A partir de 1870, começou a findar a prática de coroação de Rei de Congo no Brasil. A igreja católica, depois de um período de compromisso e permissão das diversas formas de participação popular nos festejos, passou a adotar uma atitude de oposição ostensiva; posicionando-se contra o catolicismo popular, exigindo a abolição desses eventos, mostrou-se obstinada a combater as festas e devoções tradicionais, não participando delas e condenando os excessos nelas contidos. Os antigos santos de devoção são substituídos em nome de um culto que favorecesse os sacramentos e uma maior subordinação a hierarquia eclesiástica. Tal atitude da igreja denominou-se romanização19.
Mas, mesmo com o processo de romanização, congos, congadas, cucumbis e embaixadas ainda eram manifestações populares muito comuns na cidade de Fortaleza, no final do século XIX e início do XX; sendo que, tais práticas se apresentavam em frente da igreja do Rosário, praças, residências e terrenos baldios. O memorialista cearense descreveu uma dessas manifestações presenciadas por ele na primeira década do século XX.
Diz Barroso:
“ No mês de natal pela cidade inteira, se representam os autos populares tradicionais. Na praça Pelotas, os Congos do Gorgulho. Na Cachorra Magra, a Porfia das Flores, do velho Zacarias. Na Lagoinha, os Fandangos, com dois grandes navios de madeira, onde se canta a velha chácara da Nau Catarineta e se trava em seco numa naumaquia entre Mouros e Cristãos. Na rua do Sampaio, o Bumba-meu-Boi do João Boca- Calada.
19 A Romanização consistiu no intuito da igreja católica de reformar seus bispos, padres e congregações,
cujo objetivo era moldar o catolicismo brasileiro ao modelo romano. Seus traços principais consistiam na prática dos sacramentos e na obediência a hierarquia eclesiástica.
61 (...)
A família de meu primo Licínio volta da Jurucutuoca nesta quinzena de dezembro. Está em sua grande casa da rua Formosa, um pouco além da praça do livramento, onde no meio do matapasto, se ergue uma igreja em construção, toda envolvida no aranhou dos andaimes.
Vou lá um dia jantar e, à noite, escanchado com meus primos no muro do fundo do quintal, assistimos à função dos Congos, auto popular de Natal, que se realiza num terreno baldio dando para a praça de pelotas. Aquilo nos diverte extraordinariamente.
Sobre um grande estrado, sentado no trono, de coroa à cabeça e manto estrelado, D.Henrique Cariongo, Rei dos Congos e Imperador da Cabinda, rodeado de seus filhos, secretários e corte em trajes de gala. Os músicos tocam e duas filas de dançarinos pretos se movem ao som de melopéias africanas:
Ó gingana, ó gingana, ó ginganoé Ginganoé, gilaguelo, ó gibagaloé Simungá, conguê, alelo
Mumbica, Mombaça, Rei meu Sinhô! E o Secretário, brandindo a espada: Arreda, deixa passar
Nosso Rei D.Cariongo Com a sua Divindade Nosso Rei para seu trono! Maracondê, maracondê É de bombaiê
Amulá, amuleque Amuleque, amula!
Chega com espavento o Embaixador de Luanda, de capacete emplumado, a dar insolente recado em nome da famosa Rainha Ginga20
20 Sobre a Rainha Ginga diz Tinhorão: “ Em sua penetração predatória pelo território, os portugueses
esbarraram em Angola, desde o início do século XVII, no poder do sova Ginga Bandi, cuja morte, assassinado pelos próprios súditos, ia gerar o advento de uma era de predomínio político de sua filha Ginga. Ao chegarem ao Brasil – e principalmente a Bahia, então o maior entreposto de negros da colônia – os bantos traziam pelos menos desde 1621 (quando uma embaixada de paz chefiada pela Princesa Ginga Bandi é recebida pelo governador de Angola, João Correia de Souza), até 1621 (quando Ginga morre como rainha, após mais de 50 anos de poder) notícias sempre renovadas dos acontecimentos da
62 [...] representa o papel de embaixador da rainha Ginga o negro Gorgulho, carniceiro no mercado, inteiramente convencido que é mesmo embaixador. Há tempos exercia o cargo o negro Firmino, filho da negra Teresa, ex-escrava de nossa casa, que uma feita até surrupiou, para fazer maior figuração, a grande gala fora de uso de meu pai e sua espada de comandante da polícia.
[...]
O negro Gorgulho bradava estentoreamente, arrastando um espadagão de cavalaria:
Eu por este reino adentro Entro com grande valor Sem temer de D.Henrique Nem dos Ministros, o pavor. Estas medalhas que tenho Eu ganhei-as em Binguelos Eu venci toda a Mourama E tomei trinta castelos!
O Rei Cariongo manda prende-lo e só o solta depois que lhe suplica o perdão de joelhos:
Senhor Rei, não me mateis Não me mateis por piedade Também sou filho de Reis Também tenho majestade! Sou filho do Rei Catroques Afilhado da Virgem Maria Almirante de Luanda Embaixador da Turquia!
Solto, corre a buscar suas aguerridas tropas, invade o Reino, mata o Principe Sueno, Herdeiro do trono, destroça os soldados do Cariongo e o leva prisioneiro:
vida tribal sob a hegemonia da imperiosa senhora. É pois a historia transformada em lenda desses acontecimentos que os negros bantos aproveitarão como tema em seu trabalho de transformação das manifestações permitidas pelos brancos colonizadores (principalmente a instituição dos reis do Congo, no âmbito das confrarias e irmandades de Nossa Senhora do Rosário) em verdadeiros autos comemorativos de episódios nacionais (...)” (TINHORÃO,1997,p.02)
63 Parabéns, nobres guerreiros
Pela vitória alcançada Foi preso o Rei Cariongo
Toda a ilha foi tomada!” (BARROSO,1988,p.43)
A descrição, feita acima por Gustavo Barroso, é conhecida pelos estudiosos contemporâneos como embaixada. Representa uma dança na qual é tematizada o combate entre o rei Congo e os envidados do reino estrangeiro. Era comum o envio de embaixadas a reinos amigos na Europa quanto na África com o objetivo de estabelecer critérios definidores de relações comerciais, parcerias políticas e militares, laços matrimoniais, e outras formas de convivência. (SOUZA,2002)
Foi por meio dessas embaixadas que primeiro se estabeleceram as relações entre Portugal e os reinos africanos, em especial o reino do Congo. Tais embaixadas se apresentavam cercadas de cerimonial específico de cada cultura, representavam o rei estrangeiro no país que visitavam, trazendo mensagens e presentes que deveriam contribuir para a consolidação das relações propostas.
Foram essas embaixadas que deflagraram a conversão da elite congolesa ao catolicismo e deram fama a Njinga, do reino do Ndongo e Matamba, que ao representar o ngola, seu irmão, entrou pela primeira vez em contato direto com os portugueses, em Luanda, e deixou forte impressão acerca de sua habilidade política(SOUZA,2002)
Essas embaixadas foram enviadas ao Brasil, nos séculos XVIII e XIX, e sempre com o mesmo objetivo: visar o estreitamento das relações comerciais entre os países. O fato das embaixadas serem práticas comuns nas relações dos reinos africanos entre si e com países europeus, e de aparecerem como peça central das congadas realizadas por ocasião da eleição do rei do Congo no Brasil, indica elementos de um processo pelo qual se constitui esse costume, e que incorporou aspectos da história freqüentemente revividos, contribuindo assim para a afirmação de uma identidade. Tais festividades eram formadas a partir de fragmentos das culturas africanas e da portuguesa ligados às tradições culturais e a história daqueles povos, principalmente, os da África Centro-Ocidental.
É ainda o memorialista, Gustavo Barroso, quem nos descreve a embaixada dos Congos presenciada por ele na primeira década do século XX, na cidade de Fortaleza.
Os personagens da embaixada eram: D. Henrique Cariongo, Rei do Congo; Príncipe Sereno, herdeiro da coroa; Secretário, segundo filho do rei; outro Príncipe,
64 terceiro filho do Rei; Embaixador da rainha Ginga; número variável de Oficiais do Rei e do Embaixador; Soldados deste e Soldados-Dançarinos da Corte.
O cenário a ser apresentada a embaixada de Congo consistia num tablado coberto de bandeiras no centro de vasto terreiro; em uma de suas extremidades, o trono real; na outra, uma empanada ou biombo de fazenda de algodão estendida em varas, por trás do qual se ocultam os personagens que devem entrar em cena ou dela acabam de sair. Duas fileiras de Soldados-Dançarinos, de saiotes e cocares, dirigidos pelo Secretário, fazem evoluções coreográficas variadas à espera que o Rei apareça.
O enredo inicia-se com a presença do Secretário, vestido de saiote e cocar, tendo em punhos uma espada, passeia e canta entre as fileiras de seus comandos:
“Ô pretinhos dos Congos, pra onde é que vão?” o coro responde: “Vamos ao Rosário, festejar Maria. Entra o Secretário e diz: “Festeja, festeja, com muita alegria.”
Coro:
Vamos ao Rosário Festejar Maria.
Secretário, fingindo que quer beliscar o chão: A galinha, quando come
Pinica no chão, no chão. Coro, imitando o Secretário: O Colégio, légio, légio O Colégio da Nação. Secretário:
Olha o chão e limpa o chão, Pinica no chão, no chão. Coro:
Só serve para apanhar? Coro:
65 Secretário:
Os branquinhos vão dizendo Que todo negro é ladrão.
Os branquinhos também roubam Com sua pena na mão.
Coro
Ó Gingana, Gingonia... Secretário e Coro:
Rabeca, viola, pandeiro e maracá Viva nosso Rei que já vem dançar. Rabeca, viola, pandeiro e maracá Viva nosso Rei que já vem dançar. Rabeca, viola, pandeiro e maracá. Secretário:
Já é chegado, já é chegado Nosso Rei de seu passeio. Pelas notícias que correm Vamos ter um bombardeio. Coro:
Rabeca, viola, pandeiro e maracá... Secretário:
Nosso Rei foi visitar
Seus vassalos em campanha. Pelas notícias que correm Devemos saber quem ganha. Coro:
Rabeca, viola, pandeiro e maracá...(BARROSO,1988,pp.74,75)
Gustavo Barroso observou que as danças e contradanças realizadas pelos figurantes e os chamados “passos” executados pelo Secretário, se prolongam por bastante tempo, sempre acompanhado de músicas e sapateados. Tal ato só termina quando os principais personagens iniciam um diálogo em prosa. Onde entra o Rei D. Henrique Cariongo vestido de sobrecasaca, fraque ou casaca preta e calças brancas de
66 galão dourado, tendo sobre os ombros um manto curto de seda vermelha, picado de estrelas de ouro, e sobre a cabeça trás uma coroa de papelão dourado, cetro ou guarda- chuva na mão. Vem acompanhado do Príncipe Sereno, e de Oficiais e Porta-Bandeiras.
“Os Príncipes vestem-se à moda antiga, trajes do século XVII e do XVIII, manto vermelho, chapéu emplumado, espada à cinta. Os Oficiais trajam velhas fardas do Exército, da Guarda nacional ou da Polícia, com barretinas, quepes, capacetes ou gorros empenachados, arrastando espadagões.”(BARROSO,1988,p.34)
O enredo segue com os dançarinos abrindo alas para a passagem do soberano e o Secretário pronuncia:
“Simungá Conguê, alelo, Mumbica, Mombaça, Rei meu Senhor, o arredai, deixai passar, ó Senhora, nosso Rei D. Cariongo, com a sua divindade, ó Senhora, nosso Rei para seu trono.”
Coro:
Ô arredai, deixai passar, ó Senhora...
Secretário:
Nosso Rei está com vontade, ó Senhora De ir ao trono de Maria.
Nosso Rei está com vontade, ó Senhora De ir ao trono de Maria.
Neste instante, nesta hora, ó Senhora Hoje mesmo, neste dia.
Coro:
Ô arredai, deixai passar, ó Senhora... Secretário:
Nosso Rei subiu à Côrte, ó Senhora Do seu trono se apossou.
Nosso Rei subiu à Côrte, ó Senhora No seu trono se apossou.
67 No seu trono se assentou.
Secretário:
Minha Virgem do Rosário, ô Rosário Cantemos em seu louvor, seu louvor. Minha Virgem do Rosário, ó Rosário Cantemos em seu louvor, seu louvor. O anjo canta lá no céu, ô no céu O anjo canta lá no céu, ô no céu Na terra o pecador, pecador. Na terra o pecador, pecador. Coro:
Ô arredai, deixai passar, ô Senhora [...] (BARROSO,1999,pp 76,77)
No ato seguinte, o Rei e Corte atravessam um tablado entre as alas de Dançarino-Soldado, a sua frente vem o Secretário que mostra o caminho, “desfazendo- se em salamaleques” D. Henrique senta-se esparramado no trono, circulado pelos Oficiais e ladeado pelos Porta-Bandeiras. O Príncipe ocupa um lugar a seus pés, num degrau do trono. Música e danças cessam. Grita o Rei: “Secretário! Secretário! Vaqueiro da minha perua! Chaveiro do meu tesouro Dourado!” Responde o Secretário: “Senhor, senhor! Acudo a vosso chamado!”(BARROSO,1988,p.77)
“O Secretário posta-se de joelhos na frente do soberano e diz:
“Cussangana, aqui está seu secretário e Chaveiro de seu Tesouro Dourado.” Pronuncia o Rei com uma forte entonação na voz: “Bênçãos do Zamuripunga, lá no céu te ponham já, amulá, amulequê, amulequê de amulá, alevanta, minha filho,amulá de amulequê, amulequê, amulá, temos muito que fazer,vai fazer umas ginitrias, mui bem feita e bem fazida, que meu coração, pique, paque, fique muito agradecida.” Responde o Secretário: “Ê Mungá!” (BARROSO,1988,p.77)
A dança apresentada segue uma mímica que busca imitar, como diz Gustavo Barroso, “o andar retrógrado e balanceado dos crustáceos: o guaiamum e o aratu” o enredo trás danças e contradanças acompanhadas por variações musicais. Fazendo
68 referência, segundo Barroso, as práticas da vida doméstica do homem do campo e a condição dos africanos escravizados aqui no Brasil, tudo acompanhado com trovas e refrões seguidos de danças figurativas: a colheita do côco, da jaca, das flores, a pega e o ensinamento dos papagaios, o pisar e o peneirar o milho, a venda das hortaliças.(BARROSO,1988,p.78)
Câmara Cascudo afirma na sua obra, “Dicionário do Folclore Brasileiro”, que as embaixadas praticadas no Brasil eram, sobretudo, manifestações populares que apresentavam um bailado e um “cerimonial ginástico”, onde o embaixador, um dos personagens principais, desempenhava seu papel, dizendo a todos os presentes qual era a sua missão no evento, e logo em seguida, tratava-se uma luta violenta entre o “enviado com os infiéis do monarca deprecado”. Os cucumbis, congadas e congos, por sua vez, eram autos populares negros formados por um enredo que envolvia, principalmente, música, dança e episódios que contavam a história das relações políticas e culturais estabelecidas entre os portugueses e africanos num dado momento histórico. Cascudo defende que as congadas e os congos são oriundos da coroação do Rei de Congo, préstitos, embaixadas e reminiscências de bailados africanos. (CASCUDO, 1962, p.79)
“Dos autos populares brasileiros, de inspiração negra, o Congos ou congada é o que alcança maior área de expansão. Para ele convergem dezenas de motivos, cenas, sketchs sucessivos encadeando enredo dramático, intercortado de bailados, cantos uníssonos e mesmo elementos históricos, fundidos na reminiscência confusa e saudosa dos escravos e de seus descendentes. Pelo Brasil inteiro, norte, centro, sul, as vozes infalíveis, cada ano no ciclo do Natal, ressuscitam o temário africano, coroação do Rei de Congo, Embaixadas, guerras, danças, glórias conquistadoras que o tempo não consegue murchar.”(CASCUDO,1962,p. 16)
Afirma Pereira da Costa não existir no Brasil autos populares típicos de origem exclusivamente negra. Diz o autor:
Aqueles onde interveio em maior dose o elemento africano, obedecem, em última análise, à técnica do desenvolvimento dramático dos antigos autos populares. Quer dizer: o negro adaptou elementos de
69 sobrevivência histórica, e até enredos completos, ao teatro popular que ele já encontrou no Brasil, trazido pelos portugueses. Os Congos constituem o caso típico de auto negro de sobrevivência histórica, onde, de início, não se imiscuíram elementos totêmicos. Refiro-me ao drama primitivo, hoje muito alterado, e que outra coisa não queria representar do que as antigas lutas das monarquias e reinos africanos entre si e contra o colono invasor. Este mesmo auto primitivo assimilou posteriormente elementos totêmicos e, de um drama essencial, de urdidura narrativa, passou, em sucessivos esfacelamentos, à categoria de passeatas totêmicas-carnavalescas, onde o sentido primitivo foi esquecido.” (COSTA, 1907, pp.35,36)
Para Câmara Cascudo, as “danças guerreiras” tinham sua origem em comemorações de episódios bem sucedidos nas relações políticas e culturais entre portugueses e africanos, onde o papel da dança era “homenagem votiva, bailando-se aos deuses e aos soberanos”. E sobre a presença da Rainha Nzinga nas manifestações realizadas pelo Brasil, ressalta que da Bahia ao Amazonas a soberana não se fazia presente, mas apenas seu embaixador, sendo que nos préstitos de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul ela está presente ao lado do rei do Congo. (CASCUDO, 1962, P 79)
Já para Mello Moraes, as manifestações conhecidas como cucumbis e congos eram danças compostas por um enredo que envolvia uma rainha, e a morte de um filho do rei, que era ressuscitado através de um ritual mágico invocado por um feiticeiro. Vários personagens, devidamente caracterizados, participavam da apresentação dançando ao som de instrumentos musicais de origem africana, recitando textos e cantando numa mistura de palavras portuguesa e africanas.
“Não há quem tenha perlustrado as províncias do Norte, que não se recorde de um grupo de negros, vestidos de penas, tangendo instrumentos rudes, dançando e cantando, que, nos dias de festas populares, percorre as ruas das grandes cidades e pequenos povoados, associando-se destarte aos nossos folguedos nacionais”. (MORAES FILHO,1946,p.30)
70 Segundo Mello Morais Filho, a denominação de cucumbis surgiu na Bahia em meados do século XIX, o povo baiano presenciando uma manifestação composta de “negros de várias tribos, de face lanhada e nariz deformado por uma crista de tubérculos, que descia do alto da fronte ao sulco mediano do lábio superior, o povo da Bahia denominou de Cucumbis.” Se apresentavam, principalmente, por ocasião do entrudo e das festas natalinas, não tinham um lugar certo para se reunirem, se reuniam em vários lugares, casas, tablados, praças, ruas, onde dançavam, cantavam (MORAES FILHO,1946,p.45)
Afirma o autor que na Capital do Império, Rio de Janeiro, até 1830, os cucumbis participavam apenas nos préstitos fúnebres dos filhos dos reis africanos falecidos no Brasil, e precedendo a rede funerária coberta com um pano preto, acercada e seguida de centenas de escravos, “os Cucumbis marchavam chocalhando e cantando, com seus mametos (crianças), de cocares de plumas, pulando e levantando os braços, ao compasso acertado” Os cânticos presentes nessa manifestação mesclava palavras em línguas africanas e portuguesa.( MORAES FILHO, 1946,p. 48)
O enredo da manifestação, ressaltada por Morais Filho, consistia num préstito formado por príncipes, princesas e feiticeiros, intérpretes de dialetos estrangeiros e inúmero povo, levando entre alas os mametos circuncisados com lasca de taquara. O enredo inicia-se com o filho do rei sendo flechado por uma tribo inimiga e caindo logo em seguida morto. O cortejo aproxima-se do príncipe morto, e um feiticeiro tenta ressuscitá-lo, recebendo a promessa do soberano de uma grande recompensa em tesouros de miçangas e a mais bela das mulheres se conseguir salvar a vida de seu filho, caso contrário mandará degolá-lo. O feiticeiro salva a vida do príncipe, depois os cucumbis cantam “o Bendito e diversas quadras populares”(MORAES FILHO,PP 49,50)
Os personagens da manifestação aparecem, na descrição de Mello Morais, adornados com um rico vestuário que consiste em:
“círculos de vistosas e compridas penas aos joelhos, à cintura, aos braços e aos punhos, rico cocar de testeira vermelha, botinas de cordovão enfeitadas de fitas e galões, calça e camisa de meia cor de carne, e ao pescoço das mulheres e homens, miçangas, corais e colares de dentes, dando uma ou mais voltas. O Feiticeiro, o Rei e a Rainha ostentam vestimenta mais luxuosa e característica, porém no mesmo
71 sentido. Acompanham os cucumbis vários instrumentos musicais dentre eles, os canzás, os chequerês, os chocalhos, os tamborins, os adufos, os agogôs, as marimbas e os pianos-de-cuia.” (MORAES FILHO,1946,p. 60)
Em meados do século XIX, os cucumbis passam a se apresentar, principalmente, durante o carnaval, constituindo-se em sociedades carnavalescas. As sociedades se apresentam “nas três tardes e executam em domicílios os seus baletos de um colorido estranho, mas resplandecente e agradável” (MORAES FILHO,1946,p. 65)
Nesses cucumbis carnavalescos, afirma Moraes, “o baleto divide-se em três partes: a saudação, a matança e as recompensas”. O enredo começa com a aparição dos Cucumbis, armados alguns de arco e flecha, que ao transpor uma porta que se abre para recebê-los, se depara com alguns dançarinos que bailam aos sons de instrumentos musicais, e executam marchas guerreiras e hinos triunfais. Logo em seguida, aparece o “Rei com o seu manto de belbutina e sua coroa dourada”, adiantando-se, “a um momento dado, por entre as alas do cortejo, quebrando alternadamente os flancos, ondulando o tronco, com os antebraços em doce flexão”. Então, vem o Rei e canta: