5. TARTIŞMA
5.1. Gereç ve Yöntemin Tartışılması:
Por se tratar de uma mídia impressa, o jornal instaura, como dissemos, uma relação distanciada entre o emissor e a instância de recepção. Essa condição contratual do suporte de difusão das informações gera uma série de dificuldades para a instância de produção, que não tem garantias do perfil do destinatário a que corresponderá o seu consumidor efetivo. Mesmo considerando-se os instrumentos utilizados pela mídia moderna, voltados para a identificação do perfil social de seus consumidores, não se pode determinar de maneira definitiva as feições da instância de recepção, pois, como afirma Charaudeau,
... não se sabe se os dados relativos ao status social clássico seriam pertinentes, pois o verdadeiro problema desse gênero de comunicação não é tanto o das categorias sociológicas ou socioeconômicas, mas o da relação entre certos dados desses status e as categorias mentais que corresponderiam à maneira de apreender os acontecimentos, de compreendê-los e interpretá- los, em função do modo como são reportados (CHARAUDEAU, 2010, p. 79).
Em outras palavras, delimitar o espaço de atuação de um grupo particular de leitores no interior de uma certa esfera socioeconômica e cultural não assegura sua predileção por esse ou aquele tema ou modo de expressão, pois o que gera a afinidade do leitor por determinada publicação é a combinação desses dados externos com os esquemas cognitivos de cada individualidade considerada, interferindo na sua avaliação tanto seus hábitos de raciocínio quanto seus valores e crenças, que são refratários a uma generalização. Assim, na impossibilidade de identificação empírica dessa instância, metodologicamente nos limitamos a reconhecer os sujeitos receptores inscritos textualmente e discursivamente por meio das marcas projetivas deixadas pela instância de produção e os sujeitos interpretantes dos quais temos notícias com base nos registros históricos. A opção se justifica ainda mais quando se trata de textos escritos há mais de cem anos de distância do analista, em uma época em que o funcionamento da mídia se dava a partir de outros parâmetros.
44 No Império, a maioria dos escritores que se sobressaíam recebia o amparo oficial das instituições governamentais, o que acabava por criar um tipo de dependência ideológica entre as duas esferas, condicionando a produção dos primeiros a certa função cívica e construtiva junto ao público leitor (CANDIDO, 1985, p. 82-83). Em consequência, a relação entre o escritor e o público se dava apenas de forma indireta, visto que o escritor, em geral, escrevia visando à aprovação de um grupo reduzido de leitores, representado pela classe dirigente, como nos relata Antonio Candido:
Com efeito, o escritor se habituou a escrever para públicos simpáticos, mas restritos, e a contar com a aprovação dos grupos dirigentes, igualmente reduzidos. Ora, esta circunstância, ligada à esmagadora maioria de iletrados que ainda hoje caracteriza o país, nunca lhe permitiu diálogo efetivo com a massa, ou com um público de leitores suficientemente vasto para substituir o apoio e o estímulo de pequenas elites. Ao mesmo tempo, a pobreza cultural destas nunca permitiu a formação de uma literatura complexa, de qualidade rara, salvo as devidas exceções. [...] ... o afastamento entre o escritor e a massa veio da falta de públicos quantitativamente apreciáveis, não da qualidade pouco acessível das obras (CANDIDO, 1985, p. 85-86).
Como se vê, mesmo as “elites” para as quais, geralmente, se dirigiam as visadas das obras, não possuíam formação cultural suficiente para condicionar uma literatura mais refinada esteticamente. No entanto, o dispositivo de comunicação instaurado pelo jornal alterou de maneira significativa esse quadro, visto que a projeção de público (correspondente ao sujeito interpretante do contrato de comunicação estabelecido) precisou incluir um grupo de leitores ainda menos especializado: o conjunto de alfabetizados que podiam comprar um exemplar da folha, e a massa de analfabetos que a ela tinham acesso graças ao hábito da época de se realizarem leituras em voz alta em serões familiares.
Tornava-se necessário, então, estimular o interesse pela leitura periódica desse novo público, agora visto como consumidor do produto informação, selecionando temas motivadores e ajustando a linguagem adotada às demandas imaginadas desse auditório. A principal solução encontrada foi a inserção do cômico nas páginas do jornal, que passou a
figurar como uma fonte, predominantemente, de entretenimento. Mantinha-se, de alguma forma, a orientação ideológica da elite econômica e mesmo cultural, mas tingia-a agora com tonalidades mais aprazíveis, travestindo-a na “pílula dourada”, como o fazem os farmacêuticos que “pintam da cor do ouro uma pílula de gosto repelente, para levarem as crianças a ingeri-las” (CANDIDO, 1987, p. 85).
O alto nível de analfabetismo e o perfil cultural acrítico do pequeno grupo de leitores influenciou diretamente a forma discursiva assumida pela crônica jornalística, que precisou incorporar uma boa dose de oralidade, tendo em vista o mencionado costume da leitura em voz alta de uns poucos letrados para um grupo de analfabetos. Como vimos anteriormente, também os temas foram condicionados ao universo de referência popular, que incluía o noticiário de crimes, narrativas extraordinárias, fatos curiosos e episódios divertidos em um estilo sensacionalista e apelativo (CRESTANI, 2009, p. 50).
O extenso conjunto de crônicas escrito por Machado de Assis se insere nesse contexto de maneira nem sempre homogênea. Até a década de 1870, pode-se identificar na sua produção jornalística o reflexo desse dispositivo de comunicação instaurado pelo jornal. Nas primeiras séries de crônicas escritas por ele, identificamos uma atitude otimista para com a função pedagógica do jornal e um esforço em facilitar o entendimento do público a respeito de temas políticos e artísticos, sem abandonar completamente, no entanto, o estilo retoricista. A relação que os enunciadores estabelecem com seus leitores é uma das provas dessa postura: assim como nos romances iniciais, o cronista dos anos 1860 e 1870 trava, como dissemos, uma relação amigável e protetora com seus leitores (GUIMARÃES, 2004, p. 33-34). A partir da transição 1870-1880, o cronista assume outra postura; além de criticar o estilo rebuscado que dominava o jornalismo, a literatura, a política etc., passa a zombar da incapacidade de compreensão do seu leitor, incitando-o a um esforço maior para a decodificação de seus
46 enunciados. A série “Notas semanais” situa-se justamente nesse momento de virada dos procedimentos discursivos adotados pelo cronista para o tratamento da instância leitora.
Por isso, torna-se necessário identificar a aparição da instância de recepção inscrita no próprio texto, isto é, nas crônicas machadianas, sem necessariamente desconsiderar as informações que temos a respeito do público leitor brasileiro do século XIX, que poderão ser úteis para sustentação de nossas hipóteses de interpretação dos sentidos. Assim, além de caracterizar o perfil do sujeito interpretante das crônicas machadianas como temos feito até aqui, ao tratarmos da série “Notas semanais” (em mais profundidade no quarto capítulo deste trabalho), examinaremos sua contraparte de natureza discursiva, representada pela figura do destinatário, entalhado nas linhas e entrelinhas das crônicas, buscando investigar em que medida a condição de leitura no século XIX foi plasmada discursivamente nos textos jornalísticos de Machado de Assis.
Ao refletir sobre a instância de recepção dos diversos tipos de dispositivos midiáticos, Charaudeau (2010, p. 78-85) propõe a apreensão do público leitor sob duas perspectivas compósitas: o “receptor-público” e o “destinatário-alvo”. O primeiro corresponderia ao sujeito consumidor das mensagens veiculadas pela mídia, cujas reações avaliativas sobre o que recebe interessam diretamente à instância de produção; no caso das crônicas, equivaleria ao grupo reduzido de alfabetizados e à minguada elite econômica, porém pouco instruída, do Império, como dissemos anteriormente. Sua outra face equivaleria à do sujeito idealizado pelo jornal, aquele que aparece inscrito de maneira mais ostensiva na materialidade discursiva, por meio de um tipo de vocabulário, de uma seleção temática específica e de um tratamento argumentativo orientado para o fortalecimento de determinados imaginários sociais próprios de certos grupos-alvo. Obviamente são aspectos distintos de uma mesma entidade, mas nada garante a coincidência entre eles, pois o destinatário imaginado pela instância de produção pode não corresponder ao receptor efetivo dos discursos
veiculados, seja por um erro de cálculo do produtor, seja em função de circunstâncias externas que afetam a situação exata de recebimento das mensagens. Trata-se de um dos aspectos que pretendemos apurar.