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No processo de semiotização do mundo, o sujeito informador se atém às diferentes formas-sentidos de construção do texto para noticiar o acontecimento, reagrupando categorias da língua e modos de organização do discurso. Para isso, o produto resultante do ato de linguagem depende diretamente do funcionamento da máquina semiodiscursiva, a exemplo do Portal de Notícias da Globo. A “fabricação” da webnotícia passa por um processo de construção que obedece aos aspectos estruturais e discursivos.

Relativamente à máquina midiática de que fala Charaudeau (2015a), a primeira instância – o lugar de condições de produção – é representada pelo produtor da informação; a segunda – o lugar de construção do produto – é a instância de recepção, submetida a condições de interpretação; e a última instância – o lugar das condições de interpretação – é o produto da informação representado pelo texto midiático.

O sentido resultante do ato comunicativo depende da relação de intencionalidade que se instaura entre estas duas instâncias: a de produção e a de

recepção. A primeira é dependente das representações por discursos de justificativa da intencionalidade, ligada aos “efeitos econômicos” e aos “efeitos visados”, numa influência recíproca. A segunda refere-se ao alvo imaginado pela instância midiática pelos “efeitos supostos” e ao público (como instância de consumo do produto) a partir dos “efeitos produzidos.” (CHARAUDEAU, 2015a, p. 23-24).

A seguir, mostramos um esquema de representação referente ao funcionamento da máquina midiática e seus três lugares de construção de sentido pela TS:

Figura 4 - Os três lugares de construção de sentido da máquina midiática

Fonte: Charaudeau (2015a, p. 23).

Pela figura 4, vemos que o lugar das condições de produção comporta um espaço “externo-externo” e “um externo-interno”. O primeiro está ligado às condições socioeconômicas da máquina midiática como empresa, com seus atores inseridos nas práticas sociais e na produção de discursos de representação que circunscrevem uma intencionalidade orientada por efeitos econômicos e que depende de uma problemática sociológica.

O segundo lugar compreende as condições semiológicas de produção, aquelas que presidem à própria realização do produto midiático. Nele todas as preocupações são de ordem socioeconômica, ou seja, o problema é colocar o produto-informação diante do maior número possível de consumidores. Sob o plano da captação e sob a influência entre uma instância e outra, o importante é que haja a sedução do produtor do texto sobre seus consumidores, garantindo, assim, o constante consumo do produto ofertado, que é a webnotícia.

O lugar das condições de interpretação, por sua vez, é estruturado por dois espaços “interno-externo” e interno-externo”. No primeiro, está o destinatário ideal, o alvo – que é imaginado pela instância midiática como suscetível de perceber os efeitos visados por ela. No segundo, encontra-se o receptor real, o público, a instância do consumo da informação, que interpreta as mensagens que lhe são dirigidas segundo suas próprias condições de interpretação, dependentes de uma problemática sociodiscursiva. Essa problemática consiste em analisar as práticas de produção da máquina midiática assim como os discursos de justificativa dessa prática sociolinguageira.

A análise das condições de interpretação (que recebe a informação), porém, depende de uma problemática sociológica e psicossociológica, pois se levam em conta a natureza social a que o sujeito pertence e os comportamentos da instância de recepção, que é, para Charaudeau (2015a), uma atividade delicada.

O teórico nos adverte para os dois tipos de efeitos: os que dizem respeito a fatos de consumo e atitudes apreciativas (que são os índices de satisfação), a exemplo de sondagens, pesquisas quantitativas de audiência e estudos de impacto largamente utilizados pelas mídias, e os efeitos ligados aos processos psicossociocognitivos de percepção, de memorização, de retenção, de discriminação, de avaliação e de compreensão do que é percebido.

Por último, no lugar das restrições de construção do produto acontece a configuração do discurso materializado no texto (na webnotícia, por exemplo) segundo uma certa organização semiodiscursiva feita de combinação de formas, umas pertencentes ao sistema verbal, outras a diferentes sistemas semiológicos, a exemplo do infográfico. Neste caso, o sentido depende da estruturação particular dessas formas, cujo reconhecimento pelo receptor é necessário para que se realize efetivamente a troca comunicativa, pois o sentido é resultante de uma cointencionalidade entre um e outro.

É nesse lugar que acontece a idealização do receptor pela instância de produção. Por um lado, esta instância produtora o projeta como o destinatário-alvo que ela acredita ser adequado a suas intenções, e, ao visar produzir efeitos de sentido, não tem certeza se esses serão percebidos, e como, por outro lado, a instância receptora constrói seus próprios efeitos de sentidos dependentes de suas condições de interpretação.

Assim, considerando-se a instância produtora, o texto é portador de “efeitos possíveis, que surgem dos efeitos visados pela instância de enunciação e dos efeitos produzidos pela instância de recepção.” (CHARAUDEAU, 2015a, p. 27- 28). Para o teórico, toda análise de texto nada mais é do que a análise dos “possíveis interpretativos”.

Segundo Silva (1998), há uma problemática semiodiscursiva a partir desse espaço, que é a relação da organização semântica das formas com as hipóteses de cointencionalidade que fazem com que a instância de produção tente responder a perguntas sobre a instância-alvo, tais como: “O que leva os indivíduos a se interessarem por informação fornecida pela mídia?”; “Pode-se determinar a natureza de seu interesse ou desejo?”; ” Como “agradar” a públicos-alvo diferentes?”.

Para Charaudeau (2015a), sob o enfoque do discurso midiático, devem- se examinar os sentidos de estruturação semiodiscursiva do produto acabado (o texto, que é a materialização do ato de linguagem) e os discursos de representação que circulam, por um lado, na instância de produção; por outro, no contexto sociocultural no qual está inserida a instância de recepção.

Pelo jogo de influências, a instância de produção só pode imaginar o receptor de maneira ideal, construindo-o como o destinatário-alvo que acredita ser adequado às suas intenções comunicativas. A instância de recepção, por sua vez, constrói seus próprios efeitos de sentido que dependem de suas condições de interpretação. O texto produzido, de fato, é portador de “efeitos de sentido possíveis”, que surgem dos efeitos visados pela instância de enunciação e dos efeitos produzidos pela instância receptora.

Os três lugares da máquina midiática se definem, portanto, cada um em relação aos demais como “um jogo de espelhos em que as imagens incidem uma sobre as outras.” (CHARAUDEAU, 2015a, p. 28).

Para a Teoria Semiolinguística, todo sujeito que quer relatar um acontecimento se vê diante de um problema: separar realismo de ficção. Isso porque a instância midiática tem dificuldades ligadas às restrições situacionais do contrato de informação. Ela não é livre de inventar uma história, mas tem que contar os fatos que podem ter significado por outra instância de informação ou terem se apresentado em estado bruto, sendo “portador de potencialidades múltiplas.” (CHARAUDEAU, 2015a, p. 156).

Neste sentido, o jornalista tem a função de interpretar e analisar o acontecimento relatado em função de sua própria experiência, de sua própria racionalidade, de sua própria cultura combinadas com a sua função profissional. Ele assume uma posição de uma testemunha esclarecida, o que pode aumentar sua responsabilidade em relatar com fidedignidade o acontecimento e, ao mesmo tempo, comprometê-lo, pois a narrativa que constrói não pode prescindir da visada da captação, mas da visada da informação, garantindo, assim, a credibilidade da informação veiculada pela instância midiática.

Um portal de notícias se coloca diante de um acontecimento que está exterior a si mesmo. Consideram-se suas potencialidades de atualidade, de diegese, de causalidade e de dramatização. O acontecimento deve se transformar em narrativa midiática segundo suas escolhas efetuadas a partir de uma série de roteiros possíveis.

Nesta encenação em que ocorre a produção da webnotícia, é preciso levar em conta as restrições e as possibilidades do suporte e do dispositivo (a imprensa, a Internet, a imagem). Assim, o webjornalista se vê como um “meganarrador” disposto a transmitir a informação, colocando-se entre dois problemas: quem é o responsável pela narrativa (se é o organismo da informação, se é o próprio editor da webnotícia).

Sob este ângulo, Charaudeau (2015a) apresenta as operações que esse meganarrador é levado a realizar para construir sua narrativa em dois casos: primeiro, quando o acontecimento bruto se desenrola paralelamente à narrativa (narrativa em simultaneidade) e, segundo, quando o acontecimento bruto já se produziu (narrativa de reconstituição).

No primeiro caso, o acontecimento é relatado no mesmo instante em que ele ocorre, isto é, há simultaneidade entre o tempo do acontecimento e o tempo de sua transmissão, sendo que a imprensa (no caso da webnotícia) só pode produzir a

narrativa a posteriori, cabendo à TV e ao rádio a transmissão do acontecimento simultânea e contínua.

A instância midiática utiliza discursivamente a descrição, porque é preciso assegurar a sequência no desenrolar do acontecimento; a explicação (diegetizada), porque o meganarrador, em simultaneidade, deve elucidar o acontecimento no presente por meio do que aconteceu ou explicitar as supostas intenções do protagonistas da cena e as apreciações, pois, para manter a captação, o narrador deve mostrar suas emoções.

O caso da narrativa reconstituída, segundo Charaudeau (2015a, p. 159), corresponde às reportagens da imprensa, de uma forma geral, e a certas reportagens televisivas transmitidas a posteriori com comentário não simultâneo. Livre das restrições da simultaneidade, o meganarrador deve montar seu texto noticioso a partir de uma roteirização, como faz o narrador de uma narrativa fictícia, que em nome da credibilidade, introduzindo uma abertura (o chamado “ataque”) mais ou menos dramatizante e de diferentes maneiras.

A TS aponta que a encenação do discurso informativo surge em decorrência do quadro de restrições aplicado pelo contrato de comunicação, sob “a batuta da dupla finalidade da credibilidade e da captação”. Essas restrições relativas à posição das instâncias de comunicação e à captura do acontecimento instruem aos organismos midiáticos o uso de determinado modo de organização do discurso e de um ordenamento temático durante a construção da notícia para que o sujeito interpretante possa compreender a informação veiculada, uma vez que o “acontecimento só se torna notícia a partir do momento em que é levado ao conhecimento de alguém.” (CHARAUDEAU, 2015a, p. 132).

Neste contexto, o Portal de Notícias da Globo – o G1, que é uma instância de informação midiática, vê-se obrigado, do ponto de vista qualitativo, a veicular matérias jornalísticas baseadas na exigência da inteligibilidade, ao se esclarecerem o porquê e o como das notícias. É uma prática por meio da qual a informação é apreendida num sistema de conhecimento já organizado e ordenado em função do destinatário e do grau de previsibilidade.

A webnotícia do G1 deve transmitir, antes de mais nada, um discurso informativo que assegure a veracidade dos fatos, pois “o status da verdade é da ordem do que já foi: algo aconteceu no mundo, e é esse novo conhecimento proposto no instante de sua transmissão-consumação.” (CHARAUDEAU, 2015a, p.

61). Deve-se, propor um modelo da credibilidade: o que está sendo noticiado é verdadeiro.

Não devemos nos esquecer de que existe, pela lógica comercial, a finalidade de “captar” grande parte dos consumidores a buscar a notícia que atenda a um interesse diferente do serviço da democracia: uma informação sobre os acontecimentos ligados ao espaço público político e civil, isentos de posições ideológicas. A mídia deve, pois, se preocupar com os “efeitos visados” durante a produção da matéria jornalística e com os “efeitos produzidos” no alvo durante a recepção da notícia.

Para a produção da notícia enquanto produto de consumo da informação, o G1 tem um desafio pela frente: ater-se à situação de comunicação que envolve a produção de suas matérias jornalísticas, considerando-se o jogo de influências existente entre o sujeito informador e o leitor e as restrições contratuais impostas pela situação comunicativa orientada pelos parceiros, conforme explicamos na próxima subseção.

3 (RE)DEFININDO O CONTRATO, A SITUAÇÃO DE COMUNICAÇÃO E O