• Sonuç bulunamadı

Em 2007, houve aumento significativo de eventos de leitura oral, pois no ano de 2006 eles eram mais restritos às aulas de português. A leitura oral passou a fazer parte das aulas de ciências e de geografia, conteúdos que passaram em 2007 a contar com livros didáticos que impulsionaram a diversificação do que se lê em sala, como também identificou Macedo (2005). Nesses eventos, sua função é favorecer a aprendizagem e dar pistas à professora sobre o processo de compreensão dos alunos. Para buscar pistas mais profundas sobre os modos de ler textos não-literários, para os quais não há estímulo ou orientação para a leitura silenciosa, serão analisados eventos de leitura oral nas aulas de português e de ciências e geografia.

185

Leitura oral em aula de português

Os eventos de leitura nas aulas de português são mediados também pelo livro didático, como já citado. Apesar de a maioria dos textos do LD serem literários, há textos não literários, algumas adaptações de outros suportes e alguns expositivos escritos pelos próprios autores e que também são lidos oralmente. Todavia, há algumas distinções na leitura oral quando os textos não são literários. O que isso indica sobre como são construídas as práticas de letramento nesta sala de aula?

O evento de leitura no livro didático de português, situação de interação entre professora e alunos, mediada pelo texto da página 69, ocorreu no dia 30 de maio de 2007. Esse texto abre o capítulo 2 que tem como tema “Profissão: escritor”, da unidade 2, “Mãos à obra”, que trabalha com as profissões, como já citado no item de análise do uso do minidicionário. O texto intitulado “Profissão: escritor” é produzido pelos autores e é complementado com imagens (capas de livros) e uma orientação de atividade, como se poderá ver abaixo:

O texto é expositivo e tem a intenção de caracterizar para o aluno a relação do escritor de livros procurando explicar como é o processo de escrita de uma história. O protocolo implícito para a leitura do texto no LD não indica um modo de ler e parece pressupor uma leitura individual do aluno desse texto introdutório e das capas dos livros, em função de enunciado direto para o aluno ao final: “Olhe com atenção as capas dos livros”. Só depois de o aluno realizar a proposta de escolher um dos livros e imaginar uma história é que ele deveria contá-la aos colegas. Esse protocolo pressupõe, então, que a leitura individual do aluno se apropriaria da definição de escritor, o que parece não ser garantido nesta sala de aula.

A professora construiu outra forma de orientar e realizar a leitura do texto. O evento inicia com a leitura oral individual e segue com a professora intervindo com questões para checar e provocar a compreensão dos alunos.

Professora: Vamos lá... Soraia... Soraia: Profissão... escritor....

Professora: Profissão... [Destaca os dois pontos] escritor... olha os dois pontos aí... Soraia: “Profissão: escritor” [com pontuação adequada] “Sem escritor não há

livros. Mas de onde o escritor tira idéias para suas histórias?”

[Os alunos demonstram acompanhar a leitura, apesar de Rafael escorar a cabeça de um lado com as mãos e Ricardo apoiar o rosto com as suas mãos. Carlos segue o texto com os dedos. Larissa olha para o alto e Lúcia para a sala.]

Soraia: “Ele tira da sua própria vida, da vida dos outros, de um sonho, de uma história que ouviu, de um passeio. Então o escritor transforma essas experiências em palavras e escreve uma história.” [Soraia lê um pouco lento, mas lê corretamente as palavras e com pontuação adequada.]

Professora: Isso... olha pra vocês verem que barato isso... gente... O escritor recorre às experiências de vida que ele tem... pode ser... oh... pode ser o quê... mesmo? [dirige-se à turma] De onde que ele tira o que ele escreve... mesmo? [ninguém responde]

Professora: De onde que ele tira mesmo... lê o texto aí gente... Larissa: da cabeça...

Carlos: do cérebro Professora: do sonho... [os alunos parecem dispersos]

187

Professora: De onde mais que ele tira? Juliana: da cabeça [em tom de gozação] Professora: de uma história que ele viveu... Carlos: de um passeio...

Professora: de um sonho...

[a turma parece responder, sem a firmeza esperada pela professora]

Professora: Olha ai no TEXTO... gente... [A professora bate com força a mão sobre o livro e aumenta o tom da voz]... não é pra ficar olhando pra mim... pensando no que vai responder... não... [Os alunos voltam-se para o texto, em silêncio] De onde mais que ele TIRA?

[A turma continua em silêncio] Carlos: das suas idéias...

Professora: das suas idéias... e de que mais? [o silêncio permanece]

Rafael: da própria vida...

Professora: da própria vida... vocês acabaram de ouvir o texto e fica aí... olhando aí pra gente... pra pensar o que vai falar... sendo que está aí... escrito no texto... presta atenção... agora vocês vão me responder... é para ter clareza agora... Juliana... [que é uma leitora legitimada pela professora] de acordo com o texto que nós acabamos de ler... da onde que um escritor tira suas idéias...

Juliana: Huum... [lendo o texto silenciosamente. Passam-se alguns segundos de silêncio.]

Professora:Juliana... de acordo com o TEXTO que nós ACABAMOS de ler... [mais alguns segundos de silêncio, sem que Juliana responda]

Rafael: Pode falar?

Professora: Rafael... de onde?

Rafael: da própria vida... é... da vida dos outros... de um sonho... das histórias que já ouviu... [Ele responde, apoiando-se no texto, mas sem fazer uma leitura direta do texto]

Professora: mais o quê? Rafael: de um passeio...

Professora: Isto... é de acordo com o texto... pra gente responder... tá? A gente não pode ter essa mania de ler as coisas e ficar... [a professora se levanta e vai pra frente dos alunos, fazendo gestos que expressam uma pessoa desligada, olhando

para o tempo. Soraia boceja e olha para a sala, sem se fixar, Lúcia e Ricardo olham para o texto. O restante da turma parece escutar a professora.] Ler... leu... a gente precisa entender... se a gente não entender as coisas que a gente ler... não adianta ler... não... vai ficar repetindo palavra... [ela volta para pegar o seu livro] então o escritor... o que ele faz... ele pega as experiências da própria vida dele... ele pega experiência da vida dos outros... ah... sabe aqueles livros que vocês leram? [todos os alunos dirigem olhar para a professora]

Essa enunciação evidencia alguns elementos importantes. O primeiro, a correção da leitura de Soraia pela professora, focando a pontuação. O segundo, a professora inicia a interpretação do texto e cobra dos alunos respostas. Terceiro, ao não responderam ou não responderem o esperado, há indicação e solicitação da professora para que os alunos voltem ao texto para encontrarem a resposta. E, por fim, a explicação da professora do que seja ler. Na seqüência do evento, professora e alunos perguntam e respondem, reclamam e esclarecem questões em torno da interpretação desse texto. Os alunos demonstram não entender diretamente o foco de interpretação da professora.

A primeira estratégia da professora é fazer perguntas para verificar a compreensão dos alunos construindo uma perspectiva de dialogar com eles, de instigá-los a participar da interação. Como se pode observar abaixo, a professora reforça sua pergunta, pois parece não se contentar com a resposta dos alunos. As respostas indicam que os alunos têm noção: o escritor tira duas idéias da cabeça, do cérebro, relação muito clara para os alunos, que parece demonstrar a imagem que eles têm de como se constrói um texto.

Uma segunda estratégia da professora é solicitar que os alunos voltem ao texto para encontrar as respostas. Olha ai no TEXTO... gente... Esta afirmativa expressa uma concepção de leitura na qual o significado está no texto e pode aí ser localizado, o que em algumas situações e condições de leitura é o que se faz como necessário. Nesse caso, esta postura parece estar relacionada tanto à concepção de leitura que sobrepõe o texto ao leitor quanto a uma concepção de ensino de leitura, própria do conteúdo de português. Ao que parece, ser um bom leitor em português é ter a capacidade de ir ao texto, de lidar com informações, diferente de quando se é um leitor de textos em uma aula de ciências ou de geografia e a professora se predispõe a explicar o conteúdo, cobrando menos que o aluno dê conta do que está no texto, como se verá no próximo item.

189

Uma terceira estratégia é explicar aos alunos o que é ler. Ler... leu... a gente precisa entender... se a gente não entender as coisas que a gente ler... não adianta ler... não... vai ficar repetindo palavra... Essa explicação amplia o conceito de leitura para os alunos pois inicialmente parecia indicar que o retorno ao texto seria suficiente.

Finalmente, uma quarta estratégia é a relação do tema com a experiência de leitor dos alunos. O fragmento aqui analisado apenas mostra o início desta estratégia pela professora: Então o escritor... o que ele faz... ele pega as experiências da própria vida dele... ele pega experiência da vida dos outros... ah... sabe aquele livros que vocês leram? Com esta questão, ela inicia um diálogo com os alunos em torno da experiência de leitura do livro A árvore que dava dinheiro, de Luiz Pellegrine, e da fonte de inspiração do autor para a escrita desta novela.

Essa análise indica que os textos não-literários na aula de português têm modos de ler específicos. Nesse evento, foi decisivo o tipo de texto, sua característica mais expositiva e explicativa, que parece não atrair muito os leitores desta turma, o que se evidenciou em outros eventos. Isso se deve, talvez, tanto à maior presença de textos literários quanto ao tipo de linguagem desses textos que ainda não faz parte das práticas de letramento desses alunos, pois é recente o seu uso na escola e fora da escola não encontra relações com os textos orais e escritos de convivência dos alunos.

O modo de ler – oral - colocado em prática pela professora, seguido de perguntas e explicações, corresponde a um uso pedagógico de textos expositivos, quando se quer tanto controlar a leitura quanto ampliar a experiência de leitura dos alunos. Nesse sentido, a concepção de leitura que parece embasar esta prática está sustentada pela tensão de duas concepções de leitura, aquela relacionada à idéia de que o significado está no texto e outra na produção de sentido que se constrói nas interações mediadas pelo texto.

Todavia, há uma questão importante a ser destacada. A oralidade é central na produção de sentido para os textos, ou seja, para a prática da leitura. Mas não só a oralidade expressa mais fortemente pelo leitor autorizado (DE CERTEAU, 1980), seja o professor ou algum aluno, mas a oralidade produzida pelo aluno-leitor no processo de produção de sentido para o texto. Talvez essas interações orais em sala possam ser ampliadas ou revistas se, em sala, elas se aproximarem mais de eventos de letramento do movimento social. Desta forma, confirma-se o

peso da palavra oral, colocando em questão a clássica identificação da escola com uma “cultura escrita” onde predomina o ensino da língua como objeto escrito e escolar (ROCKWELL, 2007), fundamental na construção de sentido para as práticas de leitura em sala (TERZI, 1995).

Benzer Belgeler