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A primeira parte do artigo 621 do Código de Processo arrola como hipótese de cabimento a existência de um édito condenatório que, a despeito de emanado do Poder Judiciário, revela-se contrário ao texto expresso de lei penal.

José Luiz Vicente de Azevedo Franceschini, analisando a expressão “sentença condenatória contrária ao texto expresso da lei penal”, faz uma dissecação útil ao estudo do tema, ao lembrar:

Que na linguagem do direito é correntio o termo, desde a antiguidade, sendo usual nas Institutas de Gaio e em fragmentos de Papiniano, Pampônio, Marciano e Ulpiano, sempre com sentido de id quod adversus, diversus, oppositus. Decisão contrária, assim, é a que se mostra em oposição; que é ábsona, adversa, antagônica, colidente, desconforme, incompatível, inconciliável com aquilo que a lei, na hipótese, estabelece como pedra de toque para a rescindibilidade da coisa julgada penal, ou seja, Texto Expresso da Lei.106.

A lei penal aludida no dispositivo há de ser entendida de maneira abrangente, de modo a englobar as normas substantivas, nestas compreendidas as normas incriminadores (parte especial) e as normas integrantes (parte geral), como igualmente as normas adjetivas.

Contradizer o “texto expresso da lei” não significa essencialmente interpretar a norma de um jeito distinto, ainda que todo o desforço hermenêutico resulte num entendimento minoritário. A contrariedade incide sobre a negação da norma em si, e precipita-se sobre o error in iudicando do magistrado que leve a uma interpretação

106

FRANCESCHINI, José Luiz Vicente de Azevedo, apud MOSSIN, Heráclito Antônio. Curso de Processo Penal, v 3. São Paulo: Atlas, 1998.p 474.

patentemente desarrazoada, a ponto de enfrentar o conteúdo ou mandamento da lei.

Como decorrência expressa do art. 155 do Código de Processo Penal107, aliado ao art. 93, IX, da Carta Magna108, vige no processo penal brasileiro o Princípio do Livre Convencimento Motivado ou da Persuasão Racional, asseverando que o magistrado tem o poder de decidir e convencer-se livremente, do modo que melhor lhe aprouver, quando da análise da hipótese factual.

Não obstante, tal liberdade somente será legitimamente exercida se o magistrado oferecer a devida fundamentação, pois, em não o fazendo, a sentença padecerá de nulidade insanável. A motivação das decisões tem caráter de verdadeira garantia fundamental, servindo como “alicerce necessário para a segurança jurídica do caso submetido ao judiciário” 109.

Bento de Faria, em insigne lição, explica a incidência dessa hipótese legal:

Tal ocorre quando o decreto houver enfrentado o preceito legal, isto é, quando contestar a realidade do preceito formal da lei, ou não aplicar qualquer dos seus mandamentos nos termos por ela estabelecidos. É evidente que neste caso a decisão não deve subsistir porque viola abertamente a lei e também a ordem pública e com ela não só o direito do condenado como o de todos, dês de que à

sociedade interessa sejam suas leis observadas e cumpridas com fidelidade. 110

De acordo com a maior parte da doutrina, os dissídios jurisprudenciais ou doutrinários não configuram fundamentos aptos a embasar a ação revisional. Sustenta-se que tais matérias podem ser analisadas em sede de recurso especial, vez que mais específico para tal finalidade.

107

Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas.

108Art. 93. Lei complementar, de iniciativa do Supremo Tribunal Federal, disporá sobre o Estatuto da

Magistratura, observados os seguintes princípios: (...) IX - todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação;

109 TÁVORA, Nestor; ALENCAR, Rosmar Rodrigues. Curso de Direito Processual Penal,. 4. ed. Bahia: Jus

Podivm, 2010. p. 57.

Neste sentido é a lição de Sérgio de Oliveira Médici:

A contrariedade à jurisprudência, entretanto, não autoriza o pedido da revisão, tendo em vista a existência de meio de impugnação específico para tal fim. Ademais, não prevê a lei processual a possibilidade de revisão, com fundamento em dissídio jurispridencial111.

A fim de engrandecer esta obra, traz-se o entendimento contrário, adotado por Odone Sanguiné112, no sentido de que é admissível ação revisional pelo condenado pedindo a aplicação da jurisprudência mais benigna, desde que consolidada ou mesmo sumulada. Nesta situação concorreriam os mesmos fundamentos que servem para admitir a retroatividade da lei mais favorável, isto é, quer o princípio humanitário, quer exigências derivadas do princípio constitucional da igualdade, no fundo, razões político-criminais ou de justiça material. Se inadmitida a revisão criminal ao impetrante da ação revisional, se lhe conferiria tratamento desigual, mais gravoso do que o aplicado aos novos acusados submetidos à jurisprudência mais favorável.

O Superior Tribunal de Justiça, não obstante, já proferiu decisão tendente eliminar tal divergência. Observe-se o julgado:

PROCESSUAL PENAL. REVISÃO CRIMINAL (CPP, ART. 621).

CONCEITO. ALEGAÇÃO DE SENTENÇA CONTRARIA AO TEXTO LEGAL. CRIME COMUM PRATICADO POR POLICIAL MILITAR COM

USO DE ARMA DO QUARTEL. COMPETÊNCIA. QUESTÃO

CONTROVERTIDA. DESCABIMENTO DA REVISÃO.

A revisão criminal, instrumento processual instituído exclusivamente em beneficio do réu, que supera a autoridade da coisa julgada, é cabível tão somente nas hipóteses previstas no art. 621, do CPP, não se prestando para uniformizar

a jurisprudência sobre questão controvertida nos tribunais.

Sentença contrária ao texto expresso da lei penal é sentença que enfrenta o preceito legal, contestando ou negando a sua realidade jurídica, o que não se confunde com a adoção de certa linha exegética sobre tema cuja

compreensão é controvertida nos pretórios. (grifou-se) 113

Elucidativa é a doutrina de Heráclito Antônio Mossin155, que exemplifica os

111 MÉDICI, Sérgio de Oliveira. Revisão Criminal. 2. ed. São Paulo: Revista Dos Tribunais, 2000. p. 162

112 SANGUINÉ, Odone, Irretroatividade e retroatividade das variações da jurisprudência penal, Fascículos de

Ciência Penal, ano 5, v. 5, n.º 1, 1992, pp. 3-16.

casos em que seria plenamente cabível o ajuizamento de revisão criminal para tutelar a dignidade e a liberdade do réu:

Logo, evidenciado estará o error in iudicando se a conduta do acusado for atípica, não encontrar moldura na norma penal. É o que aconteceria se o juiz condenasse alguém por autolesão, tentativa de suicídio, pederastia, por haver furtado coisa própria ou por ter negado alimento à amante.

Além disso, a revisio teria arrimo quando acontecesse erro de qualificação jurídico-penal: é condenado por furto, quando o crime que praticou é de apropriação indébita de coisa achada (art. 169, inciso II, CP).

Também, erro judiciário dar-se-ia, se o magistrado aplicasse ao condenado pena diversa do crime por ele praticado: é condenado por sedução e o juiz lhe impõe a pena prevista para estupro.

Ainda, suporte haveria para a revisão, se o magistrado, ao dosar a reprimenda, não levasse em consideração a regra de sua fixação consubstanciada nos arts. 59 e

68 do Código Penal. 114

A contrariedade do provimento judicial ao que prevê a norma pode se manifestar de diversas formas, e atinge certamente não apenas o interesse individual. Longe de ser uma questão pontual, o desrespeito à norma resvala no interesse coletivo, haja vista que “a injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos”. A máxima do Barão de Montesquieu115 certamente continua plena de coerência, e sua essência embasou o legislador pátrio neste dispositivo.

Benzer Belgeler