• Sonuç bulunamadı

Inicialmente aplicamos o questionário e, em um momento seguinte, previamente agendado com os professores, realizamos as entrevistas semiestruturadas. Neste último caso, ao fazer os questionamentos, tivemos cuidado especial para não direcionar os sujeitos da pesquisa, evitando incutir-lhes, assim, qualquer tipo de viés com relação às nossas visões prévias. Dessa maneira, toda cautela foi tomada na

condução e análise das entrevistas, para que não houvesse nenhum tipo de viés orientador.

Assim, as entrevistas semiestruturadas foram realizadas de modo individual com cada sujeito, no horário escolhido pelo próprio entrevistado, que geralmente foi no horário destinado ao planejamento dos professores, período considerado mais calmo para a efetivação da entrevista. Preferencialmente optamos por realizá-las em um local mais tranquilo da escola previamente disponibilizado pelos gestores, a fim de se garantir a privacidade e evitar que não houvesse interrupções de terceiros. Esses locais variaram entre os seguintes ambientes: a sala de vídeo, de leitura ou dos professores diretores de turma e, por vezes, uma sala ociosa que houvesse na instituição. Evitamos realizá-las na sala dos professores, por ser um espaço de muita movimentação e conversas paralelas.

Apesar da existência de um roteiro prévio de dez perguntas, este não foi seguido à risca, sendo utilizado de modo flexível, tendo em vista ser uma entrevista semiestruturada, na qual tivemos autonomia tanto para reduzir como para acrescentar perguntas de interesse do objeto de estudo de acordo com o que ia sendo revelado do fenômeno pelo participante.

Todas as entrevistas tiveram o áudio gravado, conforme prévio consentimento dos sujeitos participantes da pesquisa, e posteriormente foram transcritas. No que diz respeito às transcrições, fizemos questão de não terceirizarmos esse trabalho, por considerarmos que, ao realizá-lo, nossa compreensão das falas seria ampliada, facilitando, assim, a interpretação hermenêutica dos discursos.

É importante mencionar que fizemos uma aplicação piloto com quatro professores das diferentes áreas do currículo e, a partir daí, analisamos a necessidade de fazer modificações nas perguntas para evitar viés do pesquisador e verificar se os docentes estavam ministrando o conteúdo ligado ao objeto.

Contudo, tivemos a atenção necessária para não especificar muito os objetivos no momento da entrevista, para evitar orientação excessiva ao sujeito, tendo em vista que não podemos fazer perguntas muito diretas, tampouco interferir na resposta do sujeito, direcionando-a para aquilo que concebemos.

Ressaltamos que todos esses cuidados são referenciais do método e precisam ser cuidadosamente observados, pois, ao se fazer uma entrevista muito dirigida com direcionamentos enviesados, perde-se a essência do método. O método fenomenológico dá uma contravisão sobre o que o pesquisador pensa, e é nesse movimento que o fenômeno vai se revelando e sendo refletido.

Uma entrevista envolve duas pessoas que desejam transmitir vivências, conhecimentos e experiências. Ambas são receptoras e transmissoras de informações e sentimentos. Fala-se e se escuta a fala do outro. Sabemos que o saber escutar é um dos elementos essenciais para que uma entrevista se torne eficaz. Os assuntos não se sucedem de forma linear e horizontal, mas aparecem numa “abordagem transversal” (BARBIER, 2002, p. 01). Segundo esse autor, ela tem suas bases na perspectiva

rogeriana, incorpora elementos da tendência de interpretação oriental

(KRISHNAMURTI, 1994), apoia-se na empatia (BARBIER, 2002) e vê no entrevistado o outrem, numa clara influência de Lévinas (1980).

Deduzimos que esse tipo de escuta (sensível) possibilita uma forma de ouvir que tem base multirreferencial (JACQUES ARDOINO apud BORBA, 2001). Para evitar o emprego de conhecimentos e julgamentos prévios, a escuta sensível exige o emprego de certo estado meditativo e vigilante sobre o que se está ouvindo, já que

A meditação não tem nada a ver com um êxtase exuberante ou transe possessivo. Meditação é simplesmente a plena consciência de se estar com aquilo que é, aqui e agora, no mínimo gesto, na mínima atividade da vida quotidiana. Meditação exige um outro tipo de época (Husserl): uma suspensão não somente de toda teoria, de conceptualização e de toda representação imaginária do mundo (BARBIER, 2002, p. 04, grifo do autor).

Vemos, portanto, que a entrevista, para ser útil e confiável, exige que sejam adotados os cuidados apontados acima. Ademais, a escuta sensível se mostra de acordo com a perspectiva teórica adotada neste trabalho.

Assim, a técnica da entrevista semiestruturada, baseada na escuta sensível, foi a que melhor se adequou aos fins desta pesquisa. A proposta foi buscar, através do diálogo, uma condição de horizontalidade ou igualdade na relação estabelecida entre entrevistador e entrevistado, o que ajudou a obter dados mais detalhados e enriquecedores para a realização da investigação (FREIRE, 1992).

[...] a entrevista face a face é fundamentalmente uma situação de interação humana, em que estão em jogo as percepções do outro e de si, expectativas, sentimentos, preconceitos e interpretações para os protagonistas: entrevistador e entrevistado. Quem entrevista tem informações e procura outras [...] A intencionalidade do pesquisador vai além da mera busca de informações; pretende criar uma situação de confiabilidade para que o entrevistado se abra. Deseja instaurar credibilidade e quer que o interlocutor colabore, trazendo dados relevantes para o seu trabalho (SZYMANSKI, 2010, p. 12).

Desse modo, a entrevista semiestruturada e a escuta sensível foram empregadas como técnicas de coleta de dados para a elaboração da tese. Assumindo tal

opção, buscamos alcançar o que Heidegger (2006, pέ 175) denomina de “[έέέ] ser-com os outros”, pois “É o mundo que proporciona esse encontro”, no qual

[...] a presença se mantém, de modo essencial, empenhada em ocupações guiadas por uma circunvisão. Em oposição aos „esclarecimentos‟ teóricos, que facilmente se impõem sobre o ser simplesmente dado dos outros, deve-se ater ao teor fenomenal demonstrado de seu encontro no mundo circundante [...] em sua ocupação (HEIDEGGER, 2006, p. 175, grifo do autor).

Ora, o entrevistado é “[έέέ] ser simplesmente dado [έέέ]” (HEIDEGGER, 2006), e nos direcionou para o que era essencial. Aqui, Heidegger se aproxima de Husserl, pois, por outras palavras, ele recomenda que se ponha “entre parênteses” tudo o que se conheça sobre o outro e se foque no essencial do fenômeno estudado, o qual se localiza no mundo que lhe é próprio. Delimita-se, assim, o foco de interesse, criando uma relação mais estreita entre pesquisadora e pesquisado.

[...] na entrevista a relação que se cria é de interação, havendo uma atmosfera de influência recíproca entre quem pergunta e quem responde. Especialmente nas entrevistas não totalmente estruturadas, onde não há a imposição de uma ordem rígida de questões, o entrevistado discorre sobre o tema proposto com base nas informações que ele detém e que no fundo são a verdadeira razão da entrevista. Na medida em que houver um clima de estímulo e de aceitação mútua, as informações fluirão de maneira notável e autêntica (LÜKDE; ANDRÉ, 1986, p. 33),

Deduzimos, portanto, a importância do emprego da escuta sensível. A entrevista não pode ser vista como encontro protocolar e burocrático, no qual um pergunta e o outro responde. A ênfase no encontro, nos termos descritos acima, é reafirmada como “[...] encontro mundano mais próximo e elementar da presença é tão amplo que a própria presença nele, de saída, já „encontra‟ a si mesma, desviando o

olhar ou nem mesmo vendo „vivências‟ e „atos‟” (HEIDEGGER, 2006, pέ 175, grifo do

autor).

Aqui, Heidegger se aproxima de Emmanuel Lévinas (1980), na medida em que o elemento essencial para esse último autor é a face que tudo revela. Aliás, é o próprio Heidegger quem reconhece isso no excerto citado, pois a presença já “encontra” a si mesma. As citações deixam bem claro o que se deve fazer para desenvolver um processo de confiança e empatia (Einfühlung) na comunicação para que haja a necessária intersubjetividade. Somente com essas condições, poder-se-á obter dados confiáveis.

Esse fenômeno que “[έέέ] denomina-se „empatia‟ deve, por assim dizer, construir ontologicamente uma ponte entre o próprio sujeito isolado e o outro sujeito, de início inteiramente fechado” (HEIDEGGER, 2006, p. 181).

É relevante destacar que, ao se atingir esse nível de interação pessoal durante as entrevistas – as quais não ocorreram em um primeiro momento de contato com os professores, a fim de se estabelecer uma maior interação e empatia com eles –, não é despropósito afirmarmos que assim podemos atingir níveis confiáveis de probabilidade de que as informações prestadas estejam isentas de subterfúgios e omissões.

O uso desse valioso procedimento de coleta de dados teve o intuito de conhecer as percepções dos sujeitos sobre as concepções de avaliação da aprendizagem e sua realização no contexto escolar, tentando captar sugestões que contribuam para a possibilidade de se efetivar na prática docente a avaliação formativa.

Benzer Belgeler