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2. Gelir Tablosu Göstergeleri

Um sistema em que os direitos dos indivíduos fossem ilimitados seria um sistema em que não haveria direitos a serem adquiridos. (COASE, 2010, p. 111).

Ronald Coase, sem dúvida, foi um dos economistas que mais mexeu nas estruturas epistemológicas da economia – permitindo o alargamento da economia neoclássica e a avocação de outras categorias antes ignoradas pelo mainstream – e também do direito em si. Nesse sentido, de suas lições veio o embrião da NEI e da law and economics tradicional, respectivamente. Sua contribuição para este último movimento no direito é assaz forte e implica em um verdadeiro insight de que seria necessário às cortes, hipoteticamente, analisar as consequências de suas decisões92.

Uma das maiores heranças de Coase para a NEI está no conceito de custos de transação e o corolário fruto das situações ideais propostas pela economia neoclássica. Custos de transação seriam os custos de comunicação entre agentes em uma negociação, das trocas ou comércio, de transferir, capturar e proteger direitos de propriedade (property rights)93; seriam os custos da busca para a realização de uma negociação, mais os custos da negociação em si, mais aqueles custos advindos do cumprimento do que fora negociado – enforcement (COOTER; ULEN, 2010, p. 104-105). Como corolário do conceito de custos de transação, autores extraíram uma implicação lógica que aperfeiçoa os padrões neoclássicos de análise;

92 Em verdade, o nível desse poder simbólico é indicado já que as transformações causadas por Coase na ciência

econômica são de tal forma impactantes a ponto de flexibilizar o paradigma neoclássico, permitindo aos economistas ampliar o escopo de seus esforços. Já no direito, as contribuições vieram de maneira mais forte para a versão fundacional da law and economics e as especificidades das questões sobre eficiência. Nesse sentido, conferir Salama (2008, p. 28): “A idéia central desta hipótese ‘fundacional’ é a de que as instituições jurídico-políticas (inclusive as regras jurídicas individualmente tomadas) devam ser avaliadas em função do paradigma de maximização da riqueza. O direito, visto como um sistema de incentivos indutor de condutas, deve promover a maximização da riqueza. Dessa ótica, a pedra de toque para a avaliação das regras jurídicas é a sua capacidade de contribuir (ou não) para a maximização da riqueza na sociedade.” Além disso, algumas passagens, principalmente atreladas à seção 7 do artigo de Coase que mais parece um estudo de casos de decisões judiciais, descrevem, mesmo implícita e parcialmente, a ideia fundacional de Posner: “As cortes nem sempre se referem, de forma clara, ao problema econômico trazido pelos casos com os quais se deparam, mas parece provável que na interpretação de algumas palavras e frases, tais como, 'razoável' ou 'uso comum ou ordinário', reconheça-se – talvez, inconscientemente e, certamente, de forma não muito explícita – o aspecto econômico das questões sob análise.” (COASE, 2010, p. 84). Para casos em que os usos do Teorema de Coase são extremamente importantes para o direito, não só na versão fundacional da law and economics, conferir Cooter e Ulen (2010, p. 99 e seguintes) e Zylbersztajn e Sztajn (2005).

93 Encarados aqui não só como a propriedade do direito franco-românico tradicional, mas alargando como

segundo o Teorema de Coase, os agentes em uma negociação irão tratar dos direitos envolvidos de modo a chegarem em uma alocação eficiente, independentemente da sua distribuição inicial pelo sistema jurídico94. Porém, trata-se de um mundo hipotético, “ideal”, pois hodiernamente os custos de transação são positivos; há dificuldades (custos) para se buscar uma negociação, para se negociar e para fazer cumprir essa transação. De fato, há custos de transação; “[t]anto os mercados quanto as firmas funcionam com custos positivos.” (ZYLBERSZTAJN; SZTAJN, 2005, p. 5). Nesse contexto, os próprios ensinamentos de Coase já apontam para a importância das cortes, os tribunais, i.e., os mecanismos formais de resolução de conflitos – o que depois seria chamado de instituição formal por North – importam (COASE, 2010, p. 81). São organismos como esses e suas qualidades que diminuem os custos de transação. Mas não só das cortes dependem os custos de transação: a Tabela 2 pode melhor ilustrar os alcances do conceito.

Ademais, é relevante mostrar que os avanços advindos da NEI aperfeiçoaram e alargaram o framework coaseano. As instituições de North servem, com efeito, para reduzir os a incerteza e os custos de transação em negociações95. Além disso, no cenário organizacional, pode-se dizer que firmas e outras organizações (no sentido de Williamson) também procuram baixos custos de transação para incentivos a tomarem riscos e propagarem inovações. Não à toa a relação de Faria (2012b, p. 125 e seguintes) entre a “destruição criadora” schumpeteriana e as assertivas da NEI quanto a instituições, organizações e os custos de transação.

Tabela 2 – Fatores que podem afetar e influenciam os custos de transação

Custos de transação mais baixos Custos de transação mais altos

Bem ou serviço padronizado Bem ou serviço único

Direitos claros e simples Direitos incertos e complexos

Poucas partes Muitas partes

Partes amistosas Partes hostis

Partes que se conhecem Partes que não se conhecem

Comportamento sensato Comportamento insensato

Intercâmbio instantâneo Intercâmbio retardado

Baixos custos de monitoramento Altos custos de monitoramento

Penalidades baratas Penalidades dispendiosas

Fonte: Adaptado de COOTER; ULEN, 2010, p. 107.

94 “Contudo, como vimos, a situação é muito diferente quando as transações no mercado são tão custosas a ponto

de tornar difícil mudar a alocação de direitos estabelecida pelo sistema jurídico. Nesses casos, as cortes influenciam de maneira direta a atividade econômica.” (COASE, 2010, p. 81).

95 “In transaction cost terms, institutions reduce transaction and production costs per exchange so that the

potential gains from trade are realizeable.” (NORTH, 1991, p. 98). Em tradução livre, “[e]m termos de custos de transação, as instituições reduzem os custos de transação e de produção por trocas para que os ganhos potenciais do mercado sejam realizáveis.” Ver também outro estudo de North (1992) que relaciona diretamente os custos da transação, as instituições e a performance econômica. No geral, ver obra clássica (NORTH, 1990, p. 27-35).

Outra perspectiva que amplia o leque, principalmente no cenário microeconômico e na interseção entre este e o ambiente macro institucional é a ampliação da ideia da firma. Para a escola neoclássica, a firma é um fator de produção. Essa assertiva já foi tratada anteriormente, o que impõe que aqui seja tratada de maneira mais direcionada ao escopo da seção. O trabalho de Coase de 1937, The nature of the firm muda as lentes com que os economistas descrevem a firma. Ao invés de um fator de produção estático96, um mecanismo de coordenação, de governança97. Importa então registrar que se trata de um “nexo de contratos”. É a “firma contratual”. “Não uma função de produção autista, mas um nexo de contratos inteligentes.” (ZYLBERSZTAJN; SZTAJN, 2005, p. 7). Por isso Williamson suga todo o aparato que o levará a criar a teoria dos custos de transação e a inserir a teoria das organizações na análise da firma.

Assim, falar sobre custos de transação, instituições jurídicas, adjudicação judiciária e suas consequências econômicas foi o grande mérito de Coase. Sua herança, portanto, consiste na prestação de subsídios e insights que permitiram North, Williamson e os demais novo institucionalistas a forjarem as categorias que permitem hoje aos economistas o livre trânsito nas esferas do poder do Estado, moldando as instituições formais e alargando a pesquisa sobre as informais; tangendo as firmas e demais organizações em uma espécie de “engenharia de custos de transação”98, cujo o objetivo tem sido cada vez mais convergente e influente na tomada de decisões em termos de políticas públicas.

Fortalecer o combate a corrupção, enaltecer a eficácia e eficiência de padrões de peritagem em termos nomotéticos, exigir de instituições estatais um panorama de maior segurança nos contratos, estabelecimento de códigos e padrões financeiros internacionais, fortalecimento e sedimentação de mecanismos de compliance, expansão da arbitragem, etc. Essas são só algumas das agendas de grandes legitimadores de políticas pública, os quais atrelam essas medidas à qualidade institucional de países e suas respectivas capacidades de lidarem com o mercado.

Com efeito, cabe portanto uma digressão específica nos termos dos avanços da Teoria das Organizações e o modo como, aos poucos, primordialmente através do trabalho de

96 Williamson (2005, p. 18) afirma: “A Teoria Neoclássica da Firma vista como função de produção é um

construto tecnológico segundo o qual o funcionamento interno da firma (e de outros modos de organização) é negligenciado.”

97 Daí a posterior absorção por organismos multilaterais do mantra governance matters (PRADO, 2013, p. 73 e

seguintes).

98 O termo é usado no estudo de Williamson (2005) e se refere ao trabalho de Ronald Gilson, Value creation by

Williamson, esse tema tão explorado na prática da administração, aos poucos, passou a ser mirado também pela ciência econômica através da NEI. Nesse sentido, convergirá a próxima seção os avanços da teoria das organizações em conjunto com a formulação da teoria dos custos de transação e demonstrará também a preocupação de Williamson com a educação jurídica e sua pretensa formação de “engenheiros de custos de transação” em uma “perspectiva economizadora” (2005, p. 47)99.

Benzer Belgeler