• Sonuç bulunamadı

Satisfeito com o desempenho do pupilo no MEC, Lula começou a lhe pedir palpites sobre economia – ele diz que só opinava ao ser consultado, num esforço para não melindrar os ministros da área.

A transformação do auxiliar em candidato foi uma consequência natural. E só não se precipitou em 2010, quando Lula sondou Haddad para concorrer ao governo do Estado, porque ele já havia escolhido outra ilustre desconhecida, Dilma Rousseff, para disputar a Presidência.

“Ele sabia que um projeto de renovação tem munição limitada”, diz o ex-ministro.

Nas palavras dele, o convite para se candidatar neste ano, contrariando a desconfiança do partido e as pretensões da ex-prefeita Marta Suplicy, foi o “coroamento” da aproximação. Os dois se encontram ao menos uma vez por semana e conversam por telefone dia sim, dia não.

O ex-presidente driblou o tratamento do câncer para articular a campanha e chegou a posar com o ex-inimigo Paulo Maluf para ampliar o tempo do candidato na TV.

“Eu não sei nem como caracterizar a relação que nós temos hoje. É meio fraternal, meio paternal”, arrisca Haddad. “Eu o entendo, ele me entende, está tudo sempre super resolvido entre nós. Tem hora que é telepático.”

Há alguns anos, não era bem assim. Em conversas com Tarso Genro, que antecedeu Haddad no MEC, Lula chamava o afilhado de “mauricinho” e “almofadinha que deu certo”, num misto de reconhecimento e deboche.

Entre amigos, o candidato costuma se vingar imitando a voz rouca e os tropeços do ex- presidente no português.

“Já contaram para ele, mas eu neguei”, conta, com sorriso do aluno que espera o professor deixar a sala de aula para lhe pregar uma peça.

As quatro fotos e suas respectivas legendas que compõem o enunciado concreto não serão apresentadas em detalhes, uma vez que não recairá sobre elas o desdobramento metaenunciativo aqui estudado. É a foto maior que se refratará numa alegoria verbo-visual. No detalhe, será apresentado também o principal elemento verbal que terá a função do comentário que se desdobra sobre o enunciado:

193 A fotografia é creditada a Jorge Araújo, da Folhapress e, conforme consta nos créditos, foi realizada no dia 2 de junho de 2012. A legenda que a acompanha, presente no canto inferior direito, informa que “Lula discursa durante lançamento de candidatura de Haddad em SP”. Na imagem, é possível ver o ex-presidente Lula de microfone na mão, no canto direito da imagem, apontando para o candidato Fernando Haddad que aparece estar sentado, dado o desnível em relação ao ex-presidente. Pela composição da imagem, o dedo estendido de Lula parece tocar no então candidato, que sorri.

Já explicitado pela manchete do conjunto noticioso, “criador e criatura”, o perfil de Haddad presente no plano verbal discorre sobre o processo de sua indicação para concorrer à Prefeitura de São Paulo, sendo que Lula decidiu lançar um candidato sem nenhuma experiência eleitoral, buscando um projeto de renovação do Partido, criando constrangimentos com Marta Suplicy que, como ex-prefeita de São Paulo pelo PT, possuía a expectativa de concorrer ao pleito novamente. Assim, dado esse contexto, a candidatura de Haddad é tomada como uma criação de Lula, surgida por uma motivação pessoal do presidente que é chamado

194 de “criador”.

plano verbal plano visual

perfil do candidato Haddad, centrado no processo de sua escolha pelo presidente Lula para ser candidato à Prefeitura de São Paulo, disputando pela primeira vez um pleito eleitoral.

Lula discursa no lançamento da campanha de Haddad e aponta para o candidato, encostando o dedo em sua cabeça devido ao enquadramento da fotografia.

O desdobramento metaenunciativo que permitirá a constituição da alegoria verbo- visual se dá entre os elementos verbais “criador” e “criatura”, que sintetizam o que está informado no plano verbal, e o gesto do toque que se apresenta no plano visual. Como toda a alegoria verbo-visual é baseada numa relação mediada e não direta, o que permite a relação entre esses elementos verbais e visuais é a mobilização de outro discurso imagético bastante difundido e de ampla circulação:

195 A imagem é parte do afresco que cobre o teto da Capela Sistina, no Vaticano, executado entre os meses de maio de 1508 a outubro de 1512 pelo artista renascentista Michelangelo Buonarroti (1475-1564). É a sexta das cenas bíblicas a contar da entrada da Capela. Apesar de não haver um título definido, este conjunto é conhecido como A criação de Adão, e representa o momento em que Deus, à direita, dá a vida à sua criatura por meio do seu toque. Assim Daltrop e Roncalli descrevem a cena:

O primeiro homem está deitado na terra e tende, levantando-o levemente, o braço em direção ao Criador. Este avança em vôo e toca o dedo de Adão: é o instante no qual Adão é feito ciente de poder levantar-se, de poder liberar-se como indivíduo da terra da qual é formado. A divina centelha atinge o primeiro homem, lhe comunica a alma, o faz ser (1972, p. 36, tradução própria).80

Se em Gênesis há o relato de que Deus deu a vida a Adão por meio de um sopro em suas narinas (GÊNESIS 2:7), a construção pictórica desenvolvida por Michelangelo e tornada icônica na História da Arte ocidental disseminou o gesto do toque divino como o ato de tornar Adão ser vivente: o “toque da criação”, como apresentado em detalhe:

(fonte: DALTROP; RONCALLI, 1972, p. 36)

É por meio desta interdiscursividade que o desdobramento metaenunciativo se faz pertinente dentro do conjunto noticioso analisado, possibilitando a opacificação da fotografia e, consequentemente, transformando-a numa alegoria verbo-visual opacificante. Na sequência, a foto do conjunto noticioso e a reprodução do afresco de Michelangelo são

80 No original: “Il primo uomo è semisdraiato a terra e tende, sollevandosi leggermente, il braccio verso il Creatore. Questi avanza a volo e tocca il dito di Adamo: è l´attimo, in cui Adamo è fatto consapevole di potersi alzare, di potersi liberare come individuo dalla terra di cui è formato. La divina scintilla raggiunge il primo uomo, gli comunica l´anima, lo fa essere.

196 colocadas próximas para que as semelhanças possam ser notadas com maior facilidade:

A foto do conjunto noticioso:

O detalhe do afresco “A criação de Adão”, de Michelangelo:

(fonte: DALTROP; RONCALLI, 1972, p.36)

Comparando as duas imagens, encontramos tanto Lula quando Deus na mesma posição no quadro: à direita e num plano superior a Haddad e a Adão, respectivamente, com o braço em direção a ele e o dedo esticado. Se há uma diferença na postura do candidato em relação a do Primeiro Homem, ela não é suficientemente forte para impossibilitar a remissão à

197 obra de Michelangelo. E, para reafirmar a construção do desdobramento metaenunciativo, a manchete do conjunto noticioso fortalece a relação: “Criador & Criatura”.

Assim, estabelecido o desdobramento metaenunciativo no plano verbo-visual, o esquema se torna:

plano verbal plano visual

perfil do candidato Haddad, centrado no processo de sua escolha pelo presidente Lula para ser candidato à Prefeitura de São Paulo, disputando pela primeira vez um pleito eleitoral.

Lula discursa no lançamento da campanha de Haddad e aponta para o candidato, encostando o dedo em sua cabeça devido ao enquadramento da fotografia.

Plano verbo-visual

instauração da alegoria verbo-visual opacificante: Lula (Criador) discursa no lançamento da candidatura de Haddad (Criatura) e o toca, tornando-o um ser vivente no cenário político

eleitoral.

A principal fotografia do conjunto noticioso que traz um perfil do candidato Fernando Haddad é, assim, uma alegoria verbo-visual da sua criação política realizada pelo ex-presidente Lula. O discurso imagético da fotografia, que seria o registro do lançamento da candidatura de Fernando Haddad, passa a não-coincidir consigo mesmo, já que, opacificado, refrata-se como sendo o discurso imagético do momento de criação política do então candidato, que recebe o toque do ex-presidente Lula, seu criador, e ergue-se para disputar a Prefeitura de São Paulo, disputa da qual sairá vencedor.

198

Benzer Belgeler