6. SONUÇLAR VE TARTIŞMA
6.10 Genel Değerlendirme ve Öneriler
Dando continuidade à nossa referência ao Eclesiastes, cuja leitura Machado de Assis tanto prezava, podemos mencionar que a indignação de Qohélet quanto a do escritor mostram o quanto o mal provoca, no mínimo, uma forte reação no ser humano.
Evidentemente, a indignação do livro sapiencial é mais perceptível, enquanto Machado de Assis prefere expressar sua indignação por meio de personagens dissimulados, cínicos, que nos deixam absolutamente descrentes da regeneração do ser humano.
O cuidado que devemos ter, ao compararmos o tom denunciador do livro bíblico com o também tom denunciador machadiano, é para não cairmos no que alguns críticos, inadvertidamente, fazem, que é classificar Machado de Assis como um cético radical, um cínico peçonhento ou um pessimista amargo (MELO, 1995, p.990). Ou, se preferirmos, como uma pessoa avessa à religião.
As reflexões filosóficas e religiosas surgem em sua obra ora de forma explícita ora de forma implícita. Emprestando as palavras de Miguel Reale, Machado de Assis representa artisticamente sua cosmovisão. O escritor carioca é exímio em extrair do cotidiano temas banais e, no parecer de Reale, em elevá-los a uma “instância simbolizante”. É o que o filósofo denominou de “teoreticidade”, isto é, por meio de sua ficção artística, Machado de Assis reflete filosófica e teologicamente, sem colocar deliberadamente as questões em termos propriamente filosóficos ou teológicos. Portanto, o teológico e o filosófico em Machado de Assis não se sobrepõem ao literário, mas ambos se expressam de forma literária.
Maria Eli de Queiroz (2008), em seu livro Machado de Assis e a religião:
considerações acerca da alma machadiana, assim escreveu: “Se Machado de Assis não foi
católico praticante, pelo menos respeitou a Igreja de sua iniciação religiosa” (QUEIROZ, 2008, p.128).
Talvez erroneamente alguns críticos alardeiam o aspecto antirreligioso baseados em alguns escritos de Machado de Assis. Porém, o que podemos pontuar é que, desde o início da idade adulta, 23 anos, o autor demonstra um profundo descontentamento com o clérigo e, apesar da tenra idade, já era suficientemente perspicaz com referência à Igreja. Em um trecho da carta escrita ao bispo do Rio de Janeiro, assim escreveu: “O nosso clero está longe de ser aquilo que pede a religião do cristianismo. Reservadas as exceções, o nosso sacerdote nada tem do caráter piedoso e nobre que convém aos ministros do crucificado” (MACHADO DE ASSIS apud QUEIROZ, 2008, p.88).
Moralista e conservador, Machado de Assis, nas palavras de Gladstone Chaves de Melo, “foi um agudo, profundo e quase cruel escafandro da alma humana. Punha a descoberto os mais recônditos pensamentos, as mais secretas motivações dos seus personagens, para denunciar a constante e envenenada presença do amor-próprio, o grande inimigo da perfeição moral” (MELO, 1995, p.990). Destarte, por mostrar a fragilidade moral dos homens, também não hesitou em apontar as mazelas do clero nacional. Isso não quer dizer que desejemos, conforme já explicamos previamente, acusar Machado de Assis de antirreligioso. Ao contrário: o que ele intencionava era que a religião “fosse profundamente vivida e correspondesse a uma entrega total” (QUEIROZ, 2008, p.91).
Todas essas considerações têm a finalidade de apontar para outro elemento que estava surgindo na sociedade brasileira, no século XIX: um catolicismo burguês, que já mencionamos, o qual vai sugerir uma prática religiosa de aparências. A consequência será um comportamento antiético dos dirigentes da Igreja, e mais: “inserção na vida laica; inserção na política do compadrio; a ostentação; a ganância; o descumprimento dos preceitos de caridade, humildade e castidade, bem como a extrema vaidade [grifo nosso]” (QUEIROZ, 2007, p.99).
As personagens machadianas, que sempre refletiram a sociedade da época, geralmente são apresentadas como pseudocatólicas. O mundo em que elas vivem limita-se à caça do dinheiro, e “o cristão se anula no burguês” (FAORO apud QUEIROZ, 2008, p.106). Elas perderam suas raízes cristãs, que costumavam alimentar seu temor a Deus. Este, agora, caiu
no pieguismo “e seria um extravio acreditar nele, crença essa impedida pela sabedoria do tempo, transmudada em mil questionamentos. Os mandamentos da ‘Santa Madre Igreja’ não passam do dever seco e estéril, ético e não religioso” (QUEIROZ, 2008, pp.106-107).
Diante, pois, de tanta indiferença, vaidade, ostentação, desvio da missão, competição, exibicionismo, ausência do sentido agregador de comunidade, excesso de formalidades que destroem o sentido religioso, falta de atenção para com as almas e de consciência religiosa, entre tantas outras atitudes pseudocristãs, Machado de Assis fará surgir constantes referências ao Eclesiastes. Eis um trecho de uma crônica publicada n’A Semana em 4 de agosto de 1895:
Tal foi uma das festas da semana, que teve ainda outras. Há tempo de se afligir e tempo de saltar de gosto, diz o Eclesiastes; donde se pode concluir, sem truísmo, que há semanas festivas e semanas aborrecidas. No Eclesiastes há tudo para todos. A pacificação no Sul lá está: ‘Há tempo de guerra e tempo de paz’. Muita gente entende que este é que é o tempo de paz; muita outra julga, pelo contrário que é ainda o tempo da guerra, e de cada lado se ouvem razões caras e fortes. O Eclesiastes, que tem respostas para tudo, alguma dará a ambas as ocasiões; se não fosse a urgência do trabalho, iria buscá-la ao próprio livro; não podendo fazê-lo, contento-me em supor que ele dirá aquilo que tem dito a todos, em todas as línguas, principalmente no latim, a que o transladaram: ‘Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade’ (MACHADO DE ASSIS apud QUEIROZ, 2008, p.115).
Conforme já mencionamos, leitor igualmente de Blaise Pascal, Machado de Assis, numa carta a Joaquim Nabuco, de 9 de agosto de 1906, assim escreveu: “Desde cedo li muito Pascal e afirmo-lhe que não foi por distração. Ainda hoje quando torno a tais leituras e me consolo no desconsolo do Eclesiastes, acho-lhe o mesmo sabor de outrora” (MACHADO DE ASSIS apud MELO, 1995, p.999).
Portanto, na leitura de Pascal e do Eclesiastes, Machado de Assis encontrou rica inspiração e eco naquilo que sempre foi seu foco: a fragilidade moral dos homens, a qual se corporifica no individualismo burguês. E aqui, com base em Gladstone Chaves de Melo, reportamo-nos a essa civilização de aparências, que permeia as relações, não apenas as da classe social burguesa, mas também de nobres e proletários. Ao perceber essa filosofia de vida burguesa, individualista e egocêntrica, o escritor denunciou esse desvio e o combateu por meio do ridículo e do humour. Uma das técnicas mais empregadas “foi tratar com gravidade as coisas fúteis e à ligeira as coisas sérias ou seriíssimas (exceto a morte)” (MELO, 1995, p.999). Um exemplo: “Ouvistes que foi dito aos homens: Amai-vos uns aos outros. Pois eu
digo-vos: Comei-vos uns aos outros; melhor é comer que ser comido; o lombo alheio é mais nutritivo que o próprio” (Sermão do Diabo, in QUEIROZ, 2008, p.135).
No Brasil do século XIX, Deus não é mais temido e passa a desempenhar um papel bastante secundário na vida das pessoas – trata-se dos pseudocatólicos, aos quais o escritor se referira.
No domingo seguinte, Dona Fernanda foi à igreja de Santo Antônio dos Pobres. Acabada a missa, viu surgir do movimento dos fiéis que se cumprimentavam entre si, ou saudavam o altar, nada menos que o primo, erecto, risonho, gravemente trajado, estendendo-lhe a mão.
– Veio também à missa? perguntou espantada. – Vim.
– Vem sempre?
– Nem sempre, muitas vezes.
– Francamente, não esperava tanta devoção em você. Os homens são, em geral, uns ímpios. Teófilo não pisa na igreja, a não ser para batizar os filhos. Você então é religioso?
– Não posso responder com certeza; mas tenho horror à banalidade, que é dizer mal da religião. E basta; vim à missa, não vim confessar-me; agora vou conduzi-la à casa, e, se me oferecer almoço, almoçarei com vocês. (...). (MACHADO DE ASSIS, 2004, p.143).
Machado de Assis sempre rejeitou a vaidade, o exibicionismo, a futilidade, o fingimento, aspectos da personalidade humana que já eram mostrados no texto bíblico objeto de nosso estudo como uma maneira de o ser humano afastar-se de Deus. Do mesmo modo que o Bruxo do Cosme Velho apontava para os defeitos morais da condição humana numa linguagem mordaz, o Eclesiastes também em tom irônico, vai denunciando as mazelas e as desvirtuações do ser humano. Assim sendo, o Pregador vai empregar uma linguagem dura – Machado de Assis vai usar a pena da galhofa molhada na tinta da melancolia – através da qual tudo é vazio, oco, fútil. A vida não é o que parece, de acordo com o texto sapiencial; em Machado de Assis, a vida é uma representação em que todos interpretam um papel. No Eclesiastes, tudo é vaidade, a mais vã de todas as futilidades. O escritor carioca também aponta para os falsos valores, para a desenfreada busca de poder e dinheiro, numa competição ridícula e sem sentido entre os seres humanos para atingirem algo que desaparece com o vento. Ao invés de acenar com promessas de riqueza, segurança, felicidade e bênçãos, o Pregador achou por bem não idealizar nada (assim o fez Machado de Assis) e apontar para dois aspectos: previa-se a Vontade Divina sem levar em conta os mistérios que a dirigem e ignorava-se a morte, aquela que interrompe nossos planos e faz com que nossos bens passem para outras mãos, segundo David Allan Hubbard, em seu livro Muito além da futilidade
(1991). O personagem Rubião, do livro Quincas Borba, por exemplo, herdeiro da fortuna do filósofo Quincas Borba, perde todo o patrimônio deixado pelo amigo, é abandonado por todos e morre louco:
Poucos dias depois morreu... Não morreu súdito nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça, - uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera para erguer meio corpo não durou muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou porventura uma expressão.
- Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor...
A cara ficou séria, porque a morte é séria; dois minutos de agonia, e estava assinada a abdicação. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p.214).
Rubião não levou em conta que a morte poderia ocorrer a qualquer tempo, sem aviso prévio. Tanto o Eclesiastes quanto Machado de Assis nos falam da finitude, da imanência, da inutilidade de traçarmos ideais que não poderão ser pragmatizados. Ambos, à sua maneira, nos lembram o temor que devemos ter a Deus – assunto ao qual retornaremos.