Abordaremos o descritivo nesta seção com enfoque em dois estudiosos: Marquesi (2004) que define o descritivo como tipo textual; depois os estudos de Adam (2011) que tratam o descritivo como sequência textual e, por fim, novamente Marquesi (2012; 2014), que aponta para uma proximidade sobre a abordagem de Adam referente a tematização com a designação e, das macrooperações das sequências textuais descritivas (aspectualização, relação e subtematização) com a definição e individuação (também categorias do descritivo nos estudos da autora).
Para Marquesi (2004), o descritivo é considerado como um tipo de texto, ultrapassando a relação entre descritor e descritário e, também, a de somente ser auxiliar da narração. Essa postura sinaliza a diferença entre o termo descritivo, que designa o tipo de texto, e o termo descrição, no que se refere às suas diferentes manifestações. Poderíamos dizer que o descritivo, como processo, ou a descrição, como produto, ambos têm papel importante na análise do texto escrito.
A autora propõe três categorias pelas quais o texto descritivo - um tipo textual - pode ser definido: designação, que se dá pela nomeação do objeto; definição, que consiste na enunciação dos atributos essenciais do objeto, e individuação, que compreende a especificação, a particularização do ser descrito, determinada no tempo e no espaço.
As três categorias – designação, definição e individuação – salientam o processo de hierarquização existente na estrutura composicional do descritivo,
tratados por Marquesi (2004) como condensação e expansão e, no topo da estrutura hierárquica, explicitam a tematização do ser descrito.
Defendendo que o descritivo é um enunciado que expande uma designação cuja estruturação é caracterizada pela fórmula x é y, em que x está para designação e y para expansão, Marquesi (2004) postula que:
- a categoria de designação compreende nomear, indicar, dar a conhecer, para se determinar e qualificar certas marcas do objeto designado;
- a categoria de definição compreende enunciar os atributos essenciais e específicos do que é descrito;
- a categoria da individuação compreende distinguir, particularizar, indicando o que faz com que um ser possua não apenas um tipo específico, mas uma existência singular, determinada no tempo e no espaço.
Marquesi (2004, p.114) propõe o seguinte quadro: Fio condutor do texto
“x” “y”
(Condensação) (Expansão)
A coerência do texto é garantida pelo "fio condutor" possibilitando ao autor fazer as suas escolhas numa progressão textual.
A categoria da designação, para a autora, implica dar nome a, nomear; portanto, condensa num recorte lexical um conjunto sêmico.
A categoria da definição refere-se a um conjunto de predicações que expandem um saber partilhado. Sobre o conceito de definição, Marquesi (2004, p.105) afirma:
Designação Definição Individuação
(Bloco 1) (Bloco 2) (Bloco 3) (Bloco 4) • a • b • c • n • a • b • c • n • a • b • c • n • a • b • c • n • a • b • c • n
[...] a categoria da definição compreende determinar a extensão ou limites de, bem como enunciar os atributos essenciais específicos (de uma coisa), de modo que a torne inconfundível com outra [...]. A definição é, pois, entendida como um conjunto de predicações sequenciadas a uma designação, e o que possibilita sequenciar essas predicações é um saber partilhado.
A categoria da individuação refere-se à especificação do que se descreve. A partir do objeto descrito, compreende-se o conceito do descritor. Marquesi (2004, p.108) assim o apresenta:
[...] a categoria da individuação compreende especificar, distinguir, ou seja, especializar, particularizar, tornar individual. (Ferreira, 1975). Para precisar o termo individuação, Greimas & Courtés (1979), recorrem à tradição filosófica e assim escrevem: na tradição filosófica, individuação é a realização da ideia geral de um certo indivíduo. Segundo Leibniz, o princípio da individuação, é o que faz com que um ser possua não apenas um tipo específico, mas uma existência singular, determinada no tempo e no espaço.
Há, na categoria da individuação, um conjunto de predicações permanentes e/ou transitórias, devido a uma relação entre o que é “o ser descrito” e a sua situação no tempo e no espaço em que é descrito.
As categorias da definição e da individuação, de acordo com a autora, são ordenadas por regras:
- a regra da equivalência, que organiza as relações categoriais e predicativas nos diferentes níveis a partir de uma linha horizontal;
- a regra da hierarquização, que organiza as mesmas a partir de uma linha vertical.
Marquesi (2004, pp. 92- 3) postula a existência de uma “competência” descritiva específica a qual define como:
[...] a aptidão do homem para produzir e compreender um número infinito de textos descritivos, graças a categorias e regras subjacentes a essa modalidade, englobando, entre outras, habilidades de análise e síntese. Todo falante de uma língua tem a capacidade de distinguir uma descrição coerente de um aglomerado incoerente de palavras e/ou orações, sendo, por isso, capaz de parafrasear um texto, de resumi-lo, de atribuir-lhe um título, ou ainda, além de saber ser o texto será completo ou interrompido.
A competência descritiva define-se, então, por um conjunto de habilidades: uma habilidade de síntese, quando se designa o todo, ou quando se atribui título a um texto; uma habilidade de análise, quando se
designa o todo tematizado por partes, ou quando se expande por blocos um texto.
Conforme a explicação da autora, a competência descritiva engloba um conjunto de habilidades e pode ser organizada "pela representação do ser sem acontecimento" (2004, p.93). É atemporal; por isso, distinta da narrativa, que envolve representação e acontecimento, e é marcado pela noção de temporalidade (relação início e fim).
Marquesi (2004, p.120) ressalta que as predicações “traduzem o referente descrito, num jogo em que características permanentes e transitórias se imbricam ao longo do texto, garantindo a manutenção temática, na progressão semântica do texto [...]”.
Um enunciado descritivo é aquele que expande uma designação, ou seja, fornece informações acerca de do “ser descrito”, definindo-o e individuando-o. Sobre esse modo de analisarmos as sequências descritivas, Marquesi (2004) propõe que "se se tratar de uma qualidade propriedade do tema-título, é uma macroproposição; se, entretanto, se tratar de uma qualidade propriedade de uma parte tematizada, é uma microproposição".
Por fim, a autora reconhece que há uma superestrutura do descritivo, colocando-o na tipologia de texto, hipótese que fez a autora descrevê-lo nas três categorias apresentadas: da designação, da definição e da individuação. Também constata-se que o texto descritivo se expande por blocos, com descrições de partes relacionadas que possui um fio condutor.
Veremos agora a abordagem de Adam (2011, p.217) sobre a descrição, inerente ao exercício da fala, e que é, "de início, identificável no nível dos enunciados mínimos". E prossegue: "[...] um procedimento descritivo é inseparável da expressão de um ponto de vista, de uma visada do discurso".
O autor propõe, para quaisquer descrições, independentemente de sua extensão, a aplicação de um repertório de operações de base para a geração de proposições descritivas que, ordenadas por um plano de texto, se agrupam em períodos de extensão variável.
Adam (2011), ao enfocar o nível da composição textual, apresenta quatro macrooperações que agrupam nove operações descritivas que geram uma dezena de tipos de operações descritivas de base para a organização das
sequências descritivas, a saber: operações de Tematização, operações de Aspectualização, operações de Relação e operações de expansão por Subtematização.
As operações de Tematização são consideradas principais por, de imediato, construírem as partes do todo e indicarem o tema-título. Subdividem-se em: pré-tematização ou ancoragem (denominação imediata já indicando o todo), pós-tematização ou ancoragem diferida (denominação adiada do objeto) e retematização ou reformulação (nova denominação do objeto).
As operações de Aspectualização referem-se à seleção das partes e também às propriedades do todo e /ou das partes do mesmo objeto descrito. Essa categorização pode se expressar por partição (seleção de partes) ou por qualificação (atribuição de propriedades).
As operações de Relação ocorrem por contiguidade (pd R-Tmp - quando o objeto é colocado em relação a determinado tempo ou a outros objetos - pd R-
Loc) e por analogia (pd R-Analog - quando a descrição se dá pelo todo ou pelas
partes do objeto colocando-o em comparação com outros objetos do discurso). As operações de expansão por Subtematização fazem um acréscimo de uma operação à outra anterior.
Para Adam (2011), a sequência descritiva apresenta três fases – que não se organizam em uma ordem linear obrigatória, como a narrativa, mas que se combinam e se encaixam em uma ordem hierárquica ou vertical:
a) Ancoragem: em que o tema da descrição é mais frequente por uma forma nominal ou tema-título;
b) Aspectualização: os diversos aspectos do tema-título são enumerados; c) Relação: os elementos descritos são assimilados a outros, por meio de
operações de caráter metafórico.
Na medida em que um segmento descritivo não comporta nenhuma linearidade intrínseca, a passagem do repertório de operações à textualização implica a adoção de um plano. Os planos de texto e suas marcas específicas têm uma importância decisiva para a legibilidade e a interpretação de qualquer descrição (Adam, 2011, p.224).
No nível da composição textual, sejam quais forem os objetos do discurso e a extensão da descrição, a aplicação de um repertório de
operações de base gera proposições descritivas que se agrupam em períodos de extensão variável, ordenadas por um plano de texto. Quatro macrooperações agrupam nove operações descritivas que geram uma dezena de tipos de operações descritivas de base (Adam, 2011, p.217- 8).
Podemos verificar que, por exemplo, o tema-título, dado ao princípio ou ao final de uma sequência, garante a unidade semântica de referência da mesma, mas pode também ser submetido a uma ou várias reformulações que se realizam através de marcadores específicos.
Os planos de texto e suas marcas específicas “têm uma importância decisiva para a legibilidade e a interpretação de qualquer descrição”, segundo Adam (2011, p.224), pois não encontramos uma linearidade intrínseca num segmento descritivo.
As proposições descritivas formam ciclos, mais periódicos do que sequenciais, tratando-se “menos de uma organização estrutural do que um repertório de operações: qualificações de um todo, seleção de partes desse todo, qualificações de partes, renomeação do todo, etc.” (Adam, 2011, p. 205-6).
Importante observar que, na descrição, depois de se estabelecer o tema- título, deverá haver uma aspectualização ou estabelecimento de relação para caracterizar o objeto em seu aspecto físico, dividindo-se em dois subprocessos: o relato de qualidades do objeto e o relato de partes do objeto. Cada uma das partes relatadas pode ser especificada reaplicando-se os mesmos processos de tematização.
A expansão descritiva, “potencialmente infinita, é, de fato, regrada por um pequeno número de operações identificáveis e repetíveis, seja qual for o objeto da descrição ou o gênero de discurso", de acordo com Adam (2011, p.224).
Se tratarmos a sequência descritiva numa ótica discursiva, poderemos dizer que ela está relacionada a um olhar específico do destinatário. Tudo emerge num contexto que identifica procedimentos que são espaciais, temporais e hierárquicos na busca por um sentido do que se quer ou pretende dizer.
Adam aceita ainda o princípio de que a sentença já traz marcas dos tipos de texto, embora vá postular que essas marcas se subordinam ao tipo que será produzido. Uma sentença que, fora de um contexto textual, apresenta traços narrativos, pode assumir um caráter argumentativo, ao ser estruturada como parte de uma sequência argumentativa. Assim
como os tipos servem caracteristicamente a vários gêneros textuais, também as sentenças servem aos vários tipos (Bonini, 2005, p.211). Marquesi (2012, p.13) comenta que "para Adam a expansão descritiva é potencialmente infinita", e, para o autor, não existe enunciado isolado, pois um enunciado elementar liga-se a um ou a vários outros.
Outro dado em seus estudos sobre as sequências descritivas, é que qualquer conteúdo descritivo revela a atitude subjetiva de seu enunciador.
Nos estudos posteriores, Marquesi (2012; 2014) confirma que, dependendo do gênero em que o descritivo esteja presente, pode haver uma expansão maior ou menor em cada uma das categorias.
Também a autora expande a utilização das categorias na análise das sequências textuais descritivas em diferentes textos e, assim, aproxima o que Adam chama de operação por tematização, de seus estudos sobre a designação do descritivo; as macrooperações das sequências textuais descritivas nos estudos de Adam (aspectualização, relação e subtematização) de seus estudos sobre definição e individuação (também como categorias do Descritivo).
Nos estudos de 2012, a autora discute a organização de sequências textuais descritivas no gênero texto de opinião, enfocando plano de texto e materialidade linguística. De acordo com Marquesi (2012, p. 16):
As sequências descritivas têm importante papel na organização textual, seja qual for o gênero em que figurem. Ao designar, tematizar ou nomear um objeto, o escritor já indicia a orientação argumentativa do texto, o que determinará suas escolhas lexicais ou construções sintáticas para qualificar, localizar, situar esse objeto, em função dos objetivos de seu texto. Neste sentido, aspectos gramaticais, tais como substantivos, adjetivos, advérbios, tempos verbais, relacionados às sequências textuais descritivas são essenciais na abordagem da escrita de um texto. A capacidade de relacionar as questões de sequência e aspectos gramaticais permitirá que o escritor, por meio do descritivo, utilizando-se de substantivos, adjetivos, advérbios e construções sintáticas, construa a sua opinião sobre o tema a ser discutido.
Com esta explanação, encontramos alguns resultados de análises que apresentam, segundo Marquesi:
• Definição e Individuação por aspectualização (qualificação, atribuição de propriedade, fragmentação), e por relação (temporal, espacial, comparação ou metáfora).
Agrega-se ao que foi exposto, a importância das escolhas linguísticas feitas pelo escritor para nomear, situar e qualificar. Segundo Marquesi (2014), tudo isso reafirma a construção do objeto descrito pelo olhar do descritor, atendendo a objetivos do texto a ser analisado.
Marquesi (2014), ao analisar relatórios técnicos, ressalta que este modo próprio de organização do descritivo reitera o conceito de que plano textual e materialidade linguística relacionam-se intrinsecamente. Dessa forma, fica evidenciada a função do descritivo no relatório, que, ao caracterizar o objeto descrito em toda sua extensão, orienta a análise do problema e os procedimentos para sua solução.
A autora postula que a construção do objeto descrito pelo olhar do descritor, atendendo a objetivos do texto, à sua finalidade, à sua orientação argumentativa, provém, na medida das escolhas linguísticas feitas pelo escritor, por meio dos substantivos, adjetivos, advérbios, para nomear, situar e qualificar.
Considerando os princípios teóricos que orientarão a nossa análise, utilizaremos as categorias do Descritivo nos estudos de Marquesi (2012; 2014) numa proximidade com a abordagem de Adam (2011).
CAPÍTULO 3