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Ç- GENELGENİN DÖRDÜNCÜ KISMINDA YAPILAN DÜZENLEMELER

E- GENELGENİN ALTINCI KISMINDA YAPILAN DÜZENLEMELER

Já discutimos no início deste capítulo sobre a possibilidade de inserção da psicanálise nas instituições de saúde mental e como os psicanalistas sustentam e justificam sua prática nesse contexto. Seguiremos, apoiados na leitura das produções, assim como no resultado mostrado pelo software Iramuteq, a discussão sobre as matrizes conceituais nas quais os autores se apoiam para desenvolver seus estudos: transferência, sintoma e diagnóstico. Tal escolha justifica-se por se tratar de conceitos específicos da clínica psicanalítica que aparecem como importantes articuladores na construção destes trabalhos. Como exemplo, podemos citar seus respectivos qui- quadrado (transferência χ2 16.19; sintoma χ2 12.74), mostrando o quanto são significativos para a classe 4, que compõe este capítulo, e (diagnóstico χ2 33.33) para a classe 2.

Bezerra e Rinaldi (2009) desenvolvem um trabalho em que defendem a transferência como articuladora entre clínica e política nos serviços da atenção psicossocial. Tal matriz é considerada como uma das principais contribuições da psicanálise à clínica em saúde mental, levando, assim, a inserção da concepção do sujeito inconsciente dentro do contexto reformista, dando nova compreensão sobre o sofrimento psíquico. Além disso, possibilita ainda a circulação de uma narrativa e uma prática em que o sujeito é chamado a responder pelo seu sintoma, pelo seu padecimento.

As autoras, em concordância com o que vem sendo enfatizado nesta dissertação, salientam o enfraquecimento do trabalho clínico nos equipamentos de saúde mental. Não negam os grandes avanços conquistados nesse campo, cujos caminhos foram feitos em função da reinserção social de seus usuários. Evidenciam, no entanto, que, se consideramos o sujeito inconsciente, chegaremos à conclusão de que o objetivo máximo de reinserção social, tão comum nesses espaços, não garante que ocorra mudança estrutural nas relações de sujeito. Diante disso, “é neste sentido que vemos a importância do campo transferencial, pois é nele que as relações se estruturam” (BEZERRA; RINALDI, 2009, p. 347). A transferência não segue a lógica institucional que é norteada por métodos burocráticos das políticas que a regem. Sua condução privilegia a clínica da singularidade, a necessidade de considerarmos a escolha do sujeito-usuário que vai tomar um técnico como referência para suas elaborações inconscientes (BURSZTYN; FIGUEIREDO, 2012; FIGUEIREDO, 2005; LIMA, 2011; NUNES, 2007).

A vivência cotidiana da tensão entre o sujeito e a burocracia nos serviços interroga o possível enrijecimento de modelos de atendimento. Acreditamos que uma das contribuições importantes que a psicanálise pode oferecer à discussão da lógica da rede de atenção psicossocial é que se possa dar lugar ao real, à imprevisibilidade do sujeito do Inconsciente, à emergência do inesperado e à importância da transferência na condução dos casos (BEZERRA; RINALDI, 2009, p. 351).

Em sua dissertação de mestrado, Rosa (2012) realiza um estudo sobre a possibilidade de inserção da psicanálise no contexto institucional, em especial nos dispositivos CAPS. Em sua narrativa, argumenta-se que a grupoterapia é um valioso instrumento na prática institucional em saúde mental, um método ou prática que consegue firmar um compromisso entre reabilitação social e clínica da subjetividade. No desenvolvimento do referido estudo, é sustentada a concepção de que a função da psicanálise nesses espaços é permitir o aparecimento do sujeito que desempenhe papel ativo no seu tratamento, utilizando-se, para tanto, da transferência como vínculo-técnica de fundamental importância para consumação desse processo. Em suas palavras, “é nesse contexto que entra em cena a transferência como vínculo de fundamental importância para a prática psicanalítica” (p.46).

A autora também aponta alguns obstáculos para o manejo da transferência no dispositivo CAPS. É pontuado que, por se tratar de uma instituição pública, existem outros atores envolvidos nesse processo, como profissionais de outras áreas, a família e a própria instituição com seu funcionamento próprio. Dessa forma, todos esses atores interferem na relação transferencial ao ponto de se chegar a um impasse, em não saber se o vínculo estabelecido é com o analista ou com a instituição e todos os elementos que a compõe.

Como saída dessa querela, Rosa enfatiza que é necessário inserir todos os elementos institucionais (família, equipe, instituição) na condução do processo analítico, “criando-se um campo transferencial complexo” (p.46). Somente dessa forma pode-se realizar uma quebra na velha dicotomia, vista como uma dificuldade diante do andamento e progresso analítico no contexto institucional, encontrada no âmbito transferência-instituição (ROSA, 2012; VILHENA; ROSA, 2011).

Uma das formas que os analistas encontraram para elucidar esse impasse foi a criação de um conceito que engloba todos os elementos que compõem as instituições de saúde mental, denominando-o como “campo transferencial”. Com isso, arriscamos dizer que o campo

transferencial se articula à noção de “Clínica ampliada”. Há também aqui o reconhecimento de um compromisso dos analistas com o paradigma reformista, que, inseridos nesse novo espaço de atuação, situam outros atores na condução do processo analítico, cuja demonstração se faz justamente ao criar um conceito em que leva em conta a complexa rede envolvida no processo transferencial em uma instituição pública de saúde mental.

A partir do referencial psicanalítico, Ana Cristina Figueiredo (2005) discute sobre diferentes práticas coletivas realizadas nas instituições de modelo psicossocial (grupos de usuários, grupos de medicação, grupos de familiares, oficinas e trabalho protegido), elegendo o CAPS como lócus privilegiado de sua discussão. Tendo em vista que o trabalho em equipe, hoje, é um dos principais alicerces das ações clínicas do novo modelo em saúde mental, a autora aponta algumas considerações psicanalíticas para esse tipo de trabalho nos CAPS, destacando a concepção de “transferência de trabalho”.

Trata-se de um conceito lacaniano, baseado no próprio conceito de transferência, que busca o estabelecimento de um vínculo produtivo entre os pares. Como sabemos, em muitos casos, o trabalho em equipe nos CAPS é atravessado por disputas hierárquicas “do saber-todo sobre o caso”, denominado por Figueiredo (2005) como “rivalidades narcísicas provocadas pelas „pequenas diferenças‟” (p.47) que resultam em medidas segregadoras e excludentes, além de provocarem práticas de desresponsabilização na tutela do sujeito. Desse modo, a transferência do trabalho propõe um exercício de responsabilidade compartilhada norteada pela dimensão clínica e pelas próprias produções do sujeito, e não dos profissionais que compõem a equipe.

Estamos aqui tomando o conceito em sua acepção simbólica, de demanda ao saber, de suposição de saber. Se no tratamento essa suposição passa pelo analista e se dirige ao sujeito do inconsciente, analogamente no trabalho em equipe ela circula entre os pares na mesma direção (FIGUEIREDO, 2005, p. 48).

De acordo com os resultados, a palavra “transferência” aparece como uma das mais significativas da classe (χ216.19) - o que demostra sua relevância na organização dos trabalhos. Pode-se afirmar, no entanto, que esse conceito ainda aparece de forma pouco desenvolvida nos trabalhos analisados. Talvez isso se dê pela querela que apontamos anteriormente sobre as dificuldades no manejo da transferência no contexto institucional. Provavelmente, teremos que

discutir com maior profundidade e nos perguntarmos qual o motivo para tal fato, de que forma este impasse vem sendo enfrentado pelos analistas. Nosso trabalho pode contribuir ao trazer alguns apontamentos extraídos dos artigos, dissertações e teses que possibilitem ampliar a compreensão sobre tal questão.

Constatamos ainda que o texto mais utilizado pelos analistas para abordar o conceito de transferência no contexto institucional é o trabalho de Freud datado de 1912, A Dinâmica da Transferência, que compõe a coletânea de trabalhos sobre a técnica. Questionamo-nos, a partir deste dado, se as questões trazidas naquele contexto dariam conta do âmbito institucional. Naquele momento de sua obra, Freud discute uma situação muito particular da clínica, a formulação teórica de como a transferência opera no tratamento analítico.

Fica evidente, a partir da análise dos trabalhos, a carência de aprofundamento desse conceito, tão fundamental à psicanálise, na prática analítica no contexto institucional. Demarcamos aqui alguns pontos considerados problemáticos por esses autores que trabalharam ou ainda trabalham nesses serviços, em especial nos Centro de Atenção Psicossocial. De qualquer maneira, registra-se o esforço dos analistas em criar mecanismos, formulações teórico-práticas, a partir de suas experiências, para o avanço da discussão.

Benzer Belgeler