O corpus da pesquisa foi construído a partir da revista semanal, ou hebdomadário1, chamada O Cruzeiro onde focamos nosso olhar para uma coluna desta revista que nos oferecia um “discurso da aparência” que segundo Ana Claudia M. A. de Oliveira (2007, p. 01) define-se como “tipos de corpos vestidos e simulacros da aparência”. Ainda conforme essa autora (2007, p. 03) “tornaram-se um dos modos mais complexos de construção da visibilidade do sujeito”, e que nos permite levantar o discurso da moda, na coluna Figurinos. Em sua composição enunciativa, esta coluna trazia informações sobre a moda da época, uma moda dos anos cinqüenta, que significava um estilo diferenciado dentro de uma visão diacrônica de se pensar e vestir. Mas de qual moda estamos nos referindo? De uma moda pós-guerra, num contexto político e econômico delicados para a indústria do vestuário. Apesar desta situação desfavorável, os costureiros e industriais uniram suas forças para construir um novo cenário para o mundo da moda. De acordo com as autoras Valerie Mendes e Amy de la Haye, na história da moda do século XX, destacam-se os seguintes fatos deste período da década de 1950:
1 Vulgo semanário.
indústria têxtil, mas também os fabricantes de muitos acessórios que o acompanhavam. Em reconhecimento do feito, Dior recebeu o prestigioso Prêmio de Moda Neiman Marcus, em Dallas, em 1947.
A produção de moda de fins da década de 1940 foi marcada pela criatividade frenética, mas duas silhuetas foram dominantes até a chegada da linha H e do saco, em meados de 1950. a primeira compreendia um corpete ajustado, que acentuava e definia claramente os seios, uma linha de ombro natural, uma cintura apertada (muitas vezes com cinto) e uma saia, imensamente cheia, com comprimento variando entre a metade da barriga da perna e o tornozelo (sustentada por anáguas em camadas). A segunda diferia apenas no fato de que a saia era justíssima, com um longa abertura ou prega traseira para permitir o movimento. Durante dez anos, Dior fez soar as novidades, exibindo sua clientela de elite duzentos modelos em cada temporada. Embora, privadamente, fosse um homem tímido, reconheceu e explorou o valor promocional da cobertura de imprensa, assim como as recompensas financeiras da exportação e dos contratos de licenciamento. Dar nomes a coleções e a modelos individuais não era um conceito novo mas os títulos de Dior eram esperados tão ansiosamente quanto as silhuetas que descreviam, proporcionando manchetes e material para copiadores. A litania das linhas de Dior incluiu a Zig-Zag (1948), a Vertical (1950), a Tulipa (1953) e as famosas linhas H, A e Y, de 1954-1955. A última coleção antes de sua morte prematura, em outubro de 1957, foi a linha Fuso. Os trajes sob medida de Dior eram intrincadamente produzidos por uma força de trabalho habilidosa. Uma sucessão de formas atraente foi obtida por meio de uma construção complexa e, às vezes, muito elaborada. As camadas exteriores dependiam de estruturas que elaborassem a forma. Vestidos de noite ornamentados, sem alças, dependiam de subestruturas regidamente armadas, com camadas de anágoas de tule. A segurança de um patrocinador rico, juntamente com o rápido sucesso do Novo Visual, deu a Dior a vantagem de pioneiro e seu nome é o mais associado popularmente à moda da década de 1950 (2003, p. 129).
O material disponibilizado para nossa análise semiótica advém das páginas desta revista, abrangendo a década de 1950, quando esta se “afirma socialmente enquanto sujeito semiótico”2, expressão esta formulada por Eric Landowski (1992, p. 118) quando se refere em seus estudos sobre jornal, sendo este um veículo de comunicação semanal. Observando também a revista em questão, como veículo de comunicação semanal, podemos considerá-la como sujeito, a partir do pensamento de Landowski, ser
2 Eric Landowski define o sujeito semiótico como “[...] uma forma, ou produto de uma organização
formal (discursiva), um efeito de sentido que tomaremos, à vontade, como o pressuposto ou a resultante do discurso realizado” (1992, p. 168).
118), uma “entidade figurativamente reconhecível”. A revista torna-se um sujeito semiótico a partir do que significa e como esta se faz significar, por meio das relações e efeitos de sentidos que são engendrados no todo que esta comporta, veicula.
Por estar inserida numa revista semanal, a coluna Figurinos desenvolve na sua totalidade, como cita Landowski (1992, p. 120), um “discurso num assumir do “cotidiano””, pois nela colocam-se em relação os sujeitos, os valores, os objetos e as práticas de um universo do cotidiano. As propostas ou sugestões para um fazer fazer e um fazer ser estão concretizadas nas relações e interrelações que visualmente estão instaladas na dimensão enunciativa dos “usos da moda” que, segundo Ana Claudia M. A. de Oliveira (2007, p. 01) esses usos definem-se como:
[...] propagados de modo a coagir a destinatária a se arrumar segundo padrões que transformam essas figuras vestidas em veículos prescritivos investidos da promessa de conferir àquela que os adota a sua aceitação social, uma vez que, vestida como ditam que se deve estar, a pessoa mesma proclama o seu pertencimento ao meio. Assim é que o sujeito, se tem um amplo leque de criação da sua aparência, igualmente, ele se encontra cerceado pelos modelos que lhe possibilitam um número reduzido de modos de mostrar-se.
Desde seu início, a mídia vai se organizar de forma a dar legitimidade às fórmulas verbo-visuais que põe em circulação. Como a moda ela faz fazer como todo mundo. Moda é imposição de comportamentos e usos por mecanismo coercitivos, que funcionam dissimulados nos mecanismos de desejo de pertencimento, de inclusão no grupo, que movem a volição do destinatário numa orientação definida.
Sendo assim, o que a moda faz fazer são modos de vestir-se, de mostrar-se de um sujeito ao outro. É nesta relação intersubjetiva (o sujeito que se mostra e o sujeito que vê) que coexistem os objetos do cotidiano feminino sendo o primeiro deles o
Ou seja, o corpo e a moda conjuntamente são produtores de efeitos de sentido sobre os sujeitos à medida que estes se vestem e se mostram. Manifestam-se nesta relação, corpo e moda, dois sistemas de linguagem que se sobrepõem um ao outro.
Assim também se produzem os efeitos de sentidos que se concretizam no arranjo sincrético de imagens na apresentação da coluna Figurinos de Alceu Penna, quando ocorre a lógica de relações produzidas sincreticamente no plano da expressão e no plano do conteúdo, com suas especificidades, entre o texto visual (corpo, roupa, cor e forma) manifestando um sistema gestual-corporal em relação com a roupa (vestidos, saias, casacos, tecidos, luvas, chapéus, calçados, bijuterias, bolsas, adornos de cabelo, etc), o texto verbal (tipografia: cor, tipo/fonte e tamanho da letra) manifestando um sistema verbo-visual (legendas e assinatura) e a dimensão topológica (suporte/ revista e diagramação da página) distribuindo espacialmente as figuras e os temas tanto do plano da expressão como do plano do conteúdo que se homologam entre si no todo da enunciação.
São estas variáveis que constituem o nosso corpus imagético o qual abrange um pouco mais de duzentas imagens coletadas, que nos servirão de referência para melhor compreender o sentido que nesta totalidade está construído, e, ainda como Ana Claudia M. A. de Oliveira (2007, p. 06) nos propõe “como o corpo vestido participa da construção do sujeito”.
3 Ver CASTILHO, Kathia. In: Do corpo à moda: exercícios de uma prática estética. CASTILHO, Kathia e
Paulo – CEDIC/PUCSP e no Arquivo Edgard Leuenroth: Centro de Pesquisa e Documentação Social da Universidade Estadual de Campinas – AEL/UNICAMP.
E para melhor apreender o discurso em estudo, especificamente o discurso da moda, vamos orientar-nos e embasar-nos nos pressupostos teóricos e metodológicos da semiótica francesa desenvolvida por Algirdas Julien Greimas. Esta auxilia-nos empreender a nossa análise partindo da identificação da produção do sentido neste discurso da moda, apresentado através do recorte deste corpus imagético. É neste recorte que nos debruçaremos para descrever as articulações e regimes estabelecidos entre os sistemas de manifestação visual e verbal, abrangendo o corpo e a roupa e a espacialidade em que estes se manifestam.