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6 GENETİK ŞİFRE VE GENETİK MESAJIN TRANSLASYONU

6.2 Genetik Mesajın Translasyonu

A Revolução de 1930 estabeleceu uma nova articulação de forças na composição do poder de Estado, promovendo um crescente processo de centralização política e administrativa e de intervenção econômica, que se confirmou com a instauração do Estado Novo, em 1937. Outorgando-se o papel de organizar o Estado para promover o desenvolvimento socioeconômico, a coalizão que assumiu o

Figura 33 – O tampo espelhado da mesa duplica a imagem de algumas pastas (lê-se "oficial administrativo– Belo Horizonte", "oficial administrativo – São Paulo").

Fonte: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil- CPDOC.

poder promoveu reformas na estrutura institucional do Estado, objetivando estabelecer as condições para a almejada modernização. Por outro lado, e de forma complementar, a adoção de políticas públicas específicas nas áreas da saúde, educação, comunicação, dentre outras, compôs o conjunto de medidas com a meta de construção nacional. O âmbito de abrangência do Estado tornou-se, nessa década, enormemente ampliado.

A diversidade de propostas para o país e as amplas possibilidades abertas com o movimento de 1930 estabeleceram, inicialmente, um clima de indefinição política25. Nesse sentido, são significativas algumas respostas a um questionário, distribuído, em 1933, pelo Diário de Notícias e posteriormente publicado em livro26, que tinha, entre outros objetivos, fazer um balanço crítico do Governo Provisório, indagando entrevistados, pessoas ilustres ou intelectuais de menor projeção: “Para onde vai o Brasil?”. As afirmações do militar Hercolino Cascardo e do cronista Berilo Neves revelam teor similar (apud Oliveira et all., 1980, p. 272, 276):

O Brasil não vai, volta. Volta ao mesmo regime, ao mesmo estado de coisas que reinava antes de outubro de 1930, com a simples substituição de alguns homens de governo de outrora por outros de hoje.

Nossa civilização é como o ruge com que as mulheres se enfeitam: sai com água e sabão... Por isso, diante da realidade nacional, a minha impressão é que o Brasil não vai para parte alguma: fica onde estava.

No âmbito da produção intelectual ou nas metas das elites dirigentes, era a ideia de modernização que entusiasmava, traduzida em temas como a industrialização, o planejamento governamental, a reforma do sistema de ensino, “a superação da preguiça pelo trabalho e da luxúria pelo ascetismo, a mudança das instituições e atitudes” (IANNI, 1992, p. 37). Nessa década, são publicadas interpretações basilares da história da sociedade brasileira, a exemplo de Raízes do

Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda, Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Evolução Política do Brasil, de Caio Prado Júnior, Brasil Nação, de Manuel Bonfim,

dentre dezenas de outras obras. A esse respeito, Antônio Cândido ( apud IANNI,

25 Exemplo ilustrativo desse ambiente de indefinições foi o surgimento de projetos radicais, a exemplo do surgimento da Ação Integralista Brasileira, produto da imprevisibilidade do clima político da década.

26 Para onde Vai o Brasil? Para o Comunismo? O fascismo? O integralismo? A democracia? O socialismo? O federalismo? A ditadura? Pref. De Gilberto Amado. Rio de Janeiro: Renascença, 1933, 178p.

1992, p. 31), considera o marco de 1930 "um eixo e um catalisador", apesar de destacar as inquietações e realizações da década de 1920:

Em grande parte porque gerou um movimento de unificação cultural, projetando na escala da nação fatos que antes ocorriam no âmbito das regiões. A este aspecto integrador é preciso juntar outro, igualmente importante: o surgimento de condições para realizar, difundir e "normalizar" uma série de aspirações, inovações, pressentimento gerados no decênio de 20, que tinha sido uma sementeira de grandes mudanças.

Os grupos que compunham a coalizão que assumiu o poder em 1930 tinham em comum a aspiração ao progresso, a superação do atraso via desenvolvimento econômico e a construção de um Brasil à altura das nações integrantes do moderno mundo industrial. O tema do nacionalismo é o eixo aglutinador do ideário daquela coalizão, marcada pela heterogeneidade dos grupos que a compunham – tenentes, setores descontentes das oligarquias regionais, setores médios urbanos –, estabelecendo, em decorrência, um "Estado de compromisso", segundo Eli Diniz (1978, p. 47,48):

Sem dúvida, existe um certo consenso quanto à caracterização do tipo de Estado que emergiu da luta contra o regime oligárquico da Primeira República. Representando um esforço de ajustamento entre os setores tradicionais, grupos oligárquicos dissidentes e os setores emergentes, como os grupos empresariais e a classe média urbana, teríamos a formação de um Estado de compromisso, alternativa encontrada para reformulação de poder, dada a incapacidade de qualquer dos grupos em confronto assumir a hegemonia do processo político.

Eli Diniz (1978, p. 48-50) destaca divergências entre analistas que minimizam a ruptura do processo pós-revolucionário em relação ao regime anteriormente vigente e aqueles que consideram a década de 1930 de fundamental importância para a evolução histórica do país nos planos político e econômico, especialmente no que se refere ao fortalecimento das condições para a industrialização do país. Ainda que caracterize o movimento de 1930 como um processo de "modernização conservadora", a autora considera preponderantes, entretanto, os aspectos da "modernização e a renovação, em contraposição aos aspectos ligados à preservação e à conservação", enfatizando, sobretudo, o estabelecimento de condições para a transição de um sistema de base agroexportadora para uma sociedade de natureza urbana e industrial.

O processo de industrialização do Brasil foi impulsionado naquela década, quando foram lançadas as bases para o desenvolvimento dessa nova ordem econômico-social. Tal como em outros países da América Latina com economia baseada em um ou poucos produtos agropecuários, minerais ou extrativos, as crises do capitalismo internacional afetavam diretamente as relações econômicas internas. Nesse sentido, a crise do setor cafeeiro, que, até então, respondia por 70% das exportações do Brasil, resultaria em significativa reorientação da política econômica do país. A partir de 1930, alterou-se a composição da riqueza nacional, com crescente avanço do setor industrial, em detrimento do produto agrícola. É significativa a informação do censo de 1940: 70% dos estabelecimentos levantados haviam surgido após 1930 (DINIZ, 2004, p. 40). Nos quinze anos do primeiro governo de Getúlio Vargas, verifica-se a aceleração do desenvolvimento de relações capitalistas de produção e a crescente hegemonia da cidade sobre o campo.

Os caminhos para o desenvolvimento do país – indústria ou agricultura –

animavam o debate em que se envolviam empresários, políticos e militares, entre outros setores intelectualizados. O crescente desenvolvimento da indústria não obscurecia, entretanto, severas críticas, como o argumento de "indústrias artificiais", que teriam sido prematuramente estabelecidas em país essencialmente agrícola, conforme o pensamento do jornalista Antônio de Melo Bittencourt (apud OLIVEIRA, 1980, p. 123). Nessa mesma direção apontava a reflexão de Luís Amaral, autor do estudo "História geral da agricultura brasileira, no tríplice aspecto social-econômico", publicado na Coleção Brasiliana, ao constatar, segundo resenha dessa obra, que a indústria "nada teria de nacional – nem a matéria-prima, nem os proprietários, nem as máquinas. O único elemento genuinamente brasileiro seria o consumidor – sua vítima" (apud OLIVEIRA, 1980, p. 8).

Deve ser assinalado que, embora não fosse mais preponderante a perspectiva agrarista das décadas anteriores, o desenvolvimento industrial não se constituiu em objetivo programático da Revolução de 1930 (DINIZ, 1978, p. 69,70). O setor agroexportador também se beneficiou com o novo regime, com criação de organismos reguladores e de apoio à produção, como o Instituto do Cacau, Instituto do Açúcar, dentre outros, além de ter sido intocada a grande propriedade rural (ALENCAR, 1985, p. 252, 253). Assim, medidas favoráveis à indústria conviviam com outras favoráveis aos grupos tradicionais.

Entretanto, a crescente importância da perspectiva industrializante do governo pode ser ilustrada com dois pronunciamentos de Getúlio Vargas, separados por um período de doze anos um do outro; no primeiro, em 1931, o presidente faz defesa da siderúrgica, relacionando o ferro, sobretudo, à agricultura, ao passo que, no segundo, em maio de 1943, ao discursar em Volta Redonda, o presidente conjuga abertamente industrialização e desenvolvimento econômico, sob a égide do argumento da defesa nacional (apud FAORO, 2001, p. 810):

O nosso engrandecimento tem que provir da terra, pelo intenso desenvolvimento da agricultura. Mas o esforço para esse fim se esteriliza e fraqueia ao lembrarmo-nos que todo o maquinismo, desde o arado que sulca o seio da gleba até ao veículo que transporta o produto das colheitas, deva vir do estrangeiro.

Ferro, carvão e petróleo (...) são os esteios da emancipação de qualquer país (...) O país semicolonial, agrário, importador de manufaturas e exportador de matérias-primas, poderá arcar com as responsabilidades de uma vida industrial autônoma, provendo as suas urgentes necessidades de defesa e aparelhamento (...) Mesmo os mais empedernidos conservadores agraristas compreendem que não é possível depender da importação de máquinas e ferramentas, quando uma enxada, esse indispensável e primitivo instrumento agrário, custa ao lavrador 30 cruzeiros, ou seja, na base do salário comum, uma semana de trabalho (Discursos de Getúlio Vargas:460).

A defesa da industrialização, por parte do segmento empresarial, teve o importante lastro do pensamento do engenheiro Roberto Simonsen, líder de classe dos industriais, em livro intitulado As Crises do Brasil, lançado em dezembro daquele ano. Preocupado com o “desenvolvimento da crise universal” e com “o estado crônico de depressão econômica e financeira”, propunha:

Dadas a organização moderna, a variedade e abundância de nossas matérias-primas e o respeitável mercado consumidor que já representa a população brasileira, nenhum outro fator, fora do desenvolvimento da indústria, poderá fornecer oportunidade maior para se conseguir uma rápida melhoria no padrão de vida no Brasil (apud OLIVEIRA,1980, p. 318).

Apesar da entusiasmada defesa de Simonsen, será a ação do Estado o fator principal da implantação do processo de industrialização no país, tornando-se o principal investidor em áreas estratégicas – aço, transportes, comunicação. A Revolução de 1930 foi um importante marco nessa direção. Como referido, a atuação do Estado teve, desde os primeiros anos do novo regime, um caráter centralizador e intervencionista, com a justificativa de “suprir as deficiências da iniciativa individual e coordenar os fatores de produção” (CAPELATO, 2003, p. 118).

Esse modelo de desenvolvimento contemplava interesses de diferentes segmentos representados no poder, conforme Fausto (1995, p. 367):

A burocracia civil defendia o programa de industrialização por considerar que era o caminho para a verdadeira independência do país; os militares porque acreditavam que a instalação de uma indústria de base fortaleceria a economia – um componente importante de segurança nacional; os industriais porque acabaram se convencendo de que o incentivo à industrialização dependia de uma ativa intervenção do Estado.

A industrialização no período do primeiro governo de Getúlio Vargas foi produto da política de substituição de importações, incentivando os investidores particulares na produção industrial destinada ao mercado interno. Para tanto, o Estado estabeleceu os fundamentos políticos-institucionais da nova ordem em gestação, possibilitando a adoção de medidas favoráveis aos interesses da ascendente elite industrial. A participação do empresariado nesse processo foi crescente, influindo na definição dos rumos do país e consolidando seu espaço político, apesar da primazia da intervenção estatal.