A falta de propostas não parece ser o impedimento para criação de soluções aos problemas do Judiciário brasileiro. Pelo contrário, centenas de análises já foram feitas (apesar da discussão ter concentrado em grupos pouco diversos), muito tem sido escrito e falado há um longo tempo, mas os problemas só têm se agravado com o passar do tempo. Por que não
somos capazes de resolver a crise que já perdura por tantas décadas58?
Algumas evidências somadas às abundantes análises mostram que pode ser o caso de inexistirem reais intenções de mudança, a despeito da aparente preocupação de muitos com relação ao tema. O desinteresse estaria concentrado naqueles atores que mais teriam poderes políticos de mudar a situação, na lei ou no dia-a-dia. Posner mostra isso de forma clara:
It should be obvious that effective legal reform depends ultimately on a political will to reform, which in turn is likely to depend on a political will to implement economic reform. If the dominant political groups in society want economic prosperity and are willing to risk the loss of political control over the economy that modern economic conditions dictate, they will also want legal reform. If they do not want economic reform, the will to adopt legal reform is likely to be absent. (Posner 1998, World Bank Observer, p.8) Já se discutiu no início deste capítulo que as regras vigentes no Judiciário são majoritariamente formuladas fora dele, mais precisamente pelo Poder Legislativo, por exemplo, qualquer reforma no processo judicial deve necessariamente ser feito pelo Legislativo. Como apontam alguns, o Judiciário é “obediente demais” a esta velha separação de poderes, o que demonstra a absoluta falta de interesse em mudar o estado atual das coisas (RODRIGUES, 2005). A manutenção do mecanismo de inúmeras instâncias recursais estaria assim, atendendo aos interesses adquiridos por grupos que defendem a manutenção desta prática (WORLD BANK, 2004). Se atentarmos para o fato de que o Estado é o grande usuário do sistema judicial, e que é prática recorrente dos seus advogados recorrerem à exaustão mesmo quando é certa a sua perda no processo (vide discussão acima), parece claro que o sistema atual atende a seus interesses. O mesmo é verdade para todos aqueles que usam as cortes para meramente protelar o processo. Este fato já é tão claro que até mesmo os meios menos especializados como veículos de imprensa já acusam de forma explícita. Em editorial de Fevereiro de 2008, a Folha de São Paulo criticou o Judiciário por não empregar com mais freqüência as punições legais previstas àqueles que protelam decisões na Justiça. E conclui: “A tarefa não é fácil, pois contraria interesses poderosos. São afinal, o governo (nas esferas federal, estadual e municipal) e um pequeno número de grandes empresas que mais recorrem à demanda artificial e assim atravancam o Judiciário”. Similarmente ao que acontece em
58 A duração desta “crise” faz-nos perguntar se não é o caso da Justiça ter encontrado formas de funcionar coexistindo com os problemas acima discutidos. Será que houve uma “adaptação seletiva” de sua parte, ou apenas uma “anestesia” aos problemas? Se a população a quem a Justiça brasileira serve sentir-se satisfeita com os seus serviços, podemos dizer que está ocorrendo uma evolução nos mecanismos formais e informais que tornaram a Justiça capaz de responder às demandas, mesmo com a existência dos graves problemas. Mas não é o caso. Parece que está havendo apenas uma imobilidade dos operadores da Justiça frente aos problemas que todos sabem existir; imobilidade que se torna cada vez maior quanto mais tempo durar a crise.
outras reformas institucionais, a reforma do Judiciário não é de fácil implementação, pois os benefícios derivados de tal reforma são difusos e de longo prazo (a população que poderia ter mais acesso à Justiça, por exemplo), enquanto que os custos são explícitos, de curto-prazo e concentrados em poucos atores, coincidentemente aqueles que têm mais poder político de barganha no processo em questão (Santiso 2003). Muitos críticos apontam que, justamente para manter os interesses intactos, muito da discussão sobre o Judiciário tem focado em elementos de menor importância para a solução da crise, desviando-se dos reais problemas, aquilo que foi chamado de “cupins” na análise acima. Há ainda aqueles que identificam motivos “suspeitos”, não preocupados de fato com a eficiência, todas as vezes em que mudanças são implementadas, como ocorreu com a Reforma do Judiciário de fins de 2004 (vide discussão acima). Desta forma, todas as mudanças acontecem de forma superficial, de modo a não ameaçar a estrutura de interesses estabelecidos.
Mesmo que atenda a alguns interesses particulares de curto prazo, a manutenção do status quo pode na verdade estar levando todos para um estado pior. As empresas que num momento podem estar se beneficiando da morosidade e da crise do Judiciário, podem em outro momento, ser vítimas do mau-funcionamento das cortes. Afinal, os direitos garantidos num sistema democrático serão efetivamente garantidos somente quando as cortes funcionam bem. E é pouco crível que haja firmas ou indivíduos que não necessitem nunca da Justiça para garantir seus direitos. O Estado também, eventualmente, preferirá ser identificado com um Poder Judiciário que funcione de forma eficiente. À medida que a crise se torna mais aguda e, com isso, a informação passa a ser divulgada de forma mais ostensiva, inclusive fora dos limites territoriais do país, o Estado passará a ser apontado como um dos grandes responsáveis pela não-solução dos problemas daquele que é um dos órgãos mais importantes da manutenção da democracia e, também, da atração de investimentos econômicos. A pressão por reformas significativas começará a aparecer mais cedo ou mais tarde. Na verdade, a manutenção do status quo e dos interesses de curto prazo representaria uma típica solução de Dilema dos Prisioneiros sub-ótimo. É preciso então, encontrar medidas que gerem incentivos para que os atores em questão saiam desta situação e vão para outra que melhore o nível de bem-estar de todos, ou seja, mais eficiente. O Banco Mundial (2004) indica quais são os desafios para se conseguir esta conscientização coletiva:
[U]m primeiro desafio é demonstrar como os sacrifícios de curto prazo podem ser compensados por vantagens de médio prazo ou alternativamente, por que a manutenção do status quo prejudicará posteriormente até mesmo a situação presente. Um segundo desafio é desviar a atenção das mudanças estruturais (o meio) para os resultados (os fins), já que o impacto das primeiras será inevitavelmente limitado na falta de um acordo sobre os objetivos a serem perseguidos (p. 160).
Parece que a indefinição sobre quais são os verdadeiros objetivos das mudanças no sistema é um dos grandes impasses a serem resolvidos. Como já discutido acima, não se tem muito consenso sobre qual o principal problema a ser sanado: a falta de recursos materiais e humanos, a falta de informatização, o processo ruim, o problema dos incentivos, a má gestão, a “cultura”, etc. Aparentemente todas estas reformas são desejáveis, necessárias e possíveis. Mas é ainda muito questionável qual delas merece mais atenção, energia e recursos. O motivo principal de tudo isso, da falta de direção e do “por onde começar” deve-se, sobretudo, à falta de conhecimento seguro (i.e. trabalhos empíricos) sobre as reais causas da crise e os impactos possíveis de medidas a serem adotadas. Ou seja, faltam indicadores claros do “onde estamos” e do “para onde vamos”.
Por fim, há de se mencionar que nem tudo está perdido. Algumas iniciativas locais estão gerando resultados significativos. Alguns tribunais já foram mencionados acima pelas formas eficazes de melhorar a operação do dia-a-dia, como por exemplo, implantando sistemas altamente eficientes de produção e controle de dados estatísticos. Também, como observadores apontam, os operadores têm encontrado formas criativas de contornar os velhos problemas com, por exemplo, a formação de mutirões para aliviar os tribunais. Estas iniciativas mostram que, desfeitas as resistências ideológicas e inerciais, muito pode ser feito sem grandes alterações nas leis e processos. A disseminação de best practices, somada a uma maior quantidade de trabalhos empíricos feitos pelos estudiosos da área, certamente teriam muito a colaborar para o funcionamento do Judiciário.