ÜÇÜNCÜ BÖLÜM
3. TÜRK VERGĠ SĠSTEMĠNDE TRANSFER FĠYATLANDIRMASI UYGULAMA AKSAKLIKLARINA ĠLĠġKĠN DEĞERLENDĠRME VE
3.2. TÜRK VERGĠ SĠSTEMĠ AÇISINDAN DEĞERLENDĠRME VE ÖNERĠLER
3.2.1. Genel Olarak
Vejamos agora mais concretamente o caso de Bernardino de Távora. De idade avançada e temperamento difícil, Bernardino de Távora granjeou vários inimigos durante a sua comissão, como era aliás comum entre os governadores e as elites locais. As figuras que mais se rebelaram contra a autoridade e interesses do governador de Angola em 1702 e que, por isso, aliaram forças, foram o ouvidor geral Gaspar da Silva Reis, o capitão de cavalos Pascoal Rodrigues Pontes, o secretário do governo de Angola Amaro Barbosa Brandão. Todos eles foram presos pelo governador, sob a acusação de difamação pública da sua figura e por não cumprimento das suas directrizes, o que será analisado com maior profundidade no capítulo seguinte. O que importa realçar, é que
85 Selma Alves Pantoja, “Redes e tramas no mundo da escravidão atlântica, na África Ocidental, século
XVIII” in Historia Unisinos, 14 (3): 237-242, Setembro/Dezembro, 2010, p.239
86 Carlos Couto, 1972, p. 56
87 AHU, Angola, Cx.16, doc.5 e doc.39, fl.2
88 AHU, Angola, Cx.16, doc.41
89 Pe. António Brásio, Monumenta Missionária Africana África Ocidental (1686-1699), vol.XIV, Lisboa,
Academia Portuguesa da História, MCMLXXXV (1985), p.20 Consulta do Conselho Ultramarino (28-11- 1686)
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dos três, Gaspar da Silva Reis foi o mais queixoso e, provavelmente, aquele sobre quem incidiu o maior rigor nas sanções aplicadas.
As denúncias que fez permitem identificar quem eram as pessoas ao serviço do governador que se encontravam implicadas na prisão do ouvidor e conselheiros e executantes de outras missões por ele ordenadas. Os nomeados foram os capitães Martinho Teixeira (cabo), António de Tovar (cristão-novo), Pascoal Rodrigues de Queiroga (ajudante), Marcos Pereira Bravo, João da Costa de Barros (ajudante e genro de Martinho Teixeira) e os sargentos Baltasar Gonçalves Silveira, Lourenço de Lemos, João Cuibem, José Correia, o juíz Manuel Simões Colaço (cristão-novo), Rodrigo da Costa de Almeida (escrivão da Fazenda); Manuel Sanches de Campos; António Lobato Torres, o cabo Manuel Lobo Barreto, Manuel Fernandes Sardinha e o cigano Manuel Mendes91. Todas estas pessoas são indicadas pelo ouvidor como tendo estado implicadas na sua prisão ou na manutenção do seu cativeiro, o que pode ser exagero ou não.
O que parece certo é a ligação de todos eles ao governador, como pessoas próximas na execução das suas ordens e no prévio conselho acerca das mesmas. Actuando como uma camarilha, coarctavam as outras jurisdições locais. A capacidade de imposição da figura do governador aos outros poderes locais já se verificara em comissãos anteriores, como vimos, e terá tido continuidade. Para contrariar a legitimação da superioridade jurisdicional, na segunda metade do século XVIII, os capitães-mores passam a ter de apresentar provas de observância integral das ordens do ouvidor geral, sendo essa a única forma de poderem ir a despacho as suas candidaturas a novos postos militares92. Ora, se as nomeações do governador se limitavam aos fortes de menor importância e não aos presídios - a não ser em caso de falecimento do seu ocupante - e se a lei era aplicada precisamente aos capitães-mores dos mesmos, tal significa que a influência do governador acabava por se estender além dos postos a seu cargo, ou que a mortalidade era realmente tão elevada que as nomeações interinas eram frequentes. Vejamos o reflexo das mesmas nos presídios, a partir da acção dos capitães- mores no sertão de Angola.
As fortalezas constituíam pontos de defesa territorial e de troca comercial, como já vimos, sendo importantes baluartes do sistema militarizado, na medida em que
91 AHU, Angola, Cx. 16, doc. 42, Gaspar da Silva Reis 92 Carlos Couto, 1972, p. 56
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estavam sob a responsabilidade de um capitão-mor, o qual era soberano na sua área de jurisdição, tendo tanto mais autonomia quanto mais longe de Luanda se encontrasse o seu presídio. A acção destes capitães-mores aproximava-se, por isso, da dos nobres medievais, a quem cabia a defesa e a justiça das populações dos seus territórios em troca da cobrança de rendas e tributos, e à qual a própria situação de vassalagem dos sobassituados nessas terras era correspondente93. Aos sobas era exigida lealdade, obediência, auxílio militar que permitisse a manutenção das forças portuguesas no território, acesso livre aos seus territórios por parte dos portugueses e dos seus agentes, comércio exclusivo dos portugueses (os sobas estavam proibidos de exercê-lo com outros europeus ou com africanos que não fossem representantes dos portugueses), tributos em escravos e devolução a Luanda de escravos fugitivos que procurassem protecção nos sobados94.
No que concerne ao pagamento de tributos, este começou por ser um acto obrigatório e de prestação anual como confirmação da vassalagem dos sobas, mas os abusos de que estes foram alvo por parte dos capitães-mores e do governador levou à eliminação deste parâmetro nas suas obrigações em 1650, durante o governo de Salvador Correia de Sá. Contudo, o facto de ter deixado de ser legal, não conduziu ao fim da sua prática, continuando a ser uma exigência dos governadores a homenagem dos sobas ao novo mandatário com uma oferenda voluntária de escravos, assim como as extorsões dos capitães-mores. No fundo, a questão era simples. Justificando-se o posto de governador95 e o de capitão-mor pela possibilidade do comércio de escravos96 importava consegui-los, por intermédio da guerra contra reis africanos inimigos dos portugueses pelas extorsões feitas aos sobas vassalos. Estas ocorriam nos presídios,
93 Autoridade africana responsável por uma linhagem de cariz matrilinear e subordinada a um chefe
supremo africano. Nas guerras defrontadas com as forças portuguesas e das quais saíram derrotados, os sobas viram-se forçados a submeter-se à soberania portuguesa por laços de vassalagem que os colocavam na dependência e obrigação para com os capitães-mores, o governador de Angola e o rei de Portugal. Ver Beatrix Heintze, “Angola nas garras do tráfico de escravos: as guerras do Ndongo (1611-1630)” in Jill R. Dias (dir.), Revista Internacional de Estudos africanos, Nº1 Janeiro/Junho, Lisboa, Edição de Jill R. Dias, 1984 e Beatrix Heintze, Luso-African feudalism in Angola? The Vassal Treaties of the 16th to the
18th century, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – Instituto de História Económica e Social, 1980, p.117
94 Beatrix Heintze, Luso-African feudalism in Angola? The Vassal Treaties of the 16th to the 18th century,
Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – Instituto de História Económica e Social, 1980, p.122 e António Brásio, Monumenta Missionária Africana África Ocidental (1666-1885), 1ª série, vol.XIII, Lisboa, Academia Portuguesa da História, MCMLXXXII (1982), P.3 capítulo 1 – capítulos do Juramento do Duque de Hoando (11-1-1666)
95 AHU, Angola, Cx. 17, doc. 20, 8 de Junho de 1703 96 Carlos Couto, 1972, pp.56-57
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onde os sobas eram chamados, ou nas feiras, que decorriam no espaço envolvente e subordinado a determinado presídio.
No primeiro caso, os capitães-mores agiam de forma independente (em certa medida, como veremos) do governador e procurando imitá-lo, ou seja, auferir dos mesmos tributos em escravos que aquele recebia dos sobas quando chegava a Angola, no início do seu comissão, e dos presentes e impostos que deles recebia no decurso do mesmo. As “chamadas”, como se denominavam estas deslocações forçadas dos sobas às fortalezas dos presídios, geravam situações percepcionadas pelos portugueses como constrangedoras quando as remessas de escravos eram fracas, tendo os sobas de deixar, muitas vezes, mulheres e filhos nos presídios quando não conseguiam contentar os capitães com a mercadoria que levavam97.
Esta função era da responsabilidade dos pombeiros, a quem cabia o resgate de escravos nas feiras (ou pumbos), enquanto intermediários nas trocas comerciais entre os sobas e a área costeira, as quais podiam ocorrer ao abrigo dos presídios ou num hinterland reservado a africanos e onde a jurisdição colonial não tinha lugar98. Nas feiras realizadas nos presídios, o governo dos mesmos pelos capitães-mores ocasionava abusos frequentes. Na verdade, aqueles tomavam para si escravos que não pagavam, recusando aos sobas e aos pombeiros o lucro da venda99 e aos moradores a compra com base numa oferta igualitária e variada (já que os capitães-mores escolhiam as melhores peças)100. Desta forma, a actividade comercial dos capitães-mores no sertão acabava por impedir o normal funcionamento das feiras, por ultrapassar a função do intermediário necessário para a sua ocorrência.
A atribuição aos capitães-mores da faculdade para julgar os mucanos (queixas dos sobas) foi justificada com base no reduzido número de missionários e no direito dos sobas vassalos de se fazerem ouvir. Contudo, uma vez que eram os próprios juízes
97 “ [...] chegados as terras e destrictos para onde cada hum dirigidamente vay a primeyra coisa que fazem
he repartir as fazendas em Banzos pellos negros e pello limitado de cada Banzo tomarem lhe hua Pessoa de Indias, obrigando os a isso por força, para o que lhes fazem crer que as taes fazendas são de Sua Magestade e se não achão escravos que lhes tomar por ellas lhe tomão seus proprios filhos e parentes sendo forros e livres.” AHU, Angola, Cx. 17, doc.11, 21 de Maio de 1703 e doc.38, 22 de Março de 1703.
98 Os pombeiros eram os agentes comerciais responsáveis pelo tráfico de escravos entre o hinterland
africano e os portos costeiros dominados pelos portugueses em Angola e Benguela. Numa primeira fase começaram por ser africanos, mas o desenvolvimento do tráfico e a manutenção e expansão progressiva da presença portuguesa no território, possibilitaram a intervenção de mulatos e brancos nestas operações comerciais. Isabel Castro Henriques, 1996, pp.148-149
99 José Carlos Venâncio, A economia de Luanda e hinterland no século XVIII um estudo de Sociologia
Histórica, Lisboa, Ed. Estampa Lda, 1996, pp.150-162
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muitas vezes a causa das queixas, daqui se infere a ausência da imparcialidade necessária para o efeito. A tentativa da Coroa em assegurar um julgamento isento traduziu-se na criação de escrivães nomeados pelo governador para os presídios mais afastados de Luanda, que registassem por escrito os processos de acusação e de defesa dos réus101. Contudo, cedo estes escrivães pediram ao governador que «pera maior respeito de suas pessoas e serem mais obedecidos lhes concedece hua insignia de capitaens para andarem alvorados por estarem em terras de gentios», e poderem ter uma área onde exercer a coerção sobre os sobas. A rebelião destes vassalos e a sua fuga para territórios fora da jurisdição portuguesa e pertencentes a poderes africanos inimigos dos portugueses geravam a guerra que, sendo ganha pela facção portuguesa, acabava por angariar ainda um maior volume de escravos por parte dos vencidos102. O ciclo era, por isso, vicioso: quer pela extorsão, quer pela rebelião-guerra, os capitães-mores acabavam por sair vitoriosos e com os seus interesses satisfeitos.
Relativamente à acção dos capitães-mores, Beatrix Heintze afirma que as medidas régias terão conseguido gradualmente reduzir por completo os seus abusos de poder e autoridade. Contudo, afirma que os abusos de poder destes eram frequentes e que só as acções de maior gravidade acabaram por chegar aos ouvidos do governador103. Se a contradição é aparente, sobretudo por a autora se cingir a uma cronologia anterior às leis régias de limitação da acção destes agentes no sertão, o pressuposto de que o governador ignorava e estava isento da responsabilidade dos actos dos capitães-mores não é corroborado pelas fontes104.
Segundo Gaspar da Silva Reis, Bernardino de Távora foi o responsável pelo provimento de Francisco de Melo de Magalhães no posto de capitão-mor do Golungo, quando o período como capitão-mor de Ambaca terminou com a chegada do seu sucessor para o presídio. Teria sido a doação de cinquenta e cinco cabeças de gado por parte de Francisco de Melo Magalhães ao governador o elemento-chave para contar com o seu apoio e ter podido iniciar funções no Golungo, quando ainda não cessara as outras para que fora nomeado na Ambaca. Quer isto dizer que, a despeito do provimento do presídio de Ambaca ser feito pelo rei e, à partida, estar livre da influência do
101 António Brásio, Monumenta Missionária Africana África Ocidental (1686-1699), vol.XIV, Lisboa,
Academia Portuguesa da História, MCMLXXXV (1985), p. 443 Consulta do Conselho Ultramarino (7-3- 1698) e AHU, Angola, Cx. 17, doc. 17, 8 de Junho de 1703
102 AHU, Angola, Cx. 17, doc. 17, 22 de Abril de 1702
103 Beatrix Heintze, Angola nos Séculos XVI e XVII, Luanda, Editorial Kilombelombe Lda, 2007, pp.462-
463 e 544
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governador, na prática a nomeação dependia do número de cabeças de escravos em oferta ou das relações pessoais que com eles tinha105. Por outro lado, o término das suas funções no presídio estaria relacionado com essa mesma duplicidade e teria sido considerado ilícito, embora o governador estivesse, em conluio com o Juíz Manuel Simões Colaço, a procurar justificá-la106.
Da mesma forma, dependia do governador a nomeação dos escrivães que fossem proceder à supervisão dos julgamentos dos mucanos nos presídios, precisamente para garantir que as suas ordens eram respeitadas pelos capitães-mores. Contudo, Bernardino de Távora vai mais longe e nomeia apenas António Lobato, um degredado condenado à morte no reino de Portugal, para proceder à supervisão de todos os pleitos.
Tal atitude atesta a pouca importância que o governador atribuía aos litígios dos sobas e pode pressupor uma diminuição do seu controlo da situação, todavia, não parece ter sido uma prioridade para Bernardino de Távora tê-lo nesse campo. Na verdade, pensamos precisamente que permitindo a António Lobato a autoridade exclusiva enquanto escrivão no julgamento dos mucanos, Bernardino de Távora assegurava que aquele lhe continuaria a ser fiel. A capacidade para agir livremente e de acordo com os seus interesses no âmbito dos poderes que lhe tinham sido atribuídos, poderia actuar como pagamento pelos seus serviços nas áreas de interesse do governador. Tal atitude parece, aliás, encontrar confirmação relativamente a outro capitão-mor, a cujos pedidos é acusado de aceder em virtude de «ter esta dilig.ª pedida por aquelle cap.m mor de q.m tem suas conveniencias»107.
Regressando a António de Lobato, a sua nomeação para a generalidade da função de escrivão nos pleitos dos sobas era uma garantia de maior adequação das suas medidas às prescritas pelo governador. Isto porque se essa actividade recaísse em missionários que tenderiam a promover os seus próprios interesses fora da esfera de influência do governador.
A acção do governador de Angola não se verificou apenas ao nível da nomeação dos seus acólitos, que passaram a constituir uma camarilha, mas também da expropriação do que se recusavam a cumprir as suas ordens. Não nos referimos aqui apenas às prisões já referidas e a que se soma a do contratador Manuel Neto, também
105 Domingos da Costa de Almeida, por exemplo, foi provido de ajudante de praça a capitão de uma
Companhia, apenas por ser filho de Rodrigo da Costa de Almeida. AHU, Angola, Cx. 16, doc.41
106 AHU, Angola, Cx. 16, doc. 41 107 AHU, Angola, Cx. 16, doc. 41
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acólito de Gaspar da Silva Reis, mas ao envio para a Bahia de pessoas como Belchior Garcia que recusavam colocar o seu exército pessoal ao serviço do governador108. Esta circunstância é demonstrativa da extensão de influência de Sousa Tavares ao outro lado do Atlântico, onde o seu filho Alexandre de Sousa Freire se encontrava como mestre de campo de um terço da Bahia. As trocas entre pai e filho seriam realizadas mesmo a nível de pessoal e permitiam a ambos maior liberdade de acção do que aquela que lhes estava consignada nos respectivos cargos109. De facto, a Relação da Bahia enviara para Angola um degredado de nome Miguel Moniz foi devolvido à procedência oito dias depois de ter chegado, a pedido de Alexandre de Sousa Freire110.
Ainda relativamente a Bernardino de Távora, quer por austeridade excessiva, quer por rigidez nas hierarquias, teria ordenado a prisão e o lançamento ao mar do tenente da Fortaleza de S. Miguel, em virtude de este ter pedido ao capitão-mor António de Faria que lhe pagasse uma dívida que com ele contraíra. Gaspar da Silva Reis acusou o governador de ter prendido o tenente e tê-lo depois deixado na costa de Benguela a quarenta léguas do presídio, por ter ousado, enquanto soldado, questionar o seu capitão- mor. O castigo pronto que caiu sobre Rodrigo de Sousa, por ousar contrariar o seu superior e este ser fiel ao governador, é bem demonstrativo das sanções que podiam ser aplicadas àqueles que ousavam contestar a sua facção.
Aceitando como possível que nas malhas da rede de Bernardino de Távora, acabassem por escapar alguns capitães-mores que conseguiam iludi-lo e executar tarefas autónomas e contrárias aos seus interesses, esta situação era, todavia, bastante difícil. Não só a rede era extensa, como já referido, como estava bem montada. De facto, quando o capitão-mor do campo pediu para ir às fortalezas informar-se acerca do procedimento dos capitães-mores, tal foi-lhe recusado. O governador preferiu nomear para o cargo uma pessoa da sua confiança, tanto a nível comercial (agente das conveniências dos navios de Bernardino de Távora), como militar, empossando no cargo Manuel Fernandes Farinha. Ao novo capitão-mor do campo foram atribuídos cinquenta ou sessenta homens armados e prontos a «atemoriar e succegar as alteraçoes dos negros», obrigando os sobas aos baculamentos (cuja obrigatoriedade já fora extinta) e extorquindo-lhes escravos por outras vias, ameaçando-os com a culpa que lhes seria atribuída nos julgamentos. Desta forma, o governador invertia a função dos mucanos, os
108 AHU, Angola, Cx. 16, doc. 41
109 AHU, ACL, CU, 005, Cx.3, D.335
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quais em vez de se destinarem à resolução pacífica dos litígios entre os sobas, serviam como meio de coerção sobre os sobas.
Quanto às guerras com os sobas, a acção dos capitães-mores era sancionada pelo governador. No que concerne aos sobas que se revoltassem contra a autoridade colonial, as guerras eram justas e o apresamento de escravos um acto natural, e delas estaria certamente a par Bernardino de Távora. Contudo, às guerras instigadas pelos capitães- mores para seu próprio benefício e no âmbito da extorsão já tão abordada neste capítulo, o governador continuava a dar a sua bênção. Os dirigentes das fortalezas não agiam de moto próprio e sem a conivência de Bernardino de Távora, este dava-lhes a sua concordância para os seus projectos, segundo a lógica de pagamento pelos serviços prestados111, recusando ouvir o soba queixoso quando este vinha pedir justiça112.
Podemos questionar aqui, em que medida o beneplácito do governador face aos pedidos dos capitães-mores não revela antes um atrofiamento da sua liberdade de acção, ou seja, se a necessidade de os ter do seu lado, não o condicionava nos seus actos, invertendo-se a hierarquia do poder colonial. Era a conivência com os capitães-mores reflexo da sua autoridade ou da sua fraqueza? Contrariamente a Ralph Delgado que considera Bernardino de Távora como tendo sido «um incapaz açoitado, porém, pelo infortúnio, que lhe transformou um presumível governo isento de escolhos [...]», consideramos que Bernardino escolheu com capacidade e discernimento, e de acordo com a sua vontade. A sua ida para Angola com setenta e dois anos, aliada à sua adesão à facção militar, foi uma opção consentânea com os seus interesses, meramente comerciais. Não tinha a juventude a seu favor e, sendo difícil agradar a gregos e troianos, teria optado por aqueles que melhor podiam servir os seus interesses. Em todas as acções tomadas, houve decerto um reverso da medalha que pode não ter sido sempre do seu agrado, mas que acreditamos que terá equacionado quando escolheu incompatibilizar-se com os outros órgãos judiciais e governativos que lhe podiam fazer frente. A sua relação de cumplicidade com os capitães-mores permitia-lhe exercer o seu cargo sem interferências por parte dos outros organismos.
Na cidade, quem lhe fazia frente e se opunha ao cumprimento das suas directrizes era facilmente desviado do seu caminho por um exército que lhe era fiel e