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Como sabemos, categorias analíticas como território, paisagem e região são importantes ferramentas teóricas na interpretação e análise de fenômenos geográficos. Entretanto, são as noções de espaço e lugar aquelas mais trabalhadas pelos geógrafos humanísticos. Segundo Mello (1990), dentro dessa corrente o uso destes conceitos tem sido bastante cuidadoso e disciplinado evitando sua banalização. O espaço geográfico, ou simplesmente espaço, objeto de estudo da ciência geográfica, pode ser definido como o resultado do trabalho social do homem na transformação da natureza, tendo no lugar, parte ou porção desse espaço geográfico, locus das ações cotidianas. Os objetos ou formas resultantes da intervenção do homem na natureza e dispostos sobre a superfície da Terra, de acordo com o empreendimento de alguns agentes sociais, passam a representar um meio de vida no presente (produção) e condição para o futuro (reprodução social). De acordo com a perspectiva humanística, esses conceitos apresentam uma significativa diferenciação a começar pela noção de espaço, visto como qualquer parte da superfície terrestre. Assim, o espaço seria amplo, desconhecido, temido ou rejeitado (MELLO, 1990). O lugar, ao contrário, seria aconchegante, seguro, conhecido e cheio de significados. Recortado emocionalmente emerge das experiências, ao longo da vida, dos indivíduos e de suas práticas cotidianas como ir ao trabalho, às compras ou à escola, assumindo assim uma conotação de lugar vivido, muito íntimo e particular (TUAN, 1983, 1998). Em outras palavras, os geógrafos humanistas:

se apaixonam pelos lugares, pelo sentido que se empresta ao termo e pelos sentimentos que eles provocam; quietude, paz, tranquilidade em certos casos, medo, temor, terror em outros (TUAN, 1974 apud CLAVAL, 2014, p. 124).

A passagem de espaço para lugar ou vice-versa pode acontecer por motivos de dor, alegria, atração ou vergonha em intervalos temporais muito variados ou também por laços de sociabilidade (TUAN, 1983, 1998). Nas palavras de Mello:

Espaços se tornam lugares em razão do contato com outras pessoas e em trocas afetivas, econômicas etc. Nas áreas urbanas diversas pessoas preferem a proximidade com a vizinhança, habitando em moradias acanhadas, juntos dos centros de bens e serviços. Em oposição, os detratores destes lugares costumam pejorativamente chamar os edifícios geminados de ‘pombais’ (MELLO, 1990, p. 49).

Além disso, a transformação de espaços em lugares pode ocorrer não apenas pela intermediação do mundo vivido, mas também de maneira concebida em que relatos de viagens, imagens, descrições de terceiros, literatura, fotos e, principalmente, a música, são importantes instru- mentos metodológicos na análise das geografias dos lugares. Dessa forma, desejosos de conhecer as múltiplas formas de experiência que os seres humanos estabelecem com o ambiente que os cercam, ou seja, com seus lugares, o uso de expressões artísticas, entre os geógrafos simpatizantes da corrente humanista, ganham importância fundamental, na medida

que “exploram [de maneira direta] essas reações emotivas” (CLAVAL, 2014, p. 125). Nas palavras de Mello:

Os geógrafos podem aprender com os escritores, poetas e compositores. Cabe, então, aos geógrafos analisarem esse material, já pronto, um meio eficaz de investigação, a respeito dos lugares, tradições religiosas, motivações migratórias e contrastes espaciais (MELLO, 1991, p. 57).

Somente a partir da segunda metade do século XX, na Europa e na América do Norte, surgem as primeiras iniciativas formais de incorporação de expressões artísticas em estudos geográficos, sendo os trabalhos que envolvem a relação entre literatura e geografia mais numerosos que àqueles dedicados a relação entre música e geografia (CORRÊA; ROSENDAHL, 2007). São indicadores dessa primazia e, de certo modo, tradição, do uso da literatura entre os geógrafos, as pesquisas regionais apoiadas nessa expressão artística e apresentadas na União Geográfica Internacional em 1972; as discussões sobre a paisagem na literatura, empreendida no Congresso de Geógrafos Americanos em 1974; e a conferência sobre a perspectiva da literatura na geografia ao longo do Encontro de Geógrafos Ingleses em 1979. Entretanto, Carney (2007) analisando o uso da música em estudos geográficos nos últimos 35 anos, nos mostra uma evolução neste campo de pesquisa dentro da disciplina, propondo uma taxonomia geral desses estudos, em que os mesmos tratariam desde temas como a definição de “regiões musicais”, passando pela indústria musical, origem de um gênero e sua dispersão espacial, até “os elementos psicológicos e simbólicos da música relevantes na modelagem do caráter de um lugar, isto é, na imagem, no sentido e na consciência deste” (CARNEY, 2007, p. 131).

Em continuidade a esta tendência, nos últimos anos, dentro da Geografia Humanista, tem sido crescente o número de geógrafos brasileiros que vem incorporando em seus estudos a literatura ou a música. São ilustrativos desse interesse os debates travados em simpósios, como o Simpósio Internacional sobre Espaço e Cultura, coordenados pelos geógrafos Roberto Lobato Corrêa e Zeny Rosendahl, nos anos de 1998, 2000 e 2002, encontros e congressos, como as duas últimas edições do Encontro Nacional de Geógrafos, promovidos pela AGB (Associação dos Geógrafos Brasileiros), nos anos de 2008 e 2010, além de teses e numerosos artigos publicados por diversas instituições no país.

A relativa indiferença dos geógrafos com relação à incorporação da música popular na agenda de pesquisas se justificaria por uma longa tradição da valorização da cultura de elite dentro da disciplina e o fato das questões geográficas terem permanecido visualmente orientadas (KONG, 2009). Entretanto,

essa hegemonia da cultura de elite foi recentemente contestada, uma resposta ao fato de que a própria condição de comum da cultura popular disfarça sua importância como as fontes propulsoras da consciência popular (KONG, 2009, p. 131).

Mesmo assim, essa área de investigação, prossegue a autora, ainda não foi devidamente explorada e os estudos existentes estão distantes das recentes questões teóricas e metodológicas que revigoraram a Geografia Social e Cultural nos últimos anos. Ainda de acordo com Kong, o fato de a música popular ter grande penetração na sociedade, constituir-se em fonte primária para se compreender o caráter e a identidade dos lugares e meio para as pessoas comunicarem suas experi- ências ambientais, tanto cotidianas como as fora do comum,

e a possibilidade de enriquecimento das noções de espaço e lugar, segundo autores como Tuan e Relph, abrem uma série de perspectivas para a investigação geográfica.

Nesse contexto, buscando trilhar o caminho da lógica da descoberta, tentaremos a seguir, nesta comunicação, a partir de algumas canções, compostas em diferentes períodos, mostrar as possibilidades dessa expressão artística no entendimento e interpretação de outras dimensões do mundo vivido, circuns- crevendo nossa análise em uma comunidade carioca, a favela da Mangueira.

Benzer Belgeler