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A relação entre desenvolvimento, ensino e aprendizagem é uma questão central para Vigotski, cuja intenção foi construir os fundamentos teóricos de uma ciência psicológica que superasse as concepções idealistas presentes nas investigações que tratavam dessa problemática, em virtude do seu interesse pelo estudo do desenvolvimento humano enquanto parte de uma realidade histórica cultural.

Para realizar esta tarefa Vigotsky (2004) examina e questiona três correntes teóricas que estudam a relação entre desenvolvimento e aprendizagem, apresentadas por Piaget, William James e Koffka. Inicialmente, Vigotsky (2004) discute a ideia defendida, sobretudo por Piaget, para quem os processos de desenvolvimento não dependem da aprendizagem. Segundo esta teoria a aprendizagem é um processo externo ao sujeito do conhecimento, que deve acompanhar de alguma maneira o curso do desenvolvimento, sem contudo modificá-lo, uma vez que se fundamenta no princípio da absoluta independência entre eles.

Nessa concepção a capacidade de pensar, conhecer e compreender o meio que o cerca, é considerada um processo autônomo. Desse ponto de vista cabe ao professor à tarefa de identificar no indivíduo o grau de desenvolvimento e a maturidade das funções indispensáveis à aquisição de determinados conhecimentos e habilidades. Sem isso, não há possibilidade de aprendizagem.

Em seguida, o autor discorre sobre a teoria aceita por Wiliam James, segundo o qual aprendizagem é desenvolvimento, ou seja, ambos os processos se realizam de forma regular e paralela, de maneira que para cada etapa de um corresponde uma fase do outro. Desenvolvimento é visto como o domínio dos reflexos condicionados.

Enquanto a primeira teoria sustenta a independência desses processos, a segunda defende uma tese oposta, na medida em que para esta aprendizagem é desenvolvimento. Para Vigotski, (2004) embora pareçam diferentes, essas duas teorias fundamentam-se em princípios semelhantes, na medida em que reconhecem o desenvolvimento humano como um processo submetido às leis da natureza, portanto não importa o que se faça, todas as medidas são impotentes para ultrapassar determinada barreira. E sendo assim, a aprendizagem nada pode modificar.

A despeito da semelhança de princípios, existe uma diferença conceitual entre elas. Enquanto para a primeira o desenvolvimento precede a aprendizagem, para a segunda, ambos os processos “coincidem em si em todos os pontos, como duas figuras geométricas iguais quando superpostas uma à outra” (VIGOTSKI, 2004, p. 470).

O terceiro grupo faz uma interseção entre os pressupostos das duas teorias descritas anteriormente, na medida em que reconhece a independência do desenvolvimento em relação à aprendizagem e, ao mesmo tempo, considera a identidade entre esses dois processos. Kofka é o principal representante desse grupo, para quem o desenvolvimento baseia-se em processos distintos por natureza – a maturação e a aprendizagem, porém vinculados e mutuamente condicionados um ao outro. Essa teoria defende a importância da disciplina formal e amplia o papel da aprendizagem em

relação ao desenvolvimento, sendo este vinculado à ideia do valor atribuído a determinadas disciplinas no desenvolvimento mental do indivíduo.

Contrapondo-se aos pressupostos apresentados pelas referidas teorias Vigotsky (2004) estuda as relações entre aprendizagem e desenvolvimento, apresentando como ponto de partida o fato de que o processo de aprendizagem escolar inicia antes mesmo do indivíduo frequentar a instituição de ensino. Portanto, quando o indivíduo chega à escola já traz consigo conceitos, noções, ideias acerca das coisas e dos objetos que o rodeiam, originados das relações estabelecidas com o meio e com as pessoas com as quais ele convive.

Segundo Vigotsky (2001; 2004), o desenvolvimento humano e a aprendizagem são processos intrinsecamente relacionados e, portanto devem ser ajustados entre si. Logo, nos faz compreender que a aprendizagem tem a função de impulsionar esses processos os quais são capazes de atuar somente quando o indivíduo encontra-se na condição de interação e colaboração com outras pessoas.

Para explicar a relação entre esses dois processos, Vigotski (2004) aborda as peculiaridades dessa relação e define dois níveis de desenvolvimento, a saber: nível de desenvolvimento real ou efetivo e zona de desenvolvimento próximo ou proximal. O primeiro nível corresponde àquilo que o indivíduo consegue fazer independente do auxilio de outra pessoa. Enquanto isso, a zona de desenvolvimento próximo se caracteriza por aquilo que o sujeito ainda não consegue fazer sozinho, mas obtém êxito se contar com a mediação do outro. Vygotski (1993, p. 239) ressalta que "[...] a zona de desenvolvimento próximo tem um valor mais direto para a dinâmica da instrução que o nível atual de seu desenvolvimento".

Este nível se projeta na dinâmica do desenvolvimento do sujeito levando em conta as habilidades já adquiridas, mas também aquelas em processo de formação, amadurecimento e desenvolvimento. Desse ponto de vista, a aprendizagem precede o desenvolvimento e, portanto, cabe ao ensino a responsabilidade de criar condições apropriadas às aquisições de conhecimentos e habilidades, não apenas limitadas à capacidade de

desenvolvimento atual do aluno, mas também e, sobretudo, antecipar-se a ela, considerando o seu potencial.

Este fato é de importância fundamental para a compreensão da aprendizagem tendo em vista o planejamento das atividades de ensino apropriadas a desenvolver nos alunos capacidades intelectuais que lhes permitam assimilação plena dos conhecimentos construídos historicamente.

Vigotsky (2004) chama a atenção para o fato de que a escola, por oferecer conteúdos e desenvolver formas de pensar específicas, tem um papel fundamental na apropriação pelo sujeito da experiência culturalmente acumulada. Para tanto, há que se considerar o nível de desenvolvimento proximal do indivíduo, quando da organização das atividades de ensino de maneira a propiciar ao aluno condições objetivas à apropriação dos conteúdos científicos elaborados pela humanidade.

O ensino, assim como a aprendizagem é um processo que se dá com o outro, entretanto, o ensino tem uma conotação formal e um lugar destinado para a sua realização. Na escola, as atividades de ensino, diferentemente daquelas que ocorrem em outros espaços sociais, são sistemáticas, tem uma intencionalidade e o compromisso explícito em tornar acessível o conhecimento estruturado em base cientifica.

Ao interagir com esses conhecimentos o sujeito adquire novas competências e habilidades que lhes possibilita diferentes formas de pensamento, de inserção e atuação no meio social. Vigotsky (2004) considera a aprendizagem como um processo culturalmente organizado, que se dá a partir da incorporação de conceitos adquiridos no meio social, os quais sofrem um processo de transformação gradual de internalização das ações exteriores.

A necessidade dessa transformação decorre de que o “conteúdo central do desenvolvimento humano consiste na apropriação pelo sujeito das aquisições do desenvolvimento histórico da humanidade, em particular das do pensamento e dos conhecimentos humanos, manifestadas sob a forma de fenômenos exteriores – objetos, conceitos verbais, saberes” (LEONTIEV, 1978a, p. 184).

Nesse sentido, a construção do conhecimento e a aquisição da cultura no contexto da atividade humana produz uma realidade sócio- histórica configurada em duas faces que se colocam em movimento transformando uma a outra. A realidade externa altera os modos e procedimentos da conduta humana e, ao mesmo tempo em que esta se modifica, o homem transforma o seu meio e as relações com os outros

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Portanto, “a cultura origina formas especiais de conduta, modifica a atividade das funções psíquicas, edifica novos níveis no sistema do comportamento humano em desenvolvimento” (VIGOTSKI, 1995, p 34).

A internalização torna-se, portanto, um conceito de grande relevância para explicar a aprendizagem, à medida que os sujeitos desenvolvem habilidades cognitivas, no movimento de fora para dentro, sendo a escola o espaço onde esse processo acontece. Destaque-se, nesse sentido, o papel do ensino na formação dos conceitos e no desenvolvimento dos indivíduos.

Vigotski (2001) incorpora o fenômeno da formação dos conceitos no campo da aprendizagem e toma como base para a discussão dois esquemas conceituais, denominados conceitos espontâneos e conceitos científicos. Os primeiros referem-se àquilo que o sujeito traz consigo ao entrar na escola, são conceitos previamente construídos na relação cotidiana, são os que se costuma denominar de conhecimentos prévios.

Enquanto isso, os conceitos científicos correspondem aos conhecimentos elaborados no processo de aprendizagem, os quais, em um processo de interação sociocultural, se enriquecem e provocam mudanças significativas no esquema conceitual de cada individuo. Resulta disso a ampliação da capacidade do indivíduo na apropriação dos conteúdos e na compreensão dos fatos e dos fenômenos.

Vigotski (2001) considera o processo de aprendizagem e formação de conceitos como ponto central na história do desenvolvimento humano, no qual os conceitos científicos bem como os conceitos espontâneos estão interligados por complexos vínculos internos.

Para chegar a essa compreensão, o autor estudou a origem das atividades psíquicas internas, baseado na análise das particularidades da

atividade especificamente humana que se realiza por meio de instrumentos, mediante a cooperação e a comunicação com outros homens.

Esses fundamentos constituem importante arcabouço teórico- metodológico para explicar as relações entre avaliação, ensino e aprendizagem, na perspectiva de potencializar a apropriação do conhecimento de habilidades e atitudes necessárias à formação profissional e ao desenvolvimento humano.