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Além da falta da oferta de cursos de aperfeiçoamento, a professora colaboradora também problematiza o material didático:

Excerto n° 4

P: É (...) então, o livro didático é essa apostila que é utilizada... É (...) a gente tem um livro que (...) ele serve de apoio.

E: Ah, um outro livro.

P: É. Mas, a gente quase não usa por causa do tempo. E: Sim.

P: Porque essa apostila tem que ser dada, né? É em cima dela que a gente trabalha. E, o livro é o apoio. Só que, são duas aulas por semana.

E: Entendi.

P: Então (...) mais prova, mais os trabalhos. E: É muito pouco tempo para poder...

P: É muito pouco tempo, os textos são longos.

(Trecho da Entrevista semiestruturada, 27/03/14)

Este depoimento é uma indicação de uma prática mais tradicionalista. Isso contradiz as orientações da nova proposta. Se há a oferta de um livro de apoio por parte da secretaria do estado, esse deve, de alguma forma, ser utilizado em sala de aula. Segundo a professora Ana, É muito pouco tempo para poderse trabalhar com o livro de apoio. Essa prática controladora é característica de um ensino que não preza a formação pluridimensional e multifacetada incentivada pela nova proposta. Dessa forma, os aprendizes não têm oportunidade de trabalhar com uma diversidade de textos que

proporciona uma formação adequada para lidar com os diversos segmentos do mundo contemporâneo. Em relatos informais, Ana afirma que utiliza o livro de apoio somente em situações de avaliações, nas quais os alunos não têm oportunidade de se expressarem de uma forma coletiva e participativa.

Ainda no quesito material didático, a professora Ana demonstra seu descontentamento com o caderno do aluno ao relatar que os textos são muito longos e pouco atrativos, conforme nota-se no Excerto n° 5:

P: Não são muito atrativos. Para eles não são muito atrativos. Eles não gostam. Se fossem, talvez, textos menores, né, mais curtinhos porque a atenção deles é bem curta. O que você pega de atenção dos alunos durante cinquenta minutos, você fala assim cinquenta minutos, né, dez minutos é o que você tem de atenção deles.

(Trecho da Entrevista semiestruturada, 27/03/14)

Por diversas vezes, a professora Ana problematiza o caderno do aluno reiterando que, além de muito longos, os textos constantes do caderno não apresentam um layout muito atrativo para os alunos. Como forma de amenizar isso, ela procura diversificar as atividades moldando o material didático conforme suas necessidades. A esse respeito Gimeno Sacristán (2000) observa que, embora o currículo seja apresentado aos professores, não há garantia de que ele seja seguido à risca. A docente busca amenizar os problemas do material didático ao moldá-lo de acordo com sua realidade de ensino. Ela afirma que o texto longo e entediante do caderno do aluno foi realizado em forma de trabalho. De acordo com a professora Ana, os alunos não reclamaram nada, foi numa boa.

No que se refere à abordagem ou método utilizado pela escola onde a docente trabalha, ela afirma que segue o currículo, como pode ser visualizado, abaixo:

Excerto n° 6

E: Ah, tá. Bem, é (...) qual é a abordagem ou o método que é utilizado na escola em que a senhora está estudando, em que a senhora está ensinando, desculpa? Existe um método, ou uma abordagem específica que é direcionada para as aulas de língua inglesa?

E: Sim, e tem alguma especificidade a respeito disso no currículo? Assim (...) abordagem comunicativa, abordagem estrutural, abor (...) entendeu?

P: É (...) eles seguem, assim, umas situações de aprendizagem, né? Dentro dessas situações de aprendizagem (...) então, ali a gente tem a parte de leitura, o texto, né, então vem aquela (...) toda aquela interpretação de texto. E depois nós temos um homework, né, que chama ali, que são os exercícios. Aí entra a gramática.

(Trecho da Entrevista semiestruturada, 27/03/14) Ao ser questionada pelo pesquisador a respeito da abordagem ou método utilizado pela escola, a professora Ana demonstra não compreender muito bem a pergunta. Portanto, o pesquisador utiliza de recursos terminológicos para tentar esclarecer o objetivo da indagação ao especificar as abordagens, Assim (...) abordagem comunicativa, abordagem estrutural, abor (...).

Mesmo assim, a professora ainda não parece ter tanta familiaridade com os termos técnicos utilizados na descrição das abordagens. Porém, de acordo com sua explicação, nota-se que as atividades em sala de aula são trabalhadas a partir de situações de aprendizagem, características da abordagem comunicativa.

Segundo Canale (1983), as situações de aprendizagem são preceitos da abordagem comunicativa. Elas compreendem situações reais de aprendizagem em que o aluno tem a oportunidade de vivenciar ocasiões rotineiramente comuns que ocorrem dentro e fora da sala de aula.

Porém, uma abordagem mais tradicionalista também está presente em sua prática. O saber e o fazer, princípios básicos das orientações de ênfase estruturalista e comunicativa respectivamente, parecem andar juntos no exercício de sua docência. Momentos isolados de aprendizagem de gramática são evidenciados em sua fala ao dizer que Aí entra a gramática.

Novamente, a prática da professora Ana não está em sintonia com a nova proposta curricular de línguas estrangeiras modernas do estado de São Paulo (SÃO PAULO, 2008). A proposta transcende o saber e o fazer descritos anteriormente, incentivando a promoção do conhecimento de si e do outro na tentativa de formar cidadãos prontos para lidar com o mundo contemporâneo.

Nesse sentido, o caderno do aluno, chamado de “cartilha” pela professora colaboradora, também não parece estar em harmonia com a nova proposta. Isso pode ser esclarecido no trecho, a seguir:

Excerto n° 7

E: A senhora tinha falado para mim, na semana passada, a respeito das apostilas, do livro didático. A senhora gosta do atual livro didático que está sendo utilizado, ou não?

P: Da apostila? E: É.

P: Ah, eu não gosto muito, não. E eu acho que os alunos também não gostam muito.

E: Por quê?

P: Porque os textos são muito longos, né? Às vezes, assim, assuntos que eles não se interessam.

E: Assuntos que não têm nada a ver com o cotidiano deles?

P: É (...) eles não (...) e mesmo que não seja do cotidiano... porque às vezes você pega um texto, né, mesmo nesse livro aqui, que eles se interessam mais. Então, não sei se é porque o livro também atrai por causa das figuras...

E: Entendi. Não tem muitas figuras no outro? P: É não tem. Você chegou a ver?

E: É eu dei uma folheada, sim.

P: Esse aqui ainda tem um pouquinho, que e da...

E: Então os textos acabam não tendo muito a ver com a realidade dos...

(Trecho da Entrevista semiestruturada, 27/03/14) Observa-se, no Excerto n° 7, assim como retrata Motta (2008) em seus estudos a respeito do uso do material didático em aulas de língua inglesa, que o caderno do aluno parece não atender às necessidades e aos interesses dos maiores envolvidos em seu uso, os discentes e os docentes. Ao afirmar Ah, eu não gosto muito, não. E eu acho que os alunos também não gostam muito, fica evidente o descontentamento da professora Ana e de seus alunos com o novo material didático elaborado para dar conta dos objetivos da nova proposta.

De acordo com a docente, os textos abordados no caderno do aluno além de muito longos, apresentam assuntos pelos quais os alunos não se interessam. Ainda em relação ao material adotado pelas escolas do estado de São Paulo, a professora colaboradora problematiza de forma direta dizendo que Então os textos acabam não tendo muito a ver com a realidade dos alunos. Além disso, ela também informa que os textos, embora apresentem formatos diferentes no decorrer do caderno do aluno, todos tratam da mesma temática o ano todo.

Segundo relatos da professora Ana, essa queixa é recorrente por parte dos professores e dos alunos do ensino médio do estado de São Paulo. Portanto, é necessário

que haja momentos de troca de experiências entre esse público. A motivação está diretamente ligada ao processo de leitura. Segundo Damásio (1986), um leitor motivado e engajado é primordial para que a leitura possa ser bem sucedida.

Numa tentativa de amenizar essa problemática, a professora Ana busca proporcionar momentos de trabalhos em duplas, os quais, segundo ela, amenizam o descontentamento e a desconcentração dos discentes, já que eles se ajudam com as dificuldades encontradas, especialmente em relação aos vocábulos desconhecidos. A adaptação às adversidades e a pluralidade das atividades trabalhadas em sala de aula contribuem para o aprendizado do aluno (GIMENO SACRISTÁN, 2000).

Benzer Belgeler