6.4.1 Considerações iniciais e Evolução.
O Japão é um dos países pioneiros no uso da internet, sendo, em razão disso, um dos países no qual o uso da internet é algo extremamente popular, sendo acessível a grande parte da população. Segundo pesquisas69 realizadas em 2012, o Japão, que possui uma população total de aproximadamente 127.400.000 (cento e vinte e sete milhões e quatrocentos mil) pessoas, possui aproximadamente 101.230.000 (cento e um milhões, duzentos e trinta mil) internautas, o que significa um percentual de quase 80% dos japoneses acessando a rede, o que comprova o alto nível de popularidade da rede no país.
Assim expõe Flávia de Vasconcellos Lanari70:
O fenômeno do comércio eletrônico não se limita ao Ocidente. Na região do pacífico asiático, por exemplo, uma média de 40% dos internautas faz compras pela Internet. O Japão é o grande destaque, pelo alto índice de penetração das novas tecnologias alcançado até o momento e, junto com a Austrália, tem alavancado o processo de conexão das redes locais, e dessas com as redes norte-americanas e européias, possibilitando um maior desenvolvimento do comércio eletrônico.
Dessa forma, uma das consequências do alto nível de difusão da internet na sociedade japonesa é o natural crescimento do comércio eletrônico, que, em 2011,
69
TOP 20 COUNTRIES with the highest number of internet users. Internet World Stats. Bogota, 2012. Disponível em: <http://www.internetworldstats.com/top20.htm> Acesso em: 05 de dezembro de 2012.
70
LANARI, Flávia de Vasconcellos. A tributação do comércio eletrônico. p. 89. Belo Horizonte: Del Rey, 2005.
movimentou 46 bilhões de dólares e há previsões71 para atingir o patamar de 62 bilhões em 2015.
Deve-se ressaltar que, apesar de já possuir um mercado consumidor virtual grande, o Japão possui grande interesse em incentivar o comércio eletrônico e torná-lo cada vez mais seguro.
O Governo Japonês, desde o final dos anos 90 realizou grandes investimentos na difusão do comércio eletrônico e das redes de telecomunicações japonesas. Ademais, muitas empresas e instituições privadas tiveram a iniciativa de se organizarem para colaborar com o desenvolvimento do e-commerce. Dentre essas iniciativas podemos citar:
a) o “Electronic Commerce Promotion Council of Japan” (ECOM), que desenvolveu estudos e pesquisas tecnológicas sobre a segurança da rede e a certificação digital, o que resultou em publicações de orientações sobre certificação digital (“Certification Authority Guidelines” e “Electronic Commerce Privacy Guidelines”) e sobre pagamentos eletrônicos (“ECOM CASH”);
b) a “Cyber Business Association”, que desenvolveu diretrizes para a preservação de dados pessoas nas transações realizadas em ambiente virtual (“Guidelines on Protecting Personal Information in Cyber Business”). Apesar dos investimentos na expansão do e-commerce, o imposto mais comum que incide sobre o consumo no Japão é o CT (Japanese Consumption Tax) pago na aquisição de algum produto ou serviço, mas ainda não é aplicado nas transações dos bens intangíveis. Ademais, os tributos existentes na sociedade japonesa ainda não estão adequadamente adaptados ao novo contexto do comércio eletrônico, ou seja, por vezes os fatos deixam de ser tributados por não preencherem nem mesmo a hipótese de incidência das normas tributárias japonesas.
Senão vejamos um exemplo apontado por Doernberg72:
71
E-COMMERCE JAPONÊS deverá movimentar U$ 62 bilhões em 2015. E-commerce News. São Paulo, 16 julho 2012. Disponível em: <http://e-commercenews.com.br/noticias/pesquisas-noticias/e-
commerce-japones-devera-movimentar-us-62-bilhoes-em-2015>. Acesso em 19 de novembro de 2012. 72
DOERNBERG, Richard. Electronic Commerce and Multijurisdictional Taxation. Massachusets: Kluwer Law International, 2001
Tradução Livre: No Japão, há o questionamento se uma quantia paga por um consumidor pelo uso de um programa ou música baixados da internet constitui uma royalty. As leis japonesas tributam o lucro proveniente de royalties internos, que é definido como royalty proveniente de uma “pessoa que pratica negócios no Japão” e que pertence a essa atividade. Quando um cliente japonês utiliza um programa baixado pela internet para uso pessoal, pode não estar “praticando negócio”.
In Japan, there is an issue concerning whether an amout paid by a customer for the use of downloaded software or music constitutes a royalty. Japanese law taxes domestic source royalty income which is defined as a royalty from “a person performing business in Japan”and which pertains to that business. When a Japanese customer uses downloaded software for personal use, the customer may not be “performing business”.
O Japão é um dos membros mais ativos da OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e da WTO (Organização Mundial do Comércio) nas discussões acerca da tributação do e-commerce. Tal interesse japonês deve-se a dois fatores.
Primeiramente, como já foi mencionado, o nível de penetração da internet na população japonesa é altíssimo, o que resulta em um mercado consumidor virtual que movimenta bilhões de dólares por ano, o que representa uma enorme perda de arrecadação tributária para a Administração, uma vez que as transações online ainda não são tributadas.
O segundo motivo é que a população japonesa vem passando por um processo de envelhecimento, ou seja, a tendência da arrecadação proveniente do imposto de renda é diminuir em razão da diminuição da população laboral ativa, o que por si só já representa um grande déficit arrecadatório. Aliado a isso, há o natural desenvolvimento das tecnologias e do e-commerce, o que vai reduzir ainda mais a base de incidência do imposto sobre consumo, impactando ainda mais a arrecadação fiscal.
Além disso, ainda se pode citar como agravante o fato de que o Japão é um país que possui alíquotas tributárias relativamente altas em relação a outros países, o que, em um contexto de intensa globalização e de volatilidade das bases tributárias, pode prejudicar o país na medida em que as empresas e as fontes de arrecadação tributária poderão transferir-se para outras jurisdições que possuam alíquotas mais adequadas aos interesses particulares.
É a pertinente exposição de Beyer73:
73
BEYER, Vicki. Japan’s Consumption Tax: Settled in to Stay. p.54. Robina: Revenue Law Journal, Vol. 10, Iss. 1, Article 7, 2000. Disponível em: http://epublications.bond.edu.au/rlj/vol10/iss1/7
Tradução nossa: Na verdade, em vez de considerar a sua rejeição, o governo está. atualmente, considerando expandir a base tributária para incluir transações realizadas através da Internet. O Japão não é o único nisto; [...]. No caso do Japão, tem-se argumentado que a incapacidade de encontrar uma maneira de fiscalizar as transações de comércio eletrônico vai prejudicar a credibilidade do sistema fiscal de forma generalizada. Também é razoável esperar que a taxa de prejuízo vai se elevar ainda mais com o passar do tempo. A população do Japão está envelhecendo rapidamente, garantindo que a arrecadação fiscal proveniente do Imposto de Renda será menor no futuro. Além disso, o Japão foi forçado por pressões internacionais a reduzir as suas alíquotas de impostos empresarias e imposto renda para trazê-los a patamares compatíveis com as outras nações industriais.
Indeed, rather than considering its repeal, the government is currenty considering how to expand the tax base to include transactions conducted over the Internet. Japan is not alone in this; […]. In Japan’s case, it has been argued that failure to find a way to tax e-commerce transactions will damage the credibility of the tax system overall.
It is also reasonable to expect that the rate will rise further as time passes. Japan’s population is ageing rapidly, assuring that less revenue will be available from income taxes in the future. Futhermore, Japan has been forced by international pressure to drop its corporate and income tax rates to bring them in line with those other industrial nations.
No mesmo sentido, complementa Luc Soete74:
Contemporary governments have increasing difficulties in collecting taxes and maintaining an adequate tax base. As the world becomes increasingly more integrated, and as capital and high- skilled labour can move more easily and freely from high-tax countries to low-tax ones, a nation’s tax regime has to adapt to some world standard because people and businesses can and will exploit differences in tax regimes. A nation can attract capital and high- skilled labour through tax exemptions. This can lead to in- and outflows of (human) capital. Countries with high tax rates such as Germany, Italy and Japan can suffer from such an outflow. For as capital and high-skilled labour flow out of these countries, the tax burden will be increasingly on lower skilled labour and (unmovable) physical property, which may eventually lead to an eroding tax base.
Ademais, o Ministério das Relações Exteriores do Japão, em uma declaração conjunta75 com o governo norte americano, emitiu uma declaração conjunta reafirmando que o comércio eletrônico deve ser uma área de livre comércio internacional, mas que isso não quer dizer que deva ser uma área completamente livre de tributação. Senão vejamos um trecho da referida declaração conjunta:
There are currently no customs duties on electronic transmissions. The United States and Japan will work toward a global understanding that this duty free environment should remain, for free trade in electronic commerce will promote the growth of electronic commerce and economic growth worldwide.
The United States and Japan welcome the announcement of the Quad
74
Soete, Luc; Bas ter Weel. Globalization, Tax Erosion and the Internet. Maastricht: Merit, 1998. Tradução Livre: Governos contemporâneos têm cada vez mais dificuldades em arrecadar impostos e manuter uma base tributária adequada. Enquanto o mundo se torna cada vez mais integrado e, como o capital e a mão-de-obra altamente qualificada pode se mover mais facilmente e livremente de países com alta carga tributária para países com menor carga tributária, o regime fiscal dos países tem de se adaptar a um padrão mundial, porque as pessoas e as empresas podem e vão explorar as diferenças de regimes fiscais. Uma nação pode atrair capitais e mão-de-obra altamente qualificade através de isenções fiscais. Isso pode levar a um grande fluxo de capital humano. Os países com pesadas cargas tributárias, como a Alemanha, Itália e Japão podem sofrer de um êxodo migratório. Porque, enquanto o capital e a mão-de-obra altamente qualificada tendem a sair desses países, a carga tributária será cada vez mais maior sobre a mão-de-obra com menor qualificação e sobre as propriedades imóveis, o que pode eventualmente levar a uma erosão da base tributária.
75
U.S.-Japan Joint Statement on Electronic Commerce. Ministry of Foreign Affairs of Japan. Disponível em: http://www.mofa.go.jp/policy/economy/e_commerce/statemt9805.html. Acesso em: 09 de janeiro de 2013.
Ministers to work toward a comprehensive work program in the WTO on the trade-related aspects of electronic commerce, and both nations will actively participate in this process. In the meantime, both nations will adopt a standstill, as outlined in the Quad statement, that preserves the current practice of not imposing customs duties on electronic transmissions.
We will actively participate within the Organisation for Economic Co- operation and Development to work toward developing framework conditions for the taxation of electronic commerce. Close cooperation and mutual assistance are necessary to ensure effective tax administration and to prevent tax evasion and avoidance on the Internet.76
Dessa forma, conclui-se que a tributação de downloads no Japão ainda não é uma realidade, entretanto, deve ser uma opção a ser considerada em um futuro próximo em razão das peculiaridades da sociedade japonesa e da necessidade de arrecadação para manutenção da máquina estatal.