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O art. 25 do decreto n. 24.559/1934 flexibiliza a regra do art. 5o, II do CC de

1916, ao estabelecer que, dependendo do resultado de perícia médica, o portador de transtorno mental pode ser considerado absoluta ou relativamente incapaz para usar seu livre-arbítrio a fim de praticar por si só os atos da vida civil tais como comprar, vender, casar-se, abrir conta em banco etc. Pelo CC de 1916, conforme já visto, os “loucos de todo gênero” são absolutamente incapazes. A incapacidade relativa atinge, de acordo com o referido Código, apenas os pródigos.

O decreto, seguindo o disposto no CC de 1916, estabelece que os familiares, responsáveis legais ou mesmo o médico diretor do estabelecimento onde estiver

internado o sofredor mental, na falta daqueles, devem zelar pela proteção da sua pessoa e do seu patrimônio (art. 25 e 33).

O decreto n. 24.559/1934 mais uma vez diverge do Código Civil de 1916 quando estabelece uma figura intermediária à do curador: o administrador

provisório, que exercerá suas atividades na hipótese de o paciente possuidor de

“[...] bens, rendas ou pensões de qualquer natureza [...]” permanecer em tratamento por mais de 90 (noventa) dias. Caso a interdição não se mostre necessária, de plano, o administrador exercerá sua função por até dois anos. Findo esse prazo e ainda persistindo os sintomas do transtorno mental, o juiz competente decretará a interdição do paciente, a requerimento de um dos seus genitores, do seu tutor, cônjuge ou parente próximo. Se, dentro de quinze dias, nenhuma dessas pessoas requerer a interdição do doente mental internado, o Ministério Público deverá fazê-lo. Todas essas medidas judiciais, à exceção da interdição - que envolve interesses de terceiros e, por isso têm o direito de ter acesso à essa informação - correm em segredo de justiça (art. 27, §§ 1o, 2o, 3o e 4o).

Mantém o entendimento do CC de 1916 no tocante à possibilidade de o juiz autorizar o pagamento de uma remuneração ao administrador provisório ou do curador do portador de transtornos mentais compatível com o ônus da atividade e com a situação econômica do doente mental. Podem ser administradores provisórios ou curadores dos portadores de transtornos mentais seu cônjuge, seus genitores, descendentes, conforme estabelece o art. 454 do CC. Contudo, independentemente de quem seja nomeado para desempenhar uma ou outra função, deve prestar contas da sua atuação, a cada três meses e não anualmente, como dispõe o CC de 1916, sob pena de ser destituído da função. Essa regra não se aplica aos cônjuges, se casados em regime de comunhão de bens ou se os bens do paciente estiverem descritos em instrumento público, independentemente do regime do casamento (art. 28, §§ 1o ao 3o do decreto n. 24.559/1934 c/c art. 455 do CC de 1916).

O âmbito de atuação do administrador provisório ou do curador será maior ou menor se o juiz, com base no laudo pericial, decretar, respectivamente, a incapacidade absoluta ou relativa do portador de transtornos mentais. Da decisão do magistrado cabe recurso - agravo de instrumento -, conforme dispõe o art. 28, § 4o do decreto n. 24.559/1934.

O portador de transtornos mentais pode, por si ou por intermédio de uma das pessoas mencionadas no art. 454 do CC de 1916, requer novo exame de sanidade

mental, quer esteja recebendo tratamento domiciliar, quer em estabelecimento psiquiátrico público ou privado. O novo exame não poderá ser realizado por profissional que exerça sua atividade no estabelecimento em que o solicitante esteja internado (art. 30).

O art. 29 prevê o amparo social aos portadores de transtornos mentais egressos de estabelecimentos psiquiátricos e dispensários psiquiátricos da assistência a psicopatas e profilaxia mental.

3.3.6.1 O papel e a atuação da Comissão Inspetora

A Comissão Inspetora a que se refere o decreto n. 24.559/1934 tem a função precípua de fazer cumprir o ali disposto. Para tal, possui duas composições diversas.

No Distrito Federal, um juiz de direito é o presidente da Comissão, que também é composta de um dos curadores de órfãos e de um psiquiatra do quadro da Diretoria Geral de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, todos escolhidos pelo Governo, servindo em comissão e secretariados por um funcionário do Ministério da Educação e Saúde Pública, indicado pelo Ministro.

Nos estados-membros da federação, o Procurador da República, o juiz federal e um psiquiatra ou médico que trabalha nessa área, nomeado pelo Governo do Estado, integram a referida comissão inspetora. (art. 32, §§ 1o e 2o ).

É visível, aqui, a centralização do poder nas mãos da União, a verticalização do poder, mesmo na esfera estadual, pois dois membros da comissão integram os quadros do funcionalismo público federal e apenas um é indicado pelo governo estadual que, por sua vez, é, também, indicado pelo governo.

Independentemente da esfera de atuação dessa comissão, quer em nível distrital, quer no âmbito estadual, a comissão Inspetora tem a prerrogativa de aplicar sanções, se ficar comprovada a infração a um dispositivo legal do decreto n. 24.559/1934.

As sanções previstas são multa e cassação da autorização de funcionamento do estabelecimento psiquiátrico, na hipótese de descumprimento do disposto no decreto n. 24.559/1934 e de reincidência, por parte de estabelecimentos

psiquiátricos particulares, sem prejuízo da aplicação de outras sanções previstas

no Código Penal (art. 32, §§ 3o e 4o).

O referido Decreto só é revogado em 2001, quando entra em vigor a lei n. 10.216, de 06 de abril de 2001, vigendo, portanto, por quase 67 anos.

Consoante se afirmou anteriormente, o fato de viger por quase 67 anos faz com que o decreto n. 24.559/1934 acompanhe muitas transformações havidas no âmbito social, político, econômico, ideológico, científico e jurídico do país.

Assim é que esse decreto vigeu nos anos 40, quando se promulga um novo Código Penal Brasileiro (CP).

O mencionado Código Penal é, então, abordado, na próxima seção, naquilo que concerne aos portadores de transtornos mentais: a responsabilidade penal e o cumprimento de medida de segurança.

Benzer Belgeler