2. 41 NO’LU TÜRKİYE MUHASEBE STANDARDI
2.2.1. Genel Tanımlar
Ponto que inúmeras vezes chamou nossa atenção antes e durante esta pesquisa foi a questão da construção da memória coletiva da instituição de ensino Sud Mennucci como espaço de excelência da educação, onde entravam e de onde saíam os melhores alunos da cidade de Piracicaba. Essas ideias fazem parte dos discursos das pessoas que vivem na cidade até os dias de hoje. Tanto que na introdução do capítulo primeiro, este assunto foi analisado por meio de alguns dos construtores dessas memórias, os jornais locais da cidade em edições comemorativas de aniversário da escola e num artigo da associação de ex-alunos do Sud Mennucci, de autoria da entrevistada Marly Therezinha Germano Perecin.
Interessante notar que estes discursos permanecem nas memórias individuais dos entrevistados que participaram do empreendimento de produção do jornal escolar. Dessa forma, este ponto do capítulo tem por objetivo mostrar a permanência desse discurso de
excelência nas falas dos alunos quando se referem à escola em que estudaram. Em algumas partes, verificar-se-á que a memória coletiva permanece e em alguns pontos das memórias individuais aparecem “quebras” neste discurso de excelência, quando, como já foi explicitado, os alunos se reportam aos professores, à disciplina da instituição e à seletividade que o ensino no Instituto Sud Mennucci proporcionava.
Ao longo da entrevista feita com o professor Gustavo Jacques Dias Alvim, resquícios dessa memória coletiva de excelência de ensino aparecem quando, por exemplo, o ex-aluno se refere à qualidade do ensino que era ministrado no Instituto de Educação, o que resultou na produção do jornal estudantil O Sud Mennucci:
E era o melhor colégio da cidade na época. Era um colégio público muito bom. Era difícil conseguir vaga. E no final era assim, por exemplo: o curso colegial da minha turma começou com 45 alunos e terminamos com menos de 15, acho que 13, 14 alunos. Isso porque era muito rigoroso. Mas também a gente saía dele no final e ia direto pra faculdade. Eu mesmo fiz vestibular em São Paulo, eu não fiz cursinho, não fiz nada. O preparo era muito bom. Excelentes professores. (Gustavo Jacques Dias Alvim, entrevistado.)
Assim como nos jornais locais que circulavam na época da publicação do jornal do grupo de alunos, o discurso que aponta a excelência do Instituto continua presente na fala do entrevistado. Ressalta que o ensino ministrado no Instituto de Educação Sud Mennucci nos anos 1950 era muito rigoroso e que, por esse motivo, era muito seletivo, sendo que boa parte dos alunos que entravam na escola não conseguiam se formar, e os que terminavam, como ele, conseguiam entrar na faculdade sem cursinho. Além disso, destaca os altos índices de evasão, não caracterizados por ele como algo problemático, mas apenas associado ao rigor e à qualidade da educação. Em outra parte da entrevista, Gustavo Jacques Dias Alvim ressalta que o Sud Mennucci “era uma escola de muito prestígio com um grupo de professores
excelentes”.
Luiz de Almeida Mendonça, apesar de tecer inúmeras críticas à postura dos professores do Instituto na época em relação ao empreendimento do jornal, em outro ponto enaltece o ensino que era ministrado e as qualidades dos professores que ministravam aulas no educandário: “o ensino no Sud era rígido, mas era uma dedicação de todos os professores,
né, então o ensino era bem elevado”. Em outro momento, ainda falando dos professores, o ex- aluno nos conta: “A escola era um ensino excelente, se aprendia. Tinha professores
maravilhosos né: Hélio Padovani, muito bom. Antonio Moraes Sampaio, apelido Antonelo, Lino Sansigro de trabalhos manuais”.
Nota-se que, em sua entrevista, mesmo com algumas críticas ao comportamento e à postura dos professores no cotidiano escolar – discurso que é fruto de sua memória individual –, o ex-aluno Luiz de Almeida Mendonça enaltece o ensino que era ministrado na instituição, mostrando novamente que essa construção da memória coletiva continua presente na fala dos alunos até os dias de hoje.
A memória individual mais reveladora desta construção da memória coletiva é a da professora Marly Therezinha Germano Perecin. Durante a entrevista concedida pela ex-aluna, pontos desse enquadramento dos aspectos da memória vão se revelando. Questionada sobre o interesse que a fez escrever a história da escola Sud Mennucci, a professora vai contando sobre sua relação pessoal com o educandário e o encontro com fotografias da época de sua fundação, em fins do século XIX. Junto a estes fatos, a professora teve o interesse de fundar a associação de ex-alunos do Sud Mennucci, com o objetivo de recuperar aspectos da pintura do prédio escolar, visto que, segundo ela, a gestão anterior da escola havia mandado pintar os painéis que existiam na escola, da época de fundação do prédio da Escola Normal.
Nesses painéis existiam imagens que contavam um pouco da história do movimento republicano no Brasil e sua presença no campo da educação. De acordo com a professora, as obras de arte tinham sido pintadas com uma tinta cor de rosa, apagando a história que se queria guardar sobre o sentido de fundação da instituição para o ideário republicano. A ideia de fundar a associação, então, teve início com essa questão do restauro das obras de arte, pintadas, segundo a professora, por questões políticas. Interessante mostrar, como já foi discutido no capítulo primeiro dessa dissertação, que a criação da associação de ex-alunos, ideia desta professora, representou, de acordo com o documento analisado, a tentativa de manter consagrada uma memória coletiva da instituição, fundada numa espécie de “leitura épica” do movimento republicano.
A história dos painéis é parte constitutiva dessa memória de criação da escola que se queria consagrar, fundada no ideário republicano. Num outro ponto da entrevista, a professora fala um pouco sobre o conteúdo dos painéis e sobre o padre Feijó:
O salão nobre é onde tem aqueles painéis, onde se conta a história de luta pela liberdade no século XIX do povo brasileiro. De acordo com o que eu
escrevi nos textos, que custei a descobrir os enigmas. O enigma mais sério é o primeiro do padre Feijó, porque o padre Feijó?
Então, porque ele foi exilado de Itu para Piracicaba, teve que ser escondido dos asseclas do imperador, ele estava sendo caçado de morte e aqui no exílio ele escreveu a carta de liberdade e mandou para o imperador. Ele era homem que falava na lata, falava duro. Então, era caçado de morte. E ele tem nas mãos o quê? O Ato Adicional, que era a descentralização da monarquia, era a federalização do Brasil, a liberdade. E custei a decifrar aquele enigma menina, do exílio dele em Monte Alegre e tudo mais. (Marly Therezinha Germano Perecin, entrevistada.)
E a professora continua contando de seu envolvimento com a escola, com as obras de arte e a questão do impacto que o prédio da instituição deveria causar no indivíduo que adentrasse a “casa do saber”. Na mesma fala, conta mais um pouco sobre as imagens contidas nas obras de arte, nos painéis:
[...] O respeito, a admiração, era quase uma paixão, era o templo do saber. Tanto que o saguão da entrada era aquele quadrado escuro né. Aquilo é pra produzir o impacto: se você vem pela rua XV, Piracicaba ensolarada, no Vale Médio do Tietê é um sol intenso, sobe as escadas, aquela luz de mármore né. Que você chega, avista, aí mais que escuro, né: daí começa a pupila a dilatar, você começa a ver os símbolos. Até parece uma cripta, os símbolos da ciência à esquerda, das ciências humanas e das artes à direita. Símbolos italianos, dos liceus da Itália. Símbolos trazidos da Renascença, do Iluminismo. Tudo ali, tudo ali. E a pilha de Volta, que era o símbolo mais avançado da ciência, a descoberta da pilha e eletricidade, veja que tem a pilha de Volta, a escola em dia com a ciência. Do lado de lá, artes e ciências humanas. Aquilo produzia aquele impacto que você entrava, você deixava a ignorância lá fora e entrava no templo do saber. (Marly Therezinha Germano Perecin, entrevistada.)
Na transcrição deste trecho da entrevista, a historiadora descreve os símbolos presentes nas obras de arte do Instituto de Educação. Nos painéis estão contidos o símbolo da ciência de um lado e os símbolos das artes e ciências humanas de outro. Simbologia trazida do Iluminismo, ideologia que a República incorporou em seu discurso. Fala também sobre a pilha de Volta, que representava a descoberta da eletricidade. Para a professora, toda essa simbologia deveria causar impacto no espectador, fazendo-o perceber que estava adentrando o templo do saber. A memória coletiva desta escola com este significado de templo do saber incorpora um discurso da escola como sagrada para quem entrasse nela e sorvesse seu conhecimento. A história contada nos painéis pela entrevistada são também constituidoras de
uma memória. A historiadora também relembra as práticas dos professores da instituição à época em que o jornal era publicado, e a questão da seletividade no espaço da escola.
Em relação ao ensino na escola, a professora conta que “era muito puxado”, e os alunos, depois de dois anos repetindo, poderiam ser jubilados, eliminados da instituição. Além do exame escrito, a ex-aluna conta que também havia o exame oral, ponto que mostra o caráter seletivo da instituição à época da publicação do impresso O Sud Mennucci. Interessante notar que a professora mostrou a mesma visão da seletividade da escola. Num outro ponto, acentua que toda a geração que se formou com ela, “todos foram profissionais de
nível bom, todos gozam de conceito na sociedade”.
Sobre os professores e a influência que tiveram em sua formação, a professora acentua:
A prática de aula do professor Moacyr Diniz, a metodologia pra Ciências Sociais da dona Mariinha e a organização sistemática do professor Argino da Silva Leite, o matemático. Meu Deus!
[...] Seriam estrelas da educação. Você ponha a organização e o método racional. Ponha Descartes ao cubo, você vai entender o Argino da Silva Leite.
[...] Mas olha, esses três marcaram demais quanto à prática de ensino, o método de trabalho, pesquisa, organização de pensamento. (Marly Therezinha Germano Perecin, entrevistada.)
Interessante notar que os professores que ela cita aparecem no jornal escolar O Sud
Mennucci. O professor Moacyr Diniz, organizador do Clube de Ciências, já citado no capítulo anterior, clube que, segundo a professora, chegou a ter uma sede fora da escola. Foi esse professor que levou os alunos em viagem a São Paulo, onde, dentre outras atividades, ocorreu a visita ao prefeito Jânio Quadros. A professora Mariinha, dona Maria Celestina Teixeira Mendes Torres, professora de História dos alunos, organizadora do Clube de História, aparece em outras partes desta pesquisa, inclusive relembrando a época em que o Sud Mennucci tinha seu jornal escolar. O professor Argino da Silva Leite também apareceu na dissertação, quando citado no jornal escolar, como professor que ajudou a tornar a Escola Normal Sud Mennucci um Instituto de Educação. A excelência dos professores como profissionais aparece na fala da entrevistada, demonstrando que a memória coletiva desta época da escola – chamada por ela de “época de ouro” da instituição – ainda permanece viva nas memórias individuais da entrevistada.
Enfim, neste ponto, pôde-se verificar por meio das memórias individuais, uma permanência de uma memória coletiva consagrada da instituição pesquisada. Nas falas dos três ex-alunos entrevistados, a questão da excelência do ensino que era ministrado na instituição é exposta. A qualidade dos professores, a seletividade que havia para entrar e sair da escola, a rigorosidade, enfim, elementos que contribuem para que essa memória do espaço escolar continue consagrada também nas memórias individuais, apesar das contradições analisadas neste capítulo, inclusive em relação à atuação dos professores.
Outra questão destacada é que Marly Therezinha Germano Perecin, contando suas memórias individuais sobre a época do jornal e sobre a instituição e sua história, mostrou também aspectos da construção dessa memória coletiva da instituição, inclusive no contexto de fundação da escola, expondo em sua fala a formação da associação de ex-alunos e o esforço de restauro das obras de arte, que significavam a lembrança que se queria guardar de excelência da instituição. Esses pontos da memória remetem ao início deste trabalho de pesquisa, quando, no capítulo primeiro, a escola é enquadrada dentro da memória coletiva da cidade de Piracicaba, por meio dos jornais locais, em datas comemorativas, e também por artigos publicados por esta ex-aluna, que, como apresentado em sua fala, contam a história da escola dentro das articulações do movimento republicano em Piracicaba.
Interessante refletir que estas memórias individuais dos ex-alunos do Instituto de Educação Sud Mennucci, quando rememoradas em relação tanto ao empreendimento do jornal quanto à qualidade do ensino que era ministrado, remetem a uma reflexão sobre o caráter propriamente humano de guardar lembranças, no sentido de vencer o esquecimento em relação aos acontecimentos de épocas passadas. Clarice Nunes (2003) faz uma reflexão sobre o interesse humano de preservar lembranças, guardar memórias, ressaltando que a motivação está na preocupação do indivíduo em relembrar para vencer o esquecimento.
O movimento que os ex-alunos entrevistados fazem ao abordar alguns aspectos do empreendimento do jornal e da questão da excelência do ensino do Instituto Sud Mennucci denota essa preocupação humana de guardar lembranças. Demonstra também que, remetendo a Nunes (2003, p. 04), a memória é um “processo ativo de busca de significado que reestrutura os elementos a serem lembrados de forma a conservá-los, reordená-los ou excluí- los”. Neste sentido, realizamos um investimento tanto para esquecer quanto para lembrar os acontecimentos, numa luta entre a lembrança e o esquecimento. É neste esforço que as memórias individuais, aliadas à memória coletiva idealizada da instituição Sud Mennucci
acabam por dar sentido e fazer parte da construção da “identidade” da escola para os ex- alunos que por ela passaram e para os habitantes da cidade de Piracicaba.
Por fim, duas ressalvas devem ser feitas em relação à utilização das memórias como fonte para a presente pesquisa. De acordo com Nunes (2003), as memórias são experiências vividas interiormente, são nossas, fazem parte de nós e nos constituem. Para a autora:
Estamos no centro delas e só quando elas fazem conscientemente parte de nós podemos partilhá-las com outros. A recordação portanto, não se separa da consciência, mantendo com ela uma via de mão dupla. As memórias dizem quem somos. Integram nosso presente ao passado, tanto na perspectiva de que inventamos um passado adequado ao presente, quanto o contrário. (NUNES, 2003, p. 05.)
Fotografia 3: Escola Estadual Sud Mennucci nos dias atuais.
É preciso considerar também que, de acordo com a autora, as memórias se relacionam a complexas subjetivações, desde imagens e sensações mentais privadas até cerimônias públicas rememoradas. Estas memórias estão ancoradas em espaços que circulamos e em diferentes grupos sociais aos quais pertencemos: “quem recorda são os indivíduos e esta experiência de caráter singular está presente quando se enfatiza a memória social, pois os indivíduos não são autômatos, passivos e obedientes à uma vontade interiorizada” (NUNES, 2003, p. 07).