Apesar dos encontros e desencontros, o Ensino Médio teve uma significativa expansão nos últimos anos, resultado de algumas políticas e programas que convergem para o fortalecimento desse nível de ensino, garantindo seu financiamento.
A esse respeito, Mitrulis (2002, p. 220) assevera que,
Embora [...] indicadores revelem uma situação muito aquém das necessidades sociais, econômicas e políticas do país, os índices de melhoria do Ensino Médio registrados na última década são expressivos. Este é o nível de ensino que apresentou a maior taxa de crescimento nos últimos anos em todo o sistema. Algumas das razões são a ampliação da oferta e a melhoria da qualidade do Ensino Fundamental, que resultaram na queda dos índices de abandono e repetência e na elevação das taxas de conclusão do curso. Outro fator é o retorno aos bancos escolares de um contingente da população que havia interrompido a continuidade dos estudos, movido pelas novas exigências do sistema produtivo [...] O Ensino Médio já constitui o patamar mínimo de escolarização exigido para as atividades de „chão de fábrica‟έ
Cabe observarmos, no quadro abaixo, algumas dessas políticas e programas relacionados a essa etapa de ensino, bem como seus objetivos propostos.
Quadro 03 – Políticas e programas direcionados ao Ensino Médio: 2007-2013
Ano Política/Programa Objetivos Centrais
2007 Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – FUNDEB, Lei n.º 11.494/07.
Garantir o financiamento, a manutenção e o desenvolvimento da Educação Básica de acordo com o quantitativo de alunos de cada nível de ensino; bem como promover a valorização dos trabalhadores em educação.
2007 Decreto-Lei n.º 6.302/07 – Programa Brasil Profissionalizado.
Reestruturar o Ensino Médio, de forma a combinar formação geral, científica e cultural com a formação profissional dos educandos; fomentar a expansão da oferta de Ensino Médio integrado à educação profissional; promover a articulação entre a educação formal e a educação no ambiente de trabalho nas atividades de estágio e aprendizagem; e fomentar a oferta ordenada de cursos técnicos de nível médio.
2009 Portaria n.º 971/09 – institui o Programa Ensino Médio Inovador.
Fortalecer o desenvolvimento curricular inovador nas escolas de Ensino Médio, ampliando o tempo na escola, visando à formação integral através de um currículo mais dinâmico, que atenda tanto às expectativas dos estudantes quanto às demandas da sociedade, tendo em vista articular as dimensões do trabalho, da ciência, da cultura e da tecnologia, contemplando as diversas áreas do conhecimento.
(Continuação)
Ano Política/Programa Objetivos Centrais
2009 Portaria n.º 109/2009 – amplia os objetivos do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM, instituído pela Portaria 438/98.
Oferecer uma referência para que cada cidadão possa proceder à sua autoavaliação com vistas às suas escolhas futuras, tanto em relação ao mundo do trabalho quanto em relação à continuidade de estudos; estruturar uma avaliação ao final da Educação Básica que sirva como modalidade alternativa ou complementar aos exames de acesso aos cursos profissionalizantes, pós -médios e à educação superior; possibilitar o acesso a programas governamentais; promover a certificação de jovens e adultos no nível de conclusão do Ensino Médio; e outros.
2013 Portaria Ministerial n.º 1.140/2013 – regulamenta o Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio.
Fortalecer o compromisso pela valorização da formação continuada dos professores e coordenadores pedagógicos com exercício no Ensino Médio na rede pública de ensino, nas áreas rurais e urbanas, através do Ministério da Educação e das secretarias de educação dos estados e do distrito federal.
Fonte: Elaborado pela pesquisadora (2014).
As políticas direcionadas ao Ensino Médio no Brasil são recentes, uma vez que esse nível de ensino só passou a fazer parte da agenda pública federal na segunda metade da década de 1990, com a promulgação da LDB 9.394/96 e da EC n.º 14/96.
A atenção a esse nível de ensino passou a ser mais significativa com a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), em 2007, e com a Emenda Constitucional 59, em 2009, ao determinarem como obrigatória a educação dos quatro aos dezessete anos.
Contudo, é importante observarmos as taxas de rendimento escolar nos anos que antecedem a instituição do FUNDEB e da EC 59/09, bem como as que sucedem, a fim de analisarmos como se comportam esses indicadores, na medida em que o Ensino Médio passa a ter um foco de destaque na história da educação brasileira, como um nível de ensino que requer um olhar diferenciado dado a sua complexidade.
Tabela 01 – Taxas de rendimento no Ensino Médio: 1999-2005
Aprovação Reprovação Abandono
1999 2001 2003 2005 1999 2001 2003 2005 1999 2001 2003 2005 76,4% 77% 75,2% 73,2% 7,2% 8% 10,1% 11,5% 16,4% 15% 14,7% 15,3% Fonte: Dados adaptados do INEP/MEC/Censo Escolar (1999-2005).
Percebemos que, no período de 1999-2005, os indicadores representados pelas taxas de aprovação, reprovação e abandono não são animadores, pois, apesar de termos uma tímida redução na taxa de abandono nessa etapa da Educação Básica, as taxas de aprovação apresentaram queda, enquanto as de reprovação apresentaram aumento. As taxas de abandono se mantiveram mais ou menos estáveis, embora com indicadores altos. Esses indicadores, no seu conjunto, apontam ineficiência nessa etapa de ensino, conforme sinaliza o gráfico abaixo.
Gráfico 01 – Aprovação, reprovação e abandono no período 1999-2005
Fonte: Elaborado pela pesquisadora e seu orientador (2014).
Após 2006, apesar das políticas e programas direcionados ao Ensino Médio, não se tem sua problemática resolvida, pois, embora sua expansão quantitativa (apesar de não ter sido ainda universalizado), ainda são preocupantes os resultados advindos dos indicadores correspondentes às taxas de aprovação, repetência e evasão.
Tabela 02 – Taxas de reprovação e de abandono no Ensino Médio: 2007-2011
Ano Aprovação Reprovação Abandono
2007 74,1% 12,7% 13,2%
2008 74,9% 12,3% 12,8%
2009 75,9% 12,6% 11,5%
2010 77,2% 12,5% 10,3%
2011 77,4% 13,1% 9,5%
Fonte: Dados adaptados do INEP/MEC/Censo Escolar (2007-2011).
Notamos que, no período de 2007-2011, houve uma redução na taxa de abandono nessa etapa da Educação Básica, em relação ao período anterior, mostrado acima, o que significa que os alunos estão se evadindo menos do sistema educacional.
1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1 2 3 4 Aprovação Reprovação Abadono 1999 2001 2003 2005
Porém, esse fato contrasta com a taxa de reprovação, que apresentou uma redução em 2008, mesmo que forma inexpressiva, e atingiu o ápice de seu crescimento em 2011, com o maior percentual registrado desde 1999, ano que se inicia a disponibilidade desses dados no site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).
Desse modo, observamos que, em 2011, enquanto a evasão cai, a reprovação aumenta, visto que, inobstante a redução na taxa de abandono no Ensino Médio para 9,5%, constatamos um acréscimo na taxa de reprovação para 13,1%, ou seja, esse percentual representa os aprendizes que se encontravam na situação de estar repetindo a mesma série cursada no ano de 2010.
Ao analisar os dados de 2011, em comparação aos anos anteriores, é possível percebermos que a taxa de abandono reduziu e a taxa de reprovação aumentou. Com o cotejo dessas informações, induzimos que o sistema educacional brasileiro, apesar de estar conseguindo que os estudantes do Ensino Médio permaneçam mais tempo na escola, isso nem sempre significa progresso escolar por parte do aprendiz, visto que a taxa de reprovação apresentou um acréscimo considerável.
Tabela 03 – Taxas de rendimento do Ensino Médio Brasil, Nordeste, Ceará: 2011-2013 Localidade
Geográfica
2011 2012 2013
Aprovação Reprovação Abandono Aprovação Reprovação Abandono Aprovação Reprovação Abandono Brasil 77,4% 13,1% 9,5% 78,7% 12,2% 9,1% 80,1% 11,8% 8,1% Nordeste 76,3% 10,4% 13,3% 77,7% 9,8% 12,5% 79,3% 11% 9,7% Ceará 81,8% 6,7% 11,5% 83,4% 6,9% 9,7% 84,6% 6,9% 8,5% Fonte: Dados adaptados do INEP/MEC/Censo Escolar (2011-2013).
Ao analisar a série histórica dos indicadores expostos acima, podemos perceber que os dados indicam que o Ceará encontra-se em uma situação mais favorável do que o Brasil e o Nordeste no que se refere aos indicadores das taxas de aprovação e reprovação na série histórica de 2011-2013. No que diz respeito ao indicador abandono, o comportamento do estado do Ceará se apresenta em uma situação melhor do que a região Nordeste, que aparece com as taxas de abandono superiores às do Ceará nos três anos consecutivos, embora o nosso estado encontre-se abaixo dos níveis nacionais, que demonstram uma média de abandono inferior aos percentuais apresentados pelo Ceará.
Entretanto, estamos longe de cumprir a meta três do Plano Nacional de Educação (PNE) 2010-2020, que almeja “universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 (quinze) a 17 (dezessete) anos e elevar, até o final do
período de vigência deste PNE, a taxa líquida de matrículas no Ensino Médio para 85% (oitenta e cinco por cento)” (BRASIL, 2014, p. 14).
De acordo com a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE: uma análise das
condições de vida da população brasileira (IBGE, 2013), observamos que
Outro desafio a ser enfrentado para a universalização da Educação Básica obrigatória é o aumento da frequência escolar no Ensino Médio. Em 10 anos, a proporção de jovens de 15 a 17 anos de idade que frequentavam escola cresceu somente 2,7 pontos percentuais, passando de 81,5%, em 2002, para 84,2%, em 2012 [...] A taxa de jovens de 15 a 17 anos curs ando o nível educacional adequado à sua idade subiu para 54,0% em 2012, elevando a taxa de frequência escolar líquida no Ensino Médio (p. 123).
Esses dados revelam que o acréscimo de jovens entre quinze e dezessete anos que passaram a frequentar a escola ainda não é o ideal. Temos um quantitativo vultoso de jovens fora da escola nessa faixa etária considerada obrigatória, ou seja, 14,8% dos adolescentes nessa faixa etária estão fora do sistema educacional, referente ao ano de 2012.
Outro fator desafiador é a taxa de escolarização líquida, ou seja, o percentual da população em determinada faixa etária matriculada no nível de ensino considerado adequado. No Ensino Médio, essa taxa é representada pela proporção de jovens que o deveriam estar cursando na faixa etária de quinze a dezessete anos, fato que se constitui um desafio, uma vez que quase metade (46%) desses sujeitos ainda não está matriculada no Ensino Médio.
Se considerarmos as desigualdades que agregam esses indicadores escolares, o desafio se torna ainda maior, pois elas interferem diretamente nesses indicadores, visto que, segundo dados da Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE (IBGE, 2013, p. 124), “Os jovens de 15 a 17 anos de idade brancos possuíam uma taxa de frequência escolar líquida 62,9% maior do que a dos jovens pretos ou pardos, com 47,8% [...] As mulheres tinham frequência escolar líquida 59,8% maior do que a dos homens, 48,4%”έ
Esses dados indicam que as desigualdades sociais e econômicas são elementos que influenciam no agravamento do atraso escolar dos jovens em idade para cursar o Ensino Médio, considerando-se que há a necessidade de esses adolescentes ingressarem no mercado de trabalho, surgindo, assim, a dificuldade de conciliarem estudo e trabalho.
Percebe-se [...] que a permanência do estudante do Ensino Médio envolve um conjunto de fatores que podem facilitar ou não esse processo, tais como: idade com que ingressam na escola; inclusão ou não no mercado de trabalho; trajetória escolar anterior; taxas de repetência e evasão; aproveitamento dos estudos; infraestrutura oferecida; qualidade do corpo docente, entre outros. Nesse sentido, qualquer política direcionada a esse nível de ensino e ao seu alunado precisa ser pensada de modo que considere, integradamente, esses múltiplos aspectos.
O debate em torno do Ensino Médio no contexto brasileiro não pode, de fato, desconsiderar esses diversos e complexos aspectos, tampouco polarizá-los nas reformas políticas. Esses fatores precisam ser analisados de forma associada, tendo clareza sobre quais finalidades se intenciona para esse nível de ensino, que não há como conciliar discursos ideológicos contraditórios em confronto com suas práticas efetivas.
4.4 O debate acerca das Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio de