Apresentamos aqui como se desenvolveram/desenvolvem as estratégias de atendimento nas três unidades analisadas. Do ponto de vista dos objetivos que propusemos, cabe lembrar, desde logo, que elencamos a equipe e as atividades propostas, em cada unidade, como aspectos primordiais para entender o funcionamento da rotina das instituições.
A partir da realização das entrevistas neste estudo, percebemos que o cuidado com a limpeza da instituição e os cursos oferecidos as adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas, comportaram/compõem o elemento central das estratégias de atendimento, ao longo dos anos, no RN. Segundo os profissionais entrevistados, essas atividades cotidianas não chegam a particularizar o atendimento, deixando-o “especial” ou “diferente” do tratamento destinado aos adolescentes do sexo masculino em suas unidades. Afinal, elas eram vistas simplesmente como as “menores infratoras”.
Ao questionarmos os profissionais sobre diferenças no atendimento para adolescentes do sexo feminino e masculino destacamos alguns posicionamentos para reflexão:
Essas meninas eram vistas como menores, elas eram os menores. A sociedade sequer chegava até elas. Ali, eram consideradas as meninas indesejadas. O fato não era nem de serem mulheres, mas eram simplesmente as infratoras. Usavam armas e a gente tinha que ter o maior cuidado. (Assistente Social - Instituto Padre João Maria)
A diferença é que na rotina dessa instituição tudo funciona perfeitamente. Na outra casa era mais complicado [faz referência quando era diretor da unidade masculina Ceduc Pitimbu], mas aqui já peguei tudo organizadinho. Pra mim, é gratificante trabalhar em um lugar assim, porque ao invés de me preocupar com pequenas coisas, eu posso me ater às mais importantes. E aqui o comportamento delas é bem melhor. Na outra unidade, até por ser bem maior e os atos infracionais mais graves, era bem mais complicado. Aqui, por trabalhamos com as três medidas, algumas têm a oportunidade de sair e até passar final de semana fora. Os problemas existem, mas em quantidade menor. Agora também há outra diferença grande quando falamos da limpeza. A limpeza com os homens é um caos, já aqui funciona tudo direitinho. Até a rotina é melhor, elas participam bem mais. Mas a gente sabe que no caso dos atos dos homens geralmente são bem piores, eles são mais violentos. (Diretor - Centro Educacional Padre João Maria)
Com base nos relatos apresentados, não seria excesso afirmarmos que as discriminações contra as mulheres vêm se manifestando, ao longo dos anos, também no sistema de justiça juvenil. Ao analisar o sistema penal pela ótica do gênero, Andrade (2003) afirma que o sistema de justiça criminal pauta-se nos valores patriarcais que reforçam leis e atendimentos discriminatórios com valores profundamente marcados pelo machismo. De acordo com essa autora, o sistema jurídico e todos os aparelhos que decorrem dele tornam-se para as mulheres um reflexo de todas as contradições existentes na sociedade. Os Códigos Penais de 1830 e 1940 dão a dimensão da visão patriarcal sobre as mulheres no campo criminal. Para Borges (2010), o legislador reforça a visão social que as mulheres apenas se constituem como boas e passíveis de
proteção se permanecem nos limites das tarefas domésticas. Aquela que, por diversos motivos, desviar desse percurso sofrerá duplamente a discriminação.
Nas unidades do RN, a rotina das adolescentes autoras de atos infracionais demonstra similitudes com a reflexão acima. As tarefas domésticas têm sido uma obrigação diária, consideradas parte do processo educativo.
O que a gente dizia na Granja de Santana era: “isso aqui é a sua casa, não é nossa, é sua casa, na sua casa você tem que ter responsabilidade, você tem que dar conta, tomar conta”. O funcionamento da Granja de Santana tinha um discurso muito de compromisso, de responsabilidade com compromisso, aí, a gente dizia o seguinte, “em toda casa tem regra, né?”. Então, a gente sentava com elas e traçava esse cronograma de compromisso, de convivência, regras de convivência. Às vezes, uma perguntava: “de que horas eu acordo?”. Eu respondia: “de sete horas, tem que estar gritando?”. E continuava: “Oito horas é o que? Café, já levantou? Vai tomar banho”, se não quiser tomar banho, a gente também num fazia essa guerra não, porque quem vive na rua às vezes nem banho toma, você tem que fazer o outro querer, gostar, porque pedagogia com imposição fechada, eu acho que não é processo pedagógico, na minha concepção. Então pronto, assim era para acordar. Depois nós combinávamos as tarefas de responsabilidade: tomar conta da casa e rodízio nas atividades para não ficar tão, tão cruel, essa semana eu lavo a louça, na outra eu varro a casa, na outra eu arrumo as camas, na outra, então cada uma tinha uma atividade de cuidados com a casa. (Educadora - Granja Santana)
O atendimento nas unidades do Instituto Padre João Maria (1979) e Centro Educacional Padre João Maria (1998) apresentam uma lógica de continuidade no
atendimento. Inicia-se com entrevistas com as adolescentes; ao término do mês, há uma reunião geral com as famílias, entrevista com os pais, apoio psicológico, visitas domiciliares, aplicação de questionários; a orientação ocorre de forma individualizada e, em alguns momentos, desenvolvem-se reuniões em grupo.
Como mencionado pelos profissionais entrevistados, na rotina do atendimento das unidades a presença na instituição era/é diária, mas a interação com as adolescentes ficava/fica por supervisão especificamente das educadoras/socioeducadoras.
O funcionamento do Instituto Padre se dava com uma estrutura com assistente social, pedagoga, médico e professor de educação física. Na prática, as meninas ficavam muito tempo sem fazer nada. Nosso trabalho era específico era atualizar todos aqueles estudos sociais e mandar para o juiz. Tínhamos que mandar atualizado constantemente para ele decidir em relação ao julgamento. (Assistente Social - Instituto Padre João Maria)
As atividades que faziam com elas eram os agentes educacionais. Eles faziam desde a limpeza do prédio com elas até ficar com elas na sala. Lembro que tinha um trabalho muito interessante de artesanato. Daí saia muitas coisas, como pano de prato, pegador de panela, confecções de boné e pintura. Tinha muita pintura. Nessa época tinham muitos profissionais. A equipe era muito integrada, a gente se reunia muito e cada um dava sua opinião sobre como prosseguir o trabalho. Mas os relatórios eram por área do conhecimento. Tinha o da assistente social, o da psicóloga. A equipe era muito integrada, muito mesmo. (Pedagoga - Instituto Padre João Maria)
Quando cheguei aqui, fiquei surpreso como tudo funcionava de forma sistematizada. Nossos educadores, pessoal da área técnica, os educadores. Como essa unidade já vem há um tempo trabalhando com essas três medidas,
eles já pré-definiram essa rotina de forma excelente. E a quantidade ajuda muito. Na outra unidade trabalhávamos com doze meninos, aqui são sete, oito. E lá existia essa dificuldade, apesar de o número de profissionais também ser maior. Apesar de se trabalhar as três medidas, cada unidade tem a sua particularidade. Assim, de uma forma organizada. Quando se tem uma quantidade menor, a medida socioeducativa pode ser trabalhada de uma forma mais efetiva, o que não ocorre com uma grande quantidade. A condição é a mesma, pouca, e o trabalho se torna bem maior. (Diretor do Ceduc Padre João Maria)
Em relação à escolha das atividades destinadas às adolescentes, Oliveira e Araújo (1979) afirmam que o Instituto Padre João Maria desenvolvia sua programação cotidiana, de acordo com as necessidades da clientela, visando atingir aos objetivos que a referida unidade se propunha. Nas entrevistas realizadas com profissionais das outras duas unidades (Granja Santana e Centro Educacional Padre João Maria), percebemos que a delimitação das atividades também é feita pelos técnicos. Apesar das profissionais alegarem que as adolescentes eram/são consultadas, as opções que são dadas às adolescentes institucionalizadas não ultrapassam opções que se adequam à condição feminina. Na Tabela 3, apresentamos detalhadamente o objetivo, a equipe e as atividades propostas nas três unidades de atendimento.
Tabela 3
As estratégias de atendimento das unidades para adolescentes autoras de atos infracionais do Rio Grande do Norte
Unidade de Atendimento
Objetivo Equipe Atividades
Instituto Padre João Maria - Atender menores abandonadas e com condutas antissociais, na faixa etária de 12 a 18 anos. - Diretora - Psicólogo - Pedagoga - Assistente Social - Educadores - Educador físico - Cozinheiras - Secretária - Equipe de segurança
- Auxílio na limpeza da instituição - Aulas de alfabetização
- Curso de Datilografia - Cursos de doces e salgados - Cursos de pintura de panos de prato
- Cursos de bordado, de corte e costura;
- Curso de tapeçaria - Rodas de Conversa - Oficinas de Artesanato
- Prestação de serviço para fábrica de botões.
Granja
Santana - Atender adolescentes envolvidas com drogas e com a prostituição. - Diretora - Assistente Social - Educadoras - Cozinheiras
- Auxílio na limpeza doméstica - Aulas de alfabetização
- Cursos para confecção de bolsas, cortes, costura, cortes de cabelo, manicure.
- Momentos de oração - Atividades com jogos e brincadeiras
- Aulas sobre como cozinhar Centro Educacional Padre João Maria (CEDUC) -Atender adolescentes autoras de atos infracionais em cumprimento de medidas socioeducativas. - Diretor - Psicólogo - Assistente Social - Pedagoga - Educadores - Cozinheiras - Equipe de segurança
- Auxílio na limpeza da instituição e da jardinagem
- Oficinas de confecção de bijuterias
- Bazar
Como vimos, nas atividades propostas pelas unidades, a limpeza da instituição é realizada pelas adolescentes, e os cursos são associados predominantemente às atividades da vida doméstica. É válido ressaltar que as razões para esse estado das coisas demarcam o quanto o sistema de justiça reflete os valores tradicionais das
sociedades. Assis e Constantino (2001) constatam que estudos em diversos países têm demonstrado a relação entre esses dois aspectos. Ao analisar processos judiciais do final do século XIX do Brasil, Abreu (2008) aponta que, do ponto de vista das relações de gênero, há um empreendimento do poder judiciário em garantir uma política de disciplinamento às mulheres, aos moldes da moralização da família burguesa. O posicionamento do judiciário, em relação às mulheres, parte do princípio moral do homem, branco e heterossexual. Os argumentos utilizados para justificar o direito, ou até mesmo a situação de mulheres envolvidas com atos infracionais, atravessam os tempos e não modificam suas interpretações. Segundo Campos (2003), essa visão impera nos processos judiciários até os dias atuais e estagna o direito da mulher, que, no
âmbito penal, não teria evoluído desde o século XVI66. No âmbito do atendimento
prisional essa lógica é reforçada.
Assis e Constantino (2001) apresentam a realidade das unidades de privação de liberdade para mulheres adultas como exemplo dessa questão. As autoras verificam que ao criar instituições de internação, os espaços foram planejados para punição dos homens e, por isso, nunca são suficientemente adequados para atenderem as necessidades femininas. Assim, inexistem serviços condizentes às necessidades específicas das mulheres; na verdade, o sistema de privação de liberdade consiste numa réplica dos serviços destinados aos homens, com adaptações que naturalização os papéis sociais destinados às mulheres.
Sabemos que as razões não se limitam apenas a essa justificativa. De acordo com Volpi (2002), no que se refere a medidas aplicáveis desde aqueles que tiveram seus direitos violados até os que ameaçaram e violaram os direitos de outros, a resposta
66 Em sua pesquisa, Campos (2003) faz uma comparação entre as práticas desenvolvidas pelos tribunais
franceses nos séculos XVI, XVII e XVIII, e recentes decisões de tribunais brasileiros. A autora sinaliza a semelhança dos referidos tribunais nas orientações e decisões relativas aos casos de estupro.
social determinada pelo paradigma legal não rompe, da forma mais profunda, com a perspectiva funcionalista. Evidentemente, essa realidade não difere quando tratamos das adolescentes autoras de atos infracionais. Com base em Volpi (2002), dos programas de proteção à aplicação de medidas socioeducativas, o atendimento reduz-se ao retorno ao ambiente familiar, à inserção profissional, à verificação da frequência escolar e ao desenvolvimento de atividades esportivas.
Essa abordagem universalizante, sem se preocupar em desenvolver a desnaturalização da hierarquia do poder do homem sobre a mulher tem impedido que o atendimento às adolescentes em conflito com a lei seja desenvolvido a partir de uma abordagem crítica e que respeite as especificações dos gêneros.