Sem pretensão de rigor estatístico, foram aqui reunidas algumas informações a respeito do uso efetivo do sistema de videoconferência em comarcas do Estado de São Paulo.
A Lei estadual paulista nº 11.819/2005 dispunha sobre o emprego da videoconferência em audiências criminais, permitindo a adoção, pela Justiça do Estado de São Paulo, do sistema de videoconferência para o interrogatório de réus presos e desde então esse sistema passou a ser usado em nosso Estado. Mas, em outubro de 2008 essa lei paulista foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, basicamente ao fundamento de que apenas a União pode legislar a respeito de matéria processual.
Quatro anos depois da edição da lei paulista, com o advento da Lei Federal 11.900, de 08 de janeiro de 2009, o mesmo sistema veio a ser
http://www.justiz.gv.at/internet/html/default/2c948485342383450134cd9be45e0304.de.html;jsession id=299213124F0CC570D0952975DD6F56A5 Link consultado em: 25‐08‐2012.
122 Ainda no correr do ano de 2005, antes, pois, da vigência da Lei Federal nº 11.900/2009 e ainda à luz da
legislação estadual, a repercussão nos órgãos de imprensa era altamente favorável à adoção da videoconferência para interrogatório de réus presos. Cita‐se, como exemplo, editorial do jornal 'O Estado de São Paulo', edição de 15‐08‐2005: "O curso e o risco do transporte de presos para interrogatório nas audiências dos fóruns criminais sempre foram muito grandes, especialmente numa cidade como São Paulo. De um lado é preciso arcar com o custo de viaturas reforçadas para o deslocamento de meliantes, às vezes de alta periculosidade, e de outras viaturas para a escolta. Além disso, há o grande risco dos resgates, patrocinados ou realizados por organizações criminosas que dominam presídios como verdadeiros partidos políticos, que montam operações espetaculares para dar fuga a seus líderes ou 'militantes' detidos. Em razão disso, se torna necessária a administração de complexos e caros esquemas de operação envolvendo pessoal especializado, equipamentos sofisticados de comunicação e armamento, para garantir o andamento dos processos criminais ‐ e assim respeitar o direito dos réus à ampla defesa, bem como o direito da sociedade de exigir a punição dos criminosos e de ser deles protegida pelos organismos de segurança do Estado. Não só a população, mas os próprios presos podem ter a integridade física mais bem protegida se forem dispensados desses deslocamentos. Não chegou aos noticiários uma tragédia ocorrida há certo tempo no Fórum Regional de Pinheiros, nesta capital, quando um presidiário, em plena audiência, correu para a janela e jogou‐se do andar, não sobrevivendo. Por esses motivos, é bem‐vinda a utilização, que começa a ser posta em prática nas audiências das varas criminais do Estado, do sistema de 'videoconferência'. A iniciativa tem por objetivo dar agilidade aos processos e acabar com o chamado 'turismo penitenciário', que o preso faz ao ser transportado da prisão para o fórum. 'Com a redução dos deslocamentos dos detentos, diminuiremos, automaticamente, o risco de tentativa de resgate e a possibilidade de fugas', observou o governador Geraldo Alckmin, ao anunciar a medida, baseada em termo de cooperação firmado entre o Governo do Estado ‐ representado pela Casa Civil e pela Secretaria da Administração Penitenciária ‐ e o Tribunal de Justiça de São Paulo." E o articulista assim terminou seu comentário: "Trata‐se, enfim, de um instrumento moderno, que preserva direitos e acelera o trâmite dos processos criminais." (Texto inserido na tese de doutorado de José Roberto Grassi: "A Expansibilidade da Nova Técnica da Instrução Criminal: O Interrogatório por Videoconferência". PUC‐São Paulo, 2005, p. 99).
disciplinado com alterações inseridas no velho Código de Processo Penal e os mesmos equipamentos antes instalados em comarcas do Estado de São Paulo voltaram a ser usados ao abrigo da novel legislação.
Atualmente há 63 (sessenta e três) salas devidamente equipadas e preparadas para operação do sistema de teleconferência no Estado de São Paulo123.
Não há notícia, porém, no Estado de São Paulo, de equipamentos instalados em presídios femininos nos dias atuais.
Usando esses equipamentos, na Comarca de Guarulhos, depois da edição da Lei Federal nº 11.900, de 08 de janeiro de 2009, a primeira teleaudiência criminal foi realizada em 26 de janeiro de 2010, presidida pelo Juiz de Direito Titular da Quinta Vara Criminal, Dr. Rodrigo César Müller Valente, que interrogou acusado que se encontrava preso no Centro de Detenção Provisória I (CDP) daquela comarca. Em Guarulhos funcionam seis Varas Criminais e uma Vara do Júri que chegam a receber, em único dia, cerca de quarenta presos requisitados para acompanhar audiências, inclusive para interrogatórios124.
Além do Centro de Detenção Provisória I e do Fórum de Guarulhos, também possuem o Sistema de Teleaudiência Criminal do Governo do Estado de São Paulo outras 16 localidades no Estado, incluindo fóruns, centros de detenção provisória e penitenciárias.
Sob jurisdição da Vara de Execuções Criminais da Comarca de Bauru, por exemplo, há atualmente oito presídios estaduais (não necessariamente localizados em território dessa comarca), aí incluídos os Centros de Detenção Provisória. Todos esses Centros, que abrigam presos provisórios, são dotados de equipamentos que permitem a realização de videoconferências, em conexão com o Fórum Criminal. Nessa comarca, com alguma resistência à adoção desse novo sistema, as Varas Criminais têm realizado em torno de quinze teleaudiências por mês125.
Os presos provisórios com processos em andamento na comarca de Presidente Prudente permanecem recolhidos no Centro de Detenção Provisória
123 www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI157092,21048‐TJSP. Acessado em 22‐07‐2012.
124 Notícias ‐ Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. www.tjsp.jus.br/noticias. Acesso em 21‐07‐2012. 125 Informação gentilmente prestada pelo Dr. Davi Márcio Prado Silva, Juiz de Direito da 1ª Vara das
situado na cidade de Caiuá, pertencente à comarca de Presidente Epitácio e distante cerca de 100 km de Presidente Prudente. Nesse Centro de Detenção há única sala dotada de equipamentos adequados para a realização de videoconferências, embora aí estejam recolhidos cerca de mil detentos.
Embora sem previsão expressa na Lei 11.900, de 08 de janeiro de 2009, na comarca de Presidente Prudente o sistema de videoconferência vem sendo adotado para formalização de citação de réus presos. Normalmente, os presos provisórios lá vinham sendo citados por meio de cartas precatórias (encaminhadas por "fac-símile" para cumprimento na comarca de Presidente Epitácio por oficial de justiça); feita a citação dessa forma, entre a expedição e a devolução da carta cumprida corriam pelo menos trinta dias, após o que, na maioria dos casos (porque mais de 80% dos réus presos não possuem defensores constituídos) o primeiro contato entre réu preso e o defensor nomeado acabava acontecendo no dia da audiência de instrução e julgamento e, pois, tardiamente, com possível prejuízo para o aparelhamento da defesa. Isso porque o defensor nomeado (defensor público ou advogado indicado pelo convênio firmado entre Ordem dos Advogados do Brasil e Defensoria Pública do Estado de São Paulo) teria que viajar até a distante cidade de Caiuá (lugar onde está situado o presídio) para manter seu primeiro contato com seu assistido (numa viagem impraticável de 200km de ida e volta).
Três Varas Criminais da comarca de Presidente Prudente, então, têm adotado essa forma de citação, sem que os defensores nomeados oponham alguma objeção; e são feitas cerca de quarenta e cinco citações por mês, observando-se os requisitos previstos no Código de Processo Penal: designada data para o ato, comparecem à presença do juiz, no edifício do fórum, o oficial de justiça e o defensor nomeado, para contato visual com o preso que se encontra em sala própria do presídio; o oficial de justiça indaga do preso se tem defensor constituído e se a resposta for negativa apresenta-lhe o advogado ali presente, esclarecendo que atuará como seu defensor e formaliza a citação por mandado na forma de praxe, inclusive com leitura integral da denúncia, com cópia entregue ao defensor; funcionário do Juízo lavra o termo respectivo, colhem-se as assinaturas dos presentes e o defensor já sai intimado da designação da data para realização da audiência de instrução e julgamento; ao final, de forma reservada, o defensor
comunica-se com o preso por meio de telefone com contato visual apenas entre os dois126.
Certamente, alguém verá ranço de ilegalidade nesse tipo de citação que não está previsto na legislação processual; mas, considerando-se que tudo é feito com a prévia concordância do defensor nomeado (que é advogado inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil e, portanto, indispensável para a realização da justiça como está posto na Constituição Federal), garantindo-se comunicação reservada entre o defensor e seu assistido (o que, inegavelmente, atende ao interesse do próprio acusado), além do que futuramente esse acusado ainda comparecerá à presença do juiz em audiência de instrução e julgamento para o interrogatório (caso não venha a ser feito pelo mesmo sistema de videconferência), parece, em princípio, que a formalidade legal da citação pessoal aí vem sendo atendida, sem a existência de possível prejuízo para o direito de defesa.
Diga-se de passagem que não se ignora a realidade ocorrente nos casos de citação pessoal de réus presos: o oficial de justiça se dirige ao presídio, onde entrega diretamente ao detento a cópia da denúncia (servindo como contrafé) e colhe sua assinatura ao pé do mandado de citação, devolvendo-o depois ao cartório do juízo com a respectiva certidão atestando o cumprimento da diligência. Tudo feito de forma burocrática, sem que ao preso seja formalmente esclarecido o verdadeiro alcance dessa citação pessoal (relembrando-se que essa diligência é testemunhada somente por agentes penitenciários encarregados da segurança do presídio); esse esclarecimento virá tempos depois, quando o detento puder avistar-se com seu advogado, sabe-se lá quando. Se esse defensor houver sido constituído, mostra a realidade que esse primeiro contato acontecerá sempre mais cedo; se for nomeado pelo juízo, réu e defensor encontrar-se-ão quando as circunstâncias o permitirem (geralmente, mais tarde).