Nas visitas ao bairro, constatei a multiplicidade de indivíduos que convivem no Antônio Bezerra. Velhos, crianças, adultos, adolescentes, jovens... Homens e mulheres que, ao construírem suas vidas dia após dia, constroem também o lugar que habitam. Fazem história porque produzem os meios para suprir suas necessidades vitais; das mais primárias – como comer, beber e dormir – a tantas outras que possam surgir na lida diária pela manutenção da vida.
No andar pelas ruas do bairro, senti (o que já supunha existir) a magnitude que cerca as infinitas práticas de seus quase 26 mil habitantes e percebi que me restringir às dinâmicas da rádio Costa Oeste e do site BAB seria desmerecer a riqueza daquela convivência entre os moradores do bairro, que inundava meus olhos. Mas, também assumi a impossibilidade de dar
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conta desse emaranhado que é a vida coletiva. Precisava encontrar um caminho que me levasse ao encontro do bairro, mas que me mantivesse no campo das pesquisas em comunicação.
Assim, reconstruí meu objeto de estudo, apoiada na interdisciplinaridade bem típica às pesquisas em comunicação. Ao invés de me fixar na dinâmica de produção e no conteúdo do site e da rádio, resolvi investigar as conexões entre as práticas socioculturais de moradores do Antônio Bezerra, especialmente aquelas ligadas ao BAB e à Costa Oeste. Trouxe, então, como principal objetivo identificar e refletir sobre os processos de construção das imagens que os moradores e os comunicadores do Antônio Bezerra fazem sobre o bairro, sobre as experiências comunicativas em questão e sobre si.
Delimitei, ainda, como objetivos específicos: identificar os processos – presentes nas práticas cotidianas de moradores e moradores comunicadores – que contribuem para a construção de identificações sociais; e compreender como as imagens sobre o bairro, que os moradores constroem, dialogam com as imagens que eles têm de si, da rádio e do site. Para em seguida, encontrar os contrapontos e aproximações entre essas imagens e autoimagens, refletindo sobre como a elaboração dessas representações incide nos sentimentos de pertença (ligação afetiva) com o lugar.
Entretanto, apesar desses recortes, ainda me deparava com tamanha densidade de vivências no bairro que inviabilizava minha pesquisa. Passei, então, a conversar com moradores de lá e vi que era recorrente a presença de famílias estabelecidas no bairro há gerações, e que tanto o site como a rádio possuíam integrantes que moravam ou tinham contato com o lugar há anos. Além disso, percebi que os residentes no Antônio Bezerra com frequência identificavam algumas ruas como “o coração” do bairro, que é dividido pela avenida Mister Hull.
Encontrei aí uma maneira de construir a minha rede de contatos: escolher moradores dessa região considerada central do Antônio Bezerra e cujas famílias já fossem antigas no bairro. Todavia, mantive-me, durante toda a pesquisa, aberta ao que o campo pudesse me revelar para, assim, ter mais chances de conseguir encontrar as conformidades entre os pontos de vista de distintos moradores, observando, inclusive, os lugares sociais ocupados por eles.
Mas, antes mesmo de decidir quem seriam meus interlocutores, uma decisão estava posta, interligar falas de lideranças e de comunicadores ligados à rádio Costa Oeste e ao site BAB, com as de moradores sem posição de destaque no imaginário coletivo do bairro. Buscar os meus interlocutores nas diferentes gerações de famílias moradoras do bairro e estabelecidas pela convivência. Privilegiar o convívio que eles tinham com o lugar a posições de autoridade, tratando com o mesmo apreço os relatos de fatos e eventos mais abrangentes do ponto de vista coletivo, e as narrativas de acontecimentos ordinários e privados.
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Trouxe, portanto, a ideia de me distanciar de pesquisas que privilegiam apenas grupos organizados e lideranças instituídas. Abordagens que dominaram a maioria dos trabalhos, produzidos sobre bairros populares no Brasil até o começo deste século (MATTOS, 2012). Preferi substituir a ideia de grupos pela de redes, rizomas e processos, valorizando as interações sociais concretas entre os moradores.
Mas, para dar andamento à investigação, precisava, ainda, delimitar a metodologia que melhor se enquadrasse em meus propósitos. A ideia que ficou foi trabalhar com a memória, através de entrevistas de história oral, pois queria ter como foco as recordações das trajetórias de vida dos moradores que dialogassem com o bairro. Atrelei a isso a observação direta, já iniciada quando da pesquisa exploratória que fiz no primeiro trimestre de 2013.
Em geral, as recordações do cotidiano, alheias a eventos extraordinários e de grande repercussão, parecem tão simples e inofensivas que quase nunca refletimos sobre elas, apesar de elas nos acompanharem e se perpetuarem pelo convívio nas redes de amigos e familiares. Mesmo vivendo no anonimato, essa memória retém resíduos das ações que, na lida diária pela sobrevivência e convivência em sociedade, paulatinamente, delineiam quem somos. Ela contribui para que sejam elaboradas as representações de si (e do outro) que, por sua vez, guiam as identificações sociais – ou seja, as diferenças e identidades que construímos.
Daí, a justificativa para usar relatos de memória como estratégia metodológica, pois [...] ao contarmos nossa vida, em geral tentamos estabelecer uma certa coerência por meio de laços lógicos entre acontecimentos chaves (que aparecem então de uma forma cada vez mais solidificada e estereotipada), e de uma continuidade, resultante da ordenação cronológica. Através desse trabalho de reconstrução de si mesmo o indivíduo tende a definir seu lugar social e suas relações com os outros (POLLAK, 1989, p. 13).
Tais reflexões, associadas à minha predileção e ao costume que tenho de recordar o que vivi, foram decisivas na escolha da memória como base para a minha metodologia. Porém, no decorrer do processo, acabei por perceber que a junção memória e entrevistas de história oral (atrelada à observação direta) seria insuficiente. Optei, enfim, por me aproximar de outras estratégias – a observação participante e o método cartográfico –; discussão que faço mais amiúde no próximo capítulo.
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3 METODOLOGIA: “NÃO SEI ONDE EU TÔ INDO MAS SEI QUE EU TÔ NO MEU