1. GELEN EVRAK KAYIT, DAĞITIM VE DOLAŞIMI
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Um ato devocional marcante, na vida dos devotos de Santa Raimunda, é a peregrinação à sua sepultura, no dia quinze de agosto de cada ano. Vários grupos se organizam para prestar homenagem e cumprir suas promessas.
Boa parte dos devotos chegam no dia quatorze à colocação Cumaru, distante duas horas do local da sepultura da Santa Raimunda, pois o local é amplo e tem uma casa espaçosa. Os devotos, aos poucos, vão chegando à localidade e ao cair da tarde, as mulheres em grupo seguem até o igarapé, para tomarem banho. Na sequência é a vez dos homens, após, tomarem banho, reúnem-se em pequenos grupos e por afinidade, amizade ou parentesco, socializam os alimentos e todos jantam. Já escuro, com o avançar da noite, todos procuram um local para atarem suas redes. Durante à noite, muitos jogam baralho, dominó outros contam piadas, o certo é que à noite se torna pequena, porque às cinco da manhã, começam a despertar e a providenciar um belíssimo café da manhã, conhecido pelos devotos como “quebra jejum”. É café, farofa de carne, peixe e frango, banana cozida, banana frita. Outros devotos chegam de carro, logo ao amanhecer, na colocação Cumaru.
Por volta das oito horas da manhã, todos partem em direção ao túmulo de Santa Raimunda do Bom Sucesso, são, aproximadamente, duas horas de caminhada no varadouro, conforme já mencionei. O trajeto tem muitos obstáculos, porém ao chegarem ao local, encontram outros devotos que dormiram em casa próxima ao túmulo da Santa e que chegaram, provenientes dos varadouros dos mais distantes recantos da floresta.
Conforme já mencionei, no dia quinze de agosto, comemora-se o dia de Santa Raimunda do Bom Sucesso e no ano de 2010, o Bispo da Diocese de Rio Branco, Dom Joaquín Pertíñez Fernández, celebrou uma missa na capela de Santa
171 Raimunda do Bom Sucesso para dezenas dos seus devotos. A missa celebrada fazia parte das comemorações do dia da Santa. Acredito, que o fato do Bispo da Diocese de Rio Branco deslocar-se de lá e ir até Assis Brasil e caminhar duas horas dentro da floresta para celebrar uma missa, na sepultura de Santa Raimunda do Bom Sucesso,demonstra a relevância e a importância da devoção popular à esta Santa. Centenas de devotos, que habitam dentro e fora do vale do rio Acre, buscam na Santa a solução para todos os seus problemas, sejam de saúde ou realização pessoal.
Na sepultura acendem velas, ajoelham-se, agradecem as graças alcançadas e, na sequência, rezam terço e participam da missa (quando é celebrada). As mulheres puxam os hinos e fazem da reza do terço e da missa momentos únicos. Os tiros dos foguetes são momentos de agradecimentos. Após a celebração fazem comida no entorno da sepultura, sentam com seus pratos, em tronco de árvores, raízes e até mesmo no chão. Ao cair da tarde, fazem o caminho de volta para suas casas. Os mais apresados voltam logo que terminam as celebrações, outros ainda ficam contemplando o túmulo da Santa. Mas por volta das quinze horas, a maioria já voltou com exceção daqueles que moram nas colocações que ficam próximas da localidade.
A sepultura de Santa Raimunda do Bom Sucesso está há uma distância de aproximadamente 385 quilômetros da cidade de Rio Branco. Mas, a distância que separa a cidade de Rio Branco e o município de Assis Brasil, não intimida os devotos. Eles têm conhecimento das muitas dificuldades que enfrentam para chegarem ao local. Para os devotos, a sepultura de Santa Raimunda é um local sagrado. O pesquisador Mircea Eliade define bem o que vem a ser um local sagrado:
Temos, pois, de considerar uma sequência de concepções religiosas e imagens cosmológicas que são solidárias e se articulam num “sistema”, ao qual se pode chamar de sistema do mundo das sociedades tradicionais. Um lugar sagrado constitui uma rotura na homogeneidade do espaço. Essa rotura é simbolizada por uma “abertura”, pela qual se tornou possível a passagem de uma região cósmica a outra (do Céu à Terra e vice-versa; da Terra para o mundo inferior; a comunicação com o Céu é expressa indiferente por certo número de imagens, referentes todas elas ao Axis mundi187.
172 Para os devotos, o túmulo de Santa Raimunda do Bom Sucesso é uma espécie de “centro do mundo”. Os peregrinos, principalmente, os mais idosos, chegam exaustos ao lugar sagrado, pés inchados e doloridos. Sofrimento que faz parte da peregrinação, pois para muitos, isso torna a peregrinação, mais meritória.
Os seringueiros que moram na colocação de seringa, próxima ao local da sepultura, hospedam grande parte dos visitantes, sem cobrar nada pela hospedagem. Parte da alimentação é levada da cidade, pelos devotos e os moradores da colocação, também, socializam sua alimentação com os devotos. Aluízio Costa Mendonça, em seu depoimento, fala da solidariedade dos moradores da colocação de seringa, próxima à sepultura da Santa Raimunda.
Todos os anos venho de Rio Branco para a festa de Santa Raimunda, como é muito longe, venho um dia antes da festa e durmo na casa do meu conhecido de longas datas, o compadre Pedro Gomes. Ele e sua família me recebem com tanto carinho, que fico até sem jeito. Não é somente eu que durmo na casa deles, na véspera da festa. São várias pessoas que dormem aqui. Eles, até, já se preparam para receberem a gente na véspera da festa da Santa. Os filhos do seu Pedro, dois dias antes da véspera da data da festa, saem para caçar, pescar, arrancar macaxeira, pisar arroz no pilão, limpam os arredores da casa para receberem nós na casa deles. Tem ano que eles até matam um porco para fazer o jantar pra nós. Começam a preparar o jantar cedo da tarde. Quando é por volta de duas horas da tarde, a dona casa e as outras mulheres que chegaram para pernoitar na casa deles, também, ajudam a preparar o jantar. O jantar é feito com tanta alegria, que dá gosto, a gente estar por perto e ver, carregam água do igarapé, cortam verduras, descascam macaxeira todas conversam sem parar (risos). Quando é de cinco pra seis horas da tarde, pequenos grupos de homens ou mulheres descem para tomar banho no igarapé. Logo que escurece é servido o jantar. As mulheres colocam as panelas, os pratos e as colheres em cima de uma mesa e o dono da casa, o seu Pedro, convida todos para jantar. A mesa é pequena e não cabe todo mundo sentado em volta, a gente vai se servindo e saindo pra sala, como tem poucos bancos a gente senta no pé da parede. É muita comida, todo mundo janta à vontade, repete e ainda sobra comida que dá para servir o quebra jejum no outro dia. Os donos da casa são pessoas muito boas, eles têm corações generosos e bondosos. Para eles, é um prazer providenciar o jantar para os devotos que dormem na casa deles, na véspera da festa da Santa Raimunda188.
Os alimentos são feitos em fogões à lenha, na colocação de seringa, pelos moradores da colocação e os visitante devotos ajudam no preparo do jantar e do
188 Depoimento concedido por Aluízio Costa Mendonça devoto de Santa Raimunda, morador no bairro
173 “quebra jejum”189. Para os devotos é um momento de rememoração de suas vidas,
pois relembram um pouco do período em que viveram nos seringais. Segundo o depoente, Pedro Oliveira, a visita que todo ano realiza na sepultura de Santa Raimunda, já faz parte de sua vida. Ao deixar a colocação de seringa, já faz planos para o ano seguinte. Para ele, os dois dias que passa na colocação, não só trazem de volta o seu passado, como lhe dá forças para continuar lutando pela vida. A fotografia abaixo ilustra o viver no seringal, um fogão à lenha, com panelas sobre o fogo e rede onde o devoto dorme nos dias que visita o local.
Figura 36: O preparo do jantar em um fogão à lenha, na colocação Bom Sucesso,
no dia 15 de agosto de 2010.
Fonte: Foto tirada e adaptada pelo autor, 2012, Rio Branco- AC.
189 Quebra-jejum é a primeira refeição que as pessoas que habitam os seringais fazem, ao
amanhecer do dia, para aguentar a dura e pesada jornada de trabalho diário. A refeição consiste em café, farofa de carne ou peixe, arroz, mandioca ou banana.
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Figura 37: Rede onde dorme os devotos de Santa Raimunda, no dia 15 de agosto
de 2010.
Fonte: Foto de Airton Chaves da Rocha.
A foto deixa transparecer a simplicidade de vida, levada pelos habitantes do lugar. Mas, vamos ao depoimento que mencionamos acima, de Pedro Oliveira da Silva, que consiste em dizer que:
Todo ano venho aqui, no santuário de Santa Raimunda do Bom Sucesso, já estou velho, as pernas cansadas, mas nunca deixo de vir. Sempre venho um dia antes do dia quinze de agosto, durmo na casa do meu amigo. Converso sobre as coisas da mata, como a comida feita no fogão a lenha. A comida tem outro gosto é mais gostosa aqui, como uma caça da mata. A luz é lamparina, é uma viagem no tempo. Depois de conversar muito, deito em rede e durmo. Sinto até saudades da época que morava na floresta, mas estou feliz, morando no bairro Taquari. Venho aqui para pagar minha promessa e depois vou embora. Quando vou embora, já começo a planejar a vinda do ano seguinte. Santa Raimunda para mim é tudo, é como se fosse a água que bebo todos os dias, sem ela morreria190.
Pela fala do entrevistado, percebe-se que a sua devoção a Santa Raimunda está aliada a sua vivência na floresta e que as visitas reforçam a permanência de sua cultura do interior. O entrevistado rememora parte de sua vida, vivida na floresta
190 Entrevista concedida por Pedro Oliveira da Silva, na colocação Bom Sucesso, em 14 de agosto de
175 e revela que visitar a sepultura da Santa, já faz parte do seu cotidiano. Nas visitas, ele pode reviver, novamente, as experiências adquiridas ao longo de várias décadas, pois sempre vem à tona lembranças passadas. Porém, demonstra que está feliz vivendo na cidade, onde superou o desafio de adaptar-se, uma vez mais. A sua ida da cidade ao seringal, onde está localizada a sepultura de Santa Raimunda, é um momento, no qual fortalece suas vivências.
Muitos visitantes preferem ir no dia da festa da “padroeira dos seringueiros”, conforme denominação dos próprios seringueiros. São dezenas de homens, mulheres, adolescentes e crianças que visitam a sepultura. A chegada dos devotos, no espaço sagrado, é contagiante, trazem estampado nas faces, a alegria da missão cumprida.
Para Maria Teresinha Corrêa, “os festejos parecem marcar um determinado tempo, espaço desses parece evidenciar algo elementar para a cultura local: o tempo em que as relações homem/natureza se refazem”191. Já Brandão afirma que “a festa é um momento em que a sociedade interrompe a sequência de sua rotina e introduz um curto tempo quente (...) redistribui papéis e posição entre os seus praticantes”192.
Ao redor da sepultura, os devotos de Santa Raimunda do Bom Sucesso comem, bebem, soltam foguetes, dão vivas e partilham a alimentação, nesse contexto nota-se um autêntico momento de fraternidade.
Alguns fazem comida, assam carne, bebem cachaça e licor, é visível o sentimento de gratidão e agradecimento pelas graças recebidas da Santa. A alegria parece ser contagiante entre os devotos, apesar do cansaço, sentem-se felizes por estarem num local sagrado. Conversas em voz alta, risos quebram o silêncio da mata. Devotos me disseram “me sinto muito feliz de poder estar aqui, hoje na sepultura de Santa Raimunda, para mim isso é uma graça”. A fala denota o sentimento de gratidão e respeito em poder estar presente na data festiva. A foto visualiza o momento de partilha após a reza dos terços e a celebração da missa.
191 CORRÊA, Maria Teresinha. Princesa do Madeira os festejos entre populações ribeirinhas de Humaitá – Am, p.198.
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Figura 38: Devotos preparando o almoço: assando carne em uma churrasqueira
improvisada, próxima a sepultura de Santa Raimunda do Bom Sucesso, no dia 15 de agosto de 2010.
Fonte: Foto de Airton Chaves da Rocha.
Os devotos de Santa Raimunda usam o momento anterior e posterior aos terços e missas, como um tempo de socialização, de trocas de experiências e vivências.
Ao celebrarem a festa de Santa Raimunda celebram, também, a vida, celebração concretizada na partilha de alimentos, bebidas, doces, bolos e bombons. Na festa, tão preparada e esperada, as práticas realizadas pelos devotos reforçam a devoção à Santa Raimunda do Bom Sucesso.