• Sonuç bulunamadı

A professora de Miguel concordou em realizar a entrevista utilizando o gravador. Também conseguimos uma sala no departamento de saúde, privada e tranquila, com todas as condições necessárias para conversarmos sobre a situação escolar de Miguel.

Logo no início, a professora afirmou que “[...] o problema maior dele é o relacionamento, ele é agressivo, ofende, parece que, sem ele perceber, ele ofende as pessoas, ele agride na brincadeira, ele ofende, ele machuca até, né?”

Após conversarmos sobre as principais queixas da escola em relação à criança, a entrevista foi bastante focada em um acontecimento em que Miguel tentou “abusar” de um colega, seu melhor amigo na escola. A professora contou que após este acontecimento, Miguel deu uma melhorada, pois o fato mobilizou a todos: família, funcionários, professores e alunos. A professora assim relatou o ocorrido:

“Ele deu uma melhorada depois do último acontecimento. Ele pegou o menino no recreio e tentou estuprar o menino lá, né? [...] nem sei se falo [...] foi um alvoroço! [...] pai veio, mãe do menino [...] As crianças tudo em volta, começaram a falar [...] e aí acho que ele sentiu, a mãe também ficou muito chateada, todo mundo ficou chateado. Aí ele sentiu [...] Aí pegou firme com ele mesmo. Aí ele deu uma melhorada.[...]”

A professora estava com receio de relatar o acontecimento, porém eu a encorajei e procurei investigar quem viu e como a escola trabalhou e compreendeu o fato. Ainda, procurei questionar se o fato não teria sido uma “brincadeira entre meninos” ou uma forma de descoberta do corpo e do prazer:

“As crianças que viram [...] daí chamaram a inspetora, né, [...] o menino só chorava, o outro que ele pegou, só chorava, só chorava, só chorava [...] foi o melhor amigo dele, sabe? Deu muito trabalho o Miguel.”

“Parece que ele pegou na marra o menino. Segurou. Pôs assim [...] Parece [...] prendeu o pescoço. Derrubou ele no chão [...] e tava arrancando a roupa, o menino mandando ele parar e ele não parava ( eu também não vi, foi o que me falaram, tá?). Ele queria pegar o menino à força mesmo. Não era assim uma brincadeira. Depois os amiguinhos começaram a falar que ele era a mulher do Miguel.”

Com relação à aprendizagem, a professora afirma que ele não tem dificuldades: na prova do SARESP, chegou a “gabaritar” em matemática. Entretanto ela frisou que se Miguel não for medicado, ele não tem concentração. No tocante ao relacionamento com a professora, ela afirmou que era bom, que conversava bastante com ele. Uma vez ele foi agressivo com a professora, isto aconteceu quando ela foi apartar uma briga dele: “[...] ele veio para acertar em mim [...] aí desviou e não acertou [...]. A professora disse que talvez essa atitude de Miguel fosse ocorrer com qualquer pessoa que tentasse segurá-lo naquele momento de raiva. Ela complementou que com ela, ele não é agressivo, somente com os colegas: “Alguém falar alguma coisa ele vai em cima [...] ele passa, puxa o cabelo, chuta, hoje mesmo chutou [...] assim [...] do nada, chutou o outro”. Diante da colocação da professora, perguntei-lhe como aparecia a agressividade e ela respondeu:

- “Às vezes acontece [...] assim [...] alguma coisa. Mas assim [...] do nada mesmo [...] na brincadeira mesmo ele é agressivo”.

A professora também foi questionada a respeito da participação da família na vida escolar de Miguel. Neste sentido ela relatou que “[...] a mãe até tenta [...] vem em reunião”. Porém, Miguel não faz a lição de casa e a mãe só percebeu isto no final do ano. Também a professora observa que o relacionamento familiar é complicado: “A mãe fala uma coisa, aí vem a tia, a avó e fala outra coisa [...] acho que é muita gente que não fala a mesma língua pra ele, né.”

Na sala de aula, ela afirmou que procura resolver os problemas “[...] na base da conversa, conversando, fazendo um debate, pensando e refletindo [...]. Mas tem coisa que vai pra diretoria, aí manda chamar a mãe, também.

Questionei ainda sobre como Miguel é percebido na escola e ela respondeu que: “Ele é mal. [...] mal assim [...] mal visto, ele já era [...] porque todo recreio ele briga mesmo, aí ele é conhecido por todo mundo agora, depois disso ele é conhecido [...] tem até apelido na escola [...]eu ouvi assim entre os funcionários [...]

e dos outros meninos da outra sala, que ele é assim chato, briguento [...] não é apelido bonito, não [...] é alguém que pega o outro.”

Diante desse quadro, questionei com a professora sobre as mudanças e sugestões que ela sugeria para o próximo ano, visto que já caminhávamos para o final do ano letivo:

“Tem que ser mais firme, a professora tem que ser firme, a mãe tem que ser firme. No começo a gente foi mole com ele [...] as regras têm que fazer com que ele siga porque demorou bastante para que ele respeitasse [...]. E ele não pode ficar sem o medicamento dele [...] porque ele é uma pessoa que realmente precisa porque senão eu acho que ele vai para um outro caminho. A vida dele toma um outro caminho. Porque ele fala muito [...] que nem ontem [...] mesmo depois do recreio [...] ele veio falando pra mim que na hora do recreio [...] o efeito do remédio passou [...]. Neste ínterim, a professora relatou que Miguel havia inventado uma estória sobre uma colega de classe, dizendo sobre a mesma: “[...] que ela vendia maconha, que ela fumava maconha [...] que ela usava droga [...] ela veio me falar [ ...] falou isso pra menina. Tem umas coisas assim que ele fala [...] já falou também quando aconteceu aquela chacina na escola, ne´ [...] ele falou assim [...] tipo brincadeira [...] que iria arrumar uma metralhadora pra tátátá [...] pra metralhar a escola [...] daí a gente tem que conversar.

Em relação ao desenvolvimento cognitivo:

Miguel “ele vai e depois ele para. Em matemática ele vai vai vai [...] porque ele gosta muito de matemática ele vai, vai, vai e aí depois acho que cansa [...] não quer mais saber”. A professora comenta que ele poderia ir além e que ela poderia dar todas as oportunidades para ele desenvolver suas potencialidades, porém Miguel parece perder a motivação muito facilmente. Posteriormente, ela complementa que: “Ele gosta de desenhar bastante, desenha carro, monstro, preto [...] vem desde [...]. A professora cita que tais atitudes vinham desde o país onde ele morou por cerca de três anos, visto que foi lá que recebeu o diagnóstico de TDAH. Ainda fez o seguinte comentário: “O neuro falou que ele realmente ele precisa, que ele precisa ser medicado [...] quem me falou isso foi a mãe [...] ele pode virar para o outro lado, usar essa a inteligência dele para o mal [...] ele é muito inteligente mas ele pode usar pro mal. É isso!”

Durante a entrevista, também ficou evidente o quanto a professora valoriza o tratamento medicamentoso:

Igual hoje mesmo [...] ele sempre toma duas ritalinas: uma antes [...] a mãe dele que dá, né? [...] e outra depois do recreio [...] aí não é sempre que ele quer tomar depois do recreio [...] aí tem vez que ele dá muito trabalho. Senão ele não realiza nenhuma atividade”.

Mais uma vez a professora relatou o modo como Miguel lida com sua sexualidade, parecendo algo descontrolado, sem limites, vergonhoso e escancarado:

“Lógico que ele tem umas dança [...] quando ele tá [...] começa aquela dança sensual lá dentro da sala. Ele fica se esfregando assim na frente dos outros, se esfregando mesmo [...] no da frente [...] em quem estiver perto e eu não posso deixar, dentro da sala eu não posso!”

Foi bastante expressiva a forma como a professora comentou as mudanças na vida de Miguel, bem como a separação do pai, que naquele período ainda estava fora do país:

“Mas como eu falei pra ele [...] a vida é assim [...] a gente vai ter que se adaptar nos locais [...] trabalhar, mudar de emprego [...] mudou daqui pra outro país [...] ele falou que tinha mudado para um monte de casa [...] cada lugar que você vai é uma turma diferente [...] você tem que ir acostumando. [...] No começo também ele falava muito do pai [...] porque disse que esse pai é muito bom pra ele [...] aí com o passar do tempo o pai não viria [...] eles vieram na esperança que o pai viria [...] aí ele parou de falar no pai. Tirou o sobrenome do pai em uma produção, sabe? [...] Agora ele nem fala mais do pai [...]. Agora acho que vai ter problema quando o pai voltar!”

5.2.7. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CASO

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem Que é pra te dar coragem

Pra seguir viagem Quando a noite vem (Chico Buarque)

O nome de Miguel estava tatuado no corpo da mãe, mas será que também estava fixado em seu coração? Que lugar essa criança ocupava na vida de sua mãe?

Nos vários momentos do psicodiagnóstico, pude perceber o quanto os lugares e as funções parentais estavam confusos na história de Miguel. Afinal, de quem ele era filho: do avô? Do pai biológico? Ou do padrasto? Por outro lado também é possível questionar: quem exercia a função materna: a mãe, a tia ou a avó?

A mãe relatou o quanto ficou emocionada ao ver que o filho parecia com seu pai, foi um misto de alegria, ciúmes (porque o pai amou aquela criança desde então) ou culpa? Miguel era seu filho ou seu próprio irmão?

Fronteiras que às vezes pareciam muito esparsas ou rigidamente fixadas “a ferro e fogo, em carne viva”? A necessidade de firmeza em terreno tão fluido, flutuante como as águas que separaram pai-filho, avô-neto, avó-neto. Referências morais e parentais cambiantes e por vezes, contraditórias. Estas foram as percepções que emergiram a partir do encontro com a família, com a criança e com a escola.

Os impulsos sexuais e agressivos aparecem muitas vezes sem medida e sem contenção. Na relação ambígua com a mãe, quer estar com ela e até ser como ela, as relações sádicas e agressivas podem ser uma defesa de Miguel contra os desejos sexuais-homossexuais que aparecem com toda a força e sem a interdição paterna. Foi bastante interessante a colocação da professora quando contou que Miguel havia retirado o sobrenome do pai em uma produção da escola. Sem pai e sem Lei, o que lhe restava para “não virar bandido” eram os medicamentos prescritos pela medicina.

No dia de sua devolutiva, comentei com Miguel a respeito dos remédios que tomava e ele colocou que também a avó havia dito que: “[...] prefere me ver tomando remédios do que eu virar bandido [...] só que o remédio é uma droga”. Também foi bastante significativa a fala da mãe a respeito dos medicamentos: “[...] o risperidona murcha a bola dele” – pois diminuía a agressividade e o fazia dormir, ficar quieto.

A fala da avó, virar bandido, e de sua professora que percebera uma insensibilidade de Miguel diante da notícia de uma chacina em uma escola, era uma profecia fantasiosa ou uma intuição baseada em fatos da realidade? Eis uma questão difícil de responder, visto que Miguel era uma criança com um psiquismo em estruturação. Além disso, seu potencial cognitivo e o modo como brincou comigo, na hora de jogo diagnóstica, demonstrou plasticidade e criatividade. Na hora

de jogo, ele transformou a massinha de modelar em vários personagens e brinquedos, além de criar uma história.

Não obstante, de acordo com a teoria do pensar de W. R. Bion, emoção e cognição não estão desconectados, pelo contrário, O’Shaughnessy (1990,p. 197) explica que o pensar para Bion: “Não significa algum processo mental abstrato. Sua preocupação é com o pensar como ligação humana – o esforço para compreender a si próprio ou o outro [...]”.

Com efeito, o que pude perceber no caso de Miguel foi uma cisão entre afeto e cognição, falta de preocupação com o outro e uma labilidade na relação com o objeto de conhecimento. Apesar de ter um potencial cognitivo, sua professora colocou que facilmente ele perdia a motivação e o interesse pelos conteúdos da matemática, disciplina que tinha mais facilidade de aprender. Neste sentido, minha hipótese é de que Miguel apresenta uma pseudo-integração, uma aparente integração da posição depressiva, mas que mascara uma organização patológica.

No nosso último encontro, Miguel chegou falando que não queria vir, que o seu desejo era ficar com uma prima da idade dele que havia chegado de viagem. Não sei se disse isto após eu falar que era nosso último dia, porém, transferencialmente, eu senti uma rejeição da parte dele e em mim, veio um sentimento de culpa por ser mais uma pessoa que iria “passar” pela vida dele, visto que eu o encaminharia para psicoterapia com outra psicóloga.

Baseando-me em Bauman (1998) eu não queria ser mais uma “turista” que havia passado pela vida dele, sem compromisso ou ligação. Todavia, naquele momento, eu estava ocupando aquele lugar. A dor da separação foi forte, assim como o medo de que, no município, não houvesse um profissional que realmente pudesse ajudá-lo a se desenvolver e a se conhecer. Corria o risco de que ele fosse inserido em um projeto onde as crianças diagnosticadas com TDAH eram atendidas em grupo: “Grupo de crianças com TDAH”. Tentei impedir isto, encaminhando-o para um atendimento individual, mas a lista de espera era grande e os profissionais tinham o costume de agrupar as crianças com o objetivo de dinamizar o serviço. Penso que o maior problema dessa modalidade de atendimento não era o atendimento grupal em si, mas a tendência de cristalizar a identidade subjetiva em um rótulo, oficializando a existência do transtorno e a ideia do tratamento desta “patologia” por meio do controle químico.

Deste modo, gostaria de salientar que o conceito de organização patológica utilizado por Steiner (1991), do qual me apropriei para compreender o funcionamento de Miguel, não tem a intenção de fixar a identidade desta criança em uma patologia, mas sim esclarecer que é importante saber em que nível o sujeito funciona e qual é o seu estado mental predominante. Essas questões são de suma importância para que o terapeuta possa dirigir-se ao paciente de uma forma que possa ser compreendido.

A dinâmica familiar de Miguel e toda a instabilidade que vivenciou em tão tenra idade, levou-me também a recorrer ao trabalho de Minerbo (2009, p.399). Esta levanta a hipótese de que “[...] a realidade vem sendo convocada a dar sustentação e credibilidade ao símbolo [...]” visto que as instituições (família, escola, Estado, Direito) estão frágeis e não oferecem representações suficientes para dar sustentabilidade ao símbolo. Porisso uma busca contínua por vivências concretas e reais: uso de tatuagens, reality show, músicas e danças erotizadas, atuações, entre outros. Vários desses aspectos foram detectados na biografia de Miguel. Assim, de acordo com meu ponto de vista, penso que seu principal sintoma - a impulsividade – é um transbordamento pulsional que não encontrou representações suficientes para a sua contenção.