• Sonuç bulunamadı

Em um modelo de equilíbrio geral Arrow-Debreu, os teoremas do Bem-Estar garantem que a competição perfeita é condição necessária para eficiência alocativa. De forma análoga, Allen & Gale (2004b) mostram que esse resultado se mantém para um modelo de crises financeiras com mercados completos e que competição perfeita é compatível com o nível eficiente de estabilidade financeira.

ser bom para a eficiência econômica em uma análise estática, mas seus impactos dinâmicos evidenciam problemas para a estabilidade financeira (ALLEN; GALE, 2004a). Sob o ponto de vista de bem-estar, os autores avaliam variados modelos para responder quais são os níveis eficientes de competição e estabilidade financeira. Instabilidade financeira é definida como o encerramento do contrato de crédito por declaração de falência do banco. As respostas são di- ferentes de acordo com o modelo que aborda o problema. O relacionamento entre competição e estabilidade é complexo porque em certos casos a competição aumenta a estabilidade, analisam os autores, exemplificando a tese com um modelo de equilíbrio geral com motivação schum- peteriana. Outros modelos mostraram que concentração poderia ser socialmente preferível à competição ou ainda que estabilidade perfeita poderia ser socialmente indesejável. Alguma instabilidade financeira poderia ter vantagens econômicas porque: i) auxilia na redução do pro- blema de moral hazard do banqueiro (GALE; VIVES, 2002), ii) fazem os pagamentos aos depositantes serem contingentes no retorno (ALLEN; GALE, 1998) e iii) promovem compro- metimento e liquidez (DIAMOND; RAJAN, 2001).

A literatura indica que há trade-off entre concorrência e estabilidade. A explicação tradicional é que o aumento de competição leva os intermediários financeiros a assumirem riscos maiores, seja na captação de recursos e ou na concessão de crédito, para manter certo nível de retorno. Nos estudos empíricos, entretanto, é observado com recorrência o trade-off entre concentração e estabilidade, mas o resultado não é conclusivo se a análise se dá entre concorrência e estabi- lidade. Portanto, os estudos nesse tópico não tem conclusões definitivas, nem fatos estilizados.

A existência de trade-off entre competição e estabilidade financeira sugere como política pru- dencial aumentar a regulação do setor bancário para garantir a estabilidade financeira com menos competição. Allen & Gale (2000) argumentam que, se por um lado o custo da insta- bilidade financeira é muito elevado e tangível, por outro lado há dificuldade de se medir os custos em termos de eficiência da concentração setorial. É, portanto, uma consequência natural que os países dediquem maior prioridade na prevenção de crises em detrimento de políticas promotoras de competição.

Keeley (1990) mostrou evidências teóricas e empíricas de que a desregulação do mercado fi- nanceiro americano, entre as décadas de 1970 e 1980, aumentou a competição setorial mas amplificou o problema de agência entre administradores de bancos e o seguro-depósito. Dada a garantia do fundo sobre alguma fração dos depósitos bancários, os administradores levam em consideração esse estado da natureza e têm incentivo para tomar risco extra, aumentando o lucro esperado (Charter Value).

O instrumento tradicional utilizado em políticas promotoras de resiliência financeira são os requerimentos de capital mínimo para operação dos bancos. O Acordo de Basileia I recomenda desde 1988 o controle de capital para bancos com o propósito de gerar incentivos para que essas firmas tomem menos riscos, com alavancagem menor, mas mantendo a estrutura competitiva do mercado. Hellman, Murdock & Stiglitz (2000) mostraram todavia que, em modelos de moral hazard, os controles de capital não são suficientes. Com a taxa de remuneração dos depósitos determinada de forma livre, os bancos têm incentivos para competir no mercado de depósitos pagando taxas mais elevadas. Em consonância com Keeley (1990), na linha de que maior intervenção define mais estabilidade, os autores advogam que qualquer equilíbrio Pareto- eficiente pode ser implementado por uma combinação entre controle da taxa de remuneração dos depósitos bancários e requerimentos de capital.

Simultaneamente, Matutes & Vives (2000) estudaram de forma ampla as relações entre compe- tição por depósitos bancários e incentivos à tomada de riscos pelos bancos. Os autores discutem as implicações de bem-estar da competição bancária sob diferentes regimes de seguro-depósito para uma estrutura bancária em competição imperfeita na qual os bancos estão sob compro- metimento limitado. Os custos sociais da falência bancária são computados e os resultados apontam que o bem-estar e as medidas de regulação adequadas dependem do grau de com- petição e do regime do fundo de garantias aos depósitos. Quando a competição é elevada, os custos de falência são altos e as taxas de juros sobre os depósitos são excessivas tanto no mercado desregulado quanto no mercado com seguro. Isso também acontece porque o prêmio de seguro não é sensível ao risco, independente do custo social de falência. Por outro lado, mercados não regulados com portfolio não-observável ou regulados com seguro-depósito não

contingente são complementares às restrições sobre ativos na determinação do bem-estar. Em um mercado não regulado com portfolio observado ou segurado contra riscos, a regulação das taxas de juros de depósitos pode ser suficiente para garantir o bem-estar.

Também em termos empíricos, a relação entre estrutura de mercado e fragilidade financeira tem sido explorada na literatura. Beck, Demirguç-Kunt & Levine (2003) analisaram dados para setenta países entre 1980 e 1997 para promover interpretações sobre a responsabilidade da concentração e das intervenções sobre o setor bancário para a possibilidade de ocorrência de crises sistêmicas. Os resultados confirmam que crises bancárias são menos prováveis de acontecer em: i) estruturas de mercado bancário mais concentradas; ii) mercados com menos restrições regulatórias sobre a competição bancária, principalmente barreiras à entrada; ou iii) ambientes com instituições fortes e bem consolidadas que promovem a concorrência setorial.

Os trabalhos que analisam possíveis trade-offs entre os conceitos de eficiência de mercado, resiliência financeira e estabilidade macroeconômica desenvolvem suas análises aos pares e nem todos utilizam o paradigma de equilíbrio geral walrasiano, razão pela qual, em alguma medida, estão sujeitos à Crítica de Lucas Jr. (1976), porque desconsideram a possibilidade de ajustamento da economia em outras dimensões. Não é conhecido na literatura estudo que mo- dele o setor bancário de forma explícita em equilíbrio geral dinâmico e estocástico e descreva os três objetivos/conceitos apresentados, com o propósito de analisar o comportamento daquele mercado.

Em síntese, a literatura econômica tem demonstrado o esforço de pesquisa para compreender melhor as implicações das fricções financeiras sobre a economia como um todo. No contexto do problema que a monografia trata, os estudos apresentados possuem limitações conceituais e metodológicas para responder às questões apresentadas. De forma geral, a literatura não res-

ponde de forma satisfatória porque os estudos i) não contemplam os três objetivos identificados das intervenções do Estado; ii) têm objetivos diferentes da análise de trade-offs das interven- ções; iii) estão sujeitos à Crítica de Lucas pelo tratamento em equilíbrio parcial, especialmente a literatura de banking. Essa falta de explicação decorre em especial de alguns fatos: i) a regu- lação prudencial no âmbito internacional tem-se tornado relevante apenas nos últimos anos, os países ainda estão implementando suas legislações, enquanto outras nações sequer assinaram os Acordos de Basileia; ii) a modelagem integrada dos três objetivos é tarefa complexa; ii) a tecnologia de estimação requereria muitos dados inexistentes; iv) algum desinteresse da Econo- mia da Regulação em tratar o mercado financeiro como conteúdo especial; e v) predisposição conceitual da literatura mainstream em favor da auto regulação dos mercados financeiros.

Benzer Belgeler