícios de assistência à  saúde – ver seções 7.4 e 7.5. 

7.1

D

ELIMITAÇÃO DOS 

F

OCOS

 

O  modelo  de  processo  de  projeto  com  envolvimento  de  usuários,  aqui  apresentado,  foi  desenvolvido considerando focos específicos para projeto, usuários, nível de envolvimento e  fases  do  processo  de  projeto.  Estes  focos,  apresentados  a  seguir,  foram  importantes  para  permitir maior detalhamento e aprofundamento do modelo.  

Benzer Belgeler