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GENEL OLARAK İDARENİN YARGISAL DENETİMİNDE

A gente quer que ela seja feliz e que seja uma boa pessoa mesmo, com valores, uma pessoa de verdade.

Estudos sociológicos vêm demonstrando, desde a segunda metade do século passado, a relação entre os estilos de educação familiar (modos de controle do comportamento infantil e do exercício da autoridade, modo de comunicação, amplitude do suporte emocional, etc) e a classe social (BERNSTEIN, 1960, 1961, 1973; KHON, 1977, GECAS, 1979, LAUTREY, 1985). Mais recentemente, outros trabalhos demonstraram que essa lógica determinista baseada na condição de classe precisa ser relativizada, pois é possível haver diferenciações entre famílias de uma mesma categoria social (KELLERHALS e MONTANDON,1991; LAREAU, 2007; VAN-ZANTEN e DURU-BELLAT, 1999).

Os pais professores foram investigados justamente pelos elementos de dissonância e consonância, perceptíveis no interior das dinâmicas educativas das famílias. Mesmo que, no conjunto das famílias entrevistadas, sejam perceptíveis comportamentos consonantes, tais como as estratégias de fecundidade e os projetos de uma escolarização longa para os filhos, variações e nuanças desses comportamentos precisam ser analisados.

O malthusianismo presente primeiro grupo é aqui também um comportamento comum aos pais professores, com a exceção de um caso. Os pais professores relatam que a opção por um ou dois filhos, no máximo, foi feita antes do casamento, atitude presente de forma bem marcante também no grupo 1.

A nossa opção de só ter a M. [filha, 7 anos] não foi planejada mesmo não. A gente pensava em ter dois filhos, porque também eu já não era tão novinha... mas eu tive um problema muito sério na gravidez. Eu perdi um bebê, e a segunda gravidez foi muito difícil. Eu fiquei de repouso por quase toda a gravidez. Então tivemos que ficar só com a M. Eu não queria ter muitos filhos não, mas um só eu acho pouco porque a M. fica muito sozinha. Tem os priminhos, mas não é a mesma coisa. Mas, hoje em dia, as famílias estão escolhendo ter poucos filhos mesmo. A questão da educação hoje, assim, dos valores, de como as pessoas estão cada vez mais individualistas preocupam a gente. Você vai colocar a criança no mundo pra viver essa loucura que tá aí. Não sei se vale a pena. Mas a M. dá muita alegria pra gente. Ela é uma menina doce, muito especial. Ela tem uma sensibilidade fora de série. A gente vai ensinando, a gente quer que ela seja feliz e que seja uma boa pessoa mesmo, com valores, uma pessoa de verdade. Por isso, é preferível um só e formar uma pessoa de verdade, você concorda? (Mãe professora de Ciências, uma filha) Foi escolha. Em primeiro lugar, a gente sempre queria ter filhos, e um só a gente acha também que é um pouco difícil. Eu sou de uma família de sete filhos. E minha esposa é de uma família de um único filho. Então ela sempre achava a dela pequena. Principalmente depois de adulta. A mãe dela faleceu por doença grave. E ela ficou sobrecarregada, no cuidado com a mãe. Então, a gente pensou nisso, na sobrecarga pra esses filhos no futuro. E também, ter irmão, a gente julgou muito importante. A formação das meninas é nossa grande preocupação, educar mesmo de verdade. Então, a opção foi ter dois. Três hoje seria muito dispendioso. Financeiramente falando, e a gente talvez não conseguisse dar a atenção assim que os filhos merecem. (Pai professor de Espanhol, duas filhas)

Bom, a C. [filha, 8 anos] não foi planejada não, eu me casei muito nova, né? Eu tinha só 19 anos e já estava grávida dela. Mas, quando resolvemos nos casar, nós fizemos planos de ter mais um filho. Então ele demorou um pouco mais, a C. já estava grandinha, com quase quatro anos quando o V. [filho, 4 anos] nasceu. Mas foi ótimo, os dois se dão muito bem. É muito bom ter um irmão, né? Eu sou filha única e é difícil. Agora, por quê? Bom, foi uma opção mesmo. A gente sabe que hoje em dia as famílias, assim, se querem dar uma boa educação pros filhos precisa investir neles. E eu num falo assim só de dinheiro mesmo, não. É claro que o financeiro também conta, mas o mais difícil que eu acho é você poder dedicar aos filhos mesmo, ensinar pra eles a ser gente. Eu dou aula numa escola particular, no S. [escola particular vinculada ao SESI] e vejo os meninos lá. Gente de condição financeira boa, mas os meninos perdidos, mal-educados, acham que mandam no

mundo. Eu não quero isso pros meus filhos. A gente precisa educar bem, é isso que eu acho. (Mãe professora de História , dois filhos)

Embora o controle da fecundidade seja uma prática comum e um traço marcante das famílias das classes médias e o fenômeno esteja presente não somente nesse grupo, mas em todo o universo pesquisado, conforme vimos no capítulo 2, no caso específico das famílias desse grupo, as motivações que levaram ao malthusianismo estão fortemente ligadas à aspectos mais “relacionais” do que econômicos. Assim, as estratégias de fecundidade das famílias podem ser explicadas pela intenção — própria das classes médias — de “concentrar todos os seus recursos materiais e simbólicos em um pequeno número de descendentes, encarregados de prolongar a trajetória ascendente do grupo” (BOURDIEU, 1979, p. 311), e a motivação dos pais está ligada também a aspectos de ordem expressiva e relacional46.

Essa mesma lógica de percepção do planejamento familiar – vinculada a aspectos de ordem expressiva – se diz presente também na única família do grupo em que o malthusianismo não pôde ser observado (família com três filhos).

Ter os três foi opção nossa mesmo. O primeiro eu adotei, desde que eu era bem novinha eu tinha este desejo de adotar. Então eu pensei, o B.[cônjuge] concordou também: é melhor adotar o primeiro, pra não correr o risco de desistir [risos]. Então foi uma benção! Ele veio pra mim com dois meses de idade. E, quando ele estava com dois aninhos, resolvemos que teríamos mais dois. Eu tive um atrás do outro. Você vê que não foi falta de planejamento, não foi por acaso. Eu acho que é muito legal ter irmãos. Eu tenho cinco irmãos e B. não tem nenhum. A amizade deles é muito linda, eles são inseparáveis. É claro que a gente se preocupa muito com a formação deles, com o caráter mesmo, com a formação assim da pessoa deles, que eles sejam eles mesmos, sabe? Isso é mais importante do que tudo. Então eles vão bem na escola, não são assim de tirar só dez não, mas isso é normal, a gente não vê como uma coisa absurda, não. O que eu quero, o B.[cônjuge] também, é que eles sejam pessoas boas e que saibam pensar, que sejam questionadores, que não aceitem o mundo do jeito que ele é. O mundo tá precisando de gente assim. Eu tenho certeza! (Mãe professora de Química e Ciências, três filhos)

Singly (1996a, 2001a, 2001b, 2004), em estudo sobre as famílias contemporâneas, chama a atenção para o fato de que os laços construídos pelas famílias não são mais baseados na objetividade ou em estatutos formais, mas o que produz a coesão familiar são justamente os laços entre “pessoas”, construídos no interior das dinâmicas familiares. O autor denomina

46 Segundo Bernstein (1973), a “ordem expressiva” refere-se a um conteúdo moral das relações, envolvendo um complexo de comportamentos e atividades que dizem respeito à conduta, ao caráter e à “maneira de ser”.

as famílias contemporâneas como “relacionais”, voltadas para a personalização da convivência em seu interior e para a produção de “indivíduos originais”. A busca da individualização, da construção do "verdadeiro eu", tem, como condição essencial, o "olhar do outro" e, para isso, as famílias têm a função de, justamente, cuidar dessa "permanência do eu", através de um “trabalho sobre si”, assistido e orientado pelos outros”.

No entanto, uma tensão acompanha essa dinâmica, na medida em que o seio familiar se torna, por um lado, estimado e valorizado (a família como espaço privilegiado do “cultivo do eu”) e, por outro, instável e incerto, pois sua duração depende da satisfação, tanto dos pais quanto dos filhos. Para as famílias do grupo 2, não basta um "estar juntos", mas torna-se necessário um "estar juntos e livres", pois a liberdade é condição essencial de todo o processo de individualização porque agrega suas características fundantes: autenticidade, independência e autonomia.

Podemos concluir que, nas famílias desse grupo, a busca do “cultivo do eu” está no centro das expectativas de futuro para os filhos. Isso não quer dizer, entretanto, que a escola não seja central em suas aspirações, mas, sim, que ela deve estar integrada aos anseios de desenvolvimento psicológico equilibrado dos filhos. Nesse sentido, fica claro, nos discursos dos pais, que a escola desempenha um importante papel na construção da “pessoa” e que uma boa formação cultural – científica e “expressiva” – é necessária para essa construção.

É claro que eu quero que eles estudem o máximo que puder... até a universidade, é claro. Mas que seja uma formação assim mais ampla. Eu não quero que eles pensem que a vida é só o vestibular, não. É mais do que isso! Eu quero que eles pensem em ser uma pessoa assim realizada, que façam coisas que gostam, que sejam felizes mesmo. Mas eu preocupo com o vestibular também [risos], tem que ter uma formação assim de conteúdo científico também, quanto mais melhor. Mas eu não tenho estresse com essas coisas, não. Não tem aquela fissura de passar na UFMG. A maioria dos filhos dos meus colegas, dos casais amigos da gente, são assim. Os pais fazem questão. Eu não acho isso não. Até prefiro que eles façam aqui mesmo, perto da gente, mas que façam um bom curso, que tenham qualidade na formação pra ser um bom profissional. (Mãe professora de Ciências, dois filhos)

Os projetos que faço pra ela são assim: estudar até a universidade, fazer um bom curso. Se quiser continuar, ótimo, fazer um mestrado, uma coisa assim. Mas ela é que vai escolher. Eu não vou ficar direcionando não. Ela vai escolher o curso que quiser. Se ela quiser ser professora, por exemplo, eu não vou gostar muito não, mas tudo bem. Não adianta a gente trabalhar com o que a gente não gosta. Ela fala que vai ser médica. Então eu falo: Começa a estudar bastante porque pra ser médica não é fácil, não. Então assim: se ela passar numa federal, vai ser ótimo, mas, se não passar, tem muitas outras opções. Isso não me preocupa muito não. O que me preocupa é se está realmente tendo uma boa formação cultural, assim, de conhecimento mesmo sobre o mundo, sobre as coisas. Agora, ela tem potencial pra passar numa federal, ela é muito inteligente, e a escola é muito boa. Por isso, a

escola é importante. Ela tem este papel, de formar a pessoa toda. (Mãe professora de História , uma filha)

Nós queremos que a L.[filha, 7anos] estude até fazer uma universidade, a gente quer que ela possa... que ela tenha sucesso na vida profissional, né? Eu penso que ela não vai seguir carreira acadêmica, não. Ela é mais prática, mais operacional. Mas estudar até a graduação ela vai. Depois é ela quem decide. Ela diz que vai fazer veterinária, ela adora bichos. Ela tem cachorro, gato, periquito, diz que vai cuidar dos bichos, mas ela é muito novinha, tudo pode mudar, não é? Mas fazemos questão é que ela faça uma universidade e que escolha uma profissão que a faça feliz e que nela, ela se realize como pessoa. É isso que a gente mais quer, que ela seja feliz, sabe? (Mãe professora de Português, uma filha]

Como se vê, a ênfase dada aos aspectos expressivos, na formação dos filhos, não implica, entretanto, para as pais, negligenciar os aspectos instrumentais da formação escolar. Essas famílias se preocupam igualmente com a formação psicológica e intelectual deles e depositam na escola suas expectativas em relação a essa formação.

A dualidade de princípios educativos (“que ela tenha sucesso” e “que ela seja feliz”) remete à complexidade da definição do indivíduo contemporâneo, que traz em si duas formas de individualidade: o indivíduo construído pelo seu mérito, pelo desenvolvimento de seus “talentos”, e o indivíduo formado pelos laços (de afeto) que os ligam aos outros. Essas duas formas de individualidade produzem diferentes expectativas sociais em relação aos filhos e fornecem aos pais dois princípios educativos: o filho deve ter sucesso; o filho deve ser feliz (SINGLY, 1996a).

Esses princípios marcam fortemente as famílias desse grupo. Para os pais, não é sua única função assegurar a realização pessoal (bem-estar psicológico) dos filhos, mas também propiciar os meios para que eles possam ser bem-sucedidos na concorrência escolar e profissional. Assim, “obedecer a dois deuses” (SINGLY, 1996a, p. 139) faz com que os pais e os filhos tenham que resolver, constantemente, situações de contradição: “eu quero que eles pensem em ser uma pessoa assim realizada”, “mas eu preocupo com o vestibular também”. Entretanto, os depoimentos revelam, também, que a vivência dessas contradições não impede que as famílias busquem um equilíbrio entre os dois princípios, mesmo que ora privilegiem a dimensão escolar, ora, a dimensão psicológica.

Todos esses aspectos estão inscritos nas práticas educativas das famílias do segundo grupo e podem ser observados, desde a escolha da escola para os filhos, até as estratégias de acompanhamento das atividades escolares e extraescolares.

Benzer Belgeler