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6.3 Genetik Test Verileri
Habermas argumenta que as decisões políticas participativas constroem consensos baseados em interesses universalizáveis. Embora consciente da crescente complexidade, diferenças sociais e culturais das sociedades democráticas contemporâneas, considera que a Democracia Participativa se manifesta em diferentes maneiras de ver a sociedade, na existência social e no modo de construir espontaneamente as decisões públicas. Não aceita que a convivência social consista na harmonização de interesses particulares dos principais grupos de poder dentro da sociedade.
Dessa forma, a meta da negociação é a satisfação de interesses universalizáveis (racionalidade comunicativa). A ética do discurso está fundada na racionalidade comunicativa. Essa fundamentação é o discurso ideal que sirva de ideia reguladora, ou seja, meta para os diálogos reais e um critério para criticá-los, quando não se ajustam a esse ideal. Por isso, urge, na esfera da vida social, a ideia de que todos são interlocutores válidos, levados em conta para que possam participar do diálogo em condições de simetria, sendo que as decisões válidas não são aquelas fruto da maioria numérica, mas aquelas em que todos se podem reconhecer.
Habermas não crê que o equilíbrio político e social possa ser obtido negociando entre grupos e setores cujos interesses sejam apenas de particulares e não universalizáveis. Portanto, o novo paradigma de participação pela via da democracia direta “pressupõe um sentimento de solidariedade social, capaz de
superar a concepção egocêntrica própria do individualismo liberal-burguês, assumindo destaque a ideia de cidadania” (HERMANY, 2007, p. 46).
Constata-se, de igual forma no pensamento de Habermas, que a participação da cidadania no processo de formação das decisões públicas destaca a criatividade dos processos políticos participativos, seu caráter de processos de aprendizagem social que permite explicar, descobrir ou construir interesses universalizáveis que dão lugar a consensos políticos legítimos dos quais decorrem uma série de direitos de natureza participativa.
A tarefa principal da teoria democrática participativa consiste em justificar a participação social e a política ampla, permanente e institucionalizada. Habermas (1997) afasta-se dos pensadores teóricos da Democracia Participativa, como Macpherson, Fromm, Rogers e Dahl, pois centraram as reflexões na criação de interessantes modelos organizacionais de participação política e social, os quais, contudo, tiveram pouca repercussão intelectual e política. No entanto, Habermas centra esforços em mostrar as potencialidades dos processos comunicativos, reconhecendo que nas sociedades contemporâneas as tendências elitistas e diretivas são predominantes, tanto em âmbito político como social.
As formas organizacionais existirão a partir dos resultados dos próprios processos de participação, conforme expõe o autor, a legitimidade de um novo contexto jurídico e a proposta de uma construção de uma normatividade não estão vinculadas exclusivamente às estruturas atinentes ao processo legislativo oficial, trata-se de uma nova ótica de normatividade decorrente de processos de autorregulação, nos quais prepondera a lógica argumentativa, fundamentais na busca do consenso social, e amplia-se a legitimidade, pois os destinatários das regras e decisões públicas também agem como autores.
Habermas não nega o papel do Estado, tanto que vislumbra neste uma importante estratégia de garantia dos procedimentos democráticos sociais e participativos, apenas entende superada a ideia deste como monopólio oficial de produção normativa, mas afirma a necessidade de vinculação da articulação dos atores sociais com os institutos estatais. Os limites dessa relação devem ser encontrados no texto constitucional, fortemente nos princípios que informam o ordenamento jurídico como sistema condicionado formal e materialmente pela constituição.
Em face da lógica includente da Democracia Participativa, leciona Paulo Bonavides (2006 apud HERMANY, 2007, p. 101): “A ideia de Democracia Participativa se vincula à teoria material da Constituição, o que permite a conexão entre a garantia procedimental da estrutura participativa a um conjunto de interesses substanciais, ou seja, materiais do cidadão”.
O autogoverno não consiste no exercício da soberania pelo povo, mas na realização da vontade popular como procedimento, isto é, já não se trata mais de opor-se ao governo da minoria, nem ao povo como maioria ou como conjunto de cidadãos, como proposto pela teoria clássica da democracia desde Aristóteles, mas sim de democratizar os processos de tomada de decisões públicas e de realização social.
Habermas está consciente de que um sistema político se move por uma lógica de poder e cujas principais decisões em um Estado de Direito devem expressar-se como direito positivo. Em sua opinião (HABERMAS, 1989, p. 49):
É o direito que dá forma jurídica ao poder, e que lhe conferi um caráter obrigatório, e simultaneamente, de quem deriva a obrigatoriedade da forma jurídica (...). A partir da perspectiva de direito, tanto a política como as leis e disposições exigem uma fundamentação normativa.
Pelo fato de o direito ter conferido forma jurídica e obrigatoriedade ao poder, requer incorporar-se a dimensão normativa, que não pode vir das elites políticas ou burocráticas regidas pela lógica do poder, mas somente da sociedade civil.
Dessa forma, Habermas outorga grande importância aos movimentos sociais, aos grupos que chama “auto-organizadores”, os quais convertem em temas sociais o que inicialmente eram somente situações particulares, reintroduzindo a dimensão social no debate democrático contemporâneo: “a esfera pública é um espaço no qual indivíduos, mulheres, negros, trabalhadores, minorias raciais, tornam-se politicamente autônomos, podendo então discutir, na esfera pública, os seus problemas e as suas necessidades” (HABERMAS, 1997, p. 54).
De acordo com o autor, a vontade legítima emana de cidadãos que passam a ser parceiros do direito e da própria democracia, e não somente meros espectadores das questões jurídico-políticas; e o processo legislativo passa, então, a ser espaço de integração social, pois, segundo Habermas é “uma vontade legítima, que resulta de uma autolegislação presumivelmente racional de cidadãos politicamente autônomos” (HABERMAS, 1997, p. 54). Habermas vê o processo legislativo como meio de integração social, pelo fato de que é dado espaço a todos os cidadãos. Dessa forma, recoloca o debate da democracia num procedimentalismo social e participativo.
Assim, certos interesses particulares na origem podem universalizar-se e por essa via contribuir para a consecução dos valores normativos da modernidade: autogoverno, autonomia e autorrealização, intimamente ligados à liberdade e à paz, sendo condições essenciais da diminuição das desigualdades, da cidadania ampla, do reconhecimento do pluralismo social e cultural, do reconhecimento de dignidade de todos os homens e suas culturas.
A Constituição Federal brasileira de 1988 integra institutos de participação direta dos cidadãos nas decisões políticas, preservando as instituições de democracia representativa e seu exercício. Daí decorre que o regime assume uma forma de Democracia Participativa, no qual se encontra a participação por via representativa9 e participação por via direta do cidadão.10 A constituição incorpora princípios de justiça social e do pluralismo, assim o modelo democrático preceituado na Constituição Federal do Brasil é de democracia social, participativa e pluralista.
O legislador constituinte de 1988 conferiu nova redação à cláusula que desde a Constituição de 1934 consagra o princípio da soberania popular nas Constituições brasileiras. Assim, a tradicional afirmação do “Art. 2º – Todos os poderes emanam do povo e em nome dele são exercidos” (BRASIL, 1934): enunciado emblemático de um modelo de democracia predominantemente representativa. O constituinte de 1988 preferiu declarar: “Parágrafo único – Todo o poder emana do povo que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição” (BRASIL, 1988, p. 17).
Estaria assim assinalada a passagem ao que tem sido interpretado como modelo de Democracia Participativa, semidireta ou plena, em que o exercício da soberania popular se estende para além do voto, com a preservação da potencial constituinte dos cidadãos (PILATTI, 1999, p. 77).
É nesse sentido que os institutos de democracia semidireta ou participativa, amparados pela Constituição Federal de 1988 e legislação complementar, ganham força e assumem papel decisivo, seja na definição das políticas públicas, seja no
9 CRFB/88. Art. 1º. Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos (representativa) ou diretamente, nos termos desta Constituição (BRASIL, 2011, p. 17, grifo nosso).
10 CRFB/88. Art. 1º. Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente (participativa), nos termos desta Constituição (BRASIL, 2011, p. 17, grifo nosso).
controle dos representantes. Instrumentos como o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular de lei, no âmbito do Legislativo, e os conselhos gestores de políticas públicas e o orçamento participativo, no campo do Executivo, possibilitam manter um canal permanente de deliberação pública, fazendo da prática política um exercício contínuo.
Depreende-se do exposto que o conteúdo expresso no texto constitucional brasileiro de 1988 e textos infraconstitucionais inaugura um novo paradigma de Democracia Participativa.
A concepção adotada pelo Brasil permite que se estabeleça um liame entre a ordem constitucional e a legitimação das decisões públicas e, ainda, mostra-se compatível com o modelo de democracia procedimental proposto por Habermas, que destaca a posição da sociedade na condição de comunidade de intérpretes, atuando a partir de uma articulação comunicativa.
Paulo Bonavides define que a Democracia Participativa possibilita o direito à resistência e à luta. Aqui, o legitimador do sistema, o norte da estrutura deixa de ser a lei. Não se olha mais para o Estado, mas sim para quem o irá compor em última instância, ou seja, o próprio cidadão. Com base nisso, afirma o autor: “Consiste a essência e o espírito da nova legitimidade: o abraço com a Constituição aberta, onde sem cidadania não se governa e sem povo não se alcança a soberania legítima” (BONAVIDES, p. 213, 2008).
Deverá observar-se que a lei se constitui em mera baliza de interpretação donde se deve operar a concretização dos direitos que, hoje, são restringidos ao plano abstrato normativo. Não há interpretação sem escolha política, contudo, esta deve ser uma política de concreção dos valores inseridos na Constituição (BONAVIDES, 2008).
3.3 POSSIBILIDADES DE APLICAÇÃO DO NOVO PARADIGMA DA TEORIA